A Alemanha Nazista, o primeiro país ocidental a oficializar o Dia do Trabalho.

Na maioria dos países onde os movimentos de massa da classe operária estavam presentes, o “Primeiro de Maio” tornou-se uma rotina antes mesmo do ano de 1914, ou seja, da Primeira Guerra Mundial.

As forças reacionárias e antidemocráticas, reconhecendo as profundas raízes que alicerçavam o movimento operário, tentaram cooptar a festa dos proletários e acanalhá-la transformando-a em novo instrumento da política de alienação e dominação social.

Não por acaso, Hitler foi o primeiro líder ocidental a oficializá-la na Alemanha. Logo após, o governo fascista de Vichy, sob a liderança de Petain, igualmente tornou oficial o Primeiro de Maio, intitulando-o de “Dia da Concórdia e do Trabalho”. O governo fascista de Franco já havia feito o mesmo na Espanha, logo após sufocar em sangue a República. No Brasil, a ditadura de Getúlio tornaria o Primeiro de Maio como dia oficial do Trabalho em 1943.

O que diferencia o dia “Primeiro de Maio” de todas as demais datas comemorativas é o fato de ela não haver sido instituída por religião, tão pouco por poderes governamentais, mas sim, por um movimento absolutamente não oficial de homens e mulheres pobres.

O evento internacional da classe operária e dos trabalhadores tem como data inicial 1890: foi uma convocação da Segunda Internacional, uma resolução aprovada em Paris, em junho de 1889, em comemoração ao centenário da Grande Revolução Francesa, e sua principal bandeira de lutas era pelo limite do dia de trabalho em oito horas.

Um importante detalhe. A convocação foi feita para uma única manifestação internacional, “que deveria realizar-se de acordo com as condições de cada país”. Como, posteriormente, escreveu Edouard Vailland, um dos mais importantes delegados da Internacional Socialdemocrata: “Quem poderia ter previsto o rápido e impressionante crescimento espontâneo do Primeiro de Maio?”.

Naquele momento histórico, uma questão importante dividia comunistas, socialdemocratas e anarquistas: como o primeiro dia de maio de 1890 coincidia com uma quinta feira, necessariamente haveria de ser declarada uma greve, as atividades laborais parariam na única forma de viabilizar as atividades previstas. De todo modo, parar as máquinas e manifestar-se consistia uma atitude aberta de desafio político, num gesto de afirmação de classe social em si e para si.

Uma correspondência entre Engels e Bebel enfatiza tanto a necessidade de se evitarem conflitos, como de que houvesse por parte da liderança “certo controle das manifestações programadas, evitando-se provocações desnecessárias”.

Para enorme surpresa dos organizadores, a convocatória do Primeiro de Maio de 1890 teve uma resposta de massas impressionante, consequência do avanço da força e da confiança que a classe operária experimentava em si mesma naquele momento histórico.

Na Grã Bretanha, em decorrência da greve vitoriosa das Docas de 1889 e na Alemanha, onde a vitória dos comunistas e dos socialdemocratas derrotara uma lei antissocial de Bismarck, um sentimento de poder transformador dos proletários, desde que se unissem como classe social, fazia-se sentir.

E Novamente, “o espectro do comunismo”, de 1848, voltava a rondar a Europa.

Como resultado, mais de trezentas mil pessoas tomaram o Hyde Park em Londres. Em Berlim, o centro mais reacionário da Europa Central, cinquenta mil operários compareceram à convocatória e em Hamburgo, a “cidade vermelha”, mais de cem mil saíram às ruas. O movimento em Copenhagen teve ao redor de 40% de adesão proletária. Em Viena, nos dizeres de Engels e de Adler ocorrera “a mais impressionante das manifestações”, uma massa superior a duzentas mil pessoas realizou sua caminhada, de forma “organizada e consciente”.

Tendo em vista o sucesso alcançado em 1890, o próximo encontro da Internacional Socialdemocrata, com os votos contrários dos delegados alemães e dos ingleses, endossou a posição política de Engels, de Adler, assim como a dos delegados espanhóis e dos franceses, a favor da repetição da manifestação do dia Primeiro de Maio, em 1891, “especialmente se combinada com a interrupção do trabalho, e não apenas como expressão de opinião”.

Disse Adler, em 1893, “Esse é o sentido do feriado de maio, do descanso do trabalho, que nossos inimigos de classe temem. E temem por saberem que isso é revolucionário”.

Foi em fins de 1891, que o Congresso Internacional de Bruxelas instituiu, agora em forma permanente, que todo o dia “Primeiro de Maio deveria ser um dia de reivindicações econômicas e de afirmação da luta de classes”. Acrescentou também uma nova bandeira às econômicas: a luta pela paz, o que fortaleceu sobremaneira o caráter internacionalista do evento. É importante destacar outra inovação: falava claramente em “comemorar o Primeiro de Maio”, incorporando à data dos proletários, a realização de festividades.

Essa orientação chegou a provocar um início de ruptura política por parte dos anarco-sindicalistas. Para eles, a data deveria ser exclusivamente de lutas, pois encaravam o “Primeiro de Maio” como uma celebração devida aos mártires operários massacrados pela polícia de Chicago, em 1886.

