Conrad, criador de “O Coração das Trevas” no Congo Belga, anteviu o Brasil do negro Moïse.

Após cobrar atraso de salário, o congolês Moïse Kabamgabe foi espancado até a morte por cinco homens. Policiais metropolitanos, que estavam na proximidade se negaram a intervir no vil assassinato que durou vinte longos minutos.

A política carioca investiga a morte de Moïse, aparentemente com o mesmo denodo que utilizou no assassinato de Marielle Franco; nega-se a caracterizar, identificar e autuar o provável mandante do assassinato, um simples militar proprietário do quiosque. “A polícia militar sé veio depois de 20 ou 40 minutos”, afirmou o irmão da vítima.

A família saiu da África, em 2014, lutando contra a guerra e a fome. Encontrou o massacre em terras brasileiras. Agora sofre ameaças de vida por policiais-milicianos fardados.


Joseph Conrad (1857- 1924) foi um escritor britânico de origem polaca. Viveu no mar a juventude e parte da maturidade e, por isso, em 1890, no comando do navio “SS Roi de Belges”, participou da exploração colonial da bacia do Rio Congo. De sua vivência e revolta nasceu “O Coração das Trevas”.

O horror da barbárie destrói o mundo exclusivamente pela ganância imediata, sem nada construir. Os agentes coloniais são pessoas transformadas em robôs que destroem a Natureza, suas florestas, seus animais e que escravizam povoações nativas pelo medo, pelo terrorismo e pela fome.

Importa que estes agentes sejam pessoas ocas, tão banais, tão “ninguéns” que um dedo possa penetrar?

As verdadeiras trevas são as daqueles que perderam o coração, os fascistas, os imperialistas, seus traficantes e seus agentes. No peito de cada um deles, se encontram apenas interesses ignóbeis da destruição, lucro a qualquer custo.


O “Estado Livre do Congo” foi um reino privado, propriedade pessoal de Leopoldo II da Bélgica. Apenas trinta anos dessa exploração (1870 a 1900), fez de Leopoldo II uma das maiores fortunas da Europa. Ao mesmo tempo, a população do Congo que em 1850 era estimada em vinte milhões de seres humanos, reduzira-se a oito milhões, mortos pela fome, doenças trazidas pelos brancos, exaustão no trabalho e massacres. O rebanho de elefantes caçados pelo seu marfim foi, nesse período, reduzido a um terço.

“O Coração das Trevas” é um berro contra a exploração colonial, o escravagismo, o racismo e o genocídio. E todo o empenho literário de um dos maiores romancistas ingleses, teve este direcionamento.

André Gide escreveu sobre “O Coração das Trevas”: “É um livro magistral! Nele não sabemos o que admirar mais: o tema horroroso, a construção, a audácia de realizar uma empresa tão árdua ou o sábio argumento. ”

A arte é a verdade que emociona, comentou nosso poeta Ferreira Gullar. Pois “O Coração das Trevas” emociona todo espírito que se revolta contra a submissão da humanidade a interesses mercantis e financeiros.

Revolta a todos que vêm os massacres quase cotidianos a que são submetidos negros e negras, pobres no Rio de Janeiro, o novo Congo brasileiro, quer pela ação das polícias, das milícias suas coirmãs, do narcotráfico. Da justiça, muitas vezes conivente, o que esperar?

Revolta a todos o covarde e brutal assassinato do negro congolês!


O filósofo Sir Bertrand Russell, que conheceu Conrad depois de sua chegada à Inglaterra, tinha verdadeiro fascínio pelo livro e por seu autor (o grau de amizade e admiração foi tal que Russell batizou um de seus filhos com o nome "Conrad").

Disse Russell: “O Coração das Trevas”, publicado em 1902, instiga pela temática, pelas circunstâncias históricas e sociais que ilumina e, sobretudo, pela denúncia do nível de barbárie que pode ser cometida pelas nações e por pessoas ditas “civilizadas”, quando guiadas pelas ambições políticas e comerciais.

O cenário é o estuário do rio Congo, (atual Zaire). Conrad rompe com o naturalismo e o realismo para atingir o modernismo em sua narrativa que busca envolver o “ouvinte” leitor, diluindo e universalizando a perplexidade e o horror, buscando construir a solidariedade que “entrelaça a solidão de incontáveis corações, solidariedade nos sonhos, na utopia, na alegoria, no sofrimento”.

A Europa branca penetra no coração do continente negro, sob a bandeira “da modernidade e o Verbo Divino”, a serem levados a um povo num estágio primordial de civilização. Na verdade, “os europeus inventaram uma Sociedade Internacional para a Eliminação dos Costumes Selvagens”, simplesmente para explora-los e destruí-los. Assim se expressou Conrad no princípio do século passado.

