Delírio e realidade em Hitler e em seu êmulo, Bolsonaro.

Assim que chegou ao poder, Hitler se dedicava arduamente aos projetos de reconstrução de uma nova Berlim e esses projetos eram jogos com que se entretinha em tempos de paz. Fazia-o ao mesmo tempo em que desenvolvia seu plano de destruição e conquista do mundo. Passo a passo, de sucesso em sucesso, todas as suas atitudes revelavam a extensão e a seriedade dos dois propósitos. Sem guerra, qualquer um deles seria impensável, na medida em que a destruição da civilização fazia parte de seus cálculos desde o início.

O III Reich só poderia operar por meio do terror e, portanto, tinha de correr sangue muito sangue. Aquele confronto, que sacrificou mais de 70 milhões de vidas, nos obriga a investigar de todas as maneiras possíveis a súbita radicalização da história e assim se pode contemplar o surgimento de um Hitler.

Quase um século após, um Bolsonaro, um medíocre deputado envolvido com milícias foi tornado Presidente, daquela que já foi a sexta potência mundial! É impossível dar as costas a tudo com a aversão e nojo, como seria natural.

Nos anos 1920, qual o historiador que poderia predizer um Hitler? Nos anos 2000, qual um Bolsonaro? Sociólogos e políticos o melhor que poderiam ter feito seriam advertir-nos sobre uma realidade de um fascismo nascente.

As construções de Hitler destinavam-se a atrair e reter as grandes massas. Ele chegou ao poder pela engendramento de tais massas, mas sabia também com facilidade elas se inclinam para a desagregação. À exceção da guerra só existem dois meios de reagir a esta desagregação das massas: um é o seu crescimento permanente, o outro sua repetição regular. Empirista das massas com poucos, Hitler conhece suas formas tanto quanto seus meios.

O sentimento de guerra permanente, de lutas contra outros povos, outras raças, minorias, tanto para Hitler quanto para seu êmulo tupiniquim, são fundamentais de serem estimulados, pois são agregadores de massas.

Os locais enormes, abertos, tão grandes quanto o Estádio de Munique, que dificilmente podem ser preenchidos pela multidão; neles são dados à massa a possibilidade de crescer e sua paixão e seu fanatismo, que é o que importa a Hitler, aumentam de acordo com seu crescimento. Tudo o mais que contribui para a formação de tais massas como bandeiras, (no nosso caso, bandeiras e as camisetas dos boleiros), música, unidades perfilando-se como em desfiles, procissões e paradas militares, eram bastante conhecidos por Hitler. Assim como para seu êmulo.

Bolsonaro tenta ampliar sua base social nos cultos evangélicos. Hitler também tinha um projeto para uma basílica capaz de abrigar uma massa dezessete vezes maior que a de São Pedro!

É que o delírio da superação se liga à ilusão de continuar crescendo!

Vitória, vitória! Se há uma fatalidade que estava acima de todas as outras é acreditar na Vitória. Os alemães que caíam pelos campos de batalha ou que se deixavam vencer passam a não ser mais o seu povo e ele lhes subtrai sem maiores cerimônias o direito à Vida. Os alemães que se mostraram mais fracos, deles não se deve ter pena, “deseja lhes a ruína que merecem”. Se tivessem continuado a vencer seria outro povo aos seus olhos. Não o impressiona que muitos ainda acreditem nele, embora suas cidades estejam em ruínas e praticamente nada os protejam dos ataques aéreos e terrestres dos inimigos, cada vez mais poderosos.

Sua decadência física ao longo das últimas semanas em Berlim, em seu bunker, não é senão a contração de seu poder. Pois o corpo do paranoico é o seu poder; cresce ou encolhe de acordo com este!

Hitler ordena que os frangalhos do Exército alemão morram lutando. Sobre si mesmo, diz a Speer: “Não vou lutar... não quero os inimigos maltratem meu corpo. Dei ordem para que me incinerem.”

É impressionante a indiferença de Hitler pelo destino de seu povo, cuja expansão e grandeza afirmava ser o verdadeiro sentido, o propósito e o conteúdo de sua vida. Afirmou a Speer, seu Ministro de Armamento:

“Se perder a guerra também o povo estará perdido. Não é preciso preocupar-se com as bases materiais de que o povo precisa para a sobrevivência primitiva. Pelo contrário, é melhor destruir essas coisas, pois o povo alemão se mostrou o mais fraco, e o futuro pertence exclusivamente ao povo oriental, o mais forte. De todo modo, o que resta depois desta luta são os inferiores, os bons tombaram.”

Na indiferença de Hitler por seu povo provavelmente inexiste exemplo comparável. De qualquer modo, o que resta depois dessa luta, os inferiores. Os bons tombaram!

No Brasil de Bolsonaro, “o que se pode fazer, todos morreremos um dia, taok?” Afinal, “somos um país de maricas”, logo, derrotados. Ele despreza os quase 170 mil mortos pela pandemia! Deseja que esta massa de vencidos cresça!

