A estupidez é o adubo do qual brotaram Bolsonaros e acólitos.

Atualizado: 2 de dez. de 2021


“A estupidez é um inimigo até mesmo mais perigoso do que o mal. Diferente da estupidez, o mal tem as sementes da sua própria destruição”.

A “Teoria da Estupidez”, descrita pelo teólogo e membro da resistência antinazista Dietrich Bonhoeffer, buscava entender na culta Alemanha o surgimento do nazismo. Pois a mesma teoria ajuda-nos, nos dias de Sociedade Líquida entender o ressurgimento das várias vertentes do nazi fascismo que vicejam em nosso século.

Diferente da canalhice e do má-intenção, a estupidez não é uma falha no caráter ou súbita suspensão da razão: é uma categoria sócio psicológica objetiva, com origens no funcionamento da mente, sempre em busca de atalhos por meio de vieses cognitivos.

Freud acreditava que a psiquê humana é regida pela lei do menor esforço: busca sempre atalhos mentais pela simples necessidade de economia de energia libidinal. Outro aspecto a ser considerado, a psicologia das massas, ainda Freud, esta está intimamente relacionada com novo tipo de padecimento psicológico, característico de uma era que por motivos socioeconômicos, testemunha o declínio do indivíduo e seu enfraquecimento enquanto tal.

Steinbock chamou de a “lei do menor esforço” freudiano às “tendência e vieses cognitivos” - tendências que podem levar a desvios sistemáticos de lógica e a decisões irracionais, do indivíduo, quando englobado pela massa.

E de todos os vieses, nos dias de hoje, o efeito de rebanho é o mais proeminente. E com isto a estupidez torna-se orgulhosa de si mesma, pois adquire a chancela do grupo, da “maioria” que constitui seu próprio entorno, tal qual o “cercadinho do Planalto” presidencial.


Voltando, então, para Bonhoeffer, conhecer a natureza da estupidez é urgente porque, ao contrário do mal, contra a estupidez não temos defesa.

O tolo e o canalha.

Para o teólogo alemão, apenas uma coisa explicava aqueles tempos sombrios de guerra total na Europa e de um regime totalitário controlando a Pátria que havia sido a de Goethe, de Nietzsche, de Beethoven: a estupidez do vulgo, definido por Spinoza no século XVII!

E contra a estupidez não temos defesa! Nem os protestos nem a força podem afetá-la. O raciocínio é inútil.

Fatos que contradizem preconceitos pessoais podem simplesmente ser desacreditados - na verdade, o tolo pode contra-atacar criticando-os e, se forem inegáveis, podem simplesmente ser deixados de lado, como exceções triviais.

Portanto, os tolos, diferentemente dos canalhas, estão completamente satisfeitos consigo mesmos. Na verdade, eles podem facilmente se tornar agressivos.

E não tem nenhum sentido tentaremos persuadir a pessoa estúpida com razões, pois isso é sem resultado algum!

Logo, a estupidez para ser melhor compreendida deve se libertar da crítica moral; não se trata de um fenômeno a ser explicado apenas pela falta de caráter, embora este possa também estar presente.

Para Bonhoeffer, a estupidez deveria ser considerada uma categoria psicossociológica. Portanto, objetiva e cientificamente compreensível. A natureza da estupidez tem suas raízes profundas no psiquismo. E depois, ela é impulsionada pela mecânica fundamental da experiência humana: somos animais sociais, antes de tudo o mais competitivos e gregários. São a sociabilidade e a competitividade que estão na base da estupidez.

Constatava o teólogo, nos anos 1930, que as pessoas que se isolaram dos outros ou que viviam na solidão manifestavam este defeito com menos frequência que os indivíduos ou grupos de pessoas inclinadas ou condenadas à sociabilidade.

Já na Sociedade Líquida conectada pela internet, a sociabilidade virtual é muito mais abrangente, o que torna a estupidez tanto um problema psicológico como sociológico.

De toda forma, a estupidez caracteriza um fenômeno de grupo, pequeno ou mesmo gigantesco. E quando um grupo real ou virtual age de forma estúpida, isso causa grande impacto nos outros indivíduos, agravando todo o efeito.

Daí o comportamento de rebanho, que está entre as causas mais importantes da estupidez!


Numerosos estudos científicos mostraram como os seres humanos individuais podem ser influenciados pela multidão a adotar posições que vão contra toda a lógica, abolem a razão.

Bonhoeffer dizia que “o poder de um, precisa da estupidez do outro”.

Parece que, sob o impacto avassalador do poder crescente dos hoje denominados influenciadores digitais, suas plataformas e seus robôs conectados, os humanos são privados de independência interior e, mais ou menos conscientemente, desistem de estabelecer uma posição autônoma em relação às circunstâncias emergentes. “O fato de a pessoa estúpida ser frequentemente teimosa não deve nos cegar para o fato de que ela não é independente, apenas e tão somente estúpida”, dizia o teólogo alemão.

“As pessoas dominadas pela estupidez agiriam como se estivessem possuídas. Sua parte lógica do cérebro está desligada. Tal pessoa passa a atuar como um zumbi político, com o qual falha qualquer tipo de lógica ou discussão de fatos. Em vez disso, os componentes de rebanho funcionam por slogans, palavras de ordem e gritos de guerra de baixo nível”. (1)

“Em uma conversa com ele, quase se sente que não se trata de maneira alguma de uma pessoa, mas de slogans e coisas do gênero que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado, cego, maltratado e abusado em seu próprio ser. Tendo assim se tornado uma ferramenta irracional, a pessoa estúpida também será capaz de qualquer mal e ao mesmo tempo incapaz de ver que isso é mau”. (1)


Atalhos mentais.

Esse tipo de uso do processamento de informações, ou seja os “atalhos mentais”, são criados pela nossa mente para produzir decisões ou julgamentos e nos ajudar a navegar por este mundo.

Porém, essas tendências podem se transformar em muitos vieses com uma variedade de formas: ruídos mentais, crenças, escalada irracional de compromisso, etc. Entre estes, seguir o rebanho é indiscutivelmente o mais proeminente e o mais fácil! Faz até sentido. Quando as informações são escassas e a indecisão predomina, fazer o que os outros estão fazendo é provavelmente o melhor curso de ação!

Infelizmente, isso não funciona o tempo todo, podendo trazer resultados catastróficos. Como a História nos mostra repetidas vezes.

Por esse motivo, para Bonhoeffer, lutar contra a estupidez é mais difícil do que contra o mal. O mal pode ser defrontado, exposto, denunciado. Ademais, o mal sempre deixa as pessoas inquietas, pode deixar “consciências pesadas. ”

Já contra a estupidez estamos indefesos!


O estúpido, o canalha e o mal-intencionado.

Enquanto a estupidez é um fenômeno coletivo sócio psicológico, a canalhice e a má-intenção têm a ver com falha de caráter individual.

Um canalha é sempre um covarde, que busca tirar a melhor vantagem pessoal do infortúnio coletivo ou do outro. Logo, tanto o canalha quanto o mal-intencionado estão no campo da imoralidade: eles necessitam de máscaras, subterfúgios, uma sombra na qual possam se esconder e operar.

Porém, a estupidez se desloca para outro campo: o da amoralidade! Os estúpidos são orgulhosos da própria estupidez, porque têm a chancela do grupo, do coletivo. Sabe que não estão sozinhos, e isso já é mais do que suficiente para ele.

Freud expusera isto em “Psicologia de Massas e Análise do Ego”: mais do que a morte, o que o homem mais teme é a solidão. Os indivíduos nas massas permanecem unidos não pelo poder da hipnose do líder, como sugeriam antigos psicólogos como Gustave Le Bon. Mas por “amor a eles próprios”, aos outros que formam a massa ou o grupo.

As redes sociais apenas exponenciaram esse funcionamento interno de cada um de nós como farsa. Na forma virtual, “influenciadores” acionam robôs que impulsionam hashtags, versões e narrativas mal-intencionadas, falsidades, criando enxames e vieses cognitivos. E, como sempre, o efeito de rebanho se faz presente: oferece aos usuários o atalho mental que desperta a nossa ancestralidade, nossos arquétipos.


Umberto Eco tinha razão ao dizer que a Internet deu voz a uma “legião de imbecis”: as unanimidades virtuais acabaram criando a estupidez orgulhosa de si mesmo.

Bolsonaro, sua gangue, seus acólitos são a melhor tradução política da estupidez orgulhosa de si mesma. Esta estupidez elegeu não somente o Presidente do Brasil, como o pior e mais estúpido Congresso de todos os tempos da República!


Referências:

1. Publicação realizada pela Igreja Evangélica Luterana da Itália. “Benhoeffer, Profeta.”

2. Metaxas, E..Bonhoeffer. Thomas Nelson Publishers.

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