A religiosidade neopentecostal como superestrutura do poder político-policial-militar.

Atualizado: 10 de Jun de 2019

Se o Brasil √© um dos pa√≠ses mais desiguais e violentos do mundo, um dos principais fatores, que ao mesmo tempo √© causa e efeito, √© o analfabetismo funcional que abarca um ter√ßo da popula√ß√£o, enquanto outro ter√ßo possui uma alfabetiza√ß√£o apenas sofr√≠vel. No entanto, a maioria de nosso povo, pese √† incapacidade de compreens√£o de textos com um m√≠nimo de complexidade, √© dos mais ass√≠duos ‚Äúcomunicadores‚ÄĚ sociais. Praticamente 90% de nossa popula√ß√£o vive atrelada ao que se denomina m√≠dia social, prioritariamente atrav√©s da dissemina√ß√£o de imagens e de mensagens faladas, sendo por esse motivo absolutamente vulner√°vel √† manipula√ß√£o pol√≠tica e a crer e divulgar aquilo que se convencionou chamar de ‚Äúfake news‚ÄĚ.

Acrescente-se a isso um profundo desencanto com um processo pol√≠tico decadente, corrupto e corruptor, uma enorme revolta e decep√ß√£o com governos democr√°ticos de esquerda, uma crise econ√īmica profunda que principiou no √ļltimo governo petista e que produziu uma massa de desempregados, desencantados, precarizados ¬†e esmoleres, algo pr√≥ximo a quarenta por cento da for√ßa de trabalho. Tamb√©m o¬†princ√≠pio do desmonte do Estado que coincide com o segundo mandato de Dilma, reduzindo a capacidade e a abrang√™ncia da Seguridade Social, ancorou uma perspectiva de ‚Äúnegar tudo‚ÄĚ da popula√ß√£o menos assistida e da pr√≥pria classe m√©dia, assim como a busca por um ‚Äúsalvador da p√°tria‚ÄĚ, um ‚Äúmessias‚ÄĚqualquer que ele fosse.

Foi a partir destas bases estruturais e superestruturais que a popula√ß√£o majoritariamente elegeu representantes que pregam abertamente a misoginia, a homofobia e que s√£o racial e socialmente preconceituosos. Atrelados a um deus, O Mercado, este estamento pol√≠tico- religioso- policial- militar, que assumir√° o poder em janeiro, deseja vincular o Estado a certo tipo de igrejas e cren√ßas, ancorando o exerc√≠cio da intoler√Ęncia a princ√≠pios religiosos excludentes, toscos e oportunistas.

Quando se propalam valores adormecidos desde o Iluminismo e a Revolu√ß√£o Francesa de 1789, sem d√ļvida caminhamos em dire√ß√£o a uma bifurca√ß√£o na estrada real da vida: podemos seguir pelo lado da barb√°rie, que √© o natural, inerente mesmo √† din√Ęmica do capitalismo (ali√°s, recordemos Lacan que afirma ser o capitalismo uma esp√©cie arquet√≠pica do subconsciente humano), cuja elei√ß√£o de Bolsonaro e da maioria do Poder Legislativo √© um sinal, ou caminharmos para outro lado, t√£o complexo quanto novo e inseguro, uma trilha de resist√™ncia e redescobertas que conduza ao Renascer da humanidade intr√≠nseca a nosso povo e de seus valores.

Para iniciarmos a visualização de uma base de atuação política que permita um renascer civilizatório, é fundamental que conheçamos em profundidade as origens e as bases daquelas seitas religiosas que darão o suporte ao Governo Bolsonaro, que são absolutamente oportunistas e reacionárias, e que se adequam com perfeição como base supra estrutural do fascismo de oportunidade na destruição de conquistas democráticas e civilizatórias, papel já desempenhado no passado pela Igreja Católica, por exemplo, na Itália de Mussolini: trata-se hoje, da imensa maioria das seitas denominadas  Neopentecostais!

Dentre os momentos mais marcantes da hist√≥ria da humanidade est√£o aqueles em que surgem as Religi√Ķes. A ideia que brota quase sempre de um √ļnico c√©rebro transborda atingindo centenas, milhares e milh√Ķes.

Pois foi, em sua origem, precisamente esse o caso do enorme conjunto de seitas religiosas, denominadas genericamente de ‚ÄúReligi√Ķes Neopentecostais‚ÄĚ, que se desenvolveram nos Estados Unidos da Am√©rica a partir da √ļltima d√©cada do s√©culo XIX e empolgam, no s√©culo XXI, parcelas crescentes da humanidade em quase todos os continentes.

