Carlos Marighella, o poeta jurado de todos os rebeldes destemidos!

Algum predador poderia tê-lo visto desembarcar na calada da noite ou farejado seu corpo que se esgueirava pelo caminho que conduzia ao Tempo, naquela noite de quatro de novembro de 1969. O homem desconfiado, precavido, alerta, caminhava com esforço. Vinha do sul e também do norte, do oeste e também do leste, de todas as direções, de sua Pátria que fora desde sempre toda a Terra.

Quando se deteve frente a mim, percebi que a cada passo dado as feridas cicatrizavam; as unhas, ao tocarem o tampo da mesa onde eu estava, recompunham-se. A respiração ofegante sossegava.  Os lábios sorriam para mim num sorrir franco.

Ele todo irradiava a felicidade que se tem ao chegar a um porto seguro. Olhou-me e notei seus olhos duros da decisão e ternos no mirar, que naquele momento não expressavam medo ou amargura, tristeza ou dor. Um olhar onde a pureza e a transparência se abrigavam, num arder como eu nunca havia visto outro igual.

Intuí que, finalmente, no Tempo onde aportara, era lhe concedido o direito ao repouso, a salvo dos predadores tão universais. Predadores que inúmeras vezes o atacaram, com ferocidade inaudita. Agora, para o recém-chegado, a corrida e o labor haviam chegado ao fim.

Era o homem que escolhera ter na vida a obrigação exclusiva de sonhar e lutar para tornar suas utopias realidades, para que outros homens compartissem do mesmo sonho. Homens que dos próprios devaneios retiravam o alimento único para a alma combalida, conduzida a tremendos embates.

Sentei-me a seu lado. O que passaria por trás dos olhos fechados dos quais eu não conseguia despregar os meus? Num instante descortinei uma fileira de outros homens, livres de todas as amarras caminhando de mãos entrelaçadas pela senda sem fim da vida, entregues à aventura do existir, do compartir, desfrutando de uma experiência coletiva, de um gozar, de um amar que é o viver, o sofrer e o morrer.

E a esse projeto mágico dedicara-se desde todo o sempre o espírito daquele que repousava ao meu lado, que desesperadamente buscara por iguais em todo o universo, seres libertos para compartirem, juntos, sonhos imortalizados.

E a cada sonho, ele e seus companheiros de viagem combateram forças muito superiores às suas, que os destruíam, que os matavam, esquartejavam, mas que jamais os impediam de tornar a reviver, de se multiplicarem em outros corpos num sonhar coletivo.

De uma forma lenta e cuidadosa, fui caminhando para dentro de seu universo até sentir-me incluído em seu sonhar. Percebi, então, que ele também me penetrava, e ambos nos descortinávamos no mais íntimo de nossa intimidade. E nesse instante vi seu olhar emergir como a luz que surge resplandecente na aurora; compreendera que não sonhava mais só, não havia nenhum segredo a nos separar, num ápice do seguir irmanado.

Expressei-lhe meu desejo de que me desse um nome pelo qual pudesse chamá-lo. Ele que já tivera diversos, os próprios e os emprestados. Possuo tantos nomes, mas se sentir que isto lhe seja importante, chame-me Carlos Marighella, Ramón, Menezes, o que importa?

Dei-me conta que o leve acinzentado de sua pele desaparecia, transformando-se em branco, depois na cor mulata de Carlos, numa tez que adquiria todos os matizes de humanidade. Ele agigantara-se ao estender-me a mão que apertei nas minhas. Seu porte avolumado levou-me a percebê-lo numa dimensão superior a todos os seres que eu conhecera.

Vamos, meu amigo, precisamos seguir, disse-me baixinho. Mas não faça ruídos, não tropece, permaneça bem junto a mim, pois nos sonhos como na vida muitos são os caminhos e os descaminhos, os vãos e desvios pelos quais podemos deixar escapar nossa alma. E segui o meu guia, atentamente, em silêncio.

Percorremos um longo corredor onde tudo era escuro, silêncio, ausência, num caminho repleto de portas fechadas, onde umas poucas se abriam ao nosso passar. Ao final de um tempo sem tempo, aquilo que parecia ser uma senda infinita abriu-se como que por um passe de mágica numa clareira luminosa e o ar puro trouxe-nos o perfume de todas as flores e o som da água cristalina a correr num rio da Memória. Não foram necessárias palavras, eu sabia que chegáramos ao lugar que ele desejava encontrar.

Pressentidas presenças, percebi que não estávamos mais sós. Espectros, sombras, foram adquirindo formas e aproximavam-se de nós. Carlos colocou uma mão em meu ombro, amparando-me sem que houvesse necessidade.

De uma Sombra ouvi, talvez em forma de poema, “Nossos atos são os nossos anjos bons e maus a andarem ao nosso lado”. E, antes de afastar-se, dissolvendo-se no éter, a sombra ainda sussurrou: “Nós somos essa matéria de que se fabricam os sonhos, e nossas vidas efêmeras têm por acabamento o sono”.

