Crime e Castigo: o primeiro romance absolutamente moderno.

Atualizado: 10 de Jun de 2019

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‚ÄúCrime e Castigo‚ÄĚ, a obra mais famosa de Dostoi√©vski, √© ao mesmo tempo um dos romances mais bem escritos de toda literatura mundial. Marcel Proust ao escrever que todos os romances desse escritor poderiam ser denominados de ‚Äúcrimes e castigos‚ÄĚ, prestou um tributo √†quele que √© um marco na formata√ß√£o do pensamento moderno.

Quando o romance genial ainda era t√£o somente anota√ß√Ķes, desenhos, um plano, Dostoi√©vski enviou a um editor uma carta oferecendo-lhe a venda antecipada dos direitos autorais. Nela encontramos uma resenha do futuro romance:

‚ÄúSer√° o estudo psicol√≥gico sobre um crime. Um romance da vida contempor√Ęnea‚Ķ Por sua instabilidade mental, um jovem ex-universit√°rio, completamente sem dinheiro, fica obcecado por essas ideias amalucadas que est√£o no ar. Resolve fazer alguma coisa que o livre imediatamente da situa√ß√£o desesperadora. Decide matar uma velha agiota. A velha √© est√ļpida, gananciosa, surda e doente, pessoa sem maior valor, cuja exist√™ncia √© aparentemente injustific√°vel, etc.. Todas essas considera√ß√Ķes desequilibram o rapaz‚Ķ Praticado o crime ele n√£o se torna suspeito, n√£o seria poss√≠vel que suspeitassem dele, e √© aqui que todo o processo psicol√≥gico do ato se desenvolve. De repente, o assassino se v√™ frente a frente com problemas insol√ļveis e sensa√ß√Ķes inauditas come√ßam a atorment√°-lo. O pr√≥prio assassino resolve aceitar o castigo para espiar a sua culpa‚ÄĚ.

‚ÄúFarei a narra√ß√£o do ponto de vista do autor, uma esp√©cie de ser invis√≠vel, por√©m onisciente, que jamais abandonar√° o her√≥i‚Ķ O narrador observar√° tudo do ponto de vista de Raskholnikov, reagir√° a tudo o que ele fala e pensa, sem deixar de v√™-lo do ponto de vista do mundo exterior‚ÄĚ.

O romance foi aclimatado na moderna Petersburgo da segunda metade do s√©culo XIX, cidade onde proliferam seres estranhos, os muros das ruas e das paredes das casas se dissolvem em vis√Ķes terr√≠veis, ‚Äúuma cidade de gente desequilibrada, cheia de influ√™ncias sombrias, cru√©is e estranhas‚ÄĚ.

Pela pena implac√°vel de Dostoi√©vski desfilar√° a vida miser√°vel que prolifera nos espa√ßos p√ļblicos e corti√ßos escuros, induzindo o her√≥i do livro a um ‚Äúestado psicol√≥gico extremo‚ÄĚ. Raskholnikov perambula refletindo que ‚Äúmesmo a magnific√™ncia (de Petersburgo) √© a encarna√ß√£o de algum esp√≠rito vazio e morto‚ÄĚ.

Pois se a cidade mais ocidentalizada da R√ļssia √© um lugar de doen√ßas e febres, suic√≠dios e mortes s√ļbitas, acidentes de ruas e brigas violentas, repleta de gente humilhada e ofendida, tamb√©m √© o lugar em que brota a revolta na juventude, assim como ideias novas e incendi√°rias.

Raskholnikov origina-se do termo ‚Äúraskholnik‚ÄĚ, uma pessoa cindida, dissidente. Como um intelectual moderno, o personagem central explora a liberdade de um mundo que perdeu ra√≠zes, onde a injusti√ßa √© a t√īnica e a sociedade √© um lugar de sofrimento universal. Ele acredita na ‚Äúideia napole√īnica‚ÄĚ do indiv√≠duo que influi na hist√≥ria do mundo, no homem excepcional cujos poderes lhe conferem o direito de cometer qualquer ato que se justifique no futuro.

Raskholnikov √©, no dizer de Porfiri, o juiz de instru√ß√£o do caso, ‚Äúum caso t√≠pico de nossa √©poca, em que o cora√ß√£o dos homens torna-se imundo. Temos aqui sonhos intelectuais, um cora√ß√£o exacerbado por teorias‚ÄĚ.