Os neopentecostais abrangem mais de dezenove mil denomina√ß√Ķes e congregam acima de trezentos milh√Ķes de seguidores em todo o mundo (dados de 2010, portanto, j√° desatualizados). Possuem m√≠dia televisiva e forte presen√ßa em todos os outros canais pr√≥prios de divulga√ß√£o de massa. Em nosso Pa√≠s tinham como alvo elegerem uma formid√°vel bancada de deputados e senadores e de alguma forma alcan√ßarem o Poder Central da Rep√ļblica e o conseguiram!

Estima-se que as seitas no geral movimentem mais de trinta bilh√Ķes de d√≥lares anuais, boa parte dos quais com isen√ß√£o de impostos e √† margem de controles formais, num permanente e complexo caixa paralelo. No Brasil estima-se de modo conservador que o mercado da f√© movimente mais de dois bilh√Ķes de d√≥lares anuais!

Ao analisarmos as diferentes correntes pentecostais encontraremos muitos pilares comuns como a ‚Äúdoutrina da prosperidade‚ÄĚ, da ‚Äúconfiss√£o positiva‚ÄĚ; descortinaremos tamb√©m que ‚Äúa pobreza e a doen√ßa derivam de maldi√ß√Ķes, de fracassos, das vidas em pecado ou da falta de f√© religiosa‚ÄĚ e, em decorr√™ncia desses preceitos, um ‚Äúverdadeiro crist√£o‚ÄĚ deveria ter a marca da plena f√©, ser bem-sucedido financeiramente, possuir sa√ļde f√≠sica, emocional e espiritual.

Outro pilar que lhes √© comum √© a permanente batalha espiritual entre os componentes da ‚ÄúSant√≠ssima Trindade‚ÄĚ e o Diabo, trazendo um renascer de conceitos medievais, tais como o confronto direto entre o homem e os dem√īnios, as ditas maldi√ß√Ķes heredit√°rias, a posse dos crentes pelas for√ßas ‚Äúmagn√©ticas‚ÄĚ do mal. N√£o poucas vezes aqueles ‚Äúpastores‚ÄĚ ou ‚Äúm√©diuns‚ÄĚ operam ‚Äúcuras milagrosas‚ÄĚ para doen√ßas ps√≠quicas ou f√≠sicas, chegando mesmo ao ponto de nega√ß√£o da materialidade dos males que afligem os homens. Desenvolveram ainda formas arcaicas de encarar a f√© religiosa, tendo por foco a busca de revela√ß√Ķes diretamente feitas por Deus ou pelo Esp√≠rito Santo a seus ‚Äúpastores‚ÄĚ, ‚Äúbispos‚ÄĚ ou ‚Äúap√≥stolos‚ÄĚ, em rela√ß√Ķes de privil√©gios nas quais o rebanho √© conclamado a inserir-se.

A unirem as mais variadas seitas estão aspectos socialmente reacionários como os preconceitos claros ou encobertos contra a homossexualidade e a misoginia que retira a possibilidade da mulher decidir sobre seu próprio corpo.

O contraponto dessas filosofias que negam a realidade e a evolu√ß√£o, que mistificam o conceito do divino, √© o seu mais cru materialismo assentado numa estreit√≠ssima alian√ßa do espiritual com o dinheiro e os cr√©ditos banc√°rios. Elas substituem o ensinamento de Cristo ‚Äúdai a C√©sar o que √© de C√©sar e a Deus o que √© de Deus‚ÄĚ, por um avatar que n√£o lhes √© exclusivo, mas que em nenhuma religi√£o √© t√£o expl√≠cito: uma moeda onde o lado ‚Äúcara‚ÄĚ tem a figura de Cristo, e o lado ‚Äúcoroa‚ÄĚ a imagem do dinheiro, preferencialmente o D√≥lar, na sua car√™ncia vale o Real.

A maioria das seitas √© quase sempre totalit√°ria. Anseiam pela exclus√£o do Estado laico, atrelando, por exemplo, a educa√ß√£o a formas do criacionismo b√≠blico. N√£o constitui espanto o surgimento da Escola sem Partido, por mais esdr√ļxulo e incrivelmente est√ļpido que o mesmo possa parecer. Em nosso Brasil, em alian√ßa com as bancadas legislativas da Bala e do Boi, congregar√£o mais de 50% das cadeiras federais.