Carlos, então, parando disse-me: “Não existem no mundo dos poetas nem relatos e nem poemas imparciais, porque cada qual vê o mundo de seu próprio modo. Eu sou parte desta sombra, como de todas as que lutaram o bom combate do conhecer a si mesmo, do deslumbrar os limites de cada individualidade, tornando o homem livre das correntes que o escravizam às tradições, aos preconceitos e aos outros homens. Creia-me, sempre a humanidade necessitou e necessitará de uma luz, de um sinal que a conduza no sentido inverso da animalidade, pois “se as estrelas se acendem é porque alguém precisa delas, é porque, em verdade, é indispensável que sobre todos os tetos, cada noite, uma única estrela, pelo menos, se alumie””.

Pressenti uma nova Sombra a aproximar-se. Um suave e agreste perfume de gerânios a acompanhava, e num instante, pude senti-la amável, doce, e se fosse permitido a um espectro sorrir e abraçar-nos, esse o faria com certeza: “Aqui temos só a sombra e a morte, mas lá longe, do outro lado da montanha, o sol ainda irá se levantar sobre um mundo novo! Lá, além da planície, sempre o solo estremecerá sob os passos inumeráveis de homens impávidos e livres.”

“Saibam vocês, homens, amados e não amados, conhecidos e desconhecidos, que desfila por esse pórtico um vasto cortejo, o homem livre de que lhes falo virá, acreditem, acreditem-me!”

Ao afastar-se de nós ainda tentei retardá-la, inútil. Disse-me, então, Carlos: “Eu renasci muitas vezes, desde o fundo das estrelas derrotadas, reconstruindo o fio das eternidades que povoei com as minhas mãos”. Se agora devo morrer, que a terra cubra com carinho o meu corpo, ele que é destinado a ser terra. Aqueles que sonharam, agiram e viveram como nós, ah, esses sempre souberam que outros viriam após eles, trazidos por tantas vozes do passado, desde o começo dos tempos quando os homens compartiram os mesmos ideais, aqueles do homem livre!

E ainda prosseguiu. Devo a essas sombras, aos meus iguais, tudo o que sou e fui neste mundo. A eles pertence o crédito pela fraternidade para com quem eu não conheço, e a liberdade que desconhece o egoísta. Elas me ensinaram com o fogo da alma a acender a labareda da bondade, e a possuir a retidão de espírito de que necessita uma rocha, como um farol que precisa luzir para referenciar tantos barcos à deriva. Com elas também aprendi a entender o que une e distancia os homens, a sofrer por todos os que morreram para que outros iguais a eles tivessem o direito de viver e de melhorar seus mundos. Que a vitória de um, nada mais pode ser que o avanço do coletivo, de todos. E é assim, nessa escola de compreender e ensinar que surgimos os homens livres, em todos os tempos, no Tempo.

Ao se afastar, Marighella ainda me pegou pelo braço e caminhamos um pouco mais pelos campos floridos que a cada momento se desvirginavam. Confidenciou-me: “Foram ainda as sombras que me ensinaram a ver a luz, que o mundo pode ser claro e digno, desde que o direito de sonhar permaneça e seja exercido pelos homens. Igualmente com elas aprendi que se o sonho e a utopia por algum acaso morressem, o mundo se transformaria num lugar inóspito, fétido, onde os predadores em sua maldade e os administradores e gerentes de negócios com seu egoísmo perverso transformariam o viver em escravidão, o belo em feio, o claro em escuro”.

Disse-me ainda: “Meus inimigos são os mesmos adversários de morte de todos aqueles que se libertam das amarras da escravidão.  Essa matilha humana acanalhada emporcalha, infesta o mundo e trata de torná-lo brutal à sua imagem e semelhança. Com estes malditos predadores não se pode permitir complacência e nem o luxo do perdão, pois eles nunca se redimem e nem se transformam, mas sim, multiplicam-se, misturam-se e se camuflam para melhor explorarem e escravizarem a humanidade. Ao seu toque conseguem conspurcar o que de melhor existe em cada ser”.

Quando havíamos percorrido quase todo o corredor, nos deparamos, num último quinhão de parede, com uma escrita esmaecida pelos anos:

“Coragem ainda, meu irmão ou minha irmã! Segue em frente – a Liberdade não será submetida, aconteça o que acontecer. Não se trata de algo que será suprimido em virtude de falhas, que são sempre humanas, ou pela indiferença ou ingratidão das pessoas, ou por traição. Ou ainda pela demonstração dos dentes do poder, soldados, canhões, tribunais. Aquilo em que cremos nos aguarda latente para sempre em todos os continentes, não convida ninguém, nada promete, desconhece o medo. Espera paciente o seu tempo.”

“Não são canções apenas de lealdade, mas gritos de insurreição também, pois que sou o poeta jurado de todos os rebeldes destemidos no mundo inteiro, aquele que arrisca a vida que pode ser aniquilada a qualquer tempo. O infiel, o traidor, supõe que triunfa: prisão, cadafalso, algemas, colar de ferro e balas de chumbo fazem seu trabalho. Os heróis conhecidos e os milhões de anônimos pertencem a outras esferas. Mesmo na derrota, a causa permanece dormente, e enquanto as mais poderosas gargantas estão engasgadas no próprio sangue, os jovens levantam suas pestanas na direção do céu. A Liberdade não perdeu o seu lugar e nem o dominador obteve e nem obterá a sua vitória!”

As Sombras: Primeira, W. Shakespeare. Segunda, S. Maiakovski. Terceira, Nietzsche.Escrita na parede: Valter Whitman.

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