Dostoievski, os tormentos da alma e os mistérios do subconsciente.

O conjunto da vastíssima obra de Dostoievski é tão atual quanto o possam ser os tormentos da alma e os escaninhos de nosso subconsciente.

De alguma forma a ele foi dado, como a poucos, o conhecimento do coração humano, cujas veleidades mais ocultas e mais criminosas são postas a nu nos seus personagens. E isto Dostoievski realizou encarnando tanto a própria alma e suas doenças físicas, quanto expondo as chagas da pobreza e da vilania mais infamante que quase sempre o envolveu.

Dizia Merejkovski: “Ao lermos Dostoievski nos deparamos com nossos próprios pensamentos ocultos, aqueles que não confessaríamos nem a um amigo e nem a nós mesmos... porque contêm uma arrepiante revelação: a revelação das profundezas da consciência, os mistérios do subconsciente”.

Nietzsche, que jamais ocultou o quanto bebeu em Dostoievski, chamava-o mesmo de “aquele meu mestre, com seu profundo e criminoso rosto de santo... possuidor da grandeza religiosa dos amaldiçoados, do gênio como doença e da doença como gênio, do tipo atormentado e possesso, no qual o santo e o criminoso são um só…”.


A arte de Dostoievski não se direciona a todos os tipos de leitores. Ela se volta basicamente para espíritos que sejam ansiosos, que vivam sob as tensões existenciais paralelas àquelas dos personagens, ou, dito de outra forma, somente para leitores capazes de vivenciarem as paixões que chegam até eles pela literatura. E estes, ao descobrirem-no, sentirão que seus romances agem de uma maneira hipnotizadora e catártica sobre si próprios.

“Com uma volúpia consciente, diabólica, Dostoievski retarda o momento em que seremos conquistados, levando-nos ao paroxismo da angústia interior”, sublinha Zweig.

Ao iniciamos a leitura de qualquer de seus livros, deparamo-nos com um escritor que em meia dúzia de frases descreve todo o ambiente onde o enredo se desenvolverá. Vestuários, mobiliário e praticamente todo o espaço dedicado por outros à natureza, é aqui ocupado pela humanidade, tudo estará repleto do humano, daquilo que é profundamente humano. O ambiente apenas fornece uma base material restrita para que os personagens nele se locomovam.

Por outro lado, provável herança de Balzac a quem idolatrava, Dostoievski buscava nas características e expressões faciais e corporais a identificação de determinados aspectos do caráter e do estado de alma dos personagens e, graças a este recurso, cada um deles se torna, uma vez vivenciado, inconfundível para toda a vida do leitor!


Acontece que todos os personagens de Dostoievski são impalpáveis, compostos quase que exclusivamente por espírito. Todas as suas atividades fisiológicas como comer, beber, dormir, são desenvolvidas tendo como referência o significado na ação espiritual do drama, no desenvolvimento das paixões que eles encarnam.

São personagens que se envolvem em controvérsias incessantes, onde cada qual alcança uma espécie de auto emulação, ansiando por interpretar a não somente a si mesmos, quanto a todos os outros personagens, ao mundo e, até mesmo a Deus. E nas paixões transmitidas pela fala de cada personagem encontraremos toda a essência de sua própria existência, no fundo, aspectos de nossa existência.

Essas paixões, nos ensina Bakhtin, se desenvolvem quando o autor ultrapassa a ideia do diálogo e chega ao que ele denomina de multivocalismo ou polifonia.

“Após Shakespeare, talvez Dostoievski seja o maior e mais polifônico de todos os dramaturgos”.

E Bakhtin vai além. Esses personagens, frutos das paixões, não têm uma clara identidade unitária e, neste sentido, a visão de mundo do escritor torna-se um espaço controverso, contraditório e sem unidade, despedaçado. As paradas, as repetições, o gaguejar no narrar são indispensáveis, porque “debaixo dessa palavra que falhou, existe uma vibração, uma comoção secreta, e nós saberemos não somente o que uma personagem discursa, mas também o que dissimula”.

A própria sensualidade amorosa, por ser paixão, nunca nele é um sentimento doce, terno e harmonioso; pelo contrário, muitas vezes ela é uma tentação monstruosa que, ao invés de conduzir à felicidade, leva à loucura e à ruína da personalidade. Sofre-se por tudo isso muitas vezes ao mesmo tempo, e serão as dores e os sofrimentos que resgatarão do mal e do pecado cada um de seus personagens. A catarse de Dostoievski só é alcançada através da dor e da “confissão”, que leva através da humilhação à purificação da alma..


Quanto ao estilo, Dostoievski é essencialmente um romântico trágico. E este sombrio metafísico nos transmite a impressão de que escrevia seus livros como se fossem peças teatrais, onde durante a noite desenhava a estrutura essencial do diálogo e, durante o dia, ao ditá-los para a estenografia, expandia as direções de cena.

Pois tal e qual no teatro trágico, nos momentos em que suas “personnas” ultrapassam suas medidas transformam-se em seres “possuídos”, o que no descrever de Zweig, “quando extravasam seus sentimentos já incandescentes, é quando desnudam toda a verdade da alma”.

De todo modo, os mundos de Dostoievski são esferas de dor, onde todos sofrem quer na doença, quer na miséria, quer nas injustiças sofridas, ou em decorrência das paixões e de seus desencontros consigo mesmos e com a realidade.