A seta da hist√≥ria aponta para a ‚ÄúCi√™ncia de Cristo‚ÄĚ, como a inspiradora de todas as religi√Ķes neopentecostais subsequentes. Essa seita, fundada em 1886 por Mary Baker-Eddy, possui ainda hoje, um s√©culo ap√≥s a morte de sua fundadora e ‚Äúimperadora‚ÄĚ como ela se fazia chamar, quase mil e novecentas igrejas, estando presente em setenta e seis pa√≠ses. A ‚Äúb√≠blia‚ÄĚ desse movimento, escrita por Baker-Eddy denomina-se¬† ‚ÄúCi√™ncia e Sa√ļde com a Chave das Escrituras‚ÄĚ, um best-seller por d√©cadas. Em 1995, ‚ÄúMother Mary‚ÄĚ foi inclu√≠da no Hall da Fama de Hollywood e, em 2002, uma Biblioteca com seu nome e totalmente dedicada aos seus escritos foi franqueada ao p√ļblico.

A ‚ÄúGrande Bas√≠lica‚ÄĚ da seita, inaugurada em 1906, com a qual o Templo de Salom√£o do ‚ÄúBispo‚ÄĚ Edir Macedo, instalado em S√£o Paulo ainda no governo Dilma tem a pretens√£o de concorrer, possui¬† capacidade interna de recep√ß√£o para vinte mil crentes.

Deve-se assinalar que o jornal publicado pela ‚ÄúCi√™ncia de Cristo‚ÄĚ, ‚ÄúO Monitor‚ÄĚ, ganhou ao longo de d√©cadas sete pr√™mios Politzer, assumindo, inclusive, em determinados momentos hist√≥ricos, posi√ß√Ķes progressistas e respeit√°veis em defesa dos direitos humanos, sendo que isto se passou ap√≥s mais de cinquenta anos da morte da fundadora. De uma maneira geral pode-se dizer que essa cren√ßa, tendo sido a grande precursora das seitas neopentecostais, no decorrer dos anos perdeu sua belicosidade inicial e aproximou-se daquelas correntes evang√©licas mais tradicionais, tornando-se menos autorit√°ria e excludente.

Mas foram suas sementes originais de intoler√Ęncia, gan√Ęncia e poder pol√≠tico que gerariam milhares de outras seitas. A ‚ÄúCi√™ncia e Sa√ļde com a Chave das Escrituras‚ÄĚ influenciar√° de modo direto, na primeira d√©cada do s√©culo XX, homens como E. W. Kenyor, o inspirador da ‚ÄúTeologia da Prosperidade‚ÄĚ e K. Hagin o fundador da primeira ‚ÄúAssembleia de Deus‚ÄĚ, que ele inaugura ap√≥s um propalado batismo pelo ‚ÄúEsp√≠rito Santo‚ÄĚ, em 1937.

Da mesma maneira, a ‚ÄúCi√™ncia de Cristo‚ÄĚ inspirar√° o tele evangelismo, que desde a d√©cada dos anos oitenta frequenta diversos canais da televis√£o aberta e a cabo, a bordo do qual embarcam prestigiadores como o j√° citado ‚Äúbispo‚ÄĚ Edir Macedo, Malafaias e outro que tais. Edir Macedo √© paradigm√°tico: antigo pesquisador do IBGE na d√©cada de 1970, cat√≥lico desde nascen√ßa, teve sua ‚Äúrevela√ß√£o‚ÄĚ em 1976 ( um copo de √°gua ferveu ao ser colocado sobre um r√°dio a v√°lvulas) e fundou, em 1977, a hoje multinacional da f√© denominada ‚ÄúIgreja Universal do Reino de Deus‚ÄĚ.

Mas voltemos a Mary Baker. Ela nasce em uma fam√≠lia pobre, no ano de 1821. A menina fisicamente fr√°gil tem dificuldade em acompanhar os estudos escolares e os abandonar√° prematuramente antes da conclus√£o do primeiro grau. Transforma-se em uma adolescente indolente que prima por chamar a aten√ß√£o dos familiares sobre si, num ar incontido de presun√ß√£o e superioridade. A cada vez que √© contrariada pelos parentes, desenvolve ‚Äúataque dos nervos‚ÄĚ os quais adotar√° por toda a vida, como seu m√©todo pessoal de tiranizar as pessoas. De todos os modos, a mocinha chegar√° √† idade adulta sem jamais haver trabalhado, nem mesmo nos afazeres dom√©sticos.

