Mia Couto: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

O segundo livro que resenharemos de Mia Couto nos extasia da primeira à última linha; seu animismo fantástico é executado ainda com maior maestria. Encontrando lado a lado o inusitado e o real, adentramos numa viagem que é pura poesia. Um tipo de poesia feita para matutar, poesia reflexiva, pois Mia nada tem de ingênuo e, provavelmente, ele visa tocar determinado tipo de leitor, aquele que compartiu com o mesmo, numa terra chamada Terra, alguma experiência no reino da utopia, ou que seja um candidato a tal.

Sentimos o intenso pulsar da África: o autor trabalha as tradições moçambicanas, utilizando-se de uma linguagem lúdica, criativa, que não se envergonha nem mesmo de trocadilhos, no melhor caminho para Guimarães Rosa.

Lírico e belo, tão trágico quanto O ultimo voo do flamingo, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra fala da terra num tempo histórico que agora é de paz, após dezesseis anos de guerra. Depois da independência conquistada pela Frelimo, de inspiração marxista, sobreveio a guerra com a Rodésia, ponta-de-lança do imperialismo e do “apartheid” sul-africano.  Em seguida, a guerra civil destruiu o sonho de uma geração que pensava ser possível criar uma nação próspera, um futuro digno para os africanos. O sonho de Samora Machel e de seus heroicos seguidores ficou longe de se concretizar. “ A realidade pós-colonial demonstra ser ainda pior”, nos confessa Mia pela boca do narrador.

Luar-do-Chão é a Ilha, separada da Cidade por apenas um rio. A ilha, o pedaço de mundo ficcional de Mia Couto que se encontra num estado de abandono, miséria e decadência, mas que, centrado na família dos Marianos, mantém um conjunto de tradições populares, que também correm o risco de serem destruídas. A Cidade é o local dos desgovernos, das grandes transações, dos negócios.

Iniciemos pelo personagem- narrador, Marianito, um universitário que retorna à Ilha Luar-do-Chão pelas mãos de seu tio mais velho, Abstinêncio, após anos de ausência. Volta para a realização dos funerais de seu avô Dito Mariano, que ele iria comandar, segundo a tradição africana, por vontade do patriarca, um “morto- não morto” ou um vivo à espera que a morte e a terra decidam-se por recebê-lo em seu seio.

Tio Abstinêncio tinha tido um caso com o mundo. E agora lhe doía a decadência desse rosto a quem amara e por isso  tornara-se melancólico, de tudo se abstendo.“ O mundo não tem mais beleza.” Ele que por haver despendido a vida à sombra de uma repartição pública, acabou ficando saudoso de um tempo nunca havido. Fora demitido do serviço público quando começara a falar da necessidade de que se deveria separar o dinheiro público do privado. Ele via lixos, gente vivendo de lixos, gente valendo menos que esterco, aquilo lhe doera o coração, e o mais grave era a riqueza germinada em obscuros ninhos, a indiferença dos poderosos para com a miséria de seus irmãos.

Marianito atravessa de barco o rio para chegar à Ilha. Na travessia ele conhece Miserinha, uma mulher gorda e baixinha, ficara semicega ( por não ver cores, ela não distinguia preto de branco, tudo para era mulato), devido a uma paulada na cabeça recebida por Dito Mariano, de quem era amante. Ela que fazia magias de proteger e desproteger pessoas, nunca conseguira proteção para si mesma. Quando de sua viuvez, seus parentes lhe haviam roubado tudo, e ela ganhara o nome. “ Só existem dois tipos de pessoas que se aproximam da gente: uns para pedirem, outros para roubarem.”

O sexismo do africano explode pelos atos e pela boca dos personagens. Sexo africano, liberto e poligâmico para a maioria dos homens; restritivo, punitivo, serviçal e monogâmico para as mulheres. Dito Mariano, o patriarca, era casado com Dulcineusa, de quem Miserinha, a quem ele transformara em amante, era cunhada.  Dulcineusa  tinha também uma a meio- irmã, muito mais nova que ela, também amante de Dito Mariano. Chamava-se Admirança, a de lindas formas.

Quando chega à vila, Marianito encontra as casas em ruínas, exaustas de tanto abandono. “Não são apenas casas destroçadas, mas o próprio tempo desmoronado, com a miséria se espalhando pelas ruas”. Ainda pode-se ler um letreiro sujo pelo tempo: ”A nossa terra será o túmulo do capitalismo”. A única propriedade preservada em toda a vila é a casa do clã dos Marianos.

