Entrevista inédita com Marcel Proust

Apresentamos excertos inéditos de entrevistas realizadas com Marcel Proust, em Paris, entre meados de 1914 à primavera de 1922. As reportagens foram conduzidas por André Jammes, jovem vinculado “Nouvelle Revue Française”.

A. J. : Sr. Proust, “Em Busca do Tempo Perdido” é, sem dúvida, uma obra de vanguarda. Por isso mesmo, temos a respeito dela desde as mais entusiásticas opiniões até aquelas que, não conseguindo nem ao menos enquadrar o tipo de sua composição literária, chegam a duvidar da qualidade e mesmo da harmonia do seu conjunto. E ainda persiste a questão do estilo, por quase todos considerado de difícil leitura.

Proust: André, realmente o meu livro é bastante inovador e pagará certo preço por isso. O fato de que uns queiram que seja enquadrado no gênero de memórias, outros no de romance, não me parece fundamental de modo algum. O que faço questão de frisar é que se trata de uma composição, apesar de muito extensa, absolutamente rigorosa e perfeita, harmônica em todo o seu enredo. Por eu ser um grande admirador da arquitetura das catedrais góticas, inspirei minha composição em seus elementos, nos seus pilares, em seus arcos, nas suas rosáceas circulares, concêntricas, compostas por rendilhados perfeitos que permitem que a luz se distribua em todos os seus matizes, acentuando o realismo da representação pela combinação de variados tons da mesma cor.

Já em relação ao estilo, ele é a própria dinâmica de minha criação, fruto da memória, da imaginação e do instinto. Talvez por isso mesmo possua frases e parágrafos tão extensos e, muitas vezes, uma composição invertida. Ora, esse é o meu modo de transmitir os sentimentos e as sensações presentes em minha alma e eu as transcrevo no ritmo em que me acolhem. E tenho certeza de que o leitor interessado saberá navegar muito bem por ele, e, conto com que, dele venha a se tornar um amigo.

A. J.: Sr. Proust, muitos críticos entendem sua obra sob a estrita característica de uma produção literária psicológica. Conversemos sobre isso?

Proust: A minha obra não se situa dentro da psicologia comum; ela busca a “psicologia do tempo”, como analogia a geometria espacial em oposição à geometria estática. Creio que seria mais apropriado dizê-lo que se trata de uma espécie de “romance do inconsciente”. Insisto que a classificação de uma obra de arte é de pouca monta em tudo isso; o que interessa desvelar, trazer à luz, são os nossos sentimentos, nossas paixões, ou seja, as paixões e sentimentos de todos os humanos.

A. J.: Muitos qualificam sua obra como não realista, em oposição ao realismo de um Balzac e de um Tolstói, por exemplo.

Proust: Não é aceitável, em absoluto, rotularem o meu romance de não realista. Para essas pessoas, uma literatura que seja realista deve contentar-se em “descrever as coisas”, fornecendo delas apenas um sumário de linhas e superfícies; ora, justamente esse tipo de literatura é a que mais se afasta da realidade, aquela que mais a empobrece e consterna, pois corta bruscamente toda e qualquer comunicação do nosso eu presente com o passado, do qual as coisas conservam a essência. E também com o futuro, onde elas nos incitam a saboreá-las de novo. A minha criação está sempre ligado ao real. Já o mundo das possibilidades não está no meu imaginário, mas é um desdobramento invisível do real. Ora, o que Proust não é, e isso precisa ficar claro, um criador de fantasias à moda do romancista convencional. A matéria de meus livros é real por ser a expressão do espírito, mesmo porque somos nós quem damos forma e valor aos seres e às coisas, segundo nosso estado de espírito, segundo a impressão que se nos impregna da realidade exterior. O que chamamos de realidade é certa relação entre as recordações e as sensações que nos rodeiam simultaneamente. E como a arte recompõe exatamente a vida, ela flutuará em torno às verdades que atingimos em nós mesmos, em uma esfera de poesia, na doçura de um mistério que é apenas o vestígio da penumbra que atravessamos.

Ademais, ao citar Balzac e Tolstói você citou verdadeiros gênios que tiveram o poder, deixando de viver para si mesmos, de tornar sua personalidade igual a um espelho, de tal modo que a sua vida aí se refletisse. Veja bem que o gênio consiste no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido. Isto é, a realidade esteticamente representada sem estar presa a quaisquer credos estéticos que possam trazer o vício de formulações dogmáticas e estreitas.

A. J. : Muitos intelectuais acreditam que seu romance seja escrito para poucos, tratando apenas das questões atinentes à elite, que sua obra jamais poderia ser uma arte popular, destinada à grande massa.