Para al√≠vio de seus pais e irm√£os, Mary casa-se aos vinte e dois anos com um jovem chamado Glover; viajam para o oeste e estabelecem seu lar. Mas, por um desses infort√ļnios da vida, ap√≥s apenas um ano e meio de casada e estando gr√°vida, morre-lhe o esposo. Ela regressa √† casa dos pais e volta a sofrer de ‚Äúataques nervosos‚ÄĚ. Nascido seu filho, ela descobre que a maternidade √© um ‚Äúservi√ßo‚ÄĚ que t√£o pouco lhe atrai e¬† decide desfazer-se da crian√ßa.

Novamente repetem-se as cenas da adolescência em que ninguém se atreve a contradizê-la para evitar os conhecidos achaques. Ela seguirá levando uma vida parasitária até os cinquenta anos de idade, tendo sido sustentada primeiro pelo pai, depois pela irmã e finalmente pela caridade alheia.

Enquanto tudo isso ocorre, na distante Portland chega certo disc√≠pulo do alem√£o Messmer e traz para a Am√©rica a novidade do hipnotismo, uma alternativa para a ‚Äúcura‚ÄĚ dos males do esp√≠rito. Um relojoeiro de nome Quimby interessa-se pelo m√©todo e come√ßa uma esp√©cie de pesquisa em que anota todos os efeitos da hipnose sobre os ‚Äúm√©diuns‚ÄĚ e os enfermos. Na sua simplicidade Quimby percebe que pode auxiliar pessoas doentes, mesmo dispensando o recurso do hipnotismo, e, tamb√©m que pode viver de suas ‚Äúcuras‚ÄĚ. Ent√£o o ‚ÄúDr. Quimby‚ÄĚ desenvolve um m√©todo pr√≥prio, que ele denomina ‚ÄúCura pela Mente‚ÄĚ, como ‚ÄúJesus Cristo fizera antes dele dezoito s√©culos atr√°s‚ÄĚ.

Mary Baker ouve falar dos resultados desses tratamentos e decide que quer se curar. Em 1862, consegue arrancar dinheiro dos familiares e viaja at√© Portland, submetendo-se de corpo e alma a Quimby. Ora, ela possu√≠a uma predisposi√ß√£o para o ‚Äúmilagre‚ÄĚ do Dr. Quimby e al√©m disso, busca em si mesma a ‚Äúvontade de possuir sa√ļde‚ÄĚ, afinal, aquela era sua √ļltima cartada para que um ‚Äúprod√≠gio‚ÄĚ, fazendo-a ‚Äúcrescer acima de todos‚ÄĚ, pudesse acontecer. Se voltasse no mesmo estado de enferma para a sua cidade seria desprezada e, se curada, ela seria o pr√≥prio prod√≠gio!

Ao final de uma semana de tratamento, a inv√°lida est√° completamente curada; rejuvenesce e faz brotar em si mesma uma energia que a far√°, em breve, subjugar e fazer-se sentir por milh√Ķes de pessoas. Faz com que Quimby empreste-lhe todas suas anota√ß√Ķes, as tais ‚ÄúPerguntas e Respostas‚ÄĚ de suas pesquisas, que ela, √† noite, copia.

Ao retornar √† casa da irm√£, Mary Baker √©, no seu pr√≥prio dizer, uma pessoa que ‚Äúressuscitou como L√°zaro‚ÄĚ e faz de Quimby ‚Äúum continuador de Cristo‚ÄĚ. Sobre esses fen√īmenos profere palestras, promove demonstra√ß√Ķes, enfim, pratica um ensaio geral sobre o que far√° apenas dez anos ap√≥s. Parte¬† de New-Hampshire onde nada e ningu√©m mais a amparar√° e viaja com sua pequena maleta para a vizinha cidade de Lynn.

Ainda faltam anos para que ela se transforme na mulher mais bem sucedida do princ√≠pio do s√©culo XX. Por enquanto, andar√° de casa em casa como uma parasita. Pessoas simples a acolhem como a uma peregrina, a ‚Äúprofetiza‚ÄĚ que fala de curas maravilhosas. No entanto, nenhuma de suas estadas durar√° muito, Mary Baker n√£o possui o mais t√™nue sentimento de gratid√£o para quem a ajude ou sustente. Sempre tentar√° subjugar e usar a todos os que lhe deem guarida. Seu car√°ter dominador, tir√Ęnico, suscita sempre conflitos e desaven√ßas com as pessoas, inevit√°veis consequ√™ncias de uma presun√ß√£o incontida.

