Mia Couto: O outro pé da Sereia

Passaram-se aproximadamente seis anos entre a criação de o “Último voo do flamingo” e de o “O outro pé da sereia”. Agora Mia Couto abandona pelos escaninhos da criação seus guerrilheiros heroicos, “os governantes que se transformaram em negociantes” e “os comedores de terra”, que habitavam seus livros no começo da década. Ele opta por uma retórica híbrida, refinada e ainda mais sutil, permeada de recursos estilísticos, sem privar-se dos questionamentos acerca dos estereótipos que envolvem a África. Mia vai além das questões político-sociais contemporâneas, na previsão de que o africano reencontre suas origens, suas tradições, seus cultos, suas crenças. Agora Moçambique simboliza a luta para “esquecer seu passado”, busca descanso e a retomada em um “antigamente”, enfim, reconstrução desde suas raízes.

“O outro pé da sereia” nos surpreende pela leveza plástica que, em seu lirismo, não abre mão da profundidade, estando inserido numa realidade trágica. Mia nos convida a viajar, pois seu romance, como a Odisseia, é um livro de viagens, de aventuras que ocorrem em dois tempos históricos separados por quinhentos anos! A narrativa alterna entre um passado com raízes históricas e um presente que se torna passado. Em 1560, revivemos os primórdios da colonização portuguesa acompanhando a expedição do jesuíta Gonçalo da Silveira, que parte da colônia portuguesa de Goa, na Índia, até a fronteira entre Zimbabwe e Moçambique, nas terras do chamado reino Monomotapa. Ele traz consigo tropas, escravos, artigos para troca comercial e busca alianças que permitam a “salvação das almas pagãs” e, principalmente, a expansão dos interesses do império português.

Viagens pelo oceano e pelos rios, num passado remoto e num passado presentificado, entrecruzadas com visitas a desaparecidos, com sonhos que julgamos ser vida. Uma viagem à alma, individual e coletiva, onde se encontram presentes o lado revolucionário e o solidário, o mesquinho e o conformista, o amante e o dos pequenos e grandes ódios e, principalmente, os interesses de posse e poder.

Ao criar um mundo ficcional em que o impossível torna-se natural, Mia Couto utiliza a palavra como o lugar da construção da identidade, pois nela a memória é preservada e compete somente ao indivíduo decidir o que deve ou não ser lembrado. O real embrinca-se com o imaginário, o fantástico com a realidade. A vida moçambicana é regida de conformidade com “outra ordem de racionalidade”.

A mulher Mwadia, personagem central na história, é a Canoa, o pequeno demônio a ligar nossos estados de alma, o mundo da realidade e o dos sonhos, o da consciência e o do inconsciente; a magia e o racional; o passado, o presente e o futuro que se presentificou no Antigamente e no Longe.

Um questionamento é central: persiste ainda alguma esperança desde que o mundo moçambicano foi invadido pelo colonialismo português, há mais de cinco séculos? Se houver, do que é feita essa esperança? Ah, com Mia Couto, como se tornam frouxos nossos antigos conceitos, preconceitos, utopias…

Moçambique, 2002

Zero Madzero que crescera no Longe, apaixonou-se por Mwadia e refugiou-se com a amada num local chamado Antigamente. Quando partiram, buscaram um local agreste em que ninguém mais fizesse morada. Na Vila Longe, que deixaram para trás, as mulheres haviam emudecido e os homens, perdido a crença. Zero prometera a Mwadia, sua mulher, que no Antigamente a tiraria de uma vida, onde ela já não tinha motivos para viver. Já Mwadia não desejava somente estar distante do Longe, mas queria o exílio que só se consegue quando todos de nós se esquecem. Do passado, Zero Madzero trazia um profundo ferimento no pescoço que sempre sangrava, Mwadia a sua desesperança de viver.

No meio do caminho entre o Longe e o Antigamente ficava o lugarejo da Passagem, onde, vivendo sozinho, o curandeiro Lázaro Vivo não queria que mais ninguém lhe contasse sonhos. Estava saturado por não mais suportar “essa mentira que é o relatar de sonhos”. Porque nenhum sonho se pode relatar. “Seria preciso uma língua sonhada para que o sonho fosse transmissível”. Quando procurado pelas pessoas, ele nunca resolvia seus problemas, “mas os dissolvia”, o que é uma forma superior de se prestar ajuda.

