Mário de Andrade, intelectual múltiplo, líder da Modernidade no Brasil.

“Na Rua Aurora eu nasci, na aurora da minha vida, e numa aurora cresci.”

Foi no número 320 da rua Aurora que, em 1893, nasceu Mário de Andrade, filho de pai de origem humilde e de mãe descendente dos bandeirantes. Apesar de ilustre, a família não era rica. Quando adolescente Mário só era bom mesmo em Português, em todas as demais matérias, reprovações e notas baixas. As esperanças familiares convergiam para os irmãos, já que ele a “ovelha negra”, era o rapazinho rebelde das “loucuras”.

Mas tudo muda na vida. Mário apaixonou-se pela música e a ela dedicou quase dez horas diárias de estudo, sem se descuidar da literatura. Lia tudo o que lhe caía às mãos, sua inteligência gradualmente foi-se disciplinando e começou a adquirir a fama de erudito. No entanto, para a família, permanecia sendo “o doido”.

Há já algum tempo, inspirado nos poemas de Verhaeren, ele desejava escrever um livro sobre São Paulo. Encantara-se com um busto de Cristo esculpido a gesso por Brecheret. Sem dinheiro, negocia uma vaquinha familiar e paga ao escultor para torná-lo em bronze. Quando lhe é entregue, convida a família toda para ver a obra. Um escândalo! O “doido do Mário” tem contra si pais, irmãos e tios, afinal, o “Cristo de trancinhas” de Brecheret, já era demais! Mário recebe o golpe, tranca-se no quarto e, alucinadamente, de uma só sentada, compõe a base de sua “Paulicéia desvairada”. Estávamos em 1918, e, no ano seguinte, a “Paulicéia” provocou alvoroço, espanto, desvarios, o toque de alvorada em nosso tardio modernismo.

“A destruição é, como a criação, uma necessidade dessa marcha que impulsiona os homens”. Enquanto o modernismo na perspectiva européia significava desencanto, a desestruturação do homem das metrópoles associada à necessidade de reestruturação espiritual, em nosso país, o moderno que nos chega com o atraso de mais que uma década, expressa de certa maneira “a visão benigna de uma natureza divinamente revestida”, o que redunda no ufanismo de um Brasil idealizado.

A “Paulicéia” indica o momento histórico da primeira fase do modernismo no Brasil, a reação contra a coisificação do indivíduo, a prepotência do mundo, o esmagamento da subjetividade, a negação do humano. A vida moderna desvaira o poeta e este transfere seu desvairismo para a vida moderna. Havia “exageros” na poesia, reconhecia Mário, mas fora necessário mantê-los por serem representativos de um estado d’alma.

Sentimos diante de cidades tentaculares uma mistura de fascinação e repulsa; fascinação pelo movimento poderoso que elas contêm, repulsa pela parte monstruosa e envolvente desse mesmo movimento.

“Horríveis as cidades! Vaidades e mais vaidades…

Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!

Oh! Tumultuários da ausência!

Paulicéia- a grande boca de mil dentes;

E o jorro dentre a língua trissulca de pus e de mais pus de distinção…

Giram homens fracos, baixos e magros… Serpentina de entes frementes a se desenrolar…

Estes homens de São Paulo, todos iguais e desiguais,

Quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,

Parecem-me uns macacos, uns macacos.”

São Paulo transforma-se em uma cidade subjetiva, e é percorrida sob a ótica de o Arlecchino, personagem bufo de comédia d’arte, farsante e amante cínico, que despreza as conveniências e fórmulas sociais. O poeta-palhaço é o ator da própria peça, reinterpretando o instinto de nacionalidade na praça pública, sem o pudor de assumir a experiência da farsa e da irreverência. Assistiremos a antropofagização do espaço da farsa.

“Quá, quá, quá! Vamos dançar o fox-trot da desesperança,

A rir, a rir dos nossos desiguais!”

Mário seguiu com a música e tornou-se muito jovem Catedrático de História da Música, dando o máximo de aulas que pudesse suportar para sobreviver, no Conservatório de São Paulo.

A chegada de 1922 foi-lhe particularmente extasiante. Participou da organização da Semana de Arte Moderna, entre 13 e 15 de fevereiro foi presença marcante no Teatro Municipal de São Paulo. Um dos fundadores da revista modernista Klaxon.

Logo a seguir teremos “O Losango caqui”. Mário metamorfoseia um militar malandro-tropical e este surge, “a caetanear”, como o símbolo do Brasil brasileiro:

“Cabo Machado é cor de jambo.

