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Marcel Proust

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De Drummond a um Bruxo: Machado de Assis.

Sempre às voltas com livros e papéis, Machado de Assis foi apelidado pelos vizinhos de bruxo; conta-se que queimava cartas e velharias em um caldeirão aos fundos de sua casa, na Rua Cosme Velho, n.18. O apelido foi ficando, mas só pegou de vez quando Carlos Drummond de Andrade fez o poema “A um bruxo, com amor”, uma espécie de conversa cantada em versos.

O poeta é o visitante. Machado, o visitado. O visitante vai entrando, não faz perguntas e para que perguntar? E nós nos juntamos à visita, tentando desvendar nos versos do poeta modernista as referências às escritas explícitas ou implícitas do Bruxo, decifrando a rede de alusões sutis ou declamadas a determinados romances, contos, poemas ou crônicas, onde os fios que tecem as personagens deixam na urdidura a marca da ironia, da ambiguidade e do desencanto.

“Em certa casa da Rua Cosme Velho

(que se abre no vazio)

venho visitar-te; e me recebes na sala trajestada com simplicidade,

onde pensamentos idos e vividos

perdem o amarelo, de novo interrogando o céu e a noite”.

Drummond é recebido numa “sala trastejada com simplicidade”, mobiliada com simplicidade, termo arcaico, inscrito em “Quincas Borba”. O ambiente é de calma e recolhimento, a interioridade buscada em “Memorial de Aires” está presente. Nesta sala conviveram em harmonia Joaquim Maria e Carolina, de “onde pensamentos idos e vividos” nos traz o famoso soneto ‘A Carolina’, escrito pelo saudoso viúvo como prólogo das “Relíquias da Casa Velha”.

Casa Velha “que se abre no vazio”, pois é atemporal. Os escritos e vivências cantados que no perpétuo interrogar do céu e da noite perdem o amarelo que o tempo costuma impregnar.

“Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.

Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,

uma luz que não vem de parte alguma

pois todos os castiçais estão apagados”.

No conto “Viver”, Ahasverus, o judeu errante, é interpelado por Prometeu através das palavras com as quais Drummond inicia a segunda estrofe: “outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro”. Ora, para aquele que leu da vida o livro inteiro, a luz não precisa vir de parte alguma, todos os castiçais, podem ser apagados. E o ter lido da vida todo o livro gera o “cansaço nos gestos”, incubadora da descrença machadiana nos homens, sociedade, seu tempo.

“Contas a meia voz maneiras de amar e de compor os ministérios

e deitá-los abaixo, entre malinas e bruxelas.

Conheces a fundo a geologia moral dos Lobo Neves

e essa espécie de olhos derramados

que não foram feitos para ciumentos”.

Relações entre amor e sexo, entre política e corrupção, o conto “Primas de Sapucaia” traz. Os ministérios do Império que se desfazem, entre malinas e bruxelas, simples rendas ornamentais usadas em travesseiros. Ministérios, estruturas feitas para serem instáveis; ora conservadores, ora liberais, distintos apenas na aparência e nos ornamentos, idênticos em seu âmago, ornamentos para um jogo político exclusivo da elite.

Os Lobo Neves, personagens que nos conduzem às “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, assim como à matéria de que são feitos os políticos, muito mais atentos à opinião pública e às carreiras que a sentimentos e auto respeito. O poder para os Lobos Neves vale mais que o amor, que relações, amigos. Aliás, estes existem na medida em que possam servir àqueles.

Os políticos podem se dar ao luxo de terem mulheres com os olhos derramados de Virgília, esposa de Lobo Neves, olhos para maridos não picados pelo ciúme, apenas pela conveniência.

“E ficas mirando o ratinho meio cadáver

com a polida e minuciosa curiosidade

de quem saboreia por tabela

o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.

Olhas para a guerra, o murro, a facada

como para uma simples quebra da monotonia universal

e tens no rosto antigo uma expressão a que não acho nome certo

(das sensações do mundo a mais sutil):

volúpia do aborrecimento? Ou, grande lascivo, do nada?”

O humor negro de um verdadeiro Bruxo que nos sobressalta em determinados contos e romances. Os prazeres mórbidos de Fortunato com um pobre rato aprisionado em “A Causa Secreta”. Fortunato que se da conta da paixão velada do médico Garcia, seu amigo, por Maria Luísa, sua esposa. O sadismo que a dor alheia proporciona Fortunato quer no rato dissecado vivo, quer no deleite da impossibilidade de união entre os amantes.

