“A Causa Secreta”: Machado de Assis desnudando Bolsonaro.

A crueldade é uma das formas da perversão humana!

O conto “A Causa Secreta” foi publicado por Machado de Assis em 1885. Relata a crueldade da personagem central, o capitalista Fortunato, que sente prazer na observação do sofrimento alheio, assim como na sua provocação. Uma crueldade que é se estende também aos animais e à natureza.

Garcia tinha-se formado médico e ainda na escola, encontrou Fortunato à porta da Santa Casa, por onde este sempre gostava de passear. Ficou impressionado com a figura. Porém, a casualidade do encontro teria sido esquecida se dias mais tarde os dois não tivessem se encontrado no teatro, onde o interesse de Fortunato voltava-se exclusivamente para os lances mais dolorosos encenados na tragédia.

Fortunato termina por convidar Garcia a visitá-lo. Garcia achou sua mulher uma pessoa interessante. Observou seus modos e percebeu que entre o casal havia incompatibilidade de caráteres. A moça de olhos meigos e submissos, não combinava com o homem de “olhos quais chapas de estanho”. O narrador expressa que ela parecia estar presa ao marido por medo, aceitando resignada a má sorte que lhe coubera.

Garcia e Fortunato, mediante proposta do último, resolveram montar uma casa de saúde. Aberta a casa, Fortunato dedicava-se como administrador e chefe dos enfermeiros e não se recusava a cuidar de nenhuma moléstia, dando preferência aos que tinham os ferimentos mais profundos e dolorosos.

A partir de então, o narrador vai dando pistas da crueldade imprimida à personalidade de Fortunato: bengaladas nos cachorros que ficavam ganindo de dor, cuidados exagerados c om um ferido desconhecido, preferência por lidar com os queimados por soda cáustica, dissecação de cães e gatos vivos e acordados e outras atitudes mais “sutis”.

Na realidade, Fortunato munido com recursos que sua posição social de capitalista lhe possibilita, investe financeiramente para poder usufruir com requinte da dor dos auxiliados. Mas a satisfação de Fortunato ao ver o sofrimento dos feridos, ao dissecar cães e gatos não pode ser provada, apenas observada. Dar bengaladas em cães, ainda não é suficiente para considerar o agressor um doente cruel, apenas, “malvado”.

Fortunato também se dedicava às experiências com anatomia e fisiologia nas horas vagas. Com um laboratório em casa, fazia experiências com animais. Um dia, ao chegar, Garcia encontrou Maria Luísa aflita, avisando-o sobre uma experiência que envolvia um rato. Fortunato cortava as patas do animal. A cada uma que cortava, sucessivamente descia o infeliz a um prato com álcool em chamas. Fazia isso com rapidez, para que o animal não morresse depressa. Ao realiza-lo, Fortunato tinha um sorriso único, reflexo de uma alma satisfeita, vasta de prazer.

Depois, dirigindo-se à mulher e vendo-a aflita, chamou-a de fracalhona, se fosse homem, seria um maricas.

O momento crucial onde a crueldade em toda a sua extensão é revelada quando a personagem tortura o rato, pois não havia como dizer que tal ato pudesse configurar qualquer experiência científica. O narrador expõe a cena de maneira que o leitor possa perceber, através do olhar de Garcia, o prazer que Fortunato sente na dor e no sofrimento do outro.

“Castiga sem raiva, pensou o médico, pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem”.

Ora, utilização do rato para a tortura, animal que a ciência considera ter a fisiologia parecida com a humana, é uma simbologia machadiana profunda de tortura em seres humanos.

O comportamento sórdido de Fortunato revela que ele sentia um prazer duplo ao torturar diretamente os animais e ao mesmo tempo, indiretamente a mulher, fazendo-a sentir-se agoniada diante dos maus tratos praticados nas experiências.

Maria Luísa, já possuidora de tuberculose, é tomada, então, por uma fraqueza que a acama. O marido, enquanto a doença mortal consome a mulher, dedica-se a velá-la numa espécie de atenção misturada com egoísmo. Participa de toda a agonia da esposa, até o momento de sua morte.

Note-se na voz do narrador: “Não a deixou mais, fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou uma só lágrima, pública ou íntima”.

No desfecho do conto, o narrador machadiano muda o foco narrativo. Até então, contava os detalhes pelo olhar de Garcia, no entanto, termina a narrativa ao lado de Fortunato, que contempla e saboreia o sofrimento do amigo ao beijar o cadáver da mulher já morta.

“Não tinha ciúmes, note-se; a natureza de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento”. “Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa”.

Garcia descobre, tanto quanto o leitor, “a causa secreta” do comportamento de Fortunato: a Crueldade! Causa secreta, que mesmo revelada, não deixa de ser secreta, pois ela é chocante, inexplicável e misteriosa aos olhos de quem não a possui.

