“Krotkaia”ou “A esposa dócil”, de Dostoievski: os conflitos na vida a dois.

Escrito em 1875, logo após “Notas do Subsolo”, “Krotkaia” nos aporta uma problemática atualíssima na relação a dois: a fatalidade humana ligada ao egoísmo, ao orgulho, à vaidade, à arrogância, à mesquinhez, a opiniões e idéias que exigem meios ilícitos e sacrifícios dentro de uma relação conjugal.

Em Dostoievski, escritor existencialista com quase um século de antecipação,  o homem e todo o conjunto de suas emoções e pensamentos são o eixo do universo, em conformidade com Sartre: “A existência precede e governa a essência”.

Pouco antes da primeira publicação de “Krotkaia”, ele redige no seu “Diário de um escritor” comentários a respeito de uma notícia jornalística: uma costureira, recém-casada,  atingida pela miséria, suicidara-se em Moscou, jogando-se da janela de um alto edifício, agarrada a uma imagem da Virgem. Em vez de um bilhete de despedida, um ícone sagrado. Era o mote do qual se originaria “Krotkaia”.

O conto consiste em um monólogo interior de um homem diante da esposa morta, que se jogara da janela do quarto, suicidando-se agarrada a um ícone.

Ele, nobre, Ela, plebéia. Ela, dezesseis anos, Ele, quarenta e um. Ele é um homem solitário, autoritário, articulador, vive da usura e do penhor (Dostoievski, por tanto depender dos “penhoristas”, odiava-os), com passado desdenhado pelos que o conhecem (covardia num duelo, expulsão do regimento, decadência moral e financeira da qual fora salvo por uma herança), contumaz no jogo do silêncio, da sedução e da contradição.

Ela, uma professora desempregada, órfã, miserável, submissa, com arroubos doentios, arvora-se “o direito de amar”; ignorando muito da vida adquiriu convicções gratuitas, sendo ao mesmo tempo dócil e submissa,  podendo chegar à tirana impetuosa, agressiva e desvairada, nervosa e histérica. Vive assustada, pensativa, e está para ser “vendida” pelas tias para um gordo comerciante de mais de cincoenta anos.

A busca desesperada por emprego leva-a a realizar anúncios em jornais, e, para tal, ela penhora o pouco que possui. Por último lhe restará um ícone com o qual um dia morrerá abraçada. Chega ao escritório do Narrador. O início da relação surge. Utilizando-se da fraqueza financeira da moça miserável, o agiota “culto” decide se impor como gerenciador do casamento e dos sentimentos da ingênua moça. “Compra-a” em casamento e tira-a, da casa das tias. Parodiando Mefistófeles de Goethe, Ele lhe diz: “Eu, sou aquela parte do todo que quer fazer o mal, mas cria o bem”.

“ O senhor é um salvador, caiu do céu, obrigada por estar levando a senhorinha”, confessa-lhe uma das tias.

Após o casamento, o casal irá residir no quarto anexo à casa de penhores. Ele possui um ideal: juntar dinheiro em três anos para libertar-se da profissão que o oprime, de um mundo que despreza e onde odeia estar.

Sequencialmente, na vida a dois, encontraremos tanto a submissão e dominação da esposa, quanto a transgressão e a rebeldia. No princípio era ele quem ditava todas as normas e ela era só silêncio e resignação. Ele mesmo achava- se tirano com uma moça doce, mansa e angelical, mas não conseguia mudar de atitude. Esta é uma das contradições que Dostoievski trabalha: o homem tem consciência, mas não a atitude para mudar seu caráter, seu instinto e suas ações.

“As pessoas boas e submissas não resistem muito e, ainda que não sejam muito expansivas, não sabem esquivar uma conversa: respondem com sobriedade, mas respondem, e quanto mais avança o diálogo, mais coisas dizem; basta não os cansar, se você quer conseguir algo.”

Krotkaia é iniciada na profissão do marido e nesse “ritual de iniciação” aprende a atirar com uma arma de fogo. Seguem-se uma longa série de acontecimentos que contribuem para aumentar as tensões cotidianas do casal. A mesquinhez do agiota, a dependência financeira da esposa, a discordância na avaliação dos penhores, os arroubos de Krotkaia na tentativa de enlace afetivo, o silêncio que se estabelece entre ambos, a rebeldia da moça, o encontro secreto que ela buscará com um inimigo do marido.

No desenvolver dos acontecimentos, o tirano enfrentará dificuldades para submeter a esposa, pois a jovem o enfrenta com desdém, principalmente com seu silêncio (embora ele se autodenomine “mestre na arte de falar em silêncio”).

Será como numa peripécia que ela se transformará: de dócil, em algoz e tirânica criatura. A esposa “dócil” irá torna-se impetuosa, orgulhosa, temperamental, e dentro do silêncio compartido, as relações tornam-se cada vez mais extremas e agudas. As desavenças, as diferenças, a severidade, o enigma, o dinheiro, as pequenas intrigas, a verdade sobre o passado, as mentiras, a revolta, a desconfiança sobre uma suposta traição, a recusa do marido ao duelo com o rival, levam ao extremo aquela esposa que passa a desejar a morte de seu antigo Herói e “salvador”, quando a docilidade ceder o lugar à ferocidade.