Marianito tinha mais um tio, Ultímio, um político oportunista, sem caráter e sem respeito pelas tradições do povo, que vivia na Cidade, mas que imediatamente apressara-se em comparecer ao funeral, interessado em negociar toda a Ilha, começando por desmatá-la e vender a propriedade familiar para estrangeiros interessados em terras raras. Chegara à Ilha num carro último tipo, mas que atolara no lamaçal das ruas de terra da ilha. “A política é a arte de mentir tão mal que pode ser desmentida por outros políticos”.

O único amigo de tio Abstinêncio era Amílcar Mascarenhas, um médico goês. Ele segreda a Marianito a respeito de Ultímio: “ele  é um desses que pensam que são senhores só porque são mandados por novos patrões. A maior parte dos pobres lhe  inveja os brilhos, mas para mim ele não passa de uma minhoca. No charco onde a noite se espelha, o sapo acredita voar entre estrelas.” “Nunca estivemos tão próximos do bicho”.

Mascarenhas vivia próximo a um edifício em ruínas, onde ainda se podia ler uma frase já muito apagada, que ele mesmo havia pichado um dia: “Abaixo a exploração do homem pelo homem”. Fora militante revolucionário, lutara contra o colonialismo e fora preso político por anos. Após a independência deram-lhe cargos de importância na Capital. Quando a revolução terminou, ele foi removido de todos. Assistiu à morte dos ideais que lhe davam brilho ao viver. Buscou refúgio na bebida e na Ilha.

Chegando à casa, Marianito descobre, na sala sem teto, em cima da mesa, seu avô nem morto, nem vivo. Ele que enquanto vivo se dizia morto, e que agora, morto, teima em não morrer totalmente. O cadáver repousava sobre o lençol no qual Dito Mariano amara  todas as mulheres de sua vida. O “falecido”, que  estava em dificuldade de transição, encravado entre as fronteiras dos dois mundos, ainda pediria ao neto que lhe trouxesse uma moça rija para sua despedida sexual.

Ah, Mia Couto, o sexo o tem acorrentado! Admirança, a tia, é um símbolo do sexo que busca. Ela é a primeira que atiça, no roçar, os instintos sexuais de Marianito, esse jovem candidato a Édipo, na sua ignorância do passado. Em sonho ou em realidade ele seria por ela possuído, ou melhor seria dizer, estuprado?

Dulcineusa é avó, mãe, deusa, escrava. Seus dedos sem unhas são deformados pelos anos sem fim a trabalhar na fábrica de castanhas de caju. A submissão ao homem da mulher africana é simbolizada por uma frase de Dulcineusa: “Nunca na minha vida tive que concordar ou discordar, não vou agora aprender”. Ela sempre soubera de todas as traições de seu marido e as tolerava como “naturais”. Somente uma pergunta a atormentava após a morte do marido: “ele, afinal, a amara?”

Cabe a ela a entrega de velhas chaves, simbolizando o desejo do patriarca: que o neto assumisse a casa, as tradições familiares, evitando a degeneração que por todos os lados grassava; que espantasse aos abutres que aparecem apenas para reclamar heranças.

Marianito reencontra seu pai, Fulano Malta, “aquele que nunca pecou por estar desprevenido”. Fulano somete uma vez estivera na Cidade, em visita ao filho. Voltou com o sexo cansado da prostituição barata e sem um tostão de seu, voltando a residir em sua pequena tapera, distante do lar familiar. O pai dirá ao filho que, não bastassem todos os desarranjos que acometeram a terra, um novo surgira: o narcotráfico e a cocaína. Sempre armado, ele teme o retorno daqueles que um dia mataram seu grande amigo, Juca Sabão.

Juca Sabão tentara lavar a terra desse novo pesadelo e “semeara na terra” os sacos de cocaína que a nova geração deixara na Ilha. Ele fora assassinado pelos traficantes que não lhe perdoaram a perda da mercadoria. Até mesmo a  arma do crime desaparecera, “para encobrir os verdadeiros mandantes, gente graúda”. “ Luar-de-Chão começou a morrer quando mataram o Juca Sabão”, confidencia ao filho. Por muitas razões ele despreza seu irmão Ultímio, dentre elas, a cobertura que dá aos filhos, os traficantes de cocaína que mataram Sabão.