Fora no dia 3 de maio de 1886, que a polícia norte-americana disparara contra um grupo de operários da fábrica McCormick Harvester, que estavam em greve há dois dias, matando seis e ferindo mais de cinquenta pessoas. Dezenas de operários foram presos. Dia 4, ao final de uma manifestação de protesto, a polícia novamente atacou: centenas de operários morreram ou baleados ou pisoteados por animais ou pessoas em fuga. Não bastasse tão selvagem repressão, os líderes do movimento foram levados a julgamento por conspiração. A sentença condenou à morte na forca os operários Engel, Fischer, Lingg e Spies; outros dois, Fieldem e Schwab, à prisão perpétua; e Neeb, foi condenado a cumprir quinze anos de prisão.

O “luto”, não a “comemoração”, deveria dar o tom inicial em nosso País.

De qualquer modo, quer assumindo o caráter de luta por objetivos econômicos e sociais, com um aspecto festivo que foi o predominante na Europa Central; quer tipificando-se como uma manifestação ao estilo “martirológico”, no dizer de Hobsbawm, o que veio a ocorrer em países da América Latina, na Espanha e na Itália.

Normalmente os encontros políticos e as passeatas desenvolviam-se na parte da manhã e a tarde era dedicada à sociabilidade e à diversão entre os iguais. Dessa forma, os “invisíveis” expunham-se publicamente e, por um dia, tomavam para si o espaço oficial dos governantes e da “sociedade”.

Em breve, entretanto, a luta pela democracia viria a ser incorporada às bandeiras de luta já tradicionais, compondo uma espécie de trio de ferro que permaneceu por decênios: o direito ao sufrágio direto e universal, a jornada de oito horas de trabalho e direitos de proteção ao trabalho.

As iconografias dos primeiros dias do proletariado fortaleceram sobremodo a influência de Marx e do marxismo sobre os movimentos operários. Os cartazes alemães de 1890 traziam a imagem de Karl Marx, falecido há já sete anos, de um lado e a da “Estátua da Liberdade” do outro. Nos cartazes austríacos, que convocaram o segundo Primeiro de Maio, o de 1891, Marx aparece segurando o “Das Kapital”, tendo ao fundo um horizonte em que refulgiam bandeirolas com os ideais de 1789: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.


A permanência dessa data Internacional foi um dos motivos pelo qual o marxismo exerceria, sobre os movimentos de homens e mulheres, uma enorme influência. A maioria deles jamais havia ouvido falar de Marx, de suas teorias, mas reconheceriam que sua convocação à luta tornava-os conscientes deles próprios, tanto como seres humanos, quanto como classe social.

Uma grande exceção constituiu os Estados Unidos da América, onde a Federação Norte-Americana do Trabalho, que já estava envolvida com os interesses empresariais, decidiu não se arriscar convocando uma greve que coincidiria com os massacres de Chicago. Optaram pelo segundo domingo de setembro, como o seu Dia do Trabalho, dele retirando o caráter de interrupção do trabalho, assegurando-lhe, exclusivamente, aspectos festivos e de repouso no lar.

Quanto ao Brasil, a chegada dos imigrantes europeus trouxe novas ideias, princípios organizacionais e a perspectiva de direitos trabalhistas já conquistados na Europa. Os operários brasileiros começaram a se organizar, inicialmente, sob a influência dos anarquistas e, posteriormente, dos comunistas.

Em 1917 aconteceu a primeira Greve Geral brasileira, que parou boa parte da indústria e do comércio. A classe operária se fortalecia e, em 1924, o dia Primeiro de Maio foi decretado feriado nacional pelo governo reacionário de Artur Bernardes. Mesmo tendo sido declarado feriado até o início da Era Vargas, o Primeiro de Maio era considerado um dia de protesto, sempre marcado por greves e manifestações.

A propaganda trabalhista de Getúlio Vargas, conjugada à repressão feroz ao sindicalismo independente, escolheu a data para anunciar benefícios aos trabalhadores, transformando-a em o “Dia do Trabalhador”, em 1943. Desta forma, o dia não mais era caracterizado por protestos, e sim, comemorado exclusivamente com desfiles e festas populares, comandado pelas autoridades da lei e da ordem instaladas em seus palanques.

Foi a partir de 1945, com a derrota do nazi-fascismo e, posteriormente, com o advento da Guerra Fria, que em países onde os proletários possuíam organizações mais combativas e identificadas com o socialismo, que o Primeiro de Maio, apesar de mantido oficialmente como feriado nacional, teve as suas manifestações proibidas, com a repressão abatendo-se sobre os trabalhadores que não se submetiam e transformavam a data em momento de revolta e emancipação.

No século XXI, após a devastação ocasionada pela peste, pelo Covid-19, quiçá os trabalhadores voltem a se unir e a transformar o Primeiro de Maio numa data que tenha ao fundo um horizonte em que voltem a refulgir bandeirolas com os ideais de 1789: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

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