A confissão de Freud.

Em 1926, quando Sigsmund Freud completou 70 anos, ele se confessou!

Foi na noite do dia 6 de maio, logo após uma modesta recepção para poucos amigos e parentes. Freud estava duplamente abatido. Primeiramente porque para ele as festas de aniversários sempre lhe traziam à mente a presença da morte; depois porque a Associação Vienense de Psicanálise tivera diversas deserções, a mais importante delas, a de seu ex-discípulo, Otto Rank.

De suas confissões, das quais sou testemunha, extrai os tópicos que modificaram a minha visão do fundador da psicanálise!

“Vivo entre médicos que me invejam quando não me desprezam e junto aos discípulos que se dividem em papagaios e ambiciosos cismáticos”, desabafou.

“Ensinei aos outros as virtudes da confissão e nunca pude abrir inteiramente minha alma. Por que decidi fazer isto agora, não sei. Talvez pelos meus 70 anos... É verdade que já escrevi uma pequena autobiografia, mas essa se destinava sobretudo à propaganda de minhas teses”. Olhando-me nos olhos perguntou-me: “O senhor tem uma ideia do que seja psicanálise? ”

Sem aguardar minha resposta, desabafou:

“Todos acreditam que eu faço questão do caráter científico da minha obra e que minha finalidade principal seja a cura das doenças mentais. Este é um enorme mal-entendido que nunca consegui, e, para dizer a verdade, nunca quis desfazer. Eu sou um cientista por necessidade, não por vocação, pois minha verdadeira natureza é artística”.

Perante meu ar surpreso, continuou:

“O meu herói secreto foi sempre, desde adolescência, Goethe. Ah, como teria gostado, então, de me tornar poeta. E lhe digo que durante toda a vida desejei escrever romances. Foram minhas antigas aptidões reconhecidas por meus professores, que me levavam à literatura. ”

“Acontece que minha família era pobre e a poesia rende a pouco, isso quando chega a render. Além disso era judeu, o que me põe em condição de inferioridade manifesta numa monarquia antissemita. Também o exílio e o mísero fim de Christian Heine, o último de nossos poetas românticos, me desencorajaram”.

“Escolhi, então, sempre sobre a influência de Goethe, as ciências da natureza. No entanto, meu temperamento continuava romântico. Quando tinha 28 anos, para poder de rever por alguns dias minha noiva que estava longe de Viena, negligenciei um trabalho sobre a coca e deixei que outros raptassem os núcleos da descoberta da cocaína como paliativo da afasia”.

Seu sorriso logo se desfaz quando retorna ao tema de sua vocação:

“Antes de me casar, nos anos 85 e 86, estava em Paris e essa temporada na França teve uma influência decisiva no meu espírito. Não tanto pela pelo que aprendi com o Charcot ou com Bernheim, mas porque a vida literária francesa era, naqueles tempos, ardente, inovadora e eu, como bom romântico, passava horas nas suas livrarias e à noite frequentava os cafés do Quartier Latin. Na verdade, uma verdadeira batalha literária estava em desenvolvimento. O simbolismo contra o naturalismo, o predomínio de Flaubert e de Zola estava sendo substituído, entre os jovens, pelo de Mallarmé e de Verlaine. Rimbaud corria por dentro”.

“Não conto isto para exibir cultura. Falo por que as três escolas literárias, o romantismo recém morto, o naturalismo ameaçado e o simbolismo ascendente foram inspirações para todo meu trabalho posterior”.

“Assumo que como literato concebi a ideia de transformar um ramo da medicina psiquiátrica. Se em literatura fui poeta e romancista frustrado, sob forma de ciência, eu assumo a psicanálise como transferência de uma vocação literária, agora realizada. ”

“Somente lhe peço que jamais divulgue esta confissão! Aliás, poucos lhe dariam crédito”.

Levando seu sempre presente charuto à boca, prosseguiu: “Como seria natural, devo meu primeiro impulso para descoberta do método psicanalítico ao meu amado Goethe. O senhor deve saber que ele escreveu Werther para se livrar do pesadelo doentio de um sofrimento íntimo, pois a literatura era para ele uma forma de catarse. Afinal, em que consiste o meu método para tratamento da histeria senão em fazer o paciente contar tudo, livrando-se da obsessão? Nada além de obrigar meus pacientes agirem como Goethe”.