‚ÄúCrime e Castigo‚ÄĚ se divide em seis partes e um ep√≠logo. O crime √© cometido logo na primeira, e as se√ß√Ķes subsequentes abordam o castigo, que por sua vez √© essencialmente um processo de crise psicol√≥gica e de autoacusa√ß√£o, que culminar√° na confiss√£o do criminoso, primeiramente em privado, depois na pol√≠cia.

Raskholnikov, no princ√≠pio da narrativa, est√° encerrado em seu quarto que fica embaixo de uma escada. Ele tem o h√°bito de ficar na cama ‚Äúpensando um mar de absurdos‚ÄĚ. Acaba alheando-se de tudo e de todos, n√£o deseja mais ver ningu√©m, nem mesmo a filha da senhoria que andara cortejando por estar atrasado no pagamento do aluguel.

Despreza todos os que n√£o ousam uma ‚Äúpalavra nova, uma atitude nova‚ÄĚ. Ele mesmo n√£o sabe ainda bem o que deseja fazer. ‚ÄúFosse o que fosse era preciso tomar uma decis√£o ou renunciar completamente √† vida. Aceitar o destino docilmente tal como √©, de uma vez para sempre, abafar tudo no meu √≠ntimo, o que significa renunciar a todo o direito √† a√ß√£o, a viver, a amar.‚ÄĚ

Os acontecimentos terminam por fazerem parte de seu estado m√≥rbido e alucinat√≥rio, misto de repulsa, terror, ang√ļstia e autoconfian√ßa. Visita uma velha agiota, deixa algo penhorado e sai. Entra em um bar. Ao sair conhecer√° Marmieladov, um ex-funcion√°rio p√ļblico destru√≠do pela bebida. Nos olhos desse homem brilham num misto de intelig√™ncia e loucura.¬†Diz, ambiguamente, que se acalma com a bebida. ‚Äú√Č por isso que bebo, porque na bebida encontro o sofrimento‚Ķ bebo porque quero sofrer em dobro‚Ķ n√£o √© de alegrias que tenho sede, mas de tristezas.‚ÄĚ

A hist√≥ria familiar que Marmieladov conta √© tr√°gica: a fam√≠lia toda entra em decl√≠nio por sua degrada√ß√£o no √°lcool: S√īnia, sua filha, prostitui-se para sustento da m√£e, de uma irm√£ aleijada e dele pr√≥prio. Raskholnikov antev√™ no alco√≥latra uma faceta de si pr√≥prio, dele se apieda e o leva para casa de c√īmodos onde conhece S√īnia, sua futura confidente e amparo.

O livro segue no mesmo ritmo de ac√ļmulo de mis√©rias humanas que cercam Raskholnikov e lhe atormentam o esp√≠rito. Sua irm√£ Dunia √© perseguida pelo ex-patr√£o, o cruel e insaci√°vel Svidrigailov, que deseja seduzi-la.

Dunia, tanto quanto S√īnia, busca o sacrif√≠cio por amor a seus familiares: a irm√£ de Raskholnikov resolve casar-se com um pretensioso senhor autorit√°rio, Luznin, a quem despreza, mas deseja o seu dinheiro para sustentar o irm√£o na ilus√£o dos futuros frutos de seus propalados estudos. No fundo, o casamento com Luznin √© a reprodu√ß√£o socialmente aceit√°vel da prostitui√ß√£o a que se submete a filha de Marmiedalov.

Tudo se articula para que a mente do jovem busque ‚Äúalguma solu√ß√£o imediata‚ÄĚ. A situa√ß√£o √© trabalhada por Dostoi√©vski na forma de um terr√≠vel sonho que o jovem tem: um mujique a√ßoita um cavalo que n√£o consegue andar na lama, principia a tortura pelos olhos do animal at√© mat√°-lo a chibatadas. Nosso psic√≥logo assinala: ‚ÄúNum estado doentio os sonhos costumam distinguir-se pelo seu extraordin√°rio colorido e clareza e pela estranha semelhan√ßa com a realidade.‚ÄĚ

Chegamos agora √† tremenda cena do crime. Depois que Raskholnikov mata a velha agiota, a irm√£ desta, Lisavieta, uma semi-idiota, retorna da rua e ele tamb√©m a assassina. ‚ÄúQuando chegou a hora, tudo aconteceu como ele n√£o tinha previsto, assim como por acidente, quase inesperadamente‚ÄĚ, nos diz o narrador.

