Hitler: os paranoicos e o poder, pelo Ministro do III Reich, Albert Speer.

A destruição de todos os valores estabelecidos no decorrer de um longo espaço de tempo, e reconhecidos como uma espécie de bem comum da humanidade, fora alcançada com incrível rapidez pelo Nazismo. Pode-se muito bem dizer que foi a consciência desta destruição, que uniu na mais surpreendente das colisões a humanidade inteira para lutar contra a Alemanha de Hitler.


Hitler foi assim descrito por seu Ministro do Armamento e Intendência: “Ele se considerava o homem mais amado pelo povo em toda a história da Alemanha. Desde Lutero não teria havido ninguém a quem os alemães, em todos os lugares, afluíssem tão espontaneamente”.

Mas assim que a guerra muda de rumo, Hitler tem que lidar com outra realidade, a das derrotas sucessivas! Como não é permissível que se lhe escondam nada, torna-se dever de seus ministros mantê-lo informado sobre os avanços inimigos.

Enquanto não tomou conhecimento da destruição que avançava em seu país, enquanto não permitiu que essa destruição o atingisse, a Alemanha que em seu delírio era corporificada em sua pessoa, parecia imbatível!

Quando as grandes cidades alemãs bombardeadas começam uma a uma a cair em ruínas, Speer não foi o único achar aconselhável, e mesmo necessário, que Hitler as visitasse. Afinal, todos tinham diante de si o exemplo de Churchill, quando Hitler levara o terror aéreo às cidades inglesas. Churchill se apresentava às vítimas de guerra que não tinham participação direta no combate. Demonstrava não apenas seu destemor, mas também sua assistência e solidariedade.

Hitler, ao contrário, recusava-se obstinadamente a se deixar ver nas cidades bombardeadas. Ele não teria sido absolutamente capaz de visitar homens que tivessem motivos verdadeiros para tristeza e queixas.

Com que palavras poderia se dirigir a eles? Compaixão não sentia por ninguém, a não ser nos últimos estágios, por si próprio; a quem, pois, teria podido demonstrar convincentemente sua condolência para infelicidade alheia?

Hitler, como outros paranoicos no poder, não tinha capacidade sequer para fingir sentimentos “mais frágeis” que desprezava, que dirá então para senti-los? Hitler entre queixosos é inimaginável!

A falta de tudo aquilo que constitui efetivamente um ser humano- as emoções que, sem interesse e cálculo, sem intenção de alcançar sucesso e influência, dizem respeito a outro, ainda que a um desconhecido ser humano,- essa privação total, esse vazio terrível ter-lhe-iam revelado em desamparo e impotência. Certamente em nenhum momento, Hitler cogitou se expor a esta situação.


Speer afirma que Hitler jamais confiou em ninguém, nem mesmo nas mulheres mais próximas, e como não permitia mulheres pensantes por perto, é-lhe fácil aferrar-se em seu desprezo por elas. “Só prestavam para companhia.”

Por outro lado ele tem plena consciência de que não pode exercer o poder sem ajuda daqueles poucos que participaram de sua ascensão, dando mostras de suas capacidades, mesmo sem em ninguém confiar. Por isso, tem que estar informado sobre tudo e ninguém mais além dele! Considera-se mesmo um mestre na separação das incumbências que determina a cada um de seus assistentes. Toma cuidado para não tê-los constantemente perto de si, porque dessa forma poderiam ficar a par de coisas a mais do que lhes é concedido.

Tem-se a impressão de que Hitler precisa justamente das fraquezas daqueles aos quais delega poder. Assim, não só os tem mais facilmente nas mãos, e não precisa perder muito tempo à procura de motivos ao afastá-los, mas goza também em relação a eles, de um sentimento de superioridade moral.


Vitória, vitória!

Se há uma fatalidade acima de todas as outras, esta é a crença paranoica na Vitória. À medida que deixam de vencer, os alemães passam a não ser mais o seu próprio corpo, e Hitler lhe subtrai, sem maiores cerimônias, o direito à vida.

Os alemães, que se mostraram os mais fracos, que se amontoam por cemitérios e valas, não se deve ter pena deles. Hitler deseja mesmo que eles se arruínem, pois estes merecem!

Se os Exércitos Nazistas tivessem continuado a vencer, como era costumeiro no princípio da guerra, o povo alemão seria outro povo, a seus olhos.

Pois homens vencedores são “outros homens” ainda que sejam os mesmos.

Não impressiona que muitos ainda acreditem nele, embora suas cidades estejam em ruína e praticamente nada os proteja dos ataques aéreos do inimigo.

É fato que esbraveja contra o Exército para cada pedaço de Terra conquistada que este cedia ao inimigo, principalmente ao avanço dos russos.

Enquanto pode, entretanto, Hitler resiste a ceder o que quer que seja, indiferente ao número de vítimas que isso venha a custar, pois sente como seu próprio corpo tudo o que foi conquistado. Sua decadência física ao longo das últimas semanas em Berlim, escrita com emoção por Speer, não é senão a contração de seu poder.


O corpo do paranoico é seu poder, cresce ou encolhe de acordo com ele.

