Maiakovski e “O Percevejo”

Uma Resenha

Uma obra de vanguarda, modernista, questionadora, genial. O simbolismo que aponta para um “futuro socialista” que, após doze anos de revolução, se apresenta ao poeta como triste e insoço, homogêneo e monocórdico. O “Poeta da Revolução”, o mesmo que poetara “Vladimir Ilitch Lenin” em 1926, faz uma crítica acerba ao tratamento dado à arte pós Lenin e Lunatcharski. Depois de “O Percevejo”, produziu pouca coisa, mas extraio de seu último poema, escrito em 1930, o lado ao qual ele desde sempre se alinhou, ainda que, ao final, criticamente: “Todo inimigo da classe operária é desde muito meu inimigo jurado. / Tivemos sob a bandeira vermelha, anos de sacrifício, dias de fome/ Mas cada tomo de Marx, nós os abríamos como se fossem janelas, e, mesmo sem saber ler, saberíamos onde ficar, de que lado lutar.”

O Percevejo era, ao mesmo tempo, uma praga que tanto incomodava, como a garantia de humanidade da revolução, em franca e trágica transição para o burocratismo stalinista. “Cuidado, cidadão”, clama um bombeiro, “incêndios são causados por sonhos mal-sonhados, por isso nunca leve para ler na cama Nadson e Jarov”, o último dos quais, rompendo com Maiakovski, se transformará nos anos trinta num dos esteios do oficialismo na arte.

Na antevisão do poeta, o socialismo futuro que se plantava seria “despreendido” do álcool, do fumo, da liberdade, do gosto de se viver livremente, enfim. Amorfo na sua garantia do pão, da estupidez e da vulgaridade para a massa, e, por tudo isso, profundamente desumanizado. Prissipkin, que morrera congelado em 1929, é descoberto sob o gelo e submetido, num tempo da Federação Socialista da Terra, em 1979, a um processo científico de descongelamento. Esse personagem, dissidente do passado remoto, ressurreito, seria transformado em uma peça de museu, ou melhor, de zoológico. Quando toma contato com o mundo que o recria, seu único desejo é retornar à rua Lunatcharski, n. 17. Voltar à “residência” do primeiro Comissário para a Educação e Cultura e ao ano da revolução.“Para que viver?”, “para o socialismo do futuro?” É um grito de socorro do poeta Maiakovski lançado ao vento, um pathos impossível de encontrar uma luz, a não ser no próprio suicídio, o que ocorreria pouco tempo após a montagem da peça “O Percevejo”. Um professor, num futuro socialista, tentará, em 1979, decifrar palavras do passado: “suicídio, o que é suicídio?”, olha no dicionário e o que encontra como sinônimos? “…servilismo…solidão…suicídio, ah, aqui está!”.A primeira montagem teatral foi simplesmente genial e assustadora para a burocracia e para a União dos Escritores. Nela contribuíram os vanguardistas Shostakovitch, ( grande músico e maestro, autor da “Sinfonia 1905” que foi apresentada em praça pública durante o cerco nazista a Leningrado como o hino de resistência soviética) e Rodtchenko, o grande artista plático, como cenógrafo.A peça constitui uma crítica acerba da burocracia que sufoca, que privilegia aqueles que, com um cartão de sindicato, colocam-se acima do próprio povo, do proletariado que “representam”. Criticando a “Nova Política Econômica” de Stalin, Maiakoviski vai ao fulcro do deslumbramento dessa parcela do “proletário ascendente e privilegiado” pelo consumismo. O vendedor de bonecas no mercado, onde as pessoas chegam como seres humanos e partem transformadas em “transportadoras de mercadorias”, anuncia: “bailarinas mecânicas, diretamente da ópera de Moscou…bonecas que dançam sob a direção de nosso Camarada Comissário”. Outro vendedor apregoa “ 105 histórias engraçadas de Tólstoi… por apenas 15 copeques”, liquidação do que aquele Titã da literatura jamais escrevera, comédias! Tudo deturpa-se na ânsia pelo consumo.“Eu sou um homem de perspectivas históricas! Desprezo os costumes pequeno-burgueses como fitas, lacinhos, eu quero mesmo é uma cristaleira!”, diz o personagem central, preocupado com o próprio patrimônio e com certo estilo e poder de consumo. Esse é Prissipkin, ex- proletário, ex- membro do Partido, “que perdera a carteira do Partido ( ou o seu significado), mas que ganhara na loteria e nas ações do Estado”. Mantinha, por não ser tolo, a sua carteira sindical. Prissipkin que se casando com Elzevira, a cabelereira pequeno burguesa, terá o “poder”de transformá-la em camarada, realizando o sonho de um Baian: a “união do proletariado com a pequena burguesia”. Palavras da mãe da moça: “Minha filha, você ainda não tem o cartão, então é melhor, como eu, também ficar quieta, calar a boca”, desnudando os privilégios formais que já corroíam a sociedade.A seguir, Maiakovski desnuda a corrupção e a falta de transparência. Um serralheiro diz a Prissipkin: “Segue meu conselho: ponha cortinas nas janelas. Aí você poderá abrir as cortinas e olhar a rua ou então, fechá-las e abocanhar as propinas”. O mesmo serralheiro que declama: “Eu trabalhei, há algum tempo, na construção de uma ponte para o socialismo. Mas eu me cansei e não terminei e, debaixo da ponte, repousei. Na ponte cresceu grama que os carneirinhos comeram. Agora eu só quero descansar à beira do caminho”.Quando Prissipkin, acidentalmente congelado juntamente com o percevejo que carrega na pele, está para ser ressuscitado, em 1979, surge a questão suscitada pela Secretaria Central Epidemiológica: “Como evitar o contágio com a bactéria da bajulação e da vaidade transmitida pelo percevejo, doença característica do ano de 1929?” “ O mistério do lambe-botas poderia ressuscitar?”. Esta preocupação ocorre, todavia, apenas num primeiro momento, pois logo a seguir a sociedade do futuro glorificará o percevejo transmissor do pucha-saquismo e erguerá para ele um pedestal no zoológico, buscando alguém a quem ele possa picar infindavelmente, para sua preservação.Mas, dialeticamente, o mesmo percevejo trará para aquela sociedade mórbida, uma outra bactéria do passado heroico, uma novidade chamada paixão, há muito extinta.Nessa sociedade futurista, Prissipkin é considerado uma espécie extinta, viciosa, que fumava, que bebia cerveja, que ria e tocava guitarra; consideravam-no mesmo como uma nova espécime biológica, o “Filistaeus vulgaris”, que, conforme o Comissário Diretor, transformava “Tolstoi em Marx” e se diferenciava dos pássaros pelo tamanho de seus “excrementos”.Quanto ao ressuscitado, da jaula onde o colocam para visitação pública, grita inutilmente: “Eu não pedi para ninguém me ressucitar! Congelem-me novamente!”. “Por quê estou sozinho na jaula? Camaradas, venham comigo”!A resposta do Diretor é ”apliquem-lhe uma mordaça, para que não fale, não nos contamine”.Fecham-se as cortinas ao som dos acordes de Shostakovitch.

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