Mia Couto e O último voo do flamingo

A leitura de Mia Couto caminha numa variante do realismo fantástico; melhor seria dizer que, como um mago, ele trabalha uma espécie de animismo fantástico, em que as almas encarnam em gentes com as tradições e as magias do seu pedaço de mundo, que não é somente Moçambique, mas todo o continente africano.

Adota, num tempero que é seu, os nomes que por si só explicitam características psíquicas e comportamentais de seus personagens. Se ele transita pelo trágico, é certo que nele também encontramos um profundo e delicioso lirismo que ao poeta nos ata, prendendo-nos até o final em uma leitura que é feita sofregamente, mas à qual retornaremos muitas vezes para, somente então, degluti-la em seu âmago.

Como Guimarães Rosa, Mia Couto enriquece o linguajar com neologismos extremamente adequados a cada circunstância, num poetar que flui autêntico e doce, unificando a estética aos pensamentos, tradições e expressões de sua gente.

O autor, ao receber o Prêmio Mário Antônio em 2001, declarou que O último voo do flamingo “fala sobre a perversa fabricação de ausência – a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos”. Uma nação profundamente agredida pelos anos de ocupação, pelas guerras e pela ganância daqueles que usurparam o Poder deixado pelo colonizador. Um domínio totalitário que deixou as mãos dos portugueses para ser exercido pelos africanos, os “Administradores” do hoje que, no passado, se juntaram à luta revolucionária por oportunismo, ou que, uma vez no poder, esqueceram seus ideais socialistas, agindo em função da própria ganância.

Mia Couto disse mais: “ O avanço desses comedores de nação obriga-nos aos escritores, a um crescente empenho moral. Contra a indecência dos que enriquecem a custa de tudo e de todos, contra os que têm as mãos manchadas de sangue, contra a mentira, o crime, o medo, contra tudo isso se deve erguer a palavra dos escritores.”

O roteiro de O último voo do flamingo desenvolve-se nos anos noventa, os primeiros após a guerra de Independência e dos anos de guerra civil. Moçambique emergira arrasado por problemas sociais e políticos; é um país cindido na própria identidade. Tropas da ONU desembarcam em terras africanas para imporem sua “ordem”, a “paz”.

Tizangara é a terra fictícia em que transcorre a narrativa. E será essa terra que implodirá na escuridão, pendurada no tempo, logo depois que o flamingo, símbolo da felicidade e da prosperidade, decidir abandoná-la em seu último voo. Permanecerá um fio de esperança: um voo de outro flamingo, que talvez um dia, ainda faça o sol voltar a brilhar, afastando a escuridão que a tudo recobre .

O romance principia com pessoas que explodem. Primeiro os estrangeiros, os soldados Boinas Azuis; depois deles, os próprios moçambicanos. Os primeiros “explodem” quando fazem sexo com as moças locais; uma explosão limpa que somente deixa rastros nos genitais e boinas pendurados em árvores. Afinal o que eles entendem sobre o conflito daquela gente para transar com os negros? São corpos estranhos que devem ser expulsos.

Quando os negros explodem, eles o fazem de verdade, com sangue e vísceras por toda parte; pisaram  minas terrestres plantadas e replantadas pelos homens de negócio e de governo, sedentos por dinheiro.

O narrador da história deverá servir de tradutor que, por ordens do Administrador Jonas , dará apoio a um italiano a serviço da ONU, Massimo Risi, que vem investigar o porquê das explosões exterminadoras. Ora, Massimo compreende muito bem o português e, ao final, compreenderá a emblemática Tizangara. O tradutor deveria transmitir ao estrangeiro uma “ilusão” sobre a realidade, comportando-se “tão bem” quanto Chibango, o assistente do Administrador, o típico “lambe-botas”, que é um funcionário “como todo agradista: submisso com os grandes, arrogante com os pequenos”. “O burro na companhia do leão não cumprimenta o cavalo”.

O italiano é levado a hospedar-se na única pensão da cidadezinha, que “nos tempos da revolução chamava-se Martelo Proletário; mudaram-se os tempos, desmudaram-se as vontades. Agora se denominava Martelo Jonas.” Difícil explicar que “a pensão é privada, mas que também é do Partido. Isto é, do Estado”. Ironicamente, o narrador nos diz que “o camarada Administrador Jonas não abusava, os outros é que não tinham poder algum.”

O narrador-tradutor comunica-nos um pouco de si e sobre seus pais. “Eu lhe pedia (à mãe), explicação do nosso destino, ancorado na pobreza. Ela dizia: Já pegou mania dos brancos; quer entender o mundo que é coisa que nunca se entende. A vida, meu filho, é uma desilusionista.” Mas o narrador já provara da “árvore do saber”, “a escola foi para mim como um barco que me deu acesso a outros mundos”.