O narrador tudo enxerga e imprime ao texto uma reflexão sobre o “ver além das aparências”, demonstrando conhecer a contento o espírito humano, podendo assim, analisar a alma das pessoas.

Garcia não agiu, foi apenas um observador, mas se o tivesse feito, a história seria outra, tanto para ele, quanto para Maria Luísa. Com a morte de Maria Luísa, Garcia chora revelando a dor e o arrependimento de quem poderia ter agido e não o fez! Garcia e Maria Luísa deixaram-se manipular pelo sádico, como um rato sem defesa. Não eram ratos, mas comportavam-se como se fossem.

Os homens tais quais os ratos, muitas vezes resignam-se à manipulação, e contribuem para fazerem reinar aqueles seres que são cruéis em sua essência!

Ao praticar atos de tortura, o capitalista Fortunato deixa claro que para ele não importa o objeto da tortura, mas sim, o prazer ela lhe proporciona. Ele age com ar de superioridade, como se nada pudesse tocá-lo, atingi-lo.

Como detentor do poder, era o manipulador da situação. Seu nome Fortunato origina-se do latim “fortunatus”, que significa consagrado à Fortuna, deusa romana da boa sorte e destino. Nada estava acima do cumprimento de seus desejos, muito menos a vida, dos outros, é claro.


Em a “A Causa Secreta”, Machado de Assis, em sua genialidade nos envia uma clara mensagem: pessoas cruéis, que se locupletam com o sofrimento, tortura e morte de pessoas não podem somente serem observadas.

DEVEM SER DETIDAS DE ALGUMA FORMA!

O Presidente do Brasil esconde-se sob a carapaça da irresponsabilidade e da incongruência de falastrão, com o único objetivo de satisfazer a sua crueldade, seu sadismo inato que atinge todos os seres humanos que dele divirjam, assim como a natureza e seus frutos, que ele odeia!

Seu lema é destruir, destruir, destruir!

Não por acaso seus ídolos são ditadores, torturadores, devastadores, grileiros e poluidores do meio ambiente.

E a pandemia do Covid-19 permitiu-lhe à sua paranoia contar com um grande aliado que MATA! E os exterminados constituem um exército que Bolsonaro despreza por serem “fracos”!

Apenas a guisa de exemplos citamos apenas alguns sentenças por ele proferidas ao longo desses doze meses:

“Muito do que falam é fantasia, isso não é crise”.

“O que está errado é a histeria, como se fosse o fim do mundo. Uma nação como o Brasil só estará livre quando certo número de pessoas for infectado e criar anticorpos”.

"Eu não sou médico, não sou infectologista. O que eu ouvi até o momento [é que] outras gripes mataram mais do que esta".

"Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho”.

"O brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto [...] e não acontece nada com ele. Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil, há poucas semanas ou meses, e ele já tem anticorpos que ajudam a não proliferar isso daí."

"Eu não sou coveiro, tá certo?"

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre."

"Toma quem quiser quem não quiser, não toma. Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína."

"Vocês não pararam durante a pandemia. Vocês não entraram na conversinha mole de 'fica em casa'. Isso é para os fracos."

"Lamento os mortos, todos nós vamos morrer um dia. Não adianta fugir disso, fugir da realidade, tem que deixar de ser um país de maricas."

"Eu não posso falar como cidadão uma coisa e como presidente outra. Mas como eu nunca fugi da verdade, eu te digo: eu não vou tomar vacina. E ponto final.”

“Vacina toma quem quiser. Se você virar um jacaré, é problema de você. Não vou falar outro bicho aqui para não falar besteira. Se você virar o super-homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou um homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver com isso."

"A pandemia realmente está chegando ao fim. Os números têm mostrado isso aí. Estamos com uma pequena ascensão agora, o que se chama de pequeno repique; pode acontecer. Mas a pressa para a vacina não se justifica, porque você mexe com a vida das pessoas."

“Não é nossa obrigação antecipar problemas... não faz parte de nós entregarmos oxigênio”.

Aproximamo-nos dos 250.000 mortos para satisfação e deleite do “Fortunato do século XXI”, aquele sádico e cruel, que a sociedade brasileira apenas observa, sem se atrever a pará-lo!

Ele, que utiliza a crueldade como seu meio de imposição e manutenção do poder, movido por um impulso destrutivo, que opera dentro de sua personalidade, trazendo-lhe satisfação e prazer!


Bibliografia:

Assis, Machado de. “A Causa Secreta”. Contos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Cesar, Caramuru. “O trágico enquanto marca do texto literário”. Signum, Estudos Literários, Londrina, v.2, p. 139-153, 1999.

Curvello, Mario. “Polcas para um Fausto suburbano”. In: BOSI, Alfredo. Et al. Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982.

Rosset, Clement. O princípio da crueldade. Trad. José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

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