Khaddji-Murat, o último e magistral romance de Tolstoi

Poderíamos imaginar que um escritor genial como Tolstoi tomaria os últimos vinte anos de sua vida para escrever Khadii Murat? Que, quando ele abandonou a casa familiar em Krasnaia Polyana, pela última vez antes de morrer de pneumonia numa estação ferroviária, carregava consigo mais de duas mil páginas, e dentre elas o original de sua colossal novela ainda inconclusa?

Enquanto a inspiração ao escrevê-la advinha de memórias da juventude, os propósitos eram descortinar na alma humana tudo o que ela tem de digno e de covarde, de honrado e de abjeto. Talvez seja ao alvorecer do século XX, o mais claro berro de horror contra o despotismo e à guerra posto na literatura.

Em meados do século XIX a Rússia czarista, na expansão de seu império, guerreou contra as tribos muçulmanas da Tchetchênia. A memória de Tolstoi trazia reminiscências do serviço militar prestado pelo escritor quando jovem.

A personagem Maria Dmitrievna, esposa de um major russo, assim se expressa a respeito dos bravos oficiais czaristas:  “Vocês são assassinos, não os suporto, uns verdadeiros assassinos. Não me venham dizer que os massacres sejam coisas da guerra, vocês são assassinos e é tudo.”

Existem diferenças significativas entre o fanatismo religioso, sectário e tribal, que propaga a violência, a vinganças, a intolerância e o ateísmo real, travestido da religiosidade oficial que incendeia aldeias, mata população civil, regurgitando o bafo de vodka? A resposta para Tolstoi é sim e não, ou seja, a responsabilidade maior pelas desumanidades da guerra é do invasor, daquele que quer impor o poder despótico do Czar. Os tribais reagem e aglutinam a violência sectária, inclusive contra seu próprio povo. Também eles se desumanizam na guerra.

Khadii Murat, foi em vida um guerrilheiro separatista bem sucedido e famoso, que abandonou a luta e mudou-se para o lado dos invasores russos na esperança de salvar sua família. Sua família que fora sequestrada pelo líder tchetcheno rival. Ele além de salvar sua família, quer também vingar as mortes dos membros de sua tribo leais a ele, assassinatos perpetrados por Shamil, o comandante dos guerrilheiros muçulmanos do Cáucaso. Ao juntar-se aos russos no desespero pessoal, ele trai seu povo, que, por sua vez, já o traíra também. Mas, ao final, buscará sua libertação e será assassinado pelo Exército Russo.

Sobre o herói de seu livro escreve Tolstoi: “Khaddji-Murat  defende a vida até o fim; sozinho no meio de um vasto campo, mas mesmo assim ele a defendeu.”

Surpreendemo-nos durante toda a leitura com o preciosismo narrativo. Comentando a última obra de Tolstoi, disse Máximo Gorki: “Como o velho escreveu bem!”

A princípio o narrador encontra dois pés de bardana. O primeiro é vermelho colorido e muito espinhoso, então ele o evita. O segundo ele deseja desesperadamente, mas tentando arrancá-lo, o destrói. “Com que tenacidade ele se defendeu e como vendeu caro a vida”. O mesmo se passará com o herói e anti-herói muçulmano.

A narrativa nos conduz ao respeito dos regionalismos, assim como das idiossincrasias de cada povo. Como Tolstoi dizia “para cantar num tom que seja internacional, cante naquele de sua aldeia”.

A Tchetchênia, uma cultura totalmente diferente e quase paradigmática em relação a dos russos, exceto na própria violência que ambas engendram. “Para cada povo são bons os seus próprios costumes”. Não existe exagero em considerar que o personagem Khaddji-Murat  se associa aos dons proféticos do Profeta Jeremias, de Michelangelo, que baixa a cabeça e se remói em tormentos ao prever o que o destino reserva à humanidade, à sua humanidade, à sua gente dominada pelos russos e pelo tribalismo impiedoso .

O asceticismo quase monástico de Khadii- Murat contrasta com a devassidão da vida dos soldados russos, na sua banalidade e na falta de sentido. Ele tenta separar-se de todos os lados em luta, de suas torpezas e tibiezas, símbolos do desprezo do homem pelo seu semelhante.

A coragem somente é verdadeira quando não é fruto do álcool e da soberba, quando exercida por alguém que, de certa forma situa-se acima do bem e do mal, Khadii- Murat.

A rendição de Khaddji-Murat  ao príncipe russo general Vorontzov é uma peça teatral, em que os papéis dissimulam a realidade. “Os olhos daqueles dois homens se encontraram e disseram um ao outro muita coisa inexprimível por palavras e algo bem diferente do que dizia o intérprete. Diretamente, sem palavras, exprimiam mutuamente toda a verdade: os olhos de Vorontzov diziam que ele não acreditava em uma só palavra do que dizia Khaddji-Murat  e que sabia ser esse homem um inimigo de tudo o que era russo, que assim permaneceria, e que se submetia agora era por ter sido obrigado a tal passo. Khaddji-Murat compreendia isto e, apesar de tudo, reafirmava a sua fidelidade.”