Do sadismo privado ao prazer provocado pela dor que se publicita nas guerras, mas também no murro e na facada, a quebra da monotonia universal se dando pela violência. Para o Bruxo nada do que seja humano o surpreende! Nem guerra, nem murro, nem facada!

Os versos que concluem a estrofe são parcelas do ‘Delírio’ de “Brás Cubas”, num diálogo entre o Sonhador e a Natureza, mãe e inimiga do ser humano que é “o grande lascivo do nada”.

“O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,

e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,

tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,

mostra que os homens morreram.

A terra está nua deles.

Contudo, em longe recanto, a ramagem começa a sussurrar alguma coisa,

que não se estende logo

parece a canção das manhãs novas”

O “antídoto Silvestre da Silva”, em “Coração, cabeça, estômago”, tal qual o ‘Emplasto Brás Cubas’, ajudam a tratar o mal do século, a melancolia! Pois ademais da sala da casa do Cosme Velho, o outro suporte existencial, o Tempo, é marcado pelo “som do relógio, lento, igual e seco”, que se sincroniza com a cordialidade fria do anfitrião.

E, afinal, a distância objetiva entre o tempo do poeta que visita e o tempo do Bruxo é rompida, pois esse mesmo relógio marca tanto o tempo de agora quanto o tempo passado, naquilo que fora passado também para o anfitrião, “o tempo da Stoltz (famosa cantora lírica da juventude do Bruxo) e do gabinete Paraná ( Ministério de 1853)”.

Para o poeta-visitante o relógio é transcendente, não mais um objeto, mas testemunha das duas dimensões fundamentais do tempo e da existência humana: o passado e o presente.

Mas o passado recheado por mortes, sem dúvida, logo, contrasta com a vida sempre a renascer “em longe recanto/ a ramagem começa a sussurrar alguma coisa”, no tempo.

“Bem a distingo, ronda clara: É Flora,

com olhos dotados de um mover particular

ente mavioso e pensativo;

Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);

Virgília, cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;

Mariana, que os tem redondos e namorados;

e Sancha, de olhos intimativos;

e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,

o mar que fala a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina;

e das chinelinhas de alcova de Conceição.

A todas decifrastes íris e braços

e delas disseste a razão última e refolhada

moça, flor mulher flor, canção de mulher nova...”

Agora o poeta moderno faz desfilar a galeria das mais conhecidas personagens femininas do realismo machadiano.

Olhos e braços, neles o Bruxo foi fixado, deles extraiu a fisiognomia que nos traceja os caráteres. Olhos “compridos”, “agudos”, “sabedores”, “convidativos”. Braços “alvos”, “longos”, “expostos”, através deles, o que interessa é a percepção da alma.

Ora são olhos de uma mulher faceira, mas honesta, que eram como “a lanterna de uma hospedaria em que não houvesse cômodos para hóspedes”.

Ora o olhar dúbio de ressaca de Capitu, em “Dom Casmurro”, ou o olhar frio de Fidélia , no “Memorial”, “como a esconder algo de si mesma”; o ainda o olhar coquete de Marcela, em “Brás Cubas”.

As mulheres de Machado, em todas as suas fases, são objetivas e possuem força de caráter. É esse caráter que transpira pelos olhos e braços desnudos.

O poeta inicia nos trazendo Flora, personagem de “Esaú e Jacó”, exuberante e pródiga até no amor. Ela vive uma dúvida extrema ama dois gêmeos, Paulo e Pedro, um republicano, outro, monarquista. Flora definha e morre sem escolher nenhum dos dois, afinal o que os distinguia?

A seguir, Marcela, a espanhola alegre, que se delicia nos presentes dos amantes, “a rir com expressão cândida (e outra coisa)”, primeira amante de Brás Cubas, “... Marcela amou-me durante quinze meses e 11 contos de réis; nada menos”.

Retorna Virgília ao poema, moça que namorou Brás Cubas, casou-se com Lobo Neves e, mulher, acabou traindo-o com Brás durante muitos anos, “olhos que dão a sensação singular de luz úmida”, numa fonte que nunca seca.

Surge Mariana do conto “Capítulo dos Chapéus”, alma boa, pacata, ordeira, aceita e se integra à ordem paternalista. Dela, pobre espírito, jamais se ouvirá um senão, somente aceitação.

E Sancha “de olhos intimativos”, grande amiga e parceira de Capitu, esposa de Escobar – aquele por quem Bentinho acredita ter sido traído em “Dom Casmurro”. Os olhos de Capitu, grandes e “abertos como a vaga do mar lá fora”.