“Eles não eram colonizadores coisa nenhuma; a expansão de suas propriedades era pura extorsão, nada mais. Eram conquistadores e para isso basta a força bruta- bandos armados- nada de que se gabar quando se tem, já que a força é um mero acidente que resulta da fraqueza de outros”...

“Eles agarravam o que podiam. Era apenas um assalto com violência, assassinato em larga escala e homens entrando naquilo às cegas- como convém a quem lida com as trevas”. “A conquista de terras significa em grande medida tirá-la de quem tem a cor da pele diferente. ” É quando “a dança festiva da morte e do comércio prosseguem numa atmosfera serena e natural, como a de uma catacumba superaquecida. ”

Na construção de uma ferrovia, os belgas utilizavam negros considerados criminosos. “Eram seis negros que avançavam em fila galgando penosamente a trilha. Equilibravam cestos de terra nas cabeças e eram interligados por correntes que ligavam os colares de ferro nos pescoços. Um “renegado negro” conduzia-os segurando um fuzil. Era um demônio forte, vigoroso, de olhos injetados que conduzia homens. ”

Sempre os capitalistas contam com “negros ou mestiços renegados” para suas ações mais sujas. Isto não foi uma verdade somente para o Congo. É absolutamente presente neste nosso Brasil, em tempos de trevas de um Bolsonaro, suas gangues e suas milícias!


“Outros estavam morrendo aos poucos; não eram inimigos, criminosos, nada além de sombras negras de doença e inanição, jazendo em confusão na penumbra esverdeada, trazidos de todos os recessos da costa, com toda a legalidade de contratos temporários e largados em ambientes insalubres, mal alimentados. Quando ficavam imprestáveis obtinham autorização para se arrastar para longe e morrer”.

Conrad coloca a necessidade de buscarmos entender o próximo, e na aurora do século XX a diversidade do modo de expressão humana dos sentimentos, num leque de culturas diferentes.

E que lição incrível nos deixa:

“Eles uivavam, pulavam e rodopiavam e faziam caretas medonhas; mas o que apavorava era exatamente a consciência da humanidade deles, a ideia de seu parentesco remoto com essa gritaria selvagem e impetuosa. Sim, para nosso padrão estético era feio, mas se você fosse homem o bastante admitiria que existiriam em si mesmo traços tênues de repercussão à terrível franqueza daquele barulho. E por que não? A mente humana é capaz de tudo, porque tudo está nela, todo o passado e todo o futuro. E o que havia em toda a gritaria? Alegria, medo, pena, devoção, coragem, ira? A verdade, quando despida de seu manto de tempo. Para isso o homem “civilizado” precisa ser tão humano quanto o da margem do rio. ”


A fome acomete sempre os povos escravizados pelo colonialismo ou pelo neoliberalismo do presente: “Nenhum medo pode se sobrepor à fome, nenhuma paciência pode saciá-la... Conhecem a perversidade da fome persistente, seu tormento exasperante, seus pensamentos soturnos, sua ferocidade sombria à espreita? Um homem necessita de toda a sua força inata para combater a fome”.

“Das profundezas da selva emergiu um gemido de pavor lamurioso e de desespero absoluto como o que acompanharia a perda da derradeira esperança sobre a terra. ”

Mas a capacidade de o ser humano revoltar-se quando submetido “a uma tristeza extrema pode se desafogar em violência, mas, infelizmente, com frequência, ela toma a forma de apatia”.

Conrad define precisamente o momento de apatia que acomete nossos desgraçados brasileiros acometidos pela fome, pela violência, pelas pregações imbecilizantes do evangelismo monetarista, pela degradação de suas vidas!


Francis F. Coppola encontrou em “O Coração das Trevas” a possibilidade ímpar de adequação para as telas dos cinemas. Seu genial filme “Apocalypse Now” é uma aclimatação em tempos de Guerra do Vietnã, com Marlon Brando na inigualável interpretação do “gerente belgo-colonial” Kurtz, agora transformado em agente americano que se oculta na selva asiática.


Se fosse possível expressar todo “O Coração das Trevas” em um único parágrafo, poderíamos dizer que: “Destino, coisa engraçada é a vida. Esse misterioso arranjo de lógica para um objetivo fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento para si próprio e que chega sempre tarde demais, numa cadeia interminável de arrependimentos. ”


Retornemos, entretanto, ao massacre de Moïse Kabamgabe. O que resta aos negros e não negros, pobres, favelados ou expulsos para as ruas das grandes cidades? O que resta senão a revolta? Quando o exemplo dos negros norte-americanos, que exigiram nas ruas a punição do assassinato de um Georg Floyd, chegará ao Brasil?

Ou, como bem frisou Conrad, que a capacidade de o ser humano se revoltar quando submetido “a uma tristeza extrema”... com frequência, infelizmente, ela toma a forma de apatia”? É isto o que vivemos?


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