Um dia Zero encontra os restos de um satélite americano espião, que ele considera como se uma estrela sagrada fosse. Às margens do rio mágico e cercados pelo bosque sagrado ele e Mwadia apressam-se a enterrá-lo, um satélite do passado, tão do antigamente como as ordens que os americanos dariam para sua busca. Num ponto de intersecção com o século XVI, eles descobrem semienterrados, um esqueleto humano, uma imagem de Nossa Senhora com um pé amputado e um baú. Deixando o esqueleto onde se encontrava, carregam consigo a imagem e o baú.

Buscam conselhos com o curandeiro Lázaro. Ele lhes contará que o esqueleto do rio era do missionário Silveira, morto há quase quinhentos anos. “Não há fundura para os mortos. Nesse mundo todo só há um cemitério, nosso próprio peito”. Diz ao casal que Zero correria grande perigo se a Santa não voltasse para um abrigo santificado. Como Zero jamais poderia voltar, decidem que Mwadia levaria a Santa até o Longe e a abrigaria na Igreja da vila.

Oceano Índico, 1560

A nau Nossa Senhora da Ajuda navega de Goa a Moçambique levando soldados, funcionários, deportados e escravos, além do provincial dos Jesuítas, Gonçalo da Silveira e um padre, Manuel Antunes. O objetivo da missão era catequizar o imaginário reino de Monomotapa, riquíssimo em ouro e outros materiais. Levavam a bordo a estátua de Nossa Senhora, benta pelo próprio Papa.

Santa ou Sereia, deusa das águas? Caberá a cada espírito sua interpretação. Antes do embarque, a imagem cai no rio e de lá é retirada pelo escravo Nimi Nsundi, para quem a Santa não escorregara, mas fora até o pântano. Afinal, para ele a estátua era Kianda, rainha das águas. Nsundi era um escravo capturado pelos negros do Congo e vendido aos portugueses; no navio tinha a importante função de manter aceso o fogo de proa. Durante toda a viagem pelo oceano ele tentará devolver a Santa às águas, chegando mesmo a lhe serrar um pé.

Ao singrar os mares, estranhos sonhos visitam o padre Antunes: sonhos eróticos com a visão de Nossa Senhora a surgir das águas. A santa que, deixando de ser santa, transformara-se em Kianda. Nesse sonhar inicia-se a metamorfose do homem branco para negro, do cristão para o pagão.

Dia Kumari era uma escrava indiana, mulher que ardia em fogo interno. Quando enviuvara submetera-se às chamas que deveriam consumi-la, mas sobrevivera incólume. A comunidade afastara-a e esse afastamento conduziu-a à escravatura. Até que não notou muita diferença, pois no mundo a que pertencia ser esposa é outro modo de ser escrava. As viúvas apenas acrescentam a solidão à escravidão. Ela se apaixonará por Nsundi, o guardião do fogo.

Numa carta de Nimi Nsundi a Dia Kumari, Mia desvela raízes culturais que navegam os séculos: “Condena-me por me ter convertido aos deuses dos brancos. Saiba que nós cafres, nunca nos convertemos. Uns dizem que nos dividimos entre as religiões. Não nos dividimos, repartimos. A alma é um vento, pode cobrir mar e terra, mas não é da terra nem do mar. A alma é um vento e nós somos um agitar de folha, nos braços da ventania… Meus deuses não pedem nenhuma religião. Os portugueses dizem que não temos alma. Temos, eles é que não veem. O coração dos portugueses está cego. A nossa luz, a luz dos negros é um lugar escuro e por isso eles têm medo que espalhemos cores e cheiro da terra e do pecado. Por isso os missionários querem embranquecer a minha alma… Estou entrando em casa de Kianda, a sereia, a deusa das águas. É essa deusa que me escuta quando me ajoelho aos pés da Virgem deles. Agora que eu te escrevo, vejo que essa letra não é a minha, é de mulher. Meus dedos não têm gesto, eles são o próprio gesto, eu sou a Santa.”

Moçambique, 2002

“A viagem não começa quando se viaja, mas quando se atravessam nossas fronteiras interiores”. Quando Mwadia chega ao Longe trazendo a Santa, D. Constança, sua mãe lhe diz: “ O que faz uma igreja é o sossego que mora lá dentro”. Uma mãe que engordara tanto que estava irreconhecível aos olhos da filha. Diz que engordara por solidão, solidão dos filhos.