Naquela época as pessoas eram educadas, precisamente por Hitler, a ver a máxima virtude na obediência cega de suas ordens. Não havia nenhum valor acima deste: a destruição de todos os valores, estabelecidos num longo espaço de tempo e reconhecidos como uma espécie de bem comum da humanidade, fora alcançada com incrível rapidez. Este também é o sonho de um Bolsonaro cercado por militares incompetentes e políticos corruptos.


Tanto em Hitler quanto em Bolsonaro, delírio e realidade são difíceis de serem separados, pois se interpenetram ininterruptamente.

Em Hitler, a diferença reside na força de seus delírios, que, ao contrário do que ocorre com seu êmulo, não se contenta com pequenas satisfações. Fechado em si mesmo, seu delírio lhe é primordial e Hitler não está disposto a sacrificá-lo um mínimo que seja. Tudo que se apresenta na realidade é relacionado ao delírio. O conteúdo deste é de tal natureza que só pode ser alimentado por uma coisa: êxitos!

O fracasso não pode propriamente abalá-lo, mas tem a única função de instigar novas receitas que levem ao sucesso. Ele vê na imperturbabilidade de seu delírio sua própria solidez.

Seu delírio é de tal índole que, necessariamente, deve impingi-lo ao mundo que o cerca!

O poder, que se alimenta das massas, é um poder em estado bruto e, embora cresça rapidamente, não é este que ele na verdade Hitler deseja: seu delírio exige o poder político absoluto do Estado! Uma vez alcançado, pode atacar seriamente a realidade. Nisto se afasta radicalmente de Bolsonaro, pois Hitler é perfeitamente capaz de distingui-la de seu delírio. Já Bolsonaro que em seu delírio tentou fechar o STF, arrebentar o Congresso, estabelecer a censura, ignorou a realidade da pandemia em que vivemos, se dissociou da ciência, sem ter o adequado suporte de massas! Tentou e tenta destruir todas as instituições da República através do “gabinete do ódio”, do whatsap, e do terror imposto por polícias militares e milicianos disseminados pelo país.

Acontece que nos paranoicos com poder, o senso de realidade, reside exclusivamente no exercício do poder! Eles empregam este poder para impingir, paulatinamente, o conteúdo de seu delírio àqueles que o cercam, seus meros instrumentos.

Enquanto tudo correr bem, é impossível, e também indesejável para estes, que reconheçam o verdadeiro caráter dessa estrutura em que se incluem e da qual participam. Hoje no Brasil, mais de três mil militares, na verdade, buscam uma forte mesada suplementar no empoderamento junto ao paranoide, num Estado que caminha junto com o país para uma ruína semelhante a do III Reich.

Na Alemanha, apenas com os fracassos começa a se tornar mais nitidamente visível a intransigência irremovível, o caráter de delírio. Amplia-se então o abismo entre delírio e a realidade, e a firmeza da crença de Hitler em si mesmo em sua época de felicidade, revela-se agora a infelicidade da Alemanha, da mesma forma que desde o início fora a infelicidade do resto do mundo.

Quase um século após, seu êmulo brasileiro sente rapidamente o peso de seus fracassos, mas em seus delírios ainda sonha com milhões de mortos pela Covid 19 e com a convulsão social que dela pode advir, permitindo-lhe o total abocanhamento do poder através de milícias e forças militares!

No caso do mestre, Hitler, este insiste no seu direito de fazer previsões. Só ele e a mais ninguém é permitido predizer o que acontecerá. O acerto de suas previsões foi suficientemente comprovado nas primeiras invasões. A realidade futura a ele pertence e ele a inclui em sua esfera de poder. Encara as advertências como obstáculos a seu futuro: elas o irritam mesmo que partam dos mais qualificados de seus auxiliares. Rechaça-as como uma espécie de insubordinação.

Suas previsões assumem para ele o caráter de ordens que dita ao futuro. A clarividência, de que compartilham em igual medida o paranoico e o detentor do Poder, começa a revelar seu caráter delirante. Fora-lhe útil na avaliação dos inimigos: pode perceber suas intenções quando ainda estavam totalmente ocultas. Agora, porém, ao final da guerra, com a Alemanha destruída, quando se vê acuado, revela-se quão falsa a clarividência pode ser. Por exemplo, muito tempo Hitler considerara o desembarque na Normandia um embuste. Para ele, o verdadeiro desembarque deveria se dar em Calais. As medidas que toma contra o inimigo são determinadas por essa falsa clarividência, da qual nada pode dissuadi-lo e a qual inabalavelmente se aferra, até que seja tarde demais.

Viveremos com seu êmulo, Bolsonaro, o mesmo destino da Alemanha nazista? Possui a Pátria ainda alguma força para barrar seu delírio paranoide que nos levará ao caos?


Bibliografia:

1. Speer, Albert (1970). Por Dentro do III Reich.

2. Canetti, Elias. A consciência das palavras.

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