Seus romances são dramas colossais, cênicos em quase toda a sua estrutura; neles, as ações são compactadas em uns poucos dias. Em “Os Irmãos Karamazovi”, até o julgamento de Dmitri, tudo se passa em apenas cinco dias; a primeira parte e a mais volumosa de “O Idiota”, em 24 horas e “Crime e Castigo”, numa semana.


A religiosidade e o conceito de liberdade em Dostoievski.

“Cuidando essencialmente do homem e da finalidade de sua existência sobre a Terra, procurando desvendar os motivos e as consequências ocultas de todos os nossos atos, ansiando perpetuamente por resolver o secular problema do determinismo e do livre-arbítrio, fundamentando toda a sua obra na discussão metafísica do problema da liberdade, Dostoievski fundou uma antropologia, que é, antes de tudo, uma gnose”. Esta definição de Wilson Martins equaciona um dos aspectos essenciais de Dostoievski como um escritor religioso, para quem Cristo sempre está presente, mesmo quando nem é pressentido na narração.

Acontece que esta é a imagem de Cristo profundamente ortodoxa e eslavófila. Trata-se de um Cristo destituído da liturgia e encarado única e exclusivamente como homem, como o homem em sua perfeição. E é neste sentido, que Ele simboliza a Verdade oferecendo a nós, mortais, a verdadeira Liberdade, na fórmula de uma liberdade final.

Pois em Dostoievski, tanto a liberdade quanto o bem e o mal sempre estão presentes, mas estes possuem quase que exclusivamente um aspecto metafísico nunca se manifestando do ponto de vista político.

A liberdade inicial sempre carrega limites necessários, e cabe ao homem posicionar-se por seu livre-arbítrio; quando esta liberdade não reconhece limites e se dá como valor absoluto, ela é destruidora e abre as portas ao niilismo, ao orgulho e ao individualismo, que a tudo nega e corrompe.

E entre o bem e o mal, na afirmação da liberdade, os sentimentos tornam-se complexos, instáveis, os homens se confundem, atropelam-se e se combatem com extremado vigor.

Zweig observou que, por isso tudo, “a alma em Dostoievski é um puro caos; pois bem, encontramos ora bêbados por desejo de pureza, ora criminosos por desejo de arrependimento, ora homens que violam virgens por respeito pela inocência, ora blasfemos por necessidade religiosa”.

Ainda Zweig assinala que, na ausência de unidade nesse psiquismo humano, o que subsiste é uma psicologia analítica que dissocia e desfibrila. Como comparação literária nos diz que se em Homero, “Ulisses é esperto, Aquiles, corajoso, Ajax, irascível e Nestor é prudente”, em Dostoievski todos os personagens são ambíguos e suas condutas são imprevisíveis.


Messianismo e conservadorismo.

Se a fé dostoievskiana em Cristo é o referencial onde aportarão todos os anseios de máxima humanidade, a crença em Deus é muito problemática.

Seus personagens confessam, por exemplo, que Deus torturou-os a vida inteira, o que simboliza o conflito persistente entre a razão do autor a negar um porto seguro e sua sensibilidade a afirmar a necessidade deste porto, local onde se abrigaria a pureza, o amor e a paz.

Esta dúvida atroz empurra Dostoievski para o abrigo de um Cristo que se torna russo, e é da Rússia que ele crê que surgirá a salvação para toda a humanidade!

Somente o povo russo possuiria a capacidade de compreender os outros povos e por isso seria até mesmo necessário “que todos os homens se tornem russos”. Nesse sentido, ler Dostoievski significa penetrar no universo de um grande nacionalista, onde o próprio destino da humanidade passa pelo destino de seu povo.

Esse messianismo, na verdade, constitui uma nova ambiguidade: se Dostoievski chega a desprezar as influências ocidentais, racionalistas, democratas e socializantes em pró de um novo eslavismo, a preferir a ordem à luta pela liberdade política, por outro lado, ele jamais se aliou aos poderosos, em nenhum momento frequentou os aristocratas, sempre se revoltou contra aqueles que atacassem os “humilhados e ofendidos”, ou seja, a infinita maioria do povo russo.

Na verdade, a visão de mundo de Dostoievski condena os germes de uma revolução social que já fermentavam em terra russa, na medida em que ele presume que qualquer revolução que se fizesse contra a autocracia russa redundaria em uma nova autocracia russa, ocorrendo apenas uma mudança de senhores. O povo permaneceria reduzido à servidão, na situação de rebanho. Prevê que, em nome de uma futura felicidade social, o princípio religioso também seria sacrificado e, novos crimes, praticados.


Sem dúvida, Fiodor Dostoievski era um conservador, mas um conservador de talhe profundamente humanista. Ele propugna pela dignidade do ser humano, pelo amor ao próximo, pela fraternidade universal, expressando como ninguém o sentimento de com- paixão pelos fracos e oprimidos e pela redenção dos degradados sociais. Da mesma forma, satiriza e ridiculariza como ninguém as vaidades, a corrupção social e a mediocridade das altas rodas.

Segundo André Gide, Dostoievski “tem sempre qualquer coisa para desagradar a todos os partidos” e na mesma linguagem do século XX, a todas as correntes ideológicas.

Extraído do livro de minha autoria "Textos e Contextos de Dostoievski à Geração Sacrificada".

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