Na casa da família ela não reencontra sua tia Luzmila, irmã do padrasto goês, Jesustino. Luzmila, para quem tudo nascia da limpeza, fora a mais dedicada beata de Vila Longe. Ela havia morrido. Constança conta-lhe que Luzmila muito mudara desde que Mwadia partira. Uma noite à mesa de jantar ela disse a todos: “não é por me gabar, mas tenho muito jeito pra puta! Sou Santa Luzmila, mãe dos pecadores, padroeira das putas”. E o desvario piorara ao ponto dela abandonar a cidade e para lá só retornar morta, no carro de um anônimo mineiro.

Mwadia pregou a foto da tia na parede dos ausentes. No chão, um balde recolhia a lágrima dos desaparecidos.

Jesustino, o novo nome do padrasto marido de dona Constança, era alfaiate; ele que trocava de nome a cada ano, almejando viver muito tempo. Conta-se que se desesperara com a morte da irmã mais velha; que Luzmila o seduzira e quando ele se acovardou com a relação incestuosa, ela enlouquecera. Jesustino tentara o suicídio depois da morte da irmã. Não se matando, tornara-se alcoólatra, “que é outra forma de morrer”.

No passado, Mwadia estudara na capital. A família desejava que ela retornasse para ser uma “deusa da água”, quando ela mesma o que  queria era se casar com o negro Zero Madzero. Quando ela retorna, fica grávida de Zero. Seu padrasto insiste que é ele quem a possuíra e que o filho que a enteada carregava era dele. Jesustino, por ciúme, jura de morte Zero. Conta-se que pela primeira vez o burriqueiro  Zero tomou as rédeas da vida e partiu com a mulher que amava, Mwadia, que na realidade, não estava grávida de ninguém.

Nas conversas entre mãe e filha, D. Constança tenta convencer Mwadia de que Zero morrera ao explodir uma mina. Portanto, que ela vivia no Antigamente com um fantasma, que voltasse, pois, para seu lado. “Mãe, por acaso, seu homem é menos fantasma que meu Zero?” “Não são os mortos que ressuscitam, são os vivos que os ressuscitam”.

O pai de Mwadia fora capitão do Exército Colonial, com a devoção ao português própria de bicho domesticado. Depois da Independência, ainda manteve intacta essa lealdade à causa antinacionalista. Enlouquecera, o colonialismo varrera-lhe os miolos. Quando ele morreu, chegou o Jesustino.

Mwadia tem de buscar por um nicho seguro onde deixar a imagem que trouxera, pois a igreja de Longe estava em ruínas, sem telhado, janelas ou portas. Até mesmo o cemitério ao lado era um completo destroço, com sepulturas assaltadas, corvos e ratos. Mwadia pensa na alfaiataria. Inútil, a loja estava encerrada desde que o fantasma da morte desalojara os clientes e emperrara as máquinas de costura. Nada em Longe funcionava: nem telégrafo e nem telefone. Os postes, o cobre, os isolantes, tudo havia sido roubado.

No centro da vila passou pela barbearia do antigo revolucionário Arcanjo Mistura, um homem desiludido, amargado pelo rumo político do país, inconformado com o dito “emprateleirar da revolução”. Culto, exilado pela PIDE para Longe, acostumara-se ao lugar “onde as pessoas esquecem para ter passado e mentem para ter futuro”. Agora ninguém mais precisa de seus cortes, porque o cabelo só cresce nos mortos. A barbearia eram somente escombros. A ironia do destino ali se espalhava: sendo o guardião do espírito revolucionário, Arcanjo vigiava agora uma fortaleza sem muros. Apesar de descrente, a ninguém doía mais o abandono a que estavam devotadas a Igreja e o Cemitério, pois “uma terra que não cuida de seus mortos é porque está sendo governada pela própria morte”.

Um casal de afro-americanos estava para chegar em Longe. Quem o anunciara fora o tio Casuarino, empresário duvidoso de ainda mais duvidoso sucesso. Dizia-se que vinham estudar “histórias de escravos do passado”, por conta de uma ONG americana. Arcanjo ao saber da novidade diz “ esta terra já não é nossa, talvez do Casuarino… Nunca houve, como hoje, tanto escravo no mundo”.

Benjamin e Rose (brasileira) eram afro-americanos. Todos, exceto Arcanjo, querem tirar proveito da situação. Quando os estrangeiros avistam as casas em ruínas na Vila, perguntam se havia sido a guerra e Arcanjo responde: “ Essas casas não foram destruídas, elas morreram. Uma casa morre se não é habitada com amor”. “Nós ocupamos as casas como se fôssemos intrusos, como se fossem propriedades dos outros. Queremos ter o gosto de usufruir sem a responsabilidade de possuir”.

