Mito e tragédia de Medeia, o desespero da traição e do abandono

O mito

Medeia era filha do rei da Cólquida, possuidor da sorte transmitida por uma pele de carneiro- o velocino de ouro. Sua mãe era a deusa Hécate, que simboliza as decisões fatais, a vontade fulgurante da mulher, a magia do conhecimento das ervas e plantas venenosas. Seu pai tinha ainda outra filha, a ninfa Circe, aquela que atraiu Ulisses para seus ardentes amores por mais de dez anos. Ambas as irmãs eram feiticeiras, entendidas tanto nas artes de curar, quanto de matar, capazes também de transformar homens em animais e acorrentá-los aos seus prazeres.

Medeia é, portanto, aquela que ama em demasia, entrega-se ao amor sem os limites da ponderação e é capaz de manter ódios mortais por seus inimigos. Por isso tudo, ela é uma das personagens mais terríveis e fascinantes de toda a mitologia grega, envolvendo sentimentos contraditórios e extremos, sem possibilitar a mediação da consciência sobre seu “id” liberado. Os mitos que envolvem Medeia são classificados por alguns autores como elementos-chave no limiar da civilização, separando de um lado o mundo primitivo, o do matriarcado arcaico e, de outro, os novos desafios e paradigmas aportados pela Idade do Bronze e pelo patriarcalismo.

Jasão, por outro lado, é o herói grego que se empenha na busca do velocino de ouro e, para tal, organiza uma expedição à bordo da nau Argos. Ele e seus companheiros, os argonautas, navegarão até as terras da Cólquida para roubar o velocino do pai de Medeia.

A paixão por Jasão leva a moça a trair seu pai e sua Pátria.

A morte do próprio irmão foi tramada por ela e executada por Jasão no altar da deusa Artemis. De todos os modos, a proteção de Hera evitará a vingança das Erínias e salvará o casal ladrão e infanticida, que refugiar-se-á em Corinto, terra de um amigo de Jasão, Creonte. Eles vivem lá por dez anos e têm quatro filhos.

Nesse período, Jasão se aproxima cada vez mais de Creonte, que oferece a filha em casamento. Medeia não suporta a traição do amante e prepara a vingança, matando a noiva de Jasão, Creonte e os próprios filhos. Quanto a este segundo infanticídio, existem versões alternativas em que Medeia, na fuga, abandona os filhos que terminarão apedrejados pelos coríntios. De qualquer modo, a palavra Medeia passou a incorporar o significado popular de “assassina”.

A Tragédia de Eurípedes

Medeia é o contraponto da inocência e da dedicação ao amor de outra tragédia anterior de Eurípedes, “Alceste”.

Aqui, o desespero da mulher traída e abandonada desencadeará uma fúria irracional, mas calculada, dentro de uma incontida selvageria. Afinal, quem sacrificara a fortuna do pai e a vida de um irmão pela paixão por um homem, com o mesmo denodo buscará na fúria a destruição de tudo o que seja mais caro a Jasão.

Pois se em Eurípedes as mulheres chegam aos extremos das virtudes e da desumanização, os homens perdem qualquer aura de heróis. Jasão, tão amante do poder, é pusilânime e suas propaladas virtudes são coberturas para o mais vil oportunismo político, que não poupam nem a companheira, nem os filhos.

No prólogo a Ama de Medeia faz uma peroração: “que os deuses jamais deveriam ter permitido que a nau de Jasão chegasse à Cólquida”. Relata-nos a traição de Jasão e que Medeia jaz alimentando-se somente pelo ódio aos próprios filhos e ao amante, e que seu caráter violento não suportará o ultraje recebido, “pois é violenta, e quem incorre no seu ódio não fica livre da desgraça”.

O Preceptor das crianças, que os traz de volta ao lar, comenta que Creonte decidira pela expulsão da mãe e dos filhos de Jasão de Corinto, ao que a ama pergunta se o pai concordara com isto. “Não será a primeira vez que um pai que, devido a um novo matrimônio, deixe de amar os filhos”, conclui o Preceptor.

A Ama pede que as crianças entrem em casa, mas que evitem a própria mãe, “Que não fará Medeia presa das dores, esse coração implacável que respira ódio?”

Medeia em sua primeira fala complementa o comentário da Ama: “Como sofro! Ó execrados filhos de uma mãe funesta, pereçam com vossa mãe e morra toda a família”. A Ama tenta amainá-la na fúria: “Por que hão de expiar os filhos a falta dos pais?”

Entra em cena o Coro formado por mulheres coríntias, vizinhas do lar que fora de Jasão e Medeia. “Que clamor lança a desgraçada esposa? Que insaciável desejo do leito nupcial, ó insensata, apressa assim a hora de tua morte?… Se o teu marido anseia por novo leito, Zeus vingar-se-á por ti”.

Mas o desvario de Medeia faz com que reze aos deuses pela morte do marido e da noiva. “Aquele a quem consagrei os meus preciosos bens tornou-se o pior dos homens… A desdita imprevista que me feriu perdeu a minha alma e, privada da volúpia da vida, desejo morrer, amigas. Entre todos os que respiram, somos nós, as mulheres as mais miseráveis. Antes de tudo precisamos comprar um marido e aceitar um dono para nosso corpo… e o divórcio nunca é honroso para as mulheres e não nos cabe repudiar o mau marido”.

E Aristófanes ainda dizia que Eurípedes não amava as mulheres! O grito de independência e libertação feminina faz-se ouvir, dois mil e seiscentos anos atrás com a mesma força de hoje em dia!

No entanto, uma das essências das personagens trágicas é sua ambiguidade; então, prossegue Medeia: “Se em tudo o mais a mulher é tímida e covarde para o combate, quando ultrajada no