Todos os mistérios daquela terra, a história de suas gentes, serão transmitidos a Marianito através de estranhas cartas, cartas de navegação e entendimento, escritas por sua própria mão, mas inspiradas por seu avô. Na primeira delas, Dito lhe diz que ele enfrentará desafios maiores que suas forças, que “aprenderá que cada homem é todos os outros”. “Os viventes são vozes, os transferidos (mortos), são ecos.” E como eco o avô lhe dirá mais: “Todos aqui estão morrendo, não por doença, mas por desmérito de viver”.

Fulano Malta casara-se com Mariavilhosa, linda negra que havia sido estuprada e engravidara do administrador português. Mariavilhosa, que  provocara o aborto que quase a matara, perdera a capacidade de ter filhos. Fulano foi amargurando e quando escutou falar que havia guerrilheiros lutando contra o português colonialista, logo se juntou a eles. Fulano esteve na guerra até a independência e quando voltou para a aldeia vinha fardado e foi recebido como um herói. “Fulano havia lutado para que todos fôssemos ricos, partilhando essa grande riqueza, que é, simplesmente, não haver pobreza”, escreve ao neto Dito Mariano.

Na comemoração do primeiro ano da vitória, Fulano não compareceu à festa, ele que seria o maior homenageado por ser da terra; não foi, preferiu ficar com Mariavilhosa, mesmo porque, “aqueles que desfilavam bem na frente, esses nunca haviam se sacrificado pela luta.” Ele conhecia muito bem os oportunistas e, a partir desse dia, calou-se para nunca mais falar em política. Um dia, há muitos anos, Mariavilhosa desiludira-se com a vida e decidiria afogar-se no rio Madzimi,” transmudando-se em água”. Após a morte de quem amava, já não era de um país que Fulano fora excluído. “Era estrangeiro não de uma nação, mas do mundo!”

O padre da aldeia chamava-se Nunes, um português anti-colonialista, ele confessa a Marianito que tinha um ferrão a roer-lhe por dentro: queria ser ele a ter partido para a guerrilha. Não que partilhasse os ideais de Fulano, mas “estava cansado com a injustiça, ela não poderia ser a mando Divino. Imagino quanto o teu pai sofre a ver tudo o que está a acontecer”. A miséria de Luar-de-Chão era, para o sacerdote, somente uma antevisão do que iria acontecer com as sociedades ricas. Os atentados nas grandes cidades seriam apenas um sinal. Não era só gente inocente que morreria. Era o colapso de um modo de viver. Tinha pena de não haver uma crença para onde fugir, como o fizera Fulano Malta há vinte anos.

Novamente Dito Mariano: “ A velhice me ensinou: o amor é coisa de vivo. Ou talvez seja a mãe de toda coisa viva. Pois antes, como eu nunca fui bem vivo, o amor nunca o foi para mim.”

Curozero é um novo personagem, o coveiro da Ilha, filho de João Sabão e irmão da estranha Nyembeti, tão estranha aos olhos ocidentais quanto a África de Mia Couto. Com Curozero chegaremos a um dos pontos fulcrais do romance: a recusa da terra em receber o corpo do semidefunto antes do tempo oportuno, antes de um tempo adequado, que é o da verdade e da harmonização. A tentativa de enterrar Dito Mariano encontra a maior resistência no solo adubado pela mentira e pela insensatez humana, um solo que se fecha completamente. O chão arenoso em que o automóvel importado de Ultímio atolara resiste, agora, rígido, à pá do coveiro e faz com que seu metal se vergue na rocha dura.

O avô ainda deverá permanecer insepulto na sala sem teto da casa familiar, até que toda a verdade seja revelada, verdade que libertará as pessoas e a própria terra. Em nova carta ordena ao neto que entregue ao pai a farda de guerrilheiro, que ele escondera do filho. Fulano diz ao filho: “não quero mais essa porcaria”. O que ele iria fazer com aquilo, museu da revolução? Reclamar privilégios, apropriar-se de terras, exigir indenização? Fulano despreza tudo isso. E confessa: “Seu avô não queria me deixar partir para a guerrilha e agora me manda isto de volta? Dito Mariano dizia que muitos dos que diziam que queriam mudar o mundo, pretendiam apenas usar de nossa ingenuidade para se transformarem em novos patrões, que a injustiça mudaria apenas de lado.”

Mas Fulano partira para a guerrilha porque sabia que existiam revolucionários autênticos, que lutavam pelo bem do povo. Dissera-lhe o pai: “Nós começamos por pensar que são heróis, em seguida aceitamos que são patriotas, mais tarde, homens de negócio. Por fim, chegamos à conclusão de que não passam de ladrões.” Respondera-lhe o filho: “Não todos”.