Falando do pai, Sulpício, “meu velho não guardava boa ideia do trabalho. Perdera crença de o trabalho criar o futuro.” Nos tempos de colônia servira no Exército Colonial, como guarda florestal: “sofri racismos, engoli saliva de sapo”. “Aprendera na tropa que só se dispara sobre o inimigo quando ele estiver perto”. No caso dele, estava tão próximo que se arriscava a disparar sobre si mesmo. O inimigo lhe estava dentro. O que ele atacava não era um país de fora, mas uma província de si…

Ainda Sulpício: “ Quando os revolucionários chegaram eles disseram que o povo seria dono e mandante. Ele se encheu de medo. Matar o patrão?” Muito mais difícil é matar o escravo que está dentro de nós. Mas só mudamos de patrão, conclui Mia Couto. Esses chefes políticos deviam ser grandes como árvores que dão sombra. Mas têm mais raiz que folha. Tiram muito e dão pouco. “Os brancos ocuparam-nos. Não foi só a terra: ocuparam-nos a nós, acamparam no meio de nossas cabeças. Somos madeira que apanhou chuva. Agora nem acendemos e nem damos sombra. Temos que secar à luz de um sol que ainda não há. Esse sol só pode nascer dentro de nós”. “ A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como estações do ano: ficam a amadurecer no ódio da gente miúda.”

A respeito dos Boinas Azuis, quando o filho “tradutor” diz que eles “ajudam a construir a paz”, o pai contesta: “ Nisso você se engana. Não é a paz que lhes interessa. Eles se preocupam com a ordem, o regime desse mundo. A ordem que lhes faz serem patrões. Essa ordem é uma doença em nossa história… a aposta dos poderosos, tanto os de fora quanto os de dentro: provar que só colonizados poderíamos ser governados. Antigamente queríamos ser civilizados. Agora queremos ser modernos.”

O sexo, é sempre presente em Mia Couto, forte elemento destinado a ligar ou a ser usado; quando simplesmente “bem de consumo” ele conduz à aporia das explosões dos soldados. Quando conexão entre seres humanos, produz vínculos de amor que abrem caminhos do compreender, do compartir. Na pensão, o italiano conhecerá uma figura triste, Temporina, a jovem com a cara de velha, “pois o tempo passara e ninguém a amara”, apesar de seu corpo escultural prenunciar delícias ainda não provadas. Massimo verá outra Temporina em suas formas, requebros, encantos e encontrará a excitação da paixão; o único estrangeiro a amar cujo corpo não explodirá, no amor compartido.

Massimo deverá investigar as explosões dos Boinas Azuis começando pelo último “explodido”. Aquele que morrera ao penetrar a prostituta Ana Deusqueira. Sem que ele saiba, ela o protegerá através do feiticeiro Andorinho.  Relata-lhe sua história de vida. Desde cedo puta, fora, no início da Revolução, enviada para Campos de Reeducação. “ Atafulharam caminhões com putas, ladrões, gente honesta e mandaram para o mais longe possível. Tudo de uma noite para o dia, sem aviso. Quando se quer limpar uma nação só se comentem sujidades”. “E pergunto, por que nos ensinaram essa merda de sermos humanos? Seria melhor sermos bichos, tudo instinto, podermos violar, morder e matar. Sem culpa, sem juízo, sem perdão. A desgraça é essa: só uns poucos apreenderam a lição da humanidade.” E o aconselha: “ Massimo, nunca aspire a ser centro de nada. A importância aqui é mortal”. Massimo seguirá seu conselho, ele também filho de gente do povo, de uma prostituta com seu avô-pai.

Chegamos a Jonas, O Administrador: “ Quando o Administrador chegou a Tizingara, trazia uma farda da guerrilha e as pessoas o olhavam como um pequeno deus. Nessa altura, dizem, ele não era como hoje; ele entregava-se aos outros. Trouxera um sonho de embelezar futuros, nenhuma pobreza teria mais esteira. “Esse país vai ser grande”, dizia. Com o tempo, a vida esqueceu-se de sua palavra, o hoje comeu o ontem”. “Ninguém é prisioneiro senão de seu próprio destino”.