Até o último momento Hitler se preocupou em impedir a degradação de seu corpo pelo inimigo. De fato ordena a última batalha por Berlim para morrer lutando, mas diz a Speer: “Não vou lutar, o perigo de ser apenas ferido e cair vivo na mão dos russos é muito grande. Não quero que meus inimigos maltratem meu corpo. Dei ordem para que me incinerem”.

Assim, enquanto os outros combatem, ele sucumbe sem combater; e o que possa acontecer aos que combatem por ele, não importa, desde que nada aconteça com o seu corpo!

A partir da exposição de Speer, a indiferença de Hitler pelo destino do seu povo- cuja grandeza e expansão afirmava ser o verdadeiro sentido, o propósito e o conteúdo de sua vida- torna-se evidente de uma maneira tal que, provavelmente, inexistia até então, exemplo comparável!

De repente, é Speer quem subitamente assume aquele que antes era o suposto papel de Hitler: ele procura salvar o que ainda pode ser salvo para os alemães!

Hitler ainda confidencia a Speer: “Se perder a guerra também o povo estará perdido. Não é preciso preocupar-se com as bases materiais de que o povo precisa para a sua sobrevivência mais primitiva. Pelo contrário, é melhor destruir essas coisas hoje, porque o povo Alemão se mostrou mais fraco e o futuro pertence exclusivamente ao povo oriental, o mais forte! De qualquer modo, o que restará depois dessa luta serão os fracos, inferiores.”

Já que seu povo, impelido por ele próprio à guerra, se mostra mais fraco, também o que dele resta não deve sobreviver!

A motivação mais profunda para isso é que Hitler não quer que sobrevivam a ele! Não pode impedir que os inimigos vencedores o fizessem, mas pode muito bem destruir o que resta do seu próprio povo.

A seus olhos, os que ainda vivem estão a ponto de se tornarem parasitas. Mas nem é preciso levar a cabo o processo de depreciação, basta, para ele, ser declarado inferior, como antes ele o fizera com todos os doentes mentais que mandou internar e exterminar.

Pois tudo o que ele exterminou, ainda está desperto nele mesmo. “A massa dos que foram assassinados clama por sua multiplicação”, nos diz Canetti.

É da grandeza do número dessa massa que Hitler tem plena consciência: que o fato e a forma de seu aniquilamento tenham sido mantidos em segredo, só conhecido por aqueles que nele estavam envolvidos, fortalece a ação desse número sobre Hitler.

Os mortos tornaram-se uma massa imensa da qual ele dispõe; constitui uma massa manipulável, um segredo seu. Impossibilitado de acrescentar a essa massa novos inimigos, Hitler sente a compulsão de multiplicar o número entre seu próprio povo!

O maior número possível de pessoas deve morrer, antes e depois dele. Desconhecendo a coerência interna desses acontecimentos, Speer sentia a mais profunda indignação com as manifestações por meio das quais paulatinamente se revelavam.

Os que significam as ordens destrutivas de Hitler eram mais que evidentes. Hoje, é difícil compreender porque nem todo alemão, que soube dessas ordens não sentiu ou reagiu como Speer.

Pelo conhecimento destes fatos, todos nós nos tornamos desconfiados com relação a ordens! Nós sabemos mais: aquele mais terrível dos exemplos ainda está demasiadamente próximo de nós, e mesmos aqueles que ainda são capazes de acreditar em ordens pensariam duas vezes antes de obedecê-las. Naquela época, acrescente-se, as pessoas eram educadas precisamente por Hitler a ver a máxima virtude na da obediência à sua ordem! Não havia nenhum valor acima dele!

A destruição de todos os valores estabelecidos no decorrer de um longo espaço de tempo, e reconhecidos como uma espécie de bem comum da humanidade, fora alcançada com incrível rapidez. Pode-se muito bem dizer que foi a consciência desta destruição que uniu na mais surpreendente das colisões a humanidade inteira para lutar contra a Alemanha de Hitler.

Em seu desdém por esses valores, na depreciação de seu significado para todos os seres humanos, Hitler demonstrou uma cegueira sem igual. Só por esta razão, mesmo que tivesse vencido o que é impensável, seu poder teria se desintegrado rapidamente. Em todos os confins de seu império haveria rebeliões que acabariam por contagiar seus próprios adeptos!


No século XXI, vivemos em meio a uma das mais graves pandemias virais que já acometeram a humanidade! As mortes em nosso país se aproximam da incrível quantidade de 200 mil, e, em breve, 1 a cada 1000 brasileiros terá sucumbido à virose. Infelizmente, temos na liderança do país o mesmo “gênio” paranoico que conduziu os alemães e a humanidade à maior catástrofe e barbárie da história moderna!

Temos muito o aprender com a história e com seus personagens. Afinal,

VIDAS IMPORTAM, ONTEM, HOJE E SEMPRE!


Obs.: Como Ministro do Armamento e Intendência, Albert Speer foi responsável pela grande produtividade da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1946, foi julgado em Nuremberg e sentenciado a 20 anos de prisão. Na prisão, Speer publicou dois best-sellers autobiográficos: “Por Dentro do III Reich” e “Spandau - O Diário Secreto”, detalhando seu relacionamento com Hitler e fornecendo histórias desconhecidas sobre o Terceiro Reich. Leituras indispensáveis!

Referências:

Speer, A.. Por dentro do III Reich, Artenova.

Canetti, E.. A consciência das palavras. Companhia de Bolso.

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