A mulher como símbolo da revolta

Marie Deschamps é o nome da modelo, uma mulher do povo, que Eugène Delacroix escolheu para retratar o clima dos embates da Revolução de Julho de 1830, a revolta popular que derrubou o despotismo de Carlos X e a Restauração dos Bourbons. Em uma carta endereçada ao seu irmão, o pintor escreveu: “O meu mau humor está desaparecendo graças ao trabalho duro. Embarquei em um tema moderno, numa barricada, pois se eu ainda não lutei pela liberdade em meu país, pelo menos vou pintar para ela.” Nasceria desse esforço uma pintura imortal, símbolo da modernidade: “ A Liberdade conduzindo o Povo”.

O trabalho de Delacroix foi tão intenso quanto o é Marie, a mulher forte de seios fartos e desnudos, que caminha por sua tela com os passos largos e confiantes, reproduzindo a vibração com que a contagia o clamor do povo em revolta, em luta de vida ou morte.

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“A Liberdade guiando o Povo”

Quase dois séculos após, sua visualização ainda nos inspira, apaixona-nos, é capaz mesmo de provocar a sensação de um renovado romantismo, do sentir-se recompensado e orgulhoso pelos melhores momentos que a humanidade produziu.

Balzac, em seu tempo, também foi um apaixonado pela figura de Marie, deleitou-se com seu esplendor de camponesa, a pele morena curtida pelo trabalho e pelo sol, tão ardente e verdadeira quanto a imagem dos franceses que lutam e caem ao seu passar. Tocou-o o orgulho e até mesmo a insolência de sua independência, “um contraponto perfeito às mulheres burguesas”.

Deschamps é filha da tomada da Bastilha, é o povo que, depois da Revolução de 1789, seguiu as aventuras imperialistas de Napoleão Bonaparte; foi derrotado e submetido às forças da reação, mas agora retornava à luta para vencer na Revolução de Julho de 1930. Ela é bela, nua, ardente, sua faixa tricolor simboliza a liberdade que a conduz. O barrete frígio ao vento, que lhe encobre parcialmente os cabelos, tem um sentido: os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, aqueles mesmos de 1789, ainda não morreram e jamais perecerão.

Marie é uma mulher do povo, emancipada sexualmente. Ela escolhe seus amantes dentre aqueles homens que lhe despertam a paixão, dando, conforme Barbier “seu corpo forte àqueles homens tão fortes quanto ela mesma e que desejem mudar o mundo”, como ela mesma o quer torná-lo melhor.

Marie é a minha, é a tua, é a nossa companheira de luta, aquela que sempre nos acompanhou e que tantas e tantas vezes nos conduziu.

“A Liberdade guiando o Povo” após ser exposta no Salão de 1831, teve que procurar abrigo na clandestinidade, porque novamente os reacionários retomaram as rédeas do poder e a monarquia, dita “constitucional”, de Luís Felipe, igualmente, a temia. A pintura procurou abrigo em porões, como tantos de seus filhos do século XIX e XX, e somente pôde refletir a luz da aurora dezesseis anos após, em 1848, quando o bravo povo francês retornou à luta nas barricadas. Vitorioso, o parisiense realiza uma nova Revolução e instaura a Segunda República. No mesmo ano de 1848, Flaubert, em sua “Educação Sentimental”, retorna à cena magnífica e compara a imagem da Liberdade àquela das “mulheres livres e comuns” que percorriam as Tulherias, saqueadas na nova revolta. Por isso ele denomina Marie Dechamps de “A  Estátua da Liberdade”.

Desde esse momento, nem mesmo Napolão III com seu Império, terá a coragem de recolher o símbolo da luta contra a opressão e, em 1874, “A Liberdade guiando o Povo” entra definitivamente para a coleção do Museu do Louvre.

No dizer de Hobesbawm, a novidade histórica da “ Liberdade guiando o Povo” reside na identificação da figura feminina nua com uma mulher do povo real, de carne e osso, que desempenha a liderança no movimento dos homens. “A alegoria de Delacroix exclui o papel costumeiro das mulheres nas alegorias, embora ela mantenha o nu, que é enfatizado. Ela não inspira ou representa, Ela AGE”.

A mulher, cujos seios apontam para o futuro, simboliza a força concentrada do povo, um conjunto de classes sociais e profissões diferentes. Representa um ponto de ruptura em que sua imagem é aceita pelos homens como a de líder.

Esse tema reafirma sua popularidade quando, em 1848, Millet torna a retratar a Liberdade, toda nua, apenas com o barrete frígio da Primeira República.

Na Comuna de Paris, em 1871, as mulheres das barricadas, que combatem e morrem lado a lado com seus homens, ainda são retratadas como líderes, mas os seus seios são recobertos. A estátua de “A República” de Dalou , exposta ainda hoje na Place de la Nation, possui os seios exuberantes, mas eles não estão mais nus.

Chegamos ao século XX e nos defrontamos com os movimentos sociais e políticos, que  restauram, de certa forma, um puritanismo pré- Delacroix. O papel da figura feminina nua é reduzido nas alegorias artísticas dos movimentos proletários e socialistas. Ocorre certa masculinização nas imagens do socialismo real e do movimento operário. Os nus, quando ocorrem, são quase sempre de operários representados com o torso descamisado, a esbanjarem força e exuberância. Já as figuras femininas encarnam os sentimentos de sofrer, de luta e persistência, seus corpos tornam-se invisíveis sob xales e lenços de cabeça.

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“La Passionara”

A mulher combatente é transformada quase toda em espírito e o carnal, a beleza das formas e da pele, absorvido. Quando, alegoricamente, assume a posição de liderança sobre os homens, ela o faz tal e qual nas inúmeras representações de “La Passionara”, mulher símbolo da militância socialista e de resistência ao fascismo, que traja o negro cobrindo-lhe todo o corpo.

O feminino, tão desnudado no século passado, não é incluído pictoricamente nos movimentos proletários e de revolta social, pelo menos até a geração de 1968, quando volta adquirir alguma expressão.

O que nos trará de novo o renascer das lutas de emancipação do século XXI, aquelas que farão face à barbárie que destrói os valores de “liberdade, igualdade e fraternidade”? As Marie Dechamps retornarão com os seios nus a apontar os caminhos da “Revolta que Liberta”, a liderar os povos no caminho da felicidade e da humanização?

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