Pequenino que nem todo brasileiro que se preza.

Cabo Machado é moço bem bonito.

É como si a madrugada andasse na minha frente.

Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo

Alumia o Sol de oiro de dentes, obturados com um luxo oriental.

Cabo Machado marchando é muito pouco marcial.

Cabo machado é dançarino, sincopado, marcha vem-cá-mulata.

Cabo Machado traz a cabeça levantada

Olhar dengoso pros lados….

Cabo Machado é bem o representante de uma terra,

Cuja Constituição proíbe guerras de conquista e recomenda o arbitramento.

Só não bulam com ele!

Mais amor e menos confiança!

Cabo Machado toma um jeito de rasteira…

Cabo Machado, bandeira nacional”

A busca da alegria, do bem-estar que a dança propicia é uma contrapartida da realidade desestruturadora. Cabo Machado tem a consciência serena de um Eu que conhece as dificuldades da vida, mas com a mesma não se desespera, nem se acomoda. No Terceiro Mundo, dança-se mesmo na miséria, pois o lúdico sempre se apresenta, devidamente, carnavalizado.

Sobre a vida amorosa de Mário sabe-se muito pouco. Amores fugidios, passageiros, seu suposto bissexualismo. Após “Amar, Verbo intransitivo”, onde a musa do poeta, Fraulein, “faz o coração do poeta estralar”, teremos o “Girassol da madrugada”, inspirado pela linda filha da mecenas Olívia Guedes Penteado, outro amor passageiro, talvez platônico.

Por se interessar a fundo pela realidade brasileira, no período de 1924 a 1928, o intelectual realiza viagens “étnicas” a Minas Gerais, ao Amazonas e ao nordeste brasileiro. Torna-se um estudioso dos regionalismos, do imaginário e das tradições populares. Revoltava-se, desde então, contra qualquer tentativa de submissão da língua pátria às normas da “Academia”. “Português, que português? Nossa língua é o brasileiro!” Desse posicionamento surgiriam vários livros, como o “Clã do jabuti”, “Ensaio sobre a música brasileira” e, a obra-prima, a rapsódia “Macunaíma”, em 1928.

“Macunaíma” é um livro estonteante, em que o mágico e o lógico se misturam, onde não existem fronteiras entre o natural e o sobrenatural. Em sua busca do caráter nacional, Mário encontrou um “herói sem nenhum caráter”. Ora, devemos considerara que essa falta de caráter não se coloca exclusivamente desde o ponto de vista ético, mas como entidade psíquica permanente, que se manifesta em tudo e por tudo, na vida, na História, na Natureza, no bem e no mal. Descaracterizando o regionalismo, o autor concebia o brasileiro como uma entidade homogênea, discernindo um idioma poético nacional. Macunaíma não é um personagem, mas um símbolo, que está num tempo que é passado e presente, que é norte e sul do Brasil, talvez mesmo, latino-americano.

“Macunaíma ora é corajoso, ora covarde, nada sistematizado em psicologia individual ou étnica. Avança e vence o monstro Capêi e depois foge de uma cabeça decepada, que se torna sua escrava e da qual foge… Avança para o público na Bolsa de Valores e depois fica com medo, é preso e foge. “Me acudam senão eu mato”… não tem coragem para moçar outra icamiaba e parte sofrendo de amor”. “Macunaíma é uma contradição em si mesmo, o caráter que demonstra num capítulo, desfaz em outro.”

Reforça Mário em carta a Manuel Bandeira: “Macunaíma não é símbolo do brasileiro. Ele vive por si, porém possui um caráter de não ter caráter”. Coube a esse livro abrir os horizontes para diversos romances regionalistas, especialmente os nordestinos, e, sem dúvida, Guimarães Rosa, num tempo neo-moderno.

Com a Revolução de 1930, a consciência da função social da literatura e das responsabilidades dos escritores cresceu e tomou um lugar cada vez mais importante na vida e na obra de Mário de Andrade. Mário, o homem público, bradava: “Forçoso é continuar para que o idealismo floresça, a ilusão fecunde, a castigar aqueles que aviltam no “far niente” burguês vicioso.”