Tem consci√™ncia de que seu temperamento inst√°vel e irritadi√ßo √© incapaz de ‚Äúcurar pela mente‚ÄĚ. Para tanto seriam necess√°rios empatia, calma, ouvidos, dom√≠nio e a paci√™ncia de um Quimby. Logo, ela precisa de um mediador. Para tanto publica an√ļncios em jornais, buscando aquele que ‚Äúdeseje aprender a curar enfermos‚ÄĚ. O seu primeiro disc√≠pulo aparecer√° em 1870, um jovem oper√°rio de nome Kennedy. Ela, mediante um contrato escrito em que cada um ficar√° com metade dos proventos, ir√° treina-lo em sua ‚Äúci√™ncia‚ÄĚ.

A dupla arrenda uma sobreloja, onde tamb√©m residir√°, ele praticando sua ‚Äúmedicina‚ÄĚ (a √°rvore em frente ganha uma tabuleta: ‚ÄúDr. Kennedy- Ci√™ncia de Cristo‚ÄĚ) e ela escrevendo, a tudo controlando. O √™xito √© t√£o grande que em tr√™s meses alugam tamb√©m a loja abaixo. O pl√°gio de Quimby √© absoluto. Kennedy decora e repete: ‚ÄúQue o homem √© divino, que Deus n√£o quer o mal e, portanto, a dor, o mal e a enfermidade n√£o existem. Os males n√£o s√£o sen√£o imagina√ß√Ķes, um erro de que a gente deva se livrar‚ÄĚ. Alguma semelhan√ßa com a campanha de determinadas seitas movem nos dias de hoje contra a vacina√ß√£o necess√°ria das crian√ßas?

Em determinado momento Mary Baker decide que j√° n√£o lhe basta. Quer reunir mais ap√≥stolos que levem ao mundo a n√£o exist√™ncia das doen√ßas. A mestra de a ‚ÄúCi√™ncia de Cristo‚ÄĚ come√ßa a formar seus ‚Äúm√©dicos‚ÄĚ em cursos de seis semanas de dura√ß√£o. O √™xito de Kennedy, que chega a faturar doze mil d√≥lares por m√™s, atrai dezenas de oper√°rios e pequenos comerciantes para os cursos. Ela a princ√≠pio cobra-lhes cem d√≥lares e, posteriormente, trezentos pelo curso e, por contrato, 10% de todos os ganhos futuros.

Mary Baker sente o fumo do sucesso e desde esse primeiro momento tenta patentear ‚Äúsuas descobertas‚ÄĚ e convert√™-las em d√≥lares. Embora em sua cren√ßa n√£o exista a mat√©ria s√≥ o esp√≠rito, as notas banc√°rias s√£o mais que reais para essa mulher.

Ap√≥s dois anos de parceria Mary Baker deseja livrar-se do pac√≠fico Kennedy. Do dia para a noite ela suprime a pr√°tica de se tocar no paciente, na qual Kennedy fora treinado e a qual praticava. Era a primeira de muitas excomunh√Ķes que faria: de seus l√°bios convulsos brotaram todas as monstruosidades imagin√°rias. Atribui a Kennedy tal de ‚Äúinfluxo diab√≥lico‚ÄĚ, que √© a pr√≥pria¬† necromancia medieval renascida. Com esse processo a sua ‚ÄúCi√™ncia de Cristo‚ÄĚ criar√° mais um pilar de sustenta√ß√£o: ‚Äúo magnetismo animal malicioso‚ÄĚ.

Mary Baker se auto promove como ‚Äúa enviada de Deus para guiar seu rebanho na Terra‚ÄĚ. Todos os domingos ela reunir√° seus disc√≠pulos para a pr√©dica dominical, acompanhada por m√ļsica coral e piano. Ascende de professora a sacerdotisa, transformando sua terap√™utica em sacerd√≥cio.

Nega, desde sempre, todo o seu passado e apaga qualquer refer√™ncia que um dia fizera a Quimby, ‚Äúa quem jamais conhecera‚ÄĚ. Sendo necess√°rio criar uma ‚ÄúLegenda √Āurea‚ÄĚ sobre si mesma, toda a inf√Ęncia da sacerdotisa √© agora recontada, incluindo entrevistas com anjos e Joana D‚ÄôArc. Ela pr√≥pria define como sendo em 1866 o momento de ‚Äúsua gra√ßa‚ÄĚ (ap√≥s a morte de Quimby, naturalmente), de sua revela√ß√£o, quando o Senhor apareceu-lhe diretamente e inspirou-lhe a ‚ÄúCi√™ncia de Cristo‚ÄĚ e as leis divinas da vida. Mary Baker e sua metaf√≠sica entram para o reino do absurdo e nesse movimento lan√ßa as pedras fundamentais de todas as futuras seitas neopentecostais dos s√©culos XX e XXI!

