“Financial Times” na pandemia: uma revisão do neoliberalismo?

Em 8 de abril de 2013, no dia da morte de Margareth Thatcher, o mais influente jornal das finanças mundiais, o Financial Times, estampava a manchete de capa: “Thatcher a grande transformadora”.

Pois fora com a chamada “Dama de Ferro” na Inglaterra e, posteriormente, com Reagan nos USA, que o neoliberalismo iniciara a destruição do chamado “estado do bem estar social”, destruição que somente fez avançar até a chegada da pandemia.

No entanto, o implacável avanço do Covid-19, exatamente sete anos após a manchete consagrada à “transformadora”, produziu um novo e surpreendente editorial do mesmo Financial Times:

"O Coronavírus revela a fragilidade do contrato social!”

E o editorial em sua primeira linha sublinha: “São necessárias reformas radicais para forjar uma sociedade que funcione para todos”.

Por um lado, a pandemia do Covid-19, ele injetou um senso de união nas sociedades polarizadas. Por outro, o vírus e os bloqueios econômicos necessários para combatê-lo, também iluminaram as desigualdades existentes - e até criam novas!

“Além de derrotar a doença, o grande teste que todos os países enfrentarão em breve é se os sentimentos atuais de propósitos comuns moldarão a sociedade após a crise. Como os líderes ocidentais aprenderam na Grande Depressão e após a Segunda Guerra Mundial, ao exigir sacrifício coletivo, deve-se também oferecer um contrato social que beneficie a todos”.

E prossegue: “A crise de hoje está revelando o tanto quanto várias sociedades ricas estão aquém desse ideal. Assim como a luta para conter a pandemia expôs o despreparo dos sistemas de saúde, também a fragilidade das economias de muitos países foi exposta na medida em que os governos lutam para evitar as falências em massa e lidar com o desemprego em massa. Entretanto, apesar dos apelos inspiradores à mobilização nacional não estamos realmente juntos nisso”.

Os distanciamentos sociais estão impondo um custo maior para aqueles que já estão em pior situação. Durante a noite, milhões de empregos e meios de subsistência foram perdidos nos setores de serviços, lazer e afins; por outro lado, trabalhadores com conhecimento e muito mais bem remunerados geralmente enfrentam apenas o incômodo de trabalhar em casa.

Pior ainda, aqueles empregados com salários baixos e que ainda podem trabalhar, estão arriscando suas vidas - como prestadores de cuidados e profissionais de assistência médica, empilhadores de prateleiras, entregadores e faxineiros, tantos e tantos.

E o extraordinário apoio financeiro dos governos à economia, embora necessário, de certa forma tornará as coisas piores. Por outro lado, um amplo afrouxamento monetário pelos bancos centrais ajudará multiplicar os ativos dos muito ricos.

“Os países que permitiram o surgimento de um mercado de trabalho informal e precário (sem dúvida, o caso do Brasil) estão achando particularmente difícil canalizar ajuda financeira para trabalhadores com empregos tão inseguros”.

Por trás de tudo, a falta de investimentos nos serviços públicos se agrava, graças ao peso na redução das aplicações financeiras do Estado.

“Na verdade, o modo como combatemos o vírus beneficia alguns à custa de outros. As vítimas do Covid-19 são predominantemente os mais velhos. Mas as maiores vítimas dos bloqueios de isolamento são os jovens e em atividade, que são obrigados a suspender seus estudos e educação, ou abrir mão de renda bastante considerável”.

“Se os sacrifícios são inevitáveis, toda sociedade deve demonstrar como poderá restituir as perdas daqueles que carregam o fardo mais pesado dos esforços nacionais”.

Reformas radicais

“Propostas, que invertam a direção da política econômica predominante das últimas quatro décadas, precisarão ser colocadas sobre a mesa. Os governos terão que aceitar um papel mais ativo na economia”.

Eles deverão ver os serviços públicos como investimentos, e não como passivos, e procurar maneiras de tornar os mercados de trabalho menos inseguros.

“A redistribuição de renda estará novamente na agenda; os privilégios dos idosos e ricos estarão em questão. Políticas até recentemente consideradas inviáveis, como renda básica e impostos sobre a riqueza, terão que estar entre estas as propostas”.

“Na verdade as medidas que os governos já estão adotando para sustentar as empresas e a renda durante o bloqueio, são atípicas se comparadas com o tipo de economia que os países ocidentais executam durante as últimas quatro décadas”, fruto das política econômica implantada pelo neoliberalismo desde o exemplo de Thatcher na Inglaterra.

Mas a analogia vai ainda mais longe.

Os líderes que venceram a Segunda Guerra não esperaram pela vitória para planejar o que viria a seguir. Franklin D Roosevelt e Winston Churchill publicaram a Carta do Atlântico, estabelecendo o curso para as Nações Unidas, em 1941. O Reino Unido publicou o Relatório Beveridge, e nele seu compromisso com o “estado de bem-estar universal”, em 1942. Em 1944, a conferência de Bretton Woods forjou a arquitetura financeira do pós-guerra.

“Esse mesmo tipo de revisão e planejamento é necessário hoje, agora! Além da guerra na saúde pública, líderes verdadeiros também devem se mobilizar agora para conquistar a paz!”

Enfim, um dos mais prestigiados e conservadores jornais do establishment norte-americano estimula claramente o debate pelo abandono do neoliberalismo e propõe uma reedição da Conferência de Bretton Woods!

Naquela conferência, os países desenvolvidos concordaram que o sistema econômico liberal internacional requeria intervencionismo do governo. Assim como após a Grande Depressão (1929), a administração pública da economia emergiria como uma atividade primeira dos governos de Estados desenvolvidos: emprego, estabilidade e crescimento eram então assuntos importantes da política pública.

Com isso, o papel do governo na economia nacional ficaria associado com a apropriação, pelo Estado, da responsabilidade de garantir a seus cidadãos grau de bem-estar econômico.

O conceito de “Estado de Bem-Estar Social” que nasceu a partir do impacto da Grande Depressão, criou uma necessidade de intervencionismo estatal na economia, com as contribuições teóricas da escola econômica keynesiana.

Enfim, estão colocadas no tabuleiro pelo Financial Time tanto a intervenção pública na economia, quanto o reerguimento do Estado de Bem-Estar Social. Seria um ponto final no neoliberalismo nas grandes potências?

E nossos acólitos como Guedes e CIA, o que pensam a respeito?

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