Proust: Ora, vejamos então o que seria uma “arte popular”. Tanto quanto a ideia de uma “arte patriótica”, ainda que a popular não seja perigosa por si mesma, esses conceitos me parecem ridículos. Caso se tratasse de tornar a arte acessível ao povo, sacrificando para isso os requintes formais, aqueles tidos como “bons para os ociosos”, tudo bem; mas eu lhe asseguro que frequentei bastante as pessoas da sociedade para saber que são elas os verdadeiros iletrados, e não os operários.

Outros tolos imaginam que as grandes dimensões dos fenômenos sociais são uma excelente oportunidade de penetrar mais avante na alma humana; quando, ao contrário, deveriam compreender que é descendo em profundidade dentro de uma individualidade, que teriam, talvez, a sorte de conhecer esses fenômenos. É por esse motivo que, afinal, deixei de me preocupar com as diferentes teorias literárias e principalmente com aquelas que se ocupam em “fazer o artista descer de sua torre” e cuidar de assuntos que eles denominam frívolos e sentimentais.

A. J.: Falemos um pouco sobre seus personagens e ações. O senhor definiu sua obra como semiautobiográfica. E, exceto em “Um Amor de Swann”, todo o seu livro é narrado na primeira pessoa, por um narrador- personagem, que por coincidência chama-se Marcel. São dezenas de atores que desfilam aos olhos de Marcel no decorrer do Tempo. Existe uma chave que as “personas” na vida real? Objetivamente, uma pergunta que sempre se fará: Marcel é Marcel Proust?

Proust: Uma personagem se forma do conhecimento de muitos seres humanos, da mesma forma que um drama se constrói pela sensação de muitos fatos vividos ou observados. Criei meus personagens a partir de familiares, pessoas que conheci nos salões mundanos, amigos e das fotos que colecionei, dos conhecimentos adquiridos nos locais em que vivi. Entretanto, Marcel não é Proust, assim como Swann e Elstir, também não o são, apesar de todos eles possuírem muito da pessoa que mais posou para minha tela: eu mesmo! Marcel Proust é uma criação da vida, da natureza. Todos os meus personagens constituem criações estéticas, artísticas, imaginárias.

Ao falarmos de um trabalho semiautobiográfico como o meu, muitas pessoas começam a buscar inutilmente pelas tais chaves que identifiquem pessoas de carne e osso. Acontece que, na essência, o processo criativo é o mesmo da grande maioria dos romances, pois quando se escreve não há gestos dos personagens, um tique, uma inflexão, que não seja trazido à inspiração pela memória, não há um só nome de personagem inventado sob o qual não se possa colocar sessenta nomes de pessoas da vida real, das quais uma pousou para as caretas, outra para o monóculo, outra para a cólera, outra para determinado movimento. Nesse sentido, podemos até mesmo comparar um livro a um vasto cemitério, no qual, sobre a maior parte dos túmulos não mais podemos ler os nomes apagados. Resumindo, para cada personagem existem dezenas de chaves e quando existem tantas chaves, na verdade, não existe nenhuma.

A.J.: Chama a atenção que as personagens apresentam traços fisionômicos absolutamente definidos, que se tornam inconfundíveis, sendo que até mesmo a linguagem que usam é a mais apropriada para seu meio cultural. Elas sempre escolhem determinados “nichos” para se juntar e conviver, e esses nichos em que vivem são labirintos ds quais não existem saídas.

Proust: Mas você já se deu conta de que todos estes fatores ocorrem na vida e em toda a parte? A arte apenas consegue ser uma reprodução estética da realidade humana, assim como de todos os corpos da natureza. Existem determinadas características físicas que são associadas a comportamentos psíquicos e por sua vez, o estado psicológico das pessoas manifesta-se nos seus corpos. E como a vida que minha obra propicia a seus personagens é sobretudo uma vida interior, o agonismo que elas desenvolvem é, preponderantemente, psicológico.

Por outro lado, por acaso a sociedade dos homens não se aglutina em nichos onde eles se unem para conviver, matarem o tempo na ociosidade e no falatório interminável das reuniões mundanas? Para fazerem seus negócios, para amarem e odiarem-se; para consumirem, se esnobarem e se ridicularizarem uns aos outros? E estes locais, exceto para aqueles que se libertam, não constituem labirintos de difícil escapatória? O novelo de Ariadne somente é dado para os homens que realmente desejem se libertar, e estes Teseus modernos são aqueles que não pertencem aos grupos sociais, que conseguem viver a verdadeira vida na sua intimidade, aqueles que possuem vida íntima, e, quem sabe, intuição para a criação de uma obra de arte.