Na penúltima carta, a revelação: o avô confessa ser o verdadeiro pai de Marianito; Mariavilhosa jamais poderia ser mãe. Marianito nascera de Admirança! O nascimento e a pseudo gravidez de Mariavilhosa   fora pura encenação.

Afinal, Dito Mariano confidencia seu último crime, sua última mentira: a pistola que matara Sabão pertencia a Fulano, era da guerrilha, ela “ tinha valor de vida sonhada”. Necessitado de dinheiro, roubara-a do filho e a vendera aos netos, filhos de Últímio. Depois ele a roubara da polícia a pistola, mais para evitar escândalo.

Não fora à toa que o falecido avô resistira em morrer. O retorno às origens trilhado pelo neto abrira ao velho a possibilidade de sua partida derradeira, para uma nova existência, junto ao rio, nos braços da natureza. A morte exigiu a manutenção da vida até a extração da verdade. Somente após a verdade ressurgida, a terra se aplacou e recebeu o corpo morto de Dito Mariano em seu ventre, no mesmo lugar em que haviam enterrado Mariavilhosa.

Com a verdade, torna-se possível uma harmonização em Luar-de-Chão, que permitirá a preservação das tradições de um povo despedaçado, mas reencontrado em seu umbigo do mundo. Então, Marianito  reencontra Fulano: ele está fardado, reconciliara-se com o seu passado de lutas. Ele e o irmão Abstinêncio haviam decidido mudar-se para a casa familiar e assumi-la, impedindo que os planos de destruição do lar por Ultímio se consumam.

Ultímio este diz a Mariano: “ Você pensa que somos a geração da traição. Pois verá a geração que se segue! Eu sei do que estou a falar…” E ele falava dos próprios filhos, das gangues que trariam mais uma maldição à terra: o narcotráfico. A resposta de Marianito, entretanto, prenuncia um novo voo do flamingo: Tio, “ isso que você chama de geração, eu também faço parte”. Mariano é a parcela sadia, descente e pensante dessa nova geração, esperança de Moçambique.

Antes de partir para a Cidade, que afinal era o seu lugar, Mariano busca por Nyembeti, que substituíra o irmão, agora era a coveira de Luar-do-Chão. Mariano vai ao cemitério em sua busca e numa cova recém-aberta, é possuído pela moça. E ele a reencontra numa paixão da infância e ao mesmo tempo, é penetrado pelo amor da terra profunda, recebe a afeição da tradição de seu povo, ele também será, desde já, Luar-do-Chão.

Nas águas do rio Madzimi, Mariano chegou e figurativamente reencontrou suas origens e seu passado, empreendendo, para tanto, um denso mergulho em suas memórias, nas memórias de Dito Mariano, seu alter-ego, às margens desse mesmo rio. A sua chegada a Luar-do-Chão e a partida do avô são, por si mesmo, sincronizadas. Uma não poderia ocorrer sem a outra.

O tempo e a casa selam uma união dentro do romance. O tempo, masculino, representa os homens da história. Sofre um processo de desmoronamento que reflete a desconstrução dos homens da terra e desta família: suas dependências emocionais, suas ambições sempre volúveis, os desenganos vestidos pela guerra do país e desnudos por uma fome de paz interna e externa, insaciável em seus corpos e espíritos. A casa, o feminino, é habitada pelas mulheres. Ela precisa de defesa num momento do desmoronamento social e quando da morte do patriarca, que simboliza parcela de um passado a ser preservado da degradação.

Na harmonização de Fulano, o não-pai que aprendeu a ser pai e na não abstenção de Abstinêncio, sob a mediação moderna e honesta de Marianito, a casa reencontrará a sua defesa, a sustentabilidade de muitas de suas tradições na identidade de uma Ilha chamada Luar-do-Chão, separada  da Cidade apenas pelas águas do rio Madzimi.

Mia Couto nos conduz em sua longa poesia ao seu umbigo do mundo: “Nenhum país é tão pequeno como o nosso. Nele só existem dois lugares: a Cidade e a Ilha. A separá-los, apenas um rio. Aquelas águas, porém, afastam mais que a sua própria distância. Entre um e outro lado reside um infinito. São duas nações, mais longínquas que planetas. Somos um povo, sim, mas de duas gentes, duas almas.”

14 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

Espaço Literário

Marcel Proust

Redes sociais

  • White Facebook Icon

© 2020 por Carlos Russo Jr.

Todos os direitos reservados