Ego sum qui sum: uma ironia sobre a morte

“Desculpai-me se meus discursos vos entediam. Os velhos, quando começam a tagarelar, são insuportáveis”, dizia o mestre Cagliostro, na palavra do conde de Saint- Germain. Ele sabia melhor que ninguém que, quando um homem vive muito, ele se dá conta de que, no fundo, o mundo é monótono, os homens não aprendem nada e recaem a cada geração nos mesmos erros e horrores; os acontecimentos não se repetem, mas se assemelham.

Existe, entretanto, algo exclusivo, que por ser exclusivo da natureza humana, nos torna sempre diferentes, um atributo que não compartilhamos nem com os anjos e nem com os animais: a capacidade de ser cômico, de rir, travestindo-nos de “homo ridens”. Somos a única espécie vivente que sorri, brinca, joga, porque não sendo imortais, disso possuímos a mais plena ciência. Para Cagliostro, o cômico e o humorístico talvez sejam os modos pelos quais o homem tenta tornar aceitável a ideia insuportável da morte, arquitetando pelo riso a única vingança que lhe é possível contra o destino ou os deuses que o querem mortal.Somos os únicos a sabermos que a morte trabalha conosco no mundo, ao nosso lado e que quando morremos, já que perdemos o mundo, perdemos também a morte. Se existimos é porque podemos e vamos morrer. A morte é sempre o nosso extremo e quem dispõe dela dispõe extremamente de si, ensina-nos Blanchot. Afinal, quando se morre, perde-se a possibilidade de morrer.Campanile relata um cumprimento inesperado em sua obra: “Como vai?”, pergunta-lhe um amigo e, ao invés do conveniente “vai-se vivendo”, a resposta que ouve é: “vai-se morrendo”. Por se tratar de um autor cômico e funéreo, suas páginas buscam de modo obsessivo o problema da morte. Vale a pena revivê-lo e provarmos de sua ironia, pois embora se saiba com certeza que todos temos que morrer, mesmo assim, ficamos sempre surpresos com o fenômeno.Quem vai ao funeral de um amigo ou de um parente tem, no fundo, a ideia de que está tratando de uma coisa que não lhe diz respeito pessoalmente. Ao visitarmos uma família atingida pelo luto, enquanto o finado ainda encontra-se no velório, vemos pessoas estupefatas, como se tivesse acontecido algum fato estranhíssimo. Todos se agitam, todos demonstram o quanto se está despreparado para a coisa. Sejam os parentes, sejam os amigos, ou simples conhecidos. Os visitantes pronunciam frases que, mesmo que escutadas com benevolência, é inevitável que sejam definidas como insensatas. Afinal, não podem ver uma só lágrima, que já ordenam: “Não chore! Prometa que não vai chorar…” Mas por quê? Há algum mal em que alguém chore? Quanto aos parentes, estes repetem frases desprovidas de sentido comum: “Não deveria morrer”, “Quem poderia imaginar? Quando estava no melhor da existência…” e outras assertivas que somente seriam admissíveis caso o fenômeno da morte estivesse se apresentando pela primeira vez no mundo.Surpresa pela morte? A surpresa seria lógica se, em vez da notícia de que o amigo morreu, tivessem recebido- como um raio em céu sereno- a notícia de que o amigo não morrerá jamais, por toda a eternidade. Somente nesse caso as frases pronunciadas nas ocasiões da morte seriam apropriadas: “Não poderia imaginar! Quem poderia pensar? Ainda não posso crer…”Somente o morto entendeu a situação e ficou com a alma em paz. Enquanto havia vida, existia esperança. Por um fio de esperança o agora defunto se agitou, fez gestos descompostos, disse palavras insensatas. Mas agora, não mais. Está tranquilíssimo. E o único que, com desenvoltura, sabe fazer a sua parte nesta sala de velório! Está morto há poucas horas e já se mostra cheio da prática dessas coisas. Para quem o venha ver, está lá em seu caixão, cheio de flores, deitado como sobre um leito, vestido com boa roupa após o asseio de um banho; mal o vemos e já assumiu aquele aspecto impenetrável, aquela palidez inverossímil, aquela frieza característica.Já os vivos se agitam como peixes fora d’água demonstrando que foram pegos de surpresa e revelando um despreparo deplorável. No morto, nenhuma surpresa. Dir-se-ia que não fez na vida outra coisa senão morrer. Olhem para ele estendido em seu caixão. Não se move há horas, não se vira para ninguém, não faz comentários. Mas como, se há tão pouco tempo parecia que ele jamais poderia se afastar dessas pessoas e dessas coisas que o circundam, e, principalmente, desligar-se de todos os seus pertences?Será possível que já tenha conseguido ficar com a alma em paz? Uma coisa é certa. O defunto não se ocupa nem de nada e nem de ninguém, aliás, nem de si mesmo. Que façam o que bem quiserem; vistam-no ou dispam-no, fechem-no nessa caixa, enterrem-no ou enviem-no a um