A. J.: Sr. Proust, conversemos a respeito da ambientação de seu romance. O ambiente histórico que permeia seu romance é a transição de final do século XIX para o atual, quando os antigos valores tradicionais herdados das revoluções passadas foram dissolvidos e uma nova burguesia, de outro estilo, arrivista, parasitária, consumista, que vive mais de rendas, do monopólio e do colonialismo se implanta.

Proust: Sem dúvida, os anos finais do século XIX são marcados pela dissolução de antigos valores e substituição por novos. A família do pequeno Marcel, centralizada nas figuras da mãe e avó, e algumas outras de seu entorno representam, de certa forma, o tradicionalismo burguês em vias de extinção. Existe certa largueza de espírito associada ao amor desinteressado pela cultura, a crença em determinados valores intelectuais, assim como a valorização e o respeito pelo trabalho. Ao mesmo tempo, nas mesmas pessoas, essa ética interagia com outra, esta sim, reacionária, paralisante, que os incapacitava de vivenciar a mobilidade social; uma ideia que Marcel denomina de “um tanto hindu de que os burgueses de então formavam a respeito da sociedade, considerando-a composta por castas estanques”.

Como meus leitores poderão verificar, os parentes do Narrador permanecerão firmes em suas crenças e não serão arrastados pela maré dos tempos. Já as suas relações mais próximas, como Charles Swann, que a princípio é um representante daqueles valores tradicionais, desenvolverá uma tentativa inútil de harmonizar os velhos valores da cultura e do trabalho, com uma vida mundana nos círculos aristocráticos. E essa inutilidade, atestada pela incapacidade dele próprio encontrar um sentido autêntico para a vida, redundará na paixão maníaca que alimentará por uma mulher vulgar, simbolizando a perda do autodomínio, tão importante naquela que fora sua ética tradicional. Enfim, os antigos valores espirituais de Swann se esfarelam quando ele, enfraquecendo suas crenças intelectuais da juventude, permite que o ceticismo mundano penetre até mesmo em sua medula, sem que ele mesmo o perceba.

De toda forma, a nova burguesia parasitária, arrivista, é por força mais aberta ao novo momento social, que enorme atração produzia junto à intelectualidade da época, atraindo-a aos seus salões. Será a inutilidade radical, o parasitismo social em que o consumismo, esnobismo e o individualismo são sobremodo grotescos e desprovidos de escrúpulos. Será essa a nova burguesia que dará o tom na sociedade do século XX e que se unirá à aristocracia decadente, claro que, sem o restante de charme, de discernimento, da tradição e cultura que a história permitia a alguns poucos aristocratas.

A. J. : Um segundo ambiente em que seus personagens agem é aquele propiciado pelas novas descobertas do espírito, as inovações tecnológicas e científicas. Também é um momento de inovações nas artes, o surgimento do modernismo triunfante, enfim, um dos períodos de transformações mais rápidas, ricos e profundas na história da humanidade.

Proust: Talvez em quase dois mil anos o homem não tenha avançado em suas descobertas, em suas inovações e em seu conhecimento da natureza como nestes não mais de trinta anos. Invenções como as estradas de ferro, as bicicletas, os automóveis e os pequenos aviões trazem a maravilha da velocidade, do deslocamento antes impensável das pessoas e, se a tudo isto juntarmos a eletricidade, o telégrafo e a telefonia teremos toda uma revolução nas comunicações que se fazem acompanhar por uma maior liberdade nos comportamentos. Esse ambiente é refletido nos personagens do meu romance. Eu diria mais, que após o obscurantismo dos tempos da Restauração, temos o ressurgir do “Renascimento” nos costumes e uma maior liberdade para as pessoas assumirem-se a si mesmas.

A. J.: Finalmente, como o terceiro dos grandes cenários em “Em Busca do Tempo Perdido” temos o aguçamento do antissemitismo, dos nacionalismos, do militarismo que conduzem ao belicismo e, por fim, à própria guerra em que praticamente toda a Europa se envolve.

Proust: Sem dúvida, esse é outro panorama essencial. O antissemitismo da época chegou à França com certo atraso, pois em países da Europa Central ele de há muito era um componente social importante. Aqui, foi agudizado pelo caso fabricado da pseudotraição de um judeu, no caso, o coronel Dreyfus pertencente ao Estado-Maior do Exército, que praticamente cindiu a sociedade. Concomitantemente, o militarismo sob o véu benigno do patriotismo envenenou os franceses, preparando o clima para uma carnificina, para a possibilidade de uma guerra mundial.

A. J.: Sr. Proust, o tema Natureza invade seu romance, de tal forma e tão profundamente, que todo ele é envolto em paisagens e imagens metafóricas, a maior parte das vezes extraídas das flores, das plantas, das paisagens e, mesmo, dos animais; elas são tão abundantes que chegam mesmo à essencialidade de “Em Busca do Tempo Perdido.”