Oceano índico, 1560

No navio do missionário, os escravos simplesmente morriam; como morriam de fome, roubavam os mapas marítimos para comer e a tinta, principalmente a usada para representar a África, a mais venenosa, acelerava a morte. O padre Manuel abria seu coração com o missionário, seu superior: “Como queremos governar de modo cristão todo o mundo, se nem nesse pequeno barco valem as leis de Cristo?” A água dos porões e a comida que serviriam aos escravos tinham sido trocadas por algodão: os comerciantes haviam cambiado vidas por mercadorias. “Primeiro enviamos o Diabo e depois trazemos Deus. Estou transitando de raça, D. Gonçalo, e o pior é que estou gostando”.

Aos poucos D. Gonçalo convence-se de que para o padre e para os descrentes havia apenas o Santo Remédio colonial: a Inquisição, “pois há remédios que doem…”

Bula do Papa Nicolau ao rei de Portugal é mais um contraponto cultural utilizado por Mia: “ nós lhe outorgamos pelo presente documento, com a nossa autoridade apostólica, a livre permissão de invadir, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e qualquer outro incrédulo ou inimigo de Cristo, onde quer que seja, como também reduzir essas pessoas à escravidão perpétua”.

No meio de uma noite o negro Nsundi decepou uma perna da Santa. Foi preso e condenado à morte pelo missionário.   No dia seguinte,  deitariam óleo fervente à pele até que ele confessasse a localização do pedaço de madeira. Mas os cafres do porão começaram sua cantoria, levando o medo ao coração dos portugueses. O missionário Gonçalo sempre tivera para si que a gargalhada era feminina, aos homens servia-lhes o sorriso. Havia que humanizar aqueles pagãos que gargalhavam, talvez com o uso de gargalheiras de ferro. Ouve a canção dos escravos  sem nada poder fazer, assim como ao condenado à morte tocar a mbira, com cantos que partiam de seus dedos, por onde o sangue pingava. No dia seguinte, as cordas da mbira haviam-lhe seccionado os pulsos: Nsundi fugira ao carrasco e à tortura.

O padre Antunes entrega a Dia uma carta de despedida do namorado morto: “A verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós mesmos”.

Moçambique, 2002.

Depois da Independência, Arcanjo tentara voltar à cidade grande, levando com ele uma agenda de nomes e telefones. Foi descobrindo que um a um de seus amigos haviam morrido e foi riscando-os de sua lista, até se dar conta de que estava riscando a si mesmo. Decidiu voltar para Longe quando se deu conta de que não fora só os seus amigos que haviam morrido, mas também o tempo em que ele poderia fazer amigos. “Nós temos que lutar para deixarmos de sermos pretos, para sermos simplesmente pessoas”. “A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós”.

Mas voltemos aos visitantes norte-americanos. Casuarino preparava espetáculos para eles que buscavam “raízes da escravatura”. Mwadia e a mãe, baseadas nos escritos do padre Antunes que estavam no baú encontrado no rio do Antigamente, entravam em transe sobre o passado, retornavam a 1560 e ofereciam o espetáculo pelo qual os visitantes pagavam.

Moçambique, 1560

O barco chegara a Moçambique e seguiu viagem para o continente, para o reino dos selvagens e terríveis pagãos: os monomotapas. Para padre Antunes: “Quando se inventam maldades sobre um povo, é para abençoar as maldades que farão sobre ele… vamos ver que, quando chegarmos, esses cafres não são tão perigosos assim; por piores serão iguais aos homens brancos”. Resolve, então, escrever um livro sobre a viagem, aquele que agora resumimos.

Na chegada à terra, o padre completa sua metamorfose. Declara, então, ao superior que, se no passado sonhava que se convertia em um negro, “agora estava certo: ser negro é um modo de viver e esse será, a partir de agora, o meu modo de viver”. Assim, não mais batina. Seu novo nome com que se auto-batiza: Nimi Nsundi.

Em janeiro de 1561, o missionário Gonçalo chegou à capital do reino buscado. O Imperador ofereceu-lhe ouro e mulheres. Mas o missionário era devotado apenas à imagem que trazia consigo. O Imperador deseja  conhecer e dormir com tão formosa mulher. Decepciona-se com a Santa de madeira que lhe é levada pelo missionário.