crematório. Mostra-se completamente desinteressado. E se insistirem em deixá-lo ali, há de ficar. Querem rezar? Rezem. Querem chorar? Que chorem. Ele está ali parado e deixa que tudo aconteça. Tranquilíssimo. Mas onde terá aprendido fazer-se de tão morto e tão bem? E não é uma questão de cultura, ou de idade ou de outra coisa. Os pobres sabem fazê-lo tanto quanto os ricos, o ignorante assume o mesmo aspecto que o intelectual. Jovens ou velhos, eles permanecem na idêntica imobilidade, com a mesma ausência, tenham eles sido de esquerda, de direita ou de centro, isso já nada importa.Porém que achado constitui a morte! O maior dos romancistas ou o teatrólogo mais engenhoso não saberia imaginar uma solução tão genial. Há situações que parecem ser irremediáveis, emaranhados inextrincáveis, embrulhos que nunca se consegue desfazer. Doenças que prolongam o sofrer por anos, todos padecem, esgotam-se as reservas familiares. Chega, então, a morte e resolve tudo, colocando as coisas nos seus lugares, removendo as situações ou as dissolvendo, permitindo o recomeçar do início, abrindo as portas para a vida. Ela tem um objetivo: restabelece a paz do ponto de vista do poder.Muitas vezes, é bem verdade, faz mal ao coração de quem ama, mas resolve o que antes parecia impossível. Do modo mais impensado e simples. Se nem os melhores autores saberiam inventar algo como a morte, é preciso acrescentar que ela constitui um instrumento complicado, que só pode ser manejado por uma sapiência suprema. Em mãos humanas a morte é um desastre. No entanto, sabemos que os jovens morrem e até mesmo crianças; talvez por terem a desventura de nascerem pequenos homens. Mas vamos lá, é apenas uma criança! A bem da verdade, caso quiséssemos ser rigorosos, haveria muita coisa a dizer. Mas olha só aquela criancinha: tão pequena e já morta! É admirável, naquela idade não se pode negar, um caso de surpreendente precocidade. Mas queremos saber como pode, uma criança tão pequena ser admitida na categoria dos mortos? A quem indagar e insistir que ser morto é uma coisa muito, mas muito séria, que é preciso comer muito arroz para se chegar lá. É preciso ter os cabelos brancos e ter superado muitas provas. Mas essa criança, ao contrário, apresentar-se-á a São Pedro e dirá: “Sabe, eu sou um morto. Quero entrar.” Um morto, nessa idade, mas vamos devagar, por favor!Responderá aquele que do Paraíso detém as chaves: “Essa criança já tinha idade para ser admitida entre os mortos? Tinha condições de entender a importância do passo que se preparava para dar? Tinha pressa? Peso? Estatura? Voz?”. Não, não tinha nenhum desses requisitos necessários, nenhum título, nenhum precedente. Era pequeníssima. Não sabia nem mesmo falar. Certamente não estava à altura da situação. A menos que se queira considerar título suficiente ter vindo ao mundo. Não sei que estatura é preciso ter para ser morto, mas assim, a olho, essa criança parecia pequena demais. Se começamos também com criancinhas onde iremos parar?O fato é que tudo começa e acaba na horizontal. Na cama se começa por ser concebido e nascer; meia hora depois se volta à cama. Depois retornaremos a ela a cada dia, em intervalos regulares. Se estivermos cansados ou muito tristes vamos nos jogar na cama. Se estivermos doentes, idem. Eis que se apresenta até um médico consagrado, homem de ciência, que consumiu anos sobre livros, estudou os mistérios da natureza, seccionou corpos; ele nos examina, interroga-nos, pede mil exames e acaba por dizer que devemos ficar de cama!Chegará o dia em que estaremos na cama pela última vez. Então, salvo exceções, seremos vestidos com nossa melhor roupa. Em breve receberemos os amigos e vizinhos em grande agitação; nossos familiares estrilarão, ficarão surpresos, chorarão, farão muitos gestos sem nexo e todos realizarão coisas inúteis; não haverá ninguém que não tenha um ar preocupado ou que não deseje parecer um leão na jaula.Só nós estaremos tranquilíssimos. Estendidos num móvel totalmente novo e que jamais terá outro dono, rodeado pelo perfume e pelo delicado toque das flores, estaremos completamente alheios à confusão geral e definitivamente não partilharemos os sentimentos dos circunstantes. Não teremos pensamentos de nenhuma espécie, nem mesmo os menores; tudo para nós estará doravante resolvido. Se naquela primeira vez em que estivemos em uma cama choramos desesperadamente, agora, nesta, será a última vez que deitamos, teremos sob os lábios não decerto o melhor, mas com certeza, o mais fino, ambíguo e irônico dos sorrisos. O sorriso da morte!Afinal e ao cabo, neste momento e para todo o sempre “ego sum qui sum”, e nada mais.

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