Mas, nos perguntamos quem teria traído quem? Escobar e Capitu ou Bentinho em relação homossexual com o amigo Escobar? "Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão; um padre que estava com eles não gostou." Isto nos tempos de colégio. Por que não teríamos uma versão antecipada de “Pilades e Orestes”?

Agora vez de Severina, do conto “Uns Braços”, a mulher de braços nus que provoca a paixão de um adolescente e o seduz e Conceição, personagem de a “Missa do Galo”, aquela que conhecedora das traições do marido nada fazia, pois estas mulheres existem e estão por todos os lados. Mas “a todas decifraste íris e braços”.

“E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe),

o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica

entre loucos que riem de ser loucos

e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.”

Quem é esta mulher que dissimula e insinua, que leva os homens à loucura “entre loucos que riem de ser loucos, e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram”? O poeta se apodera da própria sátira ambígua do Bruxo: o que se ouve não é mais do que “o turvo grunhir dos porcos”, remédio para loucos e ciumentos.

“O eflúvio da manhã,

quem o pede ao crepúsculo da tarde?

Uma presença, o clarineta, vai pé ante pé procurar o remédio,

mas haverá remédio para existir, senão existir?

E, para os dias mais ásperos, além da cocaína moral dos bons livros?

Que crimes cometemos além de viver, e porventura o de amar

não se sabe a quem, mas amar?”

Brás Cubas em suas memórias post mortem, após sentir um misto de dor e prazer com a partida da amante, discorre sobre o enterro de seus amores fartando-se com um bom almoço. Afinal, assim é a vida e haverá algum remédio para “o existir, que não seja o próprio existir?”

Em “A Xícara de Café” no “Dom Casmurro”, Bentinho, num primeiro impulso suicida envenena o próprio café, mas se lembra do historiador Catão, que antes de se matar leu e releu um livro de Platão, motivo pelo qual remete “à cocaína moral dos bons livros”. O episódio logo a seguir tem a intuição homicida, no café quase entregue ao filho, afinal, “que crime cometemos além de viver/ e porventura o de amar/ não se sabe a quem, mas amar?”

Nesse ponto retornamos ao “O Delírio” e à lição que Pandora oferece a Brás Cubas: “Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.”

“Todos cemitérios se parecem,

e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida

apalpa o mármore da verdade, a descobrir a fenda necessária;

onde o diabo joga dama com o destino,

estás sempre aí, Bruxo alusivo e zombeteiro,

que resolves em mim tantos enigmas”.

Estamos na crônica intitulada “O Velho Senado”. Machado afirma, que “todos os cemitérios se parecem”. Sim, todos eles se parecem ao nos acolherem, ao Bruxo, primeiro, ao poeta depois, e a mim, nalgum dia. O cemitério congrega ao eternizar o que a vida e o tempo separaram, mas nosso criar jamais residirá em nenhum deles.

Machado não “pousa” em cemitério, mas vive naquele espaço “onde o diabo joga dama com o destino”, como uma espécie de “Bruxo alusivo e zombeteiro”, porque seus atributos e inquietudes o fizeram grande demais!

“Um som remoto e brando

rompe em meio a embriões e ruínas,

eternas exéquias e aleluias eternas,

e chega ao despistamento de teu pencenê.

O estribeiro Oblivion bate à porta e chama ao espetáculo

promovido para divertir o planeta Saturno. Dás volta à chave,

envolves-te na capa,

e qual novo Ariel, sem mais resposta,

sais pela janela, dissolves-te no ar”.

Concluímos a nossa saudação. Vem das “Memórias póstumas de Brás Cubas”, o capítulo “Oblivion”, isto é, o Esquecimento: o narrador envelhecido despede-se de Eros e justifica tanto a mudança quanto o envelhecimento das coisas e dos seres como tarefa de “Oblivion”, para divertir o planeta Saturno, símbolo eternal da melancolia.

Os últimos versos da estrofe remetem à peça teatral “A Tempestade”, e ao gênio dos ares, Ariel, escravo de Próspero, de outro Bruxo, de Shakespeare. Drummond afirma: Machado de Assis também é capaz de se dissolver no ar, assim como a metáfora da visita se eclipsa aos hóspedes da ilusão, personagens criados por um Bruxo que residiu na Rua do Cosme Velho, trazidas pela deusa Mnemósine, a mãe de todas as memórias, de todas as Musas, dádivas de Zeus.

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