MEMÓRIAS DE UM SUBVERSIVO (quarto episódio)

“Sobrevivendo nas Sombras”

Um opioide, um tiroteio e o cheiro da morte


Os fatos a que nos referiremos ocorreram precisamente entre os dias 23 a 26 de dezembro de 1975. Nosso biografado e sua família (não nos esqueçamos de que uma criança de sete meses já lhes fazia companhia), mudara-se, em decorrência dos episódios já relatados, da cidade de Buenos Aires para uma região próxima, ainda na região metropolitana, a menos de dois quilômetros de Avellaneda, onde localizava-se Monte Chingolo com o quartel “ Arsenales 106, del Ejercito Argentino”.

Viveram algum tempo em uma pequena casinha, quarto, cozinha, banheiro, em cujos fundos havia um quintal com flores e algumas árvores frutíferas. Um lugar mais do que simples, porém muito agradável. Mas na vida daquelas pessoas que viviam nas sombras, sempre haveria um senão. E esse era o fato de que a região sofria com permanente falta de água. E por esse motivo, a casa possuia um depósito subterrâneo para a mesma, localizado exatamente no jardim.

Agora sim, podemos contar nossa história. A dor no dente molar inferior que Pedro Alexandrino sentia já o importunava há algum tempo. O dentista do bairro que o atendera, fizera o serviço a seu modo e a dor, no entanto, persistira. No dia 23 de dezembro, à tarde, ela tornara-se insuportável e as aspirinas pouco ajudaram. O nosso amigo ganhara uma pulpite num dente fechado e obturado. Somente quem já passou por uma dor como essa sabe do que falamos.

Para “colmo”, como dizem os argentinos, “la Navidad” caia num final de semana e o tal do dentista viajara. Praticamente sem dinheiro, a alternativa que restava era ir à farmácia e comprar algum analgésico que funcionasse e aguardar até a segunda-feira ( ou terça, ele hoje não se recorda precisamente), que sucederia ao dia de Natal. Comprou, então, dolantina injetável, pois sabia que funcionaria, afinal já aplicara a mesma em casos de dores agudas na Casa de Detenção em São Paulo, mas esta é uma outra história. A dolantina provoca, à parte da analgesia quase imediata, sonolência e uma sensação de profundo bem-estar.

Foi logo após a primeira aplicação venosa, quando a sensação de dor quase magicamente desaparecera é que se ouviram os primeiros disparos da metralha, seguida por voos rasantes de pequenos aviões, apitos, alarmes. Alexandrino olhou para sua companheira e disse-lhe sorrindo: “aqui se comemora cedo a véspera de Natal”. Ela, que estava em seu juízo perfeito, disse-lhe: “isso é tiroteio, você está dopado, precisamos saber o que está acontecendo”!

O ruído da metralha não cessava nem com a chegada da noite. Rajadas luminosas passavam a rasgar os céus. As rádios davam a notícia do “ataque terrorista” a uma unidade do Exército, onde se concentrava parcela importante de seus arsenais. Também dizia que a perseguição aos guerrilheiros se estendia num círculo de mais de dois quilômetros de raio, ou seja, englobava a localidade da pequena residência do casal. Havia anúncios radiofônicos para que ninguém desse abrigo a “terroristas” que tentavam fugir ao cerco, que a população permanecesse em suas casas e facilitasse o trabalho de buscas da polícia e do exército.

Com dolantina e tudo o mais, o momento fez com que a sedação desaparecesse. Nossos amigos precisavam ter uma alternativa e Alexandrino pensou rápido: “vamos secar o reservatório de água”. Retirada a tampa, viram que, por sorte, não havia tanta água depositada e alguns baldes resolveram a situação. O depósito seco era grande o suficiente para abrigar até mesmo duas pessoas, por algum tempo.

Nossos amigos sabiam da possibilidade de terem a casa “allenada”, revistada, e, nesse caso, os documentos argentinos falsos que possuiam não resistiriam. “E se algum companheiro pedisse guarida em sua casa?”, eu perguntei ao Alexandrino. Ele me disse: “o que fazer, iria pro depósito de água também ou morreríamos todos”.

Pelas dúvidas, após improvisar o esconderijo, fecharam as portas da casa, sem esquecer dos enfeites natalinos que foram pendurados e puseram um cartelito no portãozinho de entrada: “Volvemos en lunes: Buena Navidad”. Pequeno pedaço de papel salvador.

Numa situação como essa o tempo é muito relativo e assim temos que considerar o depoimento de nosso entrevistado. De qualquer modo, pouco tempo após a afixação do cartalito, um tiroteio se fez ouvir a não mais que cem metros. Sirenes chegando, gritos “a ese hijo de puta lo matamos”. A criança, José Pedro, desperta e começa a chorar. É a hora de ir para o depósito de água. Alexandrino não tem dúvida em acalmar o filho e lhe injeta quase meia ampola de dolantina. Então, os três se acomodam e recobrem o esconderijo improvisado com sua pedra. Ouvem ruídos, não se mexem, nem mesmo piscam os olhos. Soa a campanhia da casa, a repressão busca outros fugitivos. Mas não entra, o pequeno cartelito fora providencial e salvador.

Quando tudo se aquietou deixaram o esconderijo. Já não havia avionetas pelos céus, balas tracejantes, nem metralha e nem sirenes. Pois justamente agora a dor voltava e nosso personagem fez com que sua companheira lhe aplicasse outra dolantina na veia. Ele quase podia ouvir um “resquiat in pace”.

Muito bem, o dia 24 e 25 passaram. Dia 26, Alexandrino, como muitas vezes fazia, tomou o ônibus para ir trabalhar em Buenos Aires. Ele passava por Avellaneda e no seu percurso estava o cemitério da cidade. Um cheiro ocre, adocidado-apodrecido, um cheiro de morte invadiu todo o transporte. Mais de quarenta cadáveres, com as mãos cortadas estavam atiradas ao solo do cemitério, sem sepultamento, visíveis ao longe pela janela do veículo. O trânsito é lento e alguém comenta: “ahora quieren matar a nosotros con ese holor”.

Obs.: O ataque ao quartel de Monte Chingolo seria a maior ação revolucionária urbana do Exército Revolucionário Popular argentino, que mobilizara toda sua infra-estrutura para abastecer com armamento a guerrilha rural. Um agente infiltrado, desses malditos cães que mudam de lado, denunciou a ação ao Exército e os mais de cem guerrilheiros que dele participaram cairam em uma armadilha mortal. Quem não morreu em combate foi covardemente torturado e assassinado após a prisão. Os corpos em decomposição foram mantidos sem sepultura, com as mãos amputadas, com o objetivo de disseminar o terror, por quase uma semana no Cemitério de Avellaneda.

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