Confissões do Administrador Jonas ao Camarada superior, seu “sócio” em empreendimentos:

“ Eu, de acordo com sua recomendação, sempre me faço maior que meu tamanho. Sempre faço lembrar meu heroísmo na luta armada; em pleno mato, sem nada para comer, tudo em sacrifício pela libertação do povo”… “ Trata-se de meu enteado que anda metido com maltas duvidosas que roubam e traficam drogas. Estou preocupado e, inclusive, já lhe entreguei a ambulância que um projeto enviou para tratar a saúde. Eu desviei a viatura para o moço fazer uns negócios; entretinha-se e sempre rende. Depois vieram essas manias de corrupção e eu acabei devolvendo a viatura. Agora estou a pedir outra para os sul-africanos que querem se estabelecer aqui. Eles entregam e eu, facilito… São pretos como eu, mas não sou da mesma raça. Pode ser que eu seja um racista étnico. Tenho até vergonha deles. Trabalhar com as massas populares é difícil, já nem sei como intitulá-las, massas, povo, comunidades, sei lá. Se não fossem essas maltas pobres nosso trabalho seria facilitado… O padre disse que o inferno não aguenta mais de tantos demônios. Estamos a receber excedentes aqui na terra, um gênero de deslocados do inferno e que nós, os antigos revolucionários, fazemos parte desse excedente. Fomos socialistas aldrabões; viramos capitalistas aldrabões… O povo é a concha que nos abriga, mas pode, de repente, tornar-se a chama que nos irá queimar… Despeço-me enviando-lhe sinceras saudações revolucionárias, ou melhor, excelentes cumprimentos”.

Em outra carta, o Administrador relata um sonho para seu superior: “Nós fazíamos as cerimônias chamando nossos heróis do passado. Vieram o Tzunguine, o Madiduane e os outros que combateram os coloniais. Sentamos e pedimos que nos ajudassem a colocar ordem no mundo de hoje, que expulsassem os novos colonizadores. Fui sacudido pelos mortos que ordenavam que eu me levantasse: “Tu não pediste que expulsássemos os opressores”? “ Pois te estamos a expulsar, a ti e aos outros que abusam do Poder.” “Os Resistentes de nossa História chutando-nos para fora da história”. E termina saudando a firme liderança nos assuntos do Estado e as transformações capitalistas operadas em favor das massas populares.

Passemos a algumas considerações do próprio narrador: “Não havíamos entendido a guerra e, agora, não entendíamos a paz…. Se os chefes nesse novo  tempo respeitassem a harmonia entre a terra e os espíritos, então cairiam boas chuvas e os homens colheriam felicidades. Mas os novos chefes pareciam pouco importados com a sorte dos outros. Na minha vila( porque outros lugares eu não conheço) havia tanta injustiça quanto no tempo colonial. Parecia que esse tempo não terminara, apenas era gerido por outra raça… Secretamente eu deixara de amar aquela vila, ou se calhar, a vida que nela se vivia. Aqueles que nos comandavam engordavam a olhos vistos, roubavam terras aos camponeses, se embebedavam sem respeito. A inveja era seu maior mandamento. Os novos ricos se passeavam em terreno de rapina, não tinham Pátria. Sem amor pelos vivos, sem respeito pelos mortos. Eu sentia saudades dos outros que eles haviam sido, porque afinal eram ricos sem riqueza nenhuma. Se iludiam tendo uns carros, uns brilhos de gasto falso. Falavam mal dos estrangeiros à noite e durante o dia se ajoelhavam a seus pés por migalhas. Queriam mandar sem governar, enriquecer sem trabalhar”.

As hienas inautênticas, bichos mulatos de gente. E mais, suas cabeças eram as dos chefes da vila. Os políticos dirigentes desfilavam em corpo de besta. Um das hienas disse: “Nós roubamos e re-roubamos. Roubamos o Estado, roubamos o país até só sobrarem os ossos. Depois de roermos tudo, regurgitamos e voltamos a comer.” “As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão”.

Caminhamos para o epílogo. Massimo prepara um relatório sobre o que vira e vivenciara. Por ser honesto, sabia que significaria o fim de seu emprego, e que, além disso, ninguém na ONU estaria interessado na tragédia de um povo, tão somente na Ordem. Senta-se com o narrador à beira de um rio.

“Próximo do rio, a nação parecia haver sido toda engolida num vácuo. Já acontecera com outras nações da África. Entregara-se o destino destas nações a ambiciosos que governaram como hienas, pensando apenas em engordar rápido. Tentara-se de tudo, de todas as magias, em vão, pois não havia gente que amasse a terra. Faltavam homens que pusessem respeito a outros homens. Os deuses decidiram transportar aqueles países para esses céus que ficam no fundo da terra. Lugares onde nunca se fizera sombras, cada país ficaria em suspenso à espera de um tempo favorável para regressar a seu próprio chão. Aí se poderia implantar uma bandeira, a tão sonhada. Até lá era o vazio, o nada… Transmutaram-se em não seres, sombras à espera das respectivas pessoas. Podia ser também que aquele buraco tivesse sido onde os deuses quisessem enterrar os demônios que engordavam em nossa terra. A fábula do flamingo que desistira de voar e que agora só queria repousar. O flamingo, salvador de tantos navegantes quando já perderam as direções da vida”.

Mássimo transforma seu relatório em um pássaro, num flamingo de papel e diz: “há de vir um outro”. Na tradição daqueles lugares, os Flamingos, eternos anunciadores da esperança.

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