A intensidade psicológica da narrativa ganha força extrema, pois as desconfianças e conclusões do Narrador redobram na busca de explicações para seu relacionamento e sua “tática” para voltar a ter o domínio perdido da esposa e, desta maneira, manter a função de marido dentro de um contexto social. A moça por sua vez, busca a desordem e vira tudo pelo avesso.

Ela decide-se por um encontro secreto com o grande inimigo do marido, aquele que o fizera abandonar a carreira militar. Uma das tias, entretanto, vende o segredo ao narrador, graças (como sempre), a um bilhete extraviado. No momento do encontro ele se coloca à espreita no quarto ao lado da casa de rendez-vous. Mas Krotkaia não tem coragem suficiente para ir até o final. Não se entrega e é aqui que se revela toda a sua inteligência e astúcia feminina. O marido que a tudo escuta surpreende-se: viera para flagrá-la na traição e redescobre uma mulher que nada mais tinha a ver com a moça de dezesseis anos. Ele a tira das mãos do rival-inimigo, mas sua covardia o impede de bater-se em duelo. Ela que já o desprezava, a partir deste momento passa a odiá-lo e a si própria por não ter conseguido se entregar à aventura amorosa.

Domínio, revolta e liberdade são os contrapontos de todo o grande conflito. A cena seguinte se passa no quarto do casal. O marido adormece. Ela busca a arma e por duas vezes encosta-a em sua cabeça. Ele está desperto e ela o sabe, mas falta-lhe a coragem de apertar o gatilho. O ato da esposa e a sua decisão de enfrentar a morte sem reagir, libera a alma do marido de seus traumas, de sua covardia e produz um efeito redentor.

Nova peripécia: ele vê a esposa com outros olhos e busca penitenciar-se. Ela enfrenta a febre e o delírio por semanas. A mente do opressor passa por um processo de amaciamento, de flexibilidade e de expansão sentimental, por vê-la “tão esmagada, tão arrasada”. Em estado contemplativo, o esposo passa a tecer sonhos de uma vida feliz ao lado da mulher. “Afinal, tinha eu estado dentro de minha alma?”, ele se questiona. Confessa-lhe seus ressentimentos, o ódio pela sociedade e declara ser Krotkaia vítima de sua vingança.

O narrador deseja extrair da esposa uma promessa de fidelidade, uma esperança de partirem e serem felizes. Logo, a desigualdade entre o casal se inverte com as atitudes do homem: se outrora o fascínio pela ingenuidade dela o comovia e o alimentava em seus objetivos tirânicos, agora sua fragilidade o compromete, pois, ela, assustada, entra em histeria nervosa.

O que resta à mulher neste contexto? Mas ela já é incapaz de amá-lo. E não encontra energias para libertar-se. Assustada, opta pela destruição, fazendo com que nos recordemos das dificuldades que Madalena (em “São Bernardo”, de Graciliano Ramos) enfrenta em seu matrimônio com o fazendeiro Paulo Honório.

Uma reflexão com a cabeça encostada na parede do quarto, um ícone apanhado, uma janela aberta e se jogar  para  a morte se corromper como alternativa de um amor que não pode cumprir, ou mesmo para castigar definitivamente o marido que odeia.

Voltar a ser livre concretiza-se primeira mente por atirar seu vestido de noiva pela janela e, depois, a si própria.

Com a morte trágica de “esposa dócil”, o marido revela toda a  solidão quando seu mundo ordenado se decompõe; esbraveja então contra tudo e todos numa ruminação é desoladora. “Não quis me enganar com um amor pela metade, sob uma fachada de amor ou com um quarto de amor.” Até mesmo ele admite que, se o pedisse, ele viraria o rosto para que a esposa o traísse, desde que não o abandonasse (numa reprodução literária de “O eterno marido” e da própria relação vivida com Maria Dostoievskaia, sua primeira esposa).

O Narrador revela-se é um Herói trágico. Um homem profundamente isolado, cujas esperanças foram destruídas, que tomado pela dor, tenta reter ao lado de si, o  cadáver da suicida. “Eu a esgotei, isso sim.” e “… quando a levarem amanhã, o que vai ser de mim?” Logo, sob a tensão dramática, que reflete a penetração do Herói na autoconsciência ocorrida no presente trágico e na lembrança do passado, ele transforma-se num ser humano profundamente despedaçado, cindido, ferido.

O espetáculo finaliza com a fusão das imagens com a lamparina acesa junto aos ícones, símbolos da elevação espiritual obtida através da dor e do dilaceramento do nosso narrador.

Ler Dostoievski é sempre uma incursão ao interior do ser humano, uma evocação do que existe de mais profundo no nosso consciente e no subconsciente, um porão meio abandonado e esquecido. Ele liberta o fluxo do pensamento antes da ação, desnuda tragicamente o essencial do homem. “Krotkaia”ou “A esposa dócil”, um de seus contos menos conhecidos, é um dos píncaros da literatura existencial.

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