Ela tornar√° a casar-se e seu terceiro marido ser√° um dos disc√≠pulos, agora ap√≥stolos, Gilbert Eddy, em 1887. Apesar de enriquecida, Mary Baker-Eddy sabe que todas as religi√Ķes em seus est√°gios embrion√°rios n√£o podem se permitir cismas, que possuem a possibilidade de destruir todo seu edif√≠cio. Contra todos aqueles que buscam caminhos independentes do seu ela, al√©m da excomunh√£o, move processos na justi√ßa dos homens. Chegar√° mesmo ao ponto de processar um ex-ap√≥stolo por bruxaria, isso quase no s√©culo XX. O juiz encarregado do caso sorri na face daquela mulher magra e grisalha, col√©rica e que mal se cont√©m de √≥dio, aquela que se diz ‚Äúenviada pelo Esp√≠rito Santo‚ÄĚ. O juiz declara-se incapaz de julgamentos cabal√≠sticos e encerra uma de suas dezenas de processos.

A imprensa come√ßa a indagar sobre as origens de tal sacerd√≥cio e o prest√≠gio de Mary Baker-Eddy amea√ßa desmoronar na pequena Lynn. Ela toma uma das grandes decis√Ķes de sua vida. Buscar√° nova cidade grande o bastante para seus projetos. Com todo o dinheiro acumulado ir√° mudar-se para Boston, carregando consigo apenas o marido Gilbert, cuja sa√ļde n√£o resistir√°. A vi√ļva declarar√° que a morte do marido ocorrera devido ao ‚Äúars√™nico metaf√≠sico‚ÄĚ, um veneno mental emitido pelos dem√īnios excomungados por sua f√©.

Em Boston, ela adquire uma resid√™ncia de tr√™s andares, na Avenida Colombo, a mais elegante da cidade. Decora cada ambiente com esmero, quadros e tapetes. Seus alunos ser√£o pessoas ‚Äúrefinadas‚ÄĚ e n√£o mais os pobres de Lynn. Sua nova escola √© nomeada de: ‚ÄúUniversidade Metaf√≠sica de Massachusetts‚ÄĚ, com uma autoriza√ß√£o de funcionamento comprada dos agentes do Estado de Massachusetts. Alguma semelhan√ßa com a ‚ÄúUniversidade‚ÄĚ pentecostal rec√©m aprovada em Bras√≠lia?

Todo domingo Mary Baker-Eddy sobe ao p√ļlpito e o p√ļblico que superlota a sua Universidade-Igreja ret√©m a respira√ß√£o perante sua ardente orat√≥ria. Desde ent√£o sua figura somente ser√° vista em momentos especiais, criando ao redor de si uma aur√©ola de mist√©rio e encantamento. Para evitar os trope√ßos do passado ela erguer√° anteparos que a distanciem de quem foi e de quem √©: ser√£o secret√°rios, atendentes, advogados.

Ela tamb√©m conhece muito bem a Am√©rica de 1890 e sabe que aquele que deseje conquist√°-la dever√° primeiro ganhar a consci√™ncia das massas, com o ensurdecedor ribombar da propaganda. Sabe tamb√©m, como saber√£o todos os futuros l√≠deres das seitas neopentecostais que qualquer produto deve buscar atender seus consumidores, identificar suas necessidades e criar novas. Assim, Mary Baker-Eddy usar√° e abusar√° da publicidade. Cria o primeiro servi√ßo de atendimento telef√īnico-religioso; em seguida, funda o ‚ÄúJornal da Ci√™ncia de Cristo‚ÄĚ, que com asas de merc√ļrio chegar√° a todos os recantos de Norte-Am√©rica, trazendo a boa nova das curas de Boston, um novo m√©todo de ‚Äúmedicina universal‚ÄĚ.

Desde Nova York, Filad√©lfia e New Jersey chegam enfermos, muitos dos quais se tornar√£o ap√≥stolos da nova doutrina. E cada novo ‚Äúdoutor‚ÄĚ trabalhar√° para aumentar as assinaturas do jornal. E, desde ent√£o, novos alunos sempre acorrer√£o a Boston.

A engrenagem funciona a todo vapor. Deste modo, entre 1890 e 1900 teremos trinta e tr√™s ‚ÄúAcademias para doutorado‚ÄĚ na ‚ÄúCi√™ncia de Cristo‚ÄĚ, distribu√≠das por quase todo o territ√≥rio americano. A b√≠blia ‚ÄúCi√™ncia e Sa√ļde‚ÄĚ alcan√ßa a espantosa cifra de trezentos mil exemplares vendidos.

