A Revolução Cultural Chinesa e os anos 1960/1970 no ocidente.

Atualizado: Abr 28

Em setembro de 1970, The Rolling Stones interromperam seu show em Paris para convidar o um francês, Sergio Julie, ao palco. Ele testemunharia sobre o tremor chamado “Grande Revolução Cultural Proletária”, que varria a China desde 1966.

Havia pouca informação disponível, mas boa parte da juventude e da intelectualidade ocidental, que se opunha aos Estados Unidos na guerra no Vietnã, estava desiludida com o chamado “revisionismo soviético”, mas fascinada com Mao Tsé-tung e com o novo tom “marxista” que ele havia inaugurado.

Jean Paul Sartre mandou imprimir cópias dos principais discursos de Mao, assim como o “Livro Vermelho de Mao”. Michel Foucault buscou inspiração na própria China, daquilo que Sartre chamava de "novas formas de luta de classe no período do capitalismo organizado".

A feminista Julia Kristeva também viajou à China com Roland Barthes. Os movimentos pela liberação feminista abraçavam um das dezenas de slogan de Mao: “mulheres podem construir metade do céu”.

Em 1967, o líder dos Black Panthers, Huey Newton, financiou a compra de munições através da venda de dezenas de cópias do" Livro Vermelho de Mao".

Em 1968, John Lennon desejara uma "revolução" por meios pacíficos. Mas, após, sob a influência do maoísmo disse: "Revolução não é um jantar, nem um ensaio, nem uma pintura, nem um pedaço de bordado... Uma revolução é uma insurreição, um ato de violência pelo qual uma classe derruba outra."

Na mesma linha de pensamento maoista, Jean Paul Sartre fundou e foi o primeiro editor do jornal “Libération” em 1973, chegando a uma tiragem de 1 milhão de exemplares, sendo o mesmo, até hoje, com outra linha editorial publicado em Paris.

Em nosso país, partidos de esquerda sofriam divisões entra alas maoístas e não maoístas! Em toda a América Latina, parcela da esquerda foi influenciada tanto pela Grande Marcha ( que abrira as portas à Revolução Chinesa de 1949, em parte, graças à enorme fronteira comum com a União Soviética), quanto pelo maoísmo militante!


A Revolução Cultural, formalmente a Grande Revolução Cultural Proletária, foi um movimento sociopolítico da República Popular da China, perdurando de 1966 até 1976, quando morre Mao Tsé-tung, o Presidente do Partido Comunista da China (PCC).

Seu objetivo declarado era “preservar” o comunismo chinês, purgando os restos de elementos capitalistas e tradicionais da sociedade chinesa, e impor o “pensamento de Mao Tsé-tung” como a ideologia dominante no PCC.

Não por um acaso, a revolução dita cultural, marcou o retorno de Mao à posição central de poder na China de onde ele estava sendo afastado após os fracassos do “Grande Salto à Frente”, uma cópia maoísta do desenvolvimento industrial a todo custo do, já fracassado, modelo stalinista. O Plano chinês obrigara os camponeses a se juntarem em gigantescas comunas agrícolas e instalara siderúrgicas de tecnologia rudimentar por todo o país.

Mas o único resultado obtido pela campanha "que abriria as portas ao comunismo" foi a desorganização total da economia. Milhões de agricultores morreram de fome.

Pois a Revolução Cultural China nasceu deste estrondoso fracasso do líder Mao Tse-tung e de seu entorno!

Lançado o movimento em 1966, contando com sua liderança pessoal e com a ajuda de parcela do Exército, Mao convocou os jovens a “bombardearem suas escolas e seus chefes”, “a rejeitarem as lideranças dos mais velhos”, proclamando que "rebelar-se é justificado".

Para eliminar seus rivais dentro do PCC e nas universidades, fábricas e instituições governamentais, Mao acusou que elementos burgueses “sempre se infiltram no governo popular e na sociedade com o objetivo permanente de restaurar o capitalismo”!

Ele exigiu que os chamados "revisionistas" fossem removidos de seus postos por meio da violenta luta de classes, à qual os jovens da China, assim como os trabalhadores urbanos, responderam formando Milícias Armadas, os “Guardas Vermelhos” e o “grupos rebeldes" se disseminaram nas cidades e nos campos.

Com isto, aquilo que Stalin realizara décadas atrás com a Polícia do Estado da U.R.S.S. (a KGB), Mao o conseguiu com a utilização de massas ensandecidas, enganadas por slogans, ou oportunistas e invejosas, que passaram a expulsar do poder os revolucionários de 1949, tanto nos governos locais quanto no PCC, estabelecendo os chamados “comitês revolucionários”.

A situação de caos contínuo que se desenvolveu, levou os ditos comitês a se dividirem em facções rivais, envolvendo-se em lutas violentas mais para facções mafiosas, obrigando o Exército Regular a restaurar a ordem.