Proust: Pensar uma obra de arte significa integrar-se à natureza, estudá-la, analisar as transformações a que o homem submete a si próprio nesse processo. E a primeira apreensão da natureza é a sensação, ou melhor, a impressão que a visão, o tato, o paladar e a audição nos fornecem. Após esta apreensão da sensação, somos levados pela inteligência à imposição de seu domínio diante da percepção sentida, traduzindo-a, recolocando-a sobre nossos próprios padrões. Devemos perseguir o reencontro da natureza e não a materialização triste de seu fantasma, ou seja, a natureza desvirtuada que é a idealizada pelo homem; para tanto, precisamos nos despojar daquelas modulações que os elementos do intelecto provocam para, então, mergulharmos no mundo das impressões primevas e ingênuas. Essa é a única forma de humanizarmos poeticamente a natureza, deixando-a como realmente ela o é quando captada pelos órgãos do sentido.

A. J.: “Em Busca do Tempo Perdido” apresenta imagens que são, em sua imensa maioria, metáforas inspiradas na botânica e na zoologia. Sinto que, por meio de suas metáforas tudo é dito, sob pena, entretanto, de nada ser comunicado.

Proust: Os caminhos do artista passam de todos os modos pela natureza, pois a arte é o instrumento que nos permite traduzir e imortalizar aquelas impressões, que, ao passarem por nosso coração, buscam comparações transformando-se em metáforas que unirão as coisas da natureza ao homem. E perceba André, voltamos à essência das coisas, que são descobertas ao se aproximarem duas sensações distintas, pois o essencial encontra-se sempre na diferença, nunca na similitude entre homens, coisas, criaturas, mesmo porque a igualdade é sempre forçada e artificial. A essência é verdadeira quando os elementos diferenciadores são respeitados. Nos tempos de hoje, muitas vezes, o diferente não pode ser explicitado; como você mesmo o afirmou, o artista necessita metaforicamente expressar seus dizeres.

Nietzsche disse que o grau e natureza da sexualidade atingem as mais altas camadas do espírito. Para que haja arte, o filósofo alemão coloca como condição fisiológica preliminar a “embriaguês da exitação sexual”. “Em Busca do Tempo Perdido” é repleto de amor e de sexualidade e diversos personagens são sedentos de excitação muitas vezes reprimidas, mas sempre presentes.

A verdade, meu amigo, nem sempre pode ser vista de frente, assim como os próprios raios do sol, pois nos cegariam. Fazem-se necessários anteparos, metáforas, e eu lhe dou razão ao que você disse que uma boa parcela das metáforas que utilizo têm funções específicas, muitas voltadas para o sexo, sem necessariamente constituírem ornamentos textuais. Vários vegetais são transformados em mulheres e vice-versa; o sexo em evidência nas flores humaniza-se; homens são metamorfoseados em flores e nos besouros que as polinizam; plantas hermafroditas “tornam-se” pessoas que buscam em si mesmas o solitário prazer; o pólen que se desprende e se esvai com o vento, em perpétuo onanismo. São flores e plantas a sofrerem um processo de humanização metamorfoseando-se em símbolos da inversão sexual.

Meus personagens, enfim, são vítimas de seus desejos e impulsos, vivem em um mundo impuro, mas não possuem falso pudor pelo que fazem, pois tanto em sexo quanto em tantas outras coisas na vida, não existe o certo e o errado. Apenas a prepotência e a onipotência humana ousam classificá-los como parcelas do bem ou do mal.

A. J.: Sr. Proust, para finalizarmos esta parte introdutória ao nosso trabalho, proponho que o senhor nos permita antever, em breves palavras, o plano geral de sua obra.

Proust: Em meu livro, o enredo é de uma importância mais ou menos secundária, pois o que realmente importa é a análise psicológica do inconsciente, as conexões estabelecidas entre os seres e as coisas, a luta de um escritor contra o Tempo, que tudo arrasta, transforma e destrói. Ao final de meu trabalho, ao possuir o Tempo Recuperado, o Narrador irá se definir como o um “tradutor” e cada leitor será convidado a reencontrar o seu próprio tempo perdido.

Nota da Redação: André Jammes é um personagem, que dialogará com Proust sobre as temáticas mais relevantes encontradas em “Em Busca do Tempo Perdido”. Foram idealizadas um conjunto de entrevistas que, principiando em 1914, logo após o primeiro volume do livro de Proust ser impresso, estendem-se até meses antes da morte do grande escritor, em 1922. A presente entrevista é parcela do livro “Entendendo Proust”, de autoria de Carlos Russo Junior.

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