Nessa mesma noite, em sua tenda, D. Gonçalo morre enforcado. O escravo Xilundo auxiliou os dois soldados portugueses no enterro do missionário, assassinado por eles e por um rico comerciante português; também enterram a Santa e o baú com o diário de bordo escrito pelo padre Antunes, nas margens do rio.

Moçambique, 2002

“Sabe por que não nos lembramos de muitas coisas? É porque sempre estivemos misturados, vítimas e culpados.” “Acontecera o mesmo com a guerra, milhares de mortos, uma lista infindável e indizível de crimes. Alguém assumiu esse passado? Alguma vez a culpa se escrevia com rostos, nomes e datas? A árvore do esquecimento está plantada dentro de nós”. Por tudo isso, “esse mundo não é falso, ele é um erro”, dizia o antigo revolucionário, o barbeiro Arcanjo Mistura.

O barbeiro pede a Mwadia para dormir uma noite ao pé da Santa; no dia seguinte ele desaparece, pois afinal, os estrangeiros todos estavam voltando para a sua terra e “era hora de ele partir para algum lugar em que fosse ele o estrangeiro”.

A partida de Arcanjo determina o momento das verdades a serem aclaradas. Contam a Mwadia que sua mãe engordara não por saudades dos filhos, mas para reduzir a dor das porradas que recebia de Jesustino.  A submissão da mulher africana desnuda-se totalmente na confissão que Constança faz à filha: engordara para que Jesustino não se machucasse ao bater em ossos e durezas!

Rosie revela que nada a ligava a Benjamin e que na África descobrira que seu lugar era no Brasil. Benjamin e ela não eram espiões dos norte-americanos, mas sim, tão somente, aproveitadores baratos de crentes americanos.

Mwadia  voltará  para o seu Antigamente. D. Constança ainda tenta retê-la dizendo-lhe que ninguém a esperava em lugar algum. Conta-lhe a verdade: seu homem, Zero Madzero,  fora assassinado por Jesustino, no passado. “ Não são os grandes traumas que fabricam as grandes maldades. São, sim, as miúdas arrelias do quotidiano, esse silencioso pilão que vai esmorecendo a esperança , grão a grão”. Porém o Zero com quem ela vivia era outro! “Não era aquele Zero, diz para a sua mãe!” Mas se estava tão certa disso, por que se levantou chorando tanto?

Quando a filha parte, leva consigo uma foto de Zero Madzero que colocará na moldura dos parentes ausentes, os mortos.

Uma viagem somente termina quando encerramos nossas fronteiras interiores. “Regressamos a nós, não a um lugar”. Mwadia sentia que retornava aos labirintos de sua alma enquanto a canoa a conduzia pelos meandros do rio Messenguesi. Na ida ela se preocupara em sombrear a Virgem; no retorno, ali estava a Santa Mulata, afeiçoada ao sol da África. Quando chegou ao ponto de partida, ela depositou a imagem junto ao tronco da árvore e disse: Você já foi Santa. Agora é sereia, agora é Nzuzu!

Surpreendeu-se ao ver-se aguardada por Zero. Andaram como se seus pés produzissem poeira e Mwadia de novo se internou em um mundo ausente de paisagens; as árvores que ela conhecera tão frondosas no Longe, aqui eram ramos indigentes raspando o sol. Árvores de rapina. “Você volta carregando o peso da tristeza”, disse-lhe o amante.

Ela não respondeu por que estava incapaz de falar, afogada num tumulto de sentimentos. À noite, Mwadia sentou-se na varanda, e o horizonte era uma espécie de fundo escuro, ponteado de rostos; foi distinguindo-os um a um: lá estavam o padrasto, Luzmila, Matambira, Casuarino, Arcanjo e seu pai. Ao centro, a figura impoluta de dona Constança. Aquela era a parede dos seus ausentes, que se erguia no interior da própria alma. “Como se caminhasse dentro de si mesma reparou num espaço vazio e, na sua mão, estava a foto do último ausente, Zero”.

Retornou ao rio e enterrou o baú do padre Silveira. Ao voltar à casa, aproximou-se do leito em que Zero Madzero dormia e disse-lhe: “acabei de enterrar uma estrela”. Beijou-o e tomou o caminho do rio. O rio do qual era canoa, ao qual se uniria em definitivo.

0 visualização

Espaço Literário

Marcel Proust

Redes sociais

  • White Facebook Icon

© 2020 por Carlos Russo Jr.

Todos os direitos reservados