A cobi√ßa de Mary Baker-Eddy n√£o encontra limites e por isso a ‚ÄúCi√™ncia de Cristo‚ÄĚ ser√° organizada dentro das melhores bases comerciais e contar√° com profissionais em √°reas-chave. Logo surgir√£o souvenirs, imagens, fotos autografadas da fundadora, mais e mais livros, folhetos, at√© mesmo utens√≠lios dom√©sticos. Todo o dinheiro das doa√ß√Ķes recolhidas pela Universidade e percentagem das Academias ir√° para a conta banc√°ria de ‚ÄúMother Mary‚ÄĚ; dezenas de milh√Ķes de d√≥lares que ser√£o aplicados na constru√ß√£o de Templos e em espl√™ndidas mans√Ķes de retiro.

O prest√≠gio de Mary Baker-Eddy aumenta dia a dia. A cada apari√ß√£o sua um p√ļblico de dez, quinze mil pessoas aglomeram-se para ouvi-la falar. Em Chicago ela organizar√° sua primeira ‚ÄúFesta do Esp√≠rito‚ÄĚ, em 1888, consagrando-se de vez. Mary assume-se com ‚ÄúA Profetiza‚ÄĚ e decide construir o ‚ÄúTemplo da Profetiza de Cristo‚ÄĚ. √Č sua pr√≥pria santifica√ß√£o!

Em seu discurso ela sempre associa os democratas e socialistas a dem√īnios que buscam povoar a terra e delas expulsar as ovelhas de Deus. Ela, Mary Baker, ser√° sua guardi√£! Assemelha-se com as exorta√ß√Ķes ‚Äúanticomunistas‚ÄĚ dos pregadores de hoje em dia?

Ao abrirem-se as janelas do s√©culo XX, a igreja de Mary Baker-Eddy estar√° entre as quarenta maiores empresas norte-americanas, e uma das dez mais lucrativas. √Č chegada a hora do profissionalismo. Mary Baker define uma organiza√ß√£o absolutamente piramidal de poder e de lucros. Cria um ‚ÄúBoard of Directors‚ÄĚ, do qual ser√° a C.E.O., e todas as centenas de igrejas implantadas ter√£o de manter uma obedi√™ncia irrestrita √† ‚ÄúSanta Madre Igreja‚ÄĚ. Instru√ß√Ķes espec√≠ficas garantem percentagens de reparti√ß√£o dos lucros, m√©todos de contabiliza√ß√£o dos resultados e impedem qualquer tipo de heresia doutrin√°ria. Algu√©m tem d√ļvida a respeito do mestre que realmente inspirou um tipo como Edir Macedo e seu poderos√≠ssimo neg√≥cio da f√©?

Assim como o juiz de Lynn lhe desnudara a hipocrisia e a paranoia pecuni√°ria, agora surgia a voz do jornalista, humorista e intelectual, Mark Twain, desmascarando-a: como Mary Baker dizia que o livro ‚ÄúCi√™ncia e Sa√ļde‚ÄĚ lhe havia sido ditado por Deus, por que ela cobrava direitos autorais sobre algo que s√≥ √† divindade seria devido? E, neste caso, quais as contas banc√°rias de Deus?

Mark Twain jamais a abandonaria em suas cr√≠ticas enquanto ela vivesse. Ele denuncia na imprensa como sendo uma patranha a religi√£o que somente se ocupa em acumular dinheiro para si mesma e para seus pr√≥prios membros, sem jamais preocupar-se em praticar a caridade ou em possuir um m√≠nimo de altru√≠smo. E interroga-se: quando ela se aventuraria pela pol√≠tica? N√£o se faria esperar. Nas elei√ß√Ķes legislativas de princ√≠pios do s√©culo XX, a bancada patrocinada pela Igreja de Baker chegaria a mais de vinte parlamentares. Em nosso pa√≠s a fome dos neopentecostais pelo poder √© inesgot√°vel!

As respostas de Mary Baker-Eddy a quaisquer questionamentos sempre foram de um total cinismo, quando n√£o de c√≥lera. Por exemplo, diz que ‚ÄúDeus ordenara-lhe a cobran√ßa para cada gra√ßa requerida, pois o cordeiro, para obter a gra√ßa, teria que sacrificar-se antes, pagando‚ÄĚ. Hoje¬† n√£o ouvimos essa mesma frase reverberar nos templos da Igreja Mundial?