Ap√≥s o assassinato, Raskholnikov transforma-se num amontoado de contradi√ß√Ķes, febres, sentimentos de ira, sonhos e alucina√ß√Ķes, considerando-se ora um ser heroico, ora um verme. O leitor √© envolvido √† medida que o assassino vai tra√ßando um c√≠rculo ao redor de si mesmo, sendo ele pr√≥prio seu pr√≥prio ca√ßador.

A investiga√ß√£o do duplo assassinato √© conduzida pelo juiz Porfiri, outra das imortais cria√ß√Ķes do romance. Porfiri √© uma figura absolutamente extraordin√°ria, um interrogador moderno, um psic√≥logo ao n√≠vel de um assassino tamb√©m da modernidade.

S√≥ ao final do romance saberemos que o juiz suspeitava do assassino antes mesmo que o ato fosse perpetrado, pois lera em jornal uma cr√īnica em que o jovem Raskholnikov dizia que ‚Äúum homem excepcional tem o direito de cometer grandes crimes a favor da Hist√≥ria e da humanidade‚ÄĚ.¬† Ele exige que este descubra o seu pr√≥prio castigo atrav√©s da confiss√£o.

‚ÄúEsperei por voc√™ com impaci√™ncia, pois toda essa maldita psicologia √© uma faca de dois gumes‚ÄĚ. O crime, o juiz diz, foi psicol√≥gico. O roubo praticado jamais seria encontrado pela pol√≠cia, pois o assassino jamais tocara em seus valores. Escondera-o e somente voltaria a busc√°-lo para confessar o crime √†s autoridades.

A purgação do crime, seu castigo e a busca da redenção é um longo processo que o assassino deve assumir. Começa logo após o ato criminoso com os pesadelos que passa a ter. A partir dai, visita a cena do crime e o comenta com amigos. No seu inconsciente deseja que o culpem pelo assassinato.

Restam dois caminhos: a independ√™ncia arrogante ou o arrependimento humilde. No primeiro estar√° em companhia do c√≠nico Svidrigailov, que, no passado, matara a pr√≥pria esposa por dinheiro, ‚Äúnum desespero c√≠nico‚ÄĚ. Svidrigailov, aquele que considera o bem id√™ntico ao mal, num √ļltimo ato teatral entrega todo seu dinheiro √† S√īnia e suicida-se. No segundo, √© a trilha que conduz a S√īnia, a filha de Marmieladov, ‚Äúa esperan√ßa mais irrealiz√°vel‚ÄĚ.

Raskholnikov buscar√° o caminho indicado por S√īnia, a meiga e compreensiva testemunha da primeira confiss√£o do jovem. S√īnia lenta e pacientemente mostra-lhe que a reden√ß√£o passa pela confiss√£o p√ļblica do crime, por se ajoelhar e beijar o ch√£o pelo qual passa a humanidade, da qual ele se considerava um ser superior. Ser√° essa maravilhosa mulher quem entrar√° com Raskholnikov na delegacia de pol√≠cia e que, depois da condena√ß√£o judicial, o acompanhar√° aos trabalhos for√ßados na Sib√©ria, e tomar√° conta n√£o somente daquele que ama, como de todos os demais companheiros de infort√ļnio que estejam pr√≥ximos.

No exílio siberiano, expresso no epílogo do romance, mantém-se todo o clima de crise psicológica. Raskholnikov se crê com a consciência livre dos crimes, mas ainda mantém sonhos alucinados como os de uma peste que levará a humanidade à crença de que a libertação depende apenas dos próprios homens! Conserva seu orgulho intelectual e nega-se a ler com sua protetora uma passagem bíblica: a do renascimento de Lázaro.

‚ÄúCrime e Castigo‚ÄĚ n√£o √© um romance totalmente concluso. Dostoi√©vski encerra propositalmente o livro afirmando que ‚ÄúRaskholnikov ter√° que encontrar a regenera√ß√£o em outro local, numa outra realidade, at√© ent√£o por ele desconhecida‚ÄĚ, quem sabe, em outro mundo?

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