A política partidária nunca o seduzira; sempre lhe parecia ser suja demais e o deixava enojado. Mesmo assim houve um instante em que ele se entregou de corpo e alma às atividades de homem público. Entre 1934 e 1938, criou e chefiou o Departamento de Cultura de São Paulo. Mas suas contradições com o Estado-Novo o impediram de seguir adiante. Mudou-se para o Rio e lá foi professor de Estética na Universidade do Distrito Federal e, posteriormente, trabalhou com Capanema no Ministério da Educação. Novas desilusões, decide em 1940 retornar a São Paulo onde ajudou a fundar o Serviço do Patrimônio Histórico Nacional.

Em 1934 criaria os “Contos de Belazarte”, textos impiedosos que focalizam os dramas da pequena burguesia e do proletariado paulistano; em seguida, “Contos novos”, publicados postumamente à sua morte.

Odeia o fascismo e, desde 1942, dirige-se cada vez mais para a esquerda, aproximando-se dos comunistas. Deseja uma arte que seja social, igualitária e pragmática, capaz de servir ao aprimoramento do homem. É desse ano a famosa conferência “O movimento modernista” em que confessa: “Eis que chego a este paradoxo irrespirável: tendo deformado toda a minha obra pelo anti-individualismo dirigido e voluntarioso, e toda ela não é mais que um hiperindividualismo implacável! E é melancólico chegar assim no crepúsculo, sem contar com a solidariedade de si mesmo. Eu não posso estar satisfeito de mim. O meu passado não é mais meu companheiro. Eu desconfio de meu passado.”

Ainda se faz necessário ressaltar o excelente trabalho de crítica literária publicado em 1943, “Aspectos da literatura brasileira” e “O empalhador de passarinhos”. E não nos devemos esquecer do ensaísta, do narrador e do dramaturgo de “O banquete”, série de textos publicados em jornal durante o último ano de vida, que no formato de diálogos filosóficos, constituem uma reflexão originalíssima sobre a natureza e função das artes sob o capitalismo monopolista.

Não bastasse, nesse intelectual múltiplo ainda vicejam o musicólogo e o folclorista de tantos livros! Um crítico de artes plásticas capaz de examinar com primor as obras de Aleijadinho, Lasar Segall e padre Jesuíno!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal me toparei comigo…

Tenhamos paciência andorinhas curtas…”

Os dois últimos livros de poemas escritos por Mário foram “Lira paulistana” e “ O carro da miséria”, editados no mesmo ano de sua morte, 1945.

“Eu nem sei se vale a pena

Cantar São Paulo na lida,

Só gente muito iludida,

Limpa o rosto e assopra a avena,

Essa angústia não serena

Muita fome, pouco pão,

Eu só vejo na função miséria, dolo, ferida,

Isso é vida?”

O fazer poético de agora é muito distinto daquele de a “Paulicéia desvairada” e de “Lozango Caqui”. Presenciamos o sofrimento e a solidão do poeta que antes cantava a euforia de sua musa: São Paulo. O debochado Arlequim dá lugar ao Eu sombrio, irmanado aos sentimentos dos cidadãos de seu país e do mundo: raiva, fugas, feridas, lutas, miséria.

“Minha viola ferida. Ferida minha viola,

O amor fugiu para leste na borrasca,

Minha viola quebrada, raiva, anseio,

Lutas, vidas, miséria, tudo passou-se em São Paulo…

Cidade de espírito cansado,

Que se arrasta em marchas fúnebres….

Muita fome, pouco pão, estudantes sem texto,

Jornalismo de cabresto…”

Antes da morte que o colhe precocemente, o líder inconteste do Movimento Modernista deu-se conta de que a vida é mesmice, os sonhos são sempre desfeitos pela realidade, em meio às labutas do cotidiano. “Toda a minha obra é transitória e caduca, eu sei. E quero que ela seja transitória. Com a inteligência não pequena que Deus me deu e com meus estudos, tenho a certeza de que poderia fazer uma obra mais ou menos duradoura. Mas que importa a eternidade entre os homens da Terra e a celebridade? Mando-as à merda.”

Entretanto, “Macunaíma” cuidaria de imortalizá-lo.

Na primeira fase de Mário, o Brasil é retratado como novo, sensual, convidativo; gradualmente, irá se transmudar em um país duro, marcado por opressões e recoberto pela miséria advinda da concentração do capital nas mãos de uma minoria. O mundo interior, inicialmente tinto pelas cores do entusiasmo, ao final se mostra desbotado pelas experiências frustradas.

“Não pretendo obrigar ninguém a seguir-me.

Costumo andar sozinho”.

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