Apenas e tão somente a vida será capaz de desmistificar aquela grande charlatã: ela envelhece, perde seus dentes, os membros se entorpecem, surge dificuldade de fala e já não escuta o que lhe dizem; os cabelos escasseiam e as rugas se aprofundam. Não é a sua religião que afirmava que a doença e a velhice não existiam?

Mas as propor√ß√Ķes de seus neg√≥cios se haviam tornado colossais. Quando a fundadora completa oitenta anos, sua igreja contava com mais de cem mil disc√≠pulos praticantes; os seus templos de pedra e m√°rmore se disseminavam pela Am√©rica; de toda a Europa surgiam mais e mais ades√Ķes e a fortuna pessoal da ‚ÄúMother‚ÄĚ era estimada em mais de dez milh√Ķes de d√≥lares aos valores da √©poca, ao redor do 2 bilh√Ķes nos valores de hoje.

Aos oitenta e dois anos, Mary Baker-Eddy encara um novo desafio, lan√ßado pelo j√° fundado Templo de Nova York: erguer uma Bas√≠lica muito maior que o templo nova-iorquino para a Congrega√ß√£o das¬† Igrejas! Essa Bas√≠lica, que constitui ainda hoje um dos mais belos edif√≠cios de Boston, foi constru√≠da com doa√ß√Ķes que chegaram a dois milh√Ķes de d√≥lares. Foi inaugurada em 1906 ao som do hino: ‚ÄúPastor, indica-me o caminho‚ÄĚ. Hino modificado, mas sempre repetido pelas novas seitas nos √ļltimos cem anos.

A multimilion√°ria Mary Baker-Eddy morre no auge de sua fama, dona de imenso poder n√£o somente sobre sua religi√£o, mas, tamb√©m, sobre grande parcela dos¬†Congressistas¬†americanos, aos quais bancara elei√ß√Ķes e reelei√ß√Ķes, aos oitenta e nove anos de idade,¬†no ano de 1910.

A senda por Mary Baker-Eddy aberta é disputada nos dias de hoje, por quase dezenove mil seitas, algumas de grande sucesso, utilizando as mesmas bases metafísicas que ela introduziu há mais de um século e que podem ser resumidas na união maquiavélica e perniciosa da religiosidade com o dinheiro, na exploração da crendice popular e na busca pelo poder terreno!

No Brasil, o maior e mais representativo grupo dessa corrente é a Igreja Universal do Reino de Deus, seguida pela Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Renascer em Cristo, a Igreja Mundial do Poder de Deus, a Igreja Apostólica Fonte da Vida, a Igreja Batista Nova Jerusalém, a Igreja Nacional do Senhor Jesus, Comunidade Cristã Paz e Vida e muitas igrejas dissidentes fazem parte ou se aproximam do Protestantismo Apostólico, que aceitam apóstolos, bispos e pastores ou missionários presidentes que norteiam o rumo de suas igrejas no País e pelo mundo. Pregadoras de um evangelismo massivo, o negócio da fé possui ou se utiliza de TVs, rádios, jornais, editoras e, principalmente a chamada mídia social.

Um dos disc√≠pulos de Baker-Eddy na atualidade √© tamb√©m um dos mais pr√≥ximos conselheiros filos√≥ficos e espirituais do Presidente Eleito do Brasil. Trata-se de Olavo de Carvalho, um impostor que se faz passar por fil√≥sofo e astr√≥logo, com resid√™ncia no USA desde 1989. Por exemplo, Olavo de Carvalho criticou nada menos que Isaac Newton, a quem acusa de ter disseminado ‚Äúo v√≠rus da burrice na Terra.‚ÄĚ A cr√≠tica estapaf√ļrdica estende-se ainda a Giordano Bruno, que segundo ele, ‚Äún√£o fez nenhuma descoberta metido que era em magia negra‚ÄĚ, assim como ao pr√≥prio Galileu. T√£o pouco acredita no aquecimento global e desqualifica o potencial perigo da AIDS que intitula ‚Äúdoen√ßa de gays‚ÄĚ, fruto de ‚Äúpropaganda da ind√ļstria farmac√™utica‚ÄĚ. Atualmente empenha-se em projetos como ‚ÄúEscola sem Partido‚ÄĚ, defendendo abertamente a grava√ß√£o de aulas a serem proferidas em escolas. Para ele e seus disc√≠pulos a encana√ß√£o do mal na Terra √© representado pelos comunistas. Interrogados sobre quem seriam os comunistas sua comunica√ß√£o √© perempt√≥ria: todos os que defendem valores que podemos classificar como civilizat√≥rios!

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