Com relação ao invasor russo, Tolstoi centra-se não somente na brutalidade dos soldados e seus oficiais, mas trata de decompor o papel de quem comanda uma sociedade perversa, o Czar: “Por mais habituado que estivesse Nicolau (I) com o terror que despertava nas pessoas, este lhe era sempre agradável, e ele gostava, às vezes, de deixar espantado o súdito a quem infundira tal sentimento, dirigindo-lhe, por contraste, palavras afáveis”. Sempre que o Czar se via entre uma nova conquista e a antiga amante, punha-se a pensar naquilo que o consolava: “No grande homem que ele era”.

O czar acreditava que roubar era inerente ao funcionário público e a obrigação dele era castigá-los. A lisonja permanente, asquerosa e sem rebuços, dos que o cercavam, reduzira-o a tal estado que não vi as suas contradições. “Mesmo quando condenava alguém a mil bastonadas, sendo que com menos de quinhentas qualquer homem morreria, agradava-lhe ser inexoravelmente cruel e, ao mesmo tempo, saber que, entre nós, não existia a pena de morte”.

No outro lado, aquele dos tchetchenos , quando, após num avanço de tropas russas uma vila inteira era destruída, os velhos se reuniram. Ninguém falava sequer em ódio ao invasor. O sentimento que experimentavam todos os tchetchenos era mais forte que o ódio. “Não odiavam, mas não reconheciam como gente aqueles cães russos”. “Era uma sensação de asco e estupefação ante a crueldade absurda daquelas criaturas, e o desejo de destruí-las, a exemplo do desejo de destruir os ratos, as aranhas venenosas e os lobos, era um sentimento natural, como um instinto de conservação”.

Os habitantes das aldeias tchetchenas não tinham alternativa: permanecer nos próprios lugares e reconstruir, com um esforço tremendo, tudo o que fora realizado com tanto esforço  e destruído tão fácil e inutilmente, esperando a qualquer momento a sua destruição, ou contrariando a lei religiosa e o sentimento de repulsa e desprezo pelos russos, submeter-se a eles.

“Secar-se-á a terra de minha sepultura e hás de esquecer-me, minha mãe! A erva dos túmulos há de crescer no cemitério, abafará o teu desgosto, meu velho pai. As lágrimas secarão nos olhos de minha irmã, e o sofrimento fugirá de seu coração”.

“Mas  não me esquecerás, meu irmão mais velho, enquanto não vingares minha morte. E não me esquecerás também, meu segundo irmão, enquanto não te deitares a meu lado.”                “És quente, ó bala, e carregas a morte, mas não foste tu a minha escrava fiel? Hás de cobrir, ó terra negra, mas não era eu quem te pisava com as patas de meu cavalo? És fria, ó morte, mas eu fui teu senhor. A terra tomará meu corpo, o céu receberá minha alma.”

Quando Khaddji-Murat,  é ferido de morte, as recordações de combates, do príncipe, da mulher, dos filhos, sucediam-se velozes, sem despertar nele nenhum sentimento, quer de comiseração, quer de rancor, nem desejo nenhum. Tudo isso parecia tão insignificante em comparação com o que começava ou já havia começado para ele! E foi esta morte que a bardana esmagada, em meio ao campo lavrado, me fez relembrar.

Textos excluídos por Tolstoi

Naquelas duas mil páginas manuscritas que Tolstoi carregou consigo até a morte e, nas quais trabalhara e retrabalhara tantas vezes sua novela, muitos textos foram suprimidos , e apenas posteriormente, após a Revolução de 1917, publicados.

Para que, naquele tempo, um homem estivesse à altura do comando do povo russo, precisava ter perdido todos os atributos humanos: tinha de ser uma criatura mentirosa, atéia, cruel, ignorante e estúpida, e precisava não apenas sabê-lo, mas estar convencido de ser o paladino da verdade e da honra e um sábio governante, benfeitor de seu povo. Assim era Nicolau I. E nem podia ser diferente. Toda a sua vida for a uma preparação para isto.

“E não é por acaso que o grande perante os homens, aqueles que estão nas alturas da grandeza, passam a ser os piores homens do mundo; constitui uma lei eterna e indubitável: aquele que está nas alturas deve ser um homem profundamente pervertido e não pode ser de outro modo. O destino do Czar, antes mesmo dele nascer já estava traçado.

Tolstoi passa em revista todos os últimos Czares russos: Pedro, o Grande, fora “o bêbado contumaz, devasso, sifilítico e ateu, que decepava pessoalmente cabeças de opositores somente para entreter-se”; Catarina , a Grande, sua avó, “assassina do próprio marido, pecadora movida pela vaidade e por uma repugnante sexualidade senil; Pedro III, o avô de  Nicolau, “o alemão estúpido, que enlouquecera à força de sua autoridade e que fora assassinado pelos amantes de sua depravada mulher”, “todas aquelas mulheres libertinas, estúpidas e analfabetas, donas de profunda maldade.”

Ao mesmo tempo em que, ao morrer, o fabuloso escritor nos legou Khadji- Murat, ele também nos tornou herdeiros da galeria da família Romanov, donas do trono russo.

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