Mao principiou, diante da total balbúrdia e da fome implantadas, a recuar em 1971. Mas sentiu-se melhor com o culto à sua personalidade e passou a ver em cada recanto um inimigo seu, logo, de todo o seu povo. E persegui-lo até sua aniquilação. Dois terços do membros da alta cúpula do Partido caíram "em desgraça", muitos, eliminados.

A partir de então, o medo e o terror, foram seus maiores aliados!


Mao, poeta e fã do tradicionalismo cultural chinês, não era profundo em nada que não fosse política e jogos de poder; nada entendia de economia política, muito menos de marxismo ou filosofia, mas era excelente em desenvolver palavras de ordens que se propalavam pelas massas. Destas, o general Lin Biao realizou uma compilação que gerou o “Pequeno Livro Vermelho de Mao”, que se tornou um texto sagrado para o culto à personalidade do mesmo, substituindo mesmo toda a clássica literatura marxista-leninista.

Lin Biao, agora vice-presidente do PCC, foi inscrito na Constituição como o sucessor de Mao.


A assim chamada Revolução Cultural danificou a economia e praticamente destruiu a cultura tradicional da China (exceção à medicina tradicional), produzindo um número estimado de mortos variando entre centenas de milhares a até 20 milhões de chineses.

A juventude era estimulada a se rebelar contra o "elitismo, revisionismo e a mentalidade burguesa". As consequências foram dramáticas: filhos denunciavam os pais, estudantes agrediam seus professores e forçavam à suspensão das aulas, chefes torturavam seus subordinados, e em público!

Após o “Agosto Vermelho” de Pequim, massacres ocorreram em toda a China continental, incluindo o de Guangxi e a Mongólia Interior; o massacre de Guangdong, de Yunnan e os de Hunan.

Os milicianos das Guardas Vermelhas destruíram relíquias e artefatos históricos, bem como saquearam locais culturais e religiosos.

Durante o processo, dezenas de milhares de pessoas foram perseguidas: altos funcionários, incluindo o Primeiro Presidente Comunista chinês Liu Shaoqi (1949), que junto com Deng Xiaoping, Peng Dehuai e He Long, foram expurgados, exilados ou executados; outros milhões de cidadãos foram acusados ​​de serem membros das Cinco Categorias Negras (Proprietários; Agricultores ricos camponeses; Contrarrevolucionários; Maus influenciadores e Direitistas), sofrendo humilhação pública, prisão, tortura, trabalho forçado, confisco de propriedade e, às vezes, execução ou suicídio; intelectuais foram considerados o "Nono Velho Fedorento" e foram amplamente perseguidos. Estudiosos e cientistas notáveis ​​como Lao She, Fu Lei, Yao Tongbin e Zhao Jiuzhang foram mortos ou cometeram suicídio.

A derrocada da China maoísta começou a se desenhar em 1971, quando o aliado mais íntimo de Mao, o Marechal Lin Piao, tentou a fuga para a União Soviética. Mas seu avião caiu ainda em solo chinês e ele e toda família pereceram.

O rompimento da barragem Banqiao em 1975, uma das maiores catástrofes tecnológicas do mundo, também ocorreu por incúria, durante a Revolução Cultural.

Escolas e universidades foram fechadas com os exames de admissão cancelados. Mais de 10 milhões de jovens intelectuais urbanos foram enviados aos campos para reeducação.

Em 1976, após sua aproximação com Richard Nixon, Mao morre de morte natural.


Durante o processo de “desmaoização” ocorre um grande expurgo nos quadros do Partido Comunista Chinês e no governo!

Um golpe militar articulado pelo Marechal Ye Jianying derrotou os líderes que haviam se articulado para substituir Mao Tsé-tung em nome da Revolução Cultural, cuja líder era a esposa de Mao, Jiang Qing, em conjunto com a “Camarilha dos Quatro de Xangai” (os chamados "radicais").

Em 1978, Deng Xiaoping se tornou o novo líder supremo da China e deu início ao programa "Boluan Fanzheng", que significa literalmente "eliminar o caos e voltar ao normal", o qual desmantelou gradualmente as políticas maoístas e trouxe o país de volta à ordem.

Deng, então, deu início a uma nova fase da China, o início ao histórico programa de Reformas e Abertura que a transformaria na Segunda Grande Potência Mundial, no século XXI.

Em 1981, o Partido Comunista da China declarou que a Revolução Cultural foi "responsável pelo revés mais severo e pelas perdas mais pesadas sofridas pelo Partido, pelo País e pelo povo desde a fundação da República Popular”:

"A história mostrou que a Revolução Cultural, laborando em erro e capitalizada por classes contrarrevolucionárias, levou à comoção interna e trouxe a catástrofe para o Partido, para o Estado e para todo o povo". (PCC)


No entanto, jamais como ocorrera na U.R.S.S. com a figura de Stalin, o mito chamado Mao Tse-tung nunca foi desconstruído!

Na Praça da Paz Celestial em Pequim, segue sua enorme fotografia a reinar ao lado da de Deng Xiaoping.


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