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“A casa das sete torres”, de Hawthorne

“A  casa das sete torres”, escrita em 1851, ao lado de “A letra escarlate”, constituem os romances mais representativos do autor em seu estilo gótico e sem dúvida é uma autêntica obra- prima da ficção clássica norte-americana.

O enredo, rico em implicações morais, recorre aos valores simbólicos, por meio dos quais Hawthorne denuncia a degradação que se apodera do indivíduo e da coletividade quando se orientam para uma visão mesquinha e autoritária da existência.

Pode-se dizer que, nesse livro, a oposição entre o Bem e o Mal está sempre presente, assim como a inocência versus a malícia, a entrega versus a luta pela vida. A leitura nos convida a repensar nossos princípios e preconceitos; quando os verdadeiros valores parecem ganhar ênfase e a falsa moral se expõe como uma arma letal capaz de corromper o caráter mais intacto, com sua ideologia acumulada por séculos de puritanismo ditatorial. A perpetuação dos bons costumes hipócritas, defendidos pelos opressores a fim de reduzir o livre pensamento entre as grandes massas, parece nunca cessar. Essa história poderia com toda certeza ser ambientada nos dias atuais em que as elites sociais tentam iludir os cidadãos, pois desejam a todo custo perpetuar a opressão e o espírito de submissão entre fortes e fracos.

Hawthorne, frequentemente assombrado “pelos pecados de seus antepassados”, envolvidos na caça às bruxas de Salém, com os pés fincados no autoritarismo e nas forças do mal presentes entre os puritanos nobres e de olhos azuis da Nova Inglaterra, examina a culpa e procura a “katarsis” particular nesse romance. Olhando para trás e analisando o presente, Hawthorne conhece profundamente a maldade e a covardia dos homens. Os olhos azuis tementes a Deus não o enganam. Somente a força de uma juventude descompromissada com o passado pode varrer os preconceitos e a aristocracia para baixo do tapete.

A família Pyncheon carrega um grande fardo – por quase 200 anos – como resultado da maneira desonesta pela qual foi adquirido o terreno onde se situa a casa das sete torres. No prefácio ao romance, o autor afirma que “a transgressão de uma geração vive nas sucessivas e… torna-se um prejuízo puro e incontrolável”. “A casa das sete torres” percorre as desventuras de uma família aristocrata através de várias gerações.

Desde sua fundação pelo então chefe puritano, Coronel e Magistrado Pyncheon, suas paredes foram marcadas pelas maldições rogadas pelo verdadeiro dono das terras onde a propriedade fora construída. Pyncheon, cobiçando as terras de seu vizinho Mauler, fez com que ele fosse condenado à morte por bruxaria. Mauler vingou-se no momento em que a corda envolveu seu pescoço, amaldiçoando todas as gerações do Coronel que desejava perpetuar a tradição e seu poder por meio da imposição de sua mansão. Condenou-os a morrer afogados no próprio sangue.

O patriarca também não sobreviverá à inauguração da casa. Morre de apoplexia, doença que atropelará as gerações dos Pyncheons. Mas seu retrato se perpetuará no escritório principal e duzentos anos passados ainda tenta, agora em vão, incutir o antigo predomínio aristocrático e puritano perdidos.

Nos dois séculos, os mais variados parentes-herdeiros da casa das sete torres buscaram inutilmente reconstruir o prestígio e a riqueza perdidos com a morte do primeiro e implacável Pyncheon. A decadência da família, entretanto, lentamente se evidenciará para todos os moradores da pequena vila onde se passou a história.

O único rastro de esperança começou a surgir quando uma das herdeiras decidiu retomar uma vida mais simples e abrindo uma pequena loja na lateral da mansão, travou uma grande luta entre seus princípios aristocratas e sua real condição de pobreza. Ela, além de si, cuida de um irmão a quem muito ama, Clifford. Clifford passara os últimos trinta anos preso por um crime que jamais cometera: o assassinato do rico tio Jaffrey Pyncheon. Ora, o tio Jaffrey fora vítima da mesma doença que, por gerações, vitimava os Pyncheons. Pobre Clifford, estando na casa tem o seu raciocínio embotado, o medo lhe tolhe até mesmo os movimentos. Pairam sobre ele novas ameaças de um outro Pyncheon.

O atual Juiz todo poderoso, futuro Governador, também de nome Jaffrey Pyncheon, há trinta anos incriminara o primo pela morte do tio para apossar-se como herdeiro único da fortuna deixada. Partiu da casa das torres e estabeleceu-se numa bela propriedade rural. Mas ele ainda pensa que o pobre Clifford possa ter conhecimento de terras do tio morto às quais ele não tivera acesso e por isso o atormenta.

Outras figuras entraram na história para servir como suporte a essa guerra interna vivida pela velha solteirona Pyncheon e pelo velho Clifford, aquela em busca de sua dignidade e este, de liberdade. Uma prima jovem e cheia de vida, Phoebe, como a própria deusa Artemis, aparece na Casa para que a primavera floresça na terra e no coração das pessoas, trazendo por onde passa o aspirador que suga a poeira e a maldade entaladas pelos séculos obscuros e pelos atavismos de uma falida aristocracia. Também temos um outro jovem presente, Holgrave, um daguerreotipista portador de ideias libertárias e determinados poderes hipnóticos e que é de certa forma, um dos pensionistas da Casa.

Com grande destreza, esses personagens se aprofundaram em reflexões abrangentes de suas vidas e por meio de discussões extremamente lúcidas colocavam em cheque o puritanismo da Nova Inglaterra, bem como todas as pilastras que regem a então considerada boa sociedade. Eles se viam salvos pela consciência moral que os redimia.

Eles, de todos os modos, vivem entre sombras de maldições e a dura realidade de suas condições, pela opressão representada pelo Juiz Pyncheon, que procurava estimular nos moradores da casa das sete torres as fraquezas e pecados íntimos, escondidos sem muito êxito por seus portadores.

O Juiz é como uma reencarnação do primeiro Coronel Pyncheon em todo o seu poder, avareza, cobiça e inflexibilidade. Com sua morte por apoplexia, na mesma cadeira do fundador da casa e debaixo de seu severo retrato, todo um circuito se fecha.

Agora a velha Hepzibah e o irmão Clifford estão livres para partirem em busca de uma nova vida em contato com a natureza, libertos da Casa. Phoebe e o daguerreotipista, descendente do antigo “feiticeiro” Maule, libertam-se para viver seu amor. Partem todos para a bela casa campestre onde vivia o Juiz morto.

Mas Hawthorne conhece como ninguém o coração do homem, particularmente o do americano! Toda a fortuna do Juiz morto sem deixar descendência irá para as mãos de Phoebe. E ela está apaixonada por Holgrave que lhe propõe casamento. Ela pergunta-lhe: mas e seus ideais libertários? Holgrave lhe responde que isso já era parte de seu passado. Havia que administrar o dinheiro!

Obs.: O filme The House of Seven Gables, de 1940, dirigido por Joe May, teve aquela que foi considerada a melhor performance artística de Vincent Price.

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