“Pois a confissão é a libertação! Ou seja, a cura. A igreja católica já sabia disto há séculos; no entanto, foi Victor Hugo quem me ensinou que o poeta é também um sacerdote! ”

“Percebi também que as confissões de Santo Agostinho constituíam precioso repertório de documentos humanos. Nisto eu fazia um trabalho idêntico ao de Zola. Desses documentos este extraía romances e eu era obrigado a guardá-los para mim mesmo. ”

“Já a poesia decadente chamou minha atenção para semelhança entre o sonho e a obra de arte, assim como a importância dos símbolos e da linguagem simbólica. Nesse momento nascia o sentido da psicanálise. Foram estas as inspirações essenciais, não como dizem por aí, as sugestões de Breuer ou os vislumbres de Schopenhauer, de Nietzsche. Elas me auxiliaram, não nego, mas o fundamental foram as proposições críticas das escolas literárias que eu amava”.

“Irei mais fundo. O romantismo, que retomando as tradições da poesia medieval, tinha proclamado a primazia da paixão, sugeriu-me o conceito da sensualidade como centro da vida humana. Já sob a influência dos romancistas naturalistas, dei ao amor uma interpretação menos sentimental e mística. O naturalismo, e sobretudo Zola, me levaram a ver os lados mais repugnantes e também os mais comuns e gerais da vida humana. Compreendi que a sensualidade e a avidez se acobertam sob a hipocrisia dos bons modos, ou seja, o animal inserido no ser humano. E muitas das minhas descobertas dos segredos vergonhosos escondidos pelo subconsciente, nada mais são que a prova do desprendido ato de J’acuse, do Zola. Finalmente, o simbolismo me ensinou duas coisas: o valor dos sonhos assimilados à obra poética e o lugar ocupado pelos símbolos e a alusão na obra de arte. Ou seja, no sonho manifesto”.

“E foi assim que começou a se forjar meu grande livro sobre a “Interpretação dos Sonhos”, sonhos reveladores do subconsciente, aquele mesmo subconsciente que é a fonte de inspiração dos artistas simbolistas, onde cada poeta cria sua linguagem. Daí realmente eu criei o vocabulário simbólico dos sonhos, o idioma onírico”.

“Somente para completar o quadro das minhas fontes primárias, acrescentarei os estudos sobre o classicismo grego, que me sugeriram os mitos de Édipo e de Narciso. E com Platão, também alcancei que o brotar do inconsciente é a base da vida espiritual, e que toda fantasia noturna tem um significado recôndito. ”

“Em todos os meus trabalhos, sempre deixei transparecer para quem soubesse me interpretar, que a minha cultura era essencialmente literária. Minhas contínuas citações de Goethe, de Heine e de tantos outros poetas... Nunca escondi que meu espírito é inclinado ao ensaio, ao paradoxo, ao dramático, e nada tem da rigidez pedante e técnica de um verdadeiro cientista”.

“Agora confesso que em todos os países onde a psicanálise penetrou, fui melhor entendido e ela aplicada melhor pelos escritores e pelos artistas que pelos médicos. Realmente os meus livros pouco se assemelham a tratados de patologia. Meus estudos sobre a vida cotidiana e humor são na realidade literatura e testei meu talento ao enveredar pelo romance histórico quando escrevi “Totem e Tabu. ”

“Em todo caso, soube por via transversa vencer o destino e alcançar o meu sonho: permanecer na literatura apesar de ser o médico fundador da psicanálise, a qual um dia se disseminará em toda a sua grandeza por todos os cantos”.

“Finalmente, gostaria de lhe dizer que, se prestarmos atenção, em todos os grandes cientistas existe neles presente o fermento da fantasia, mãe das intuições geniais. Embora ninguém até então houvesse se proposto a traduzir em teorias científicas as inspirações oferecidas pelas correntes da literatura moderna. Sem nenhum narcisismo, eu o realizei”.


Obs.: Inspirado em Giovani Papini.

287 visualizações1 comentário