A humanidade interrogando seu próprio destino em “A morte de Ivan Ilitch”.

Atualizado: Fev 26

Tolstoi vivenciou uma crise existencial onde tudo perdeu valor e sentido; ele se deu conta do nada imenso do próprio destino, assim como o de todo o ser humano.

Por volta dos cinquenta e cinco anos de idade, o maior escritor russo de sua época, Liev Tolstoi, interrompe toda a sua enorme produção artística e chega mesmo a renegá-la.

Deste momento em diante seu olhar se voltará para a compreensão do inexplicável, buscará contemplar a angústia primitiva do ser humano e, talvez como poucos, terá a coragem de encarar resolutamente o problema que o destino impõe ao homem: a humanidade interrogando seu destino!

“Por que viver? Qual a causa de minha existência e a dos outros? Que finalidade tem minha vida e a de todos os seres vivos? O que significa a dualidade entre o bem e o mal que sinto em mim? Como devo viver? O que é a morte? Como e se poderei salvar-me?” São frases que anotou em uma folha de papel e para as quais buscaria respostas.

Livra-se, então, de toda literatura e em seus estudos somente têm lugar os filósofos. Como neste tão pouco encontra respostas, afasta-os e debruça-se sobre um único livro: a Bíblia. Mas como alcançaria seu objetivo aquela mentalidade aberta, desafiadora, um cristão primitivo em sua essência anarquista, lendo os textos míticos e históricos da Bíblia?

Afasta-se também da Bíblia.

Muda agora seu modo de agir! Participa com os camponeses das colheitas, começa por desfazer-se de seus bens materiais, acentua-se o clima de “guerra sem paz” com sua esposa Sônia, e com a maioria de seus quinze filhos.

Dispõe da maior parte de seu patrimônio, cria uma primeiro escola modelo rural para os filhos dos camponeses.

O grande escritor Turgueniev, de seu leito de morte, em 1886, escreve ao amigo Tolstoi uma súplica: “Por favor, volte à literatura, você não tem o direito de privar a humanidade de seu talento imaginativo!”

Liev Tolstoi mantém ao lado do leito a carta do amigo por quase um mês de um novo recolhimento. Afinal retoma a escrita, uma escrita que jamais será a “descompromissada e livre” literatura de antes.

Agora a morte torna-se um elemento central, quase uma obsessão! Não que isto refletisse um desejo de morrer, era sim uma vontade de entender a morte movida por temores, pelo estranhamento, tal como relatou um de seus filhos: “Embora durante mais de trinta e cinco anos Liev não deixasse de falar um só dia na morte, meu pai não a desejava”.

A morte nos seus livros é antes de tudo um elemento catártico do próprio autor. Ele se rebela contra a o paradoxo da mortalidade, sofre com o fato de que a vida dos homens seja submetida por doenças e pelo furor do tempo.

“Nenhum homem, que tem a infância atrás de si, deveria esquecer-se da morte por um só minuto, tanto mais quanto a sua espera constante não só não envenena a vida, mas lhe empresta firmeza e claridade” diz Tolstói em uma carta à sua tia.


E quando Tolstoi retorna à pena, surge “A morte de Ivan Ilitch”, uma pequena-grande novela, uma epopeia sobre a Vida e a Morte, altamente concentrada, sem desvios nem distrações, uma incrível sobriedade no trato da finitude humana.

“A Morte de Ivan Ilitch” nos introduz no mundo burocrático da Rússia czarista, com seus escritórios cheios de advogados e juristas, membros da melhor estirpe dentre as elites eslavas, aqueles cujo poder podem determinar o destino dos cidadãos comuns.

Ivan Ilitch é um desses importantes funcionários da máquina estatal. Com um casamento arranjado e um gordo salário, ele é o que comumente se considera um homem bem sucedido. No entanto, aos quarenta e cinco anos, uma misteriosa doença o pega de surpresa. Como a medicina não lhe dá respostas, só lhe resta suportar a dor. E esta criatura medíocre, egoísta, somente se enobrecerá na tenacidade de seu desespero perante a morte.

“O sofrimento maior de Ivan Ilitch provinha da mentira, aquela mentira por algum motivo aceita por todos, no sentido de que ele estava apenas doente e não moribundo, e que só devia ficar tranquilo e tratar-se, para que sucedesse algo muito bom. Mas ele sabia que, por mais coisas que fizesse nada resultaria disso, além de sofrimentos ainda mais penosos e a morte.”

E esta mentira atormentava-o; atormentava-o o fato de que não quisessem confessar aquilo que todos sabiam, ele mesmo inclusive, mas procurassem mentir perante ele sobre sua terrível situação, e obrigassem-no a tomar parte naquela mentira.

“Via que ninguém haveria de compadecer-se dele, porque ninguém queria sequer compreender a sua situação”.

Guerrássin, o camponês que de Ivan cuidava, era o único a compreendê-lo e a compadecer-se. E por isso Ivan sentia-se bem unicamente em sua presença.

“E se minha vida tivesse sido errada?”, perguntava-se em seu leito de morte. As dores morais, reproduzindo as mesmas incertezas do autor, “eram infinitamente maiores que as físicas”.

Na espera pelo último suspiro, ele se conscientiza de toda a miserável vida que construíra e nunca quisera enxergar, erguida sob engodos e aparências.

“Não havia nada a defender, nem os deveres profissionais, nem a vida regrada, nem a ordem familiar, ou o consumismo e os interesses mundanos. Tudo eram grandes mentiras.”

Enquanto isso, os amigos não se importam realmente com a iminente morte do colega e sim com o cargo que este ocupa e que ficará vago em menos de três meses.

Sua presença agonizante é, inicialmente, motivo de angústia e tristeza para a esposa e família; no entanto, gradualmente, angústia e tristeza se transformam em espera ansiosa por um desenlace que tarda…

Solidários a Ivan em sua tangida dor, somente um filho e o servo Guerrássin.


A arte de Tolstoi, um “cristão-pagão”, em “Ivan Ilitch” é em sua essência anti-platônica: ela celebra a completa realidade do mundo, um Reino de Deus que deve ser celebrada no aqui e agora, única vida real que nos está destinada.

G. Steiner traça um contraponto entre Tolstoi de “A morte de Ivan Ilitch” e o “Homem do Subterrâneo” de Dostoievski: enquanto este vai até os recônditos da alma, Tolstoi desce ao fundo do corpo, a seus lugares mais sombrios.

Sufocante, angustiante, profundo e bastante pesado para quem se grudou em tantas ilusões na vida quanto o protagonista Ivan Ilitch. O romance é mais que uma lágrima de lamentação pelo destino inexorável: é um estrondoso grito para que a vida tenha significado e que o desperdício não seja a norma geral, ou sinônimo de felicidade.


Talvez este seja um dos poemas mais atormentados jamais escritos.

Nos seus últimos três dias de enorme agonia, o moribundo sentiu, obnubilado pela morfina e pelo ópio, que alguém lhe beijava a mão. Viu o filho e a seu lado a mulher a chorar. Deixou, então, de ter pena de si mesmo. Teve compaixão pelo sofrimento daqueles que até mesmo chegara a odiar, pois lhe sobreviveriam.

“Estou a atormentá-los, estarão melhor quando eu tiver morrido. Nesse momento começou a sentir que todo o seu tormento se ia dissipando, escoando de seu corpo pelos poros, e, então, não teve medo da morte, em lugar dela via a luz.”

Ouviu que alguém a seu lado dizia: “Acabou a morte. Ele morreu”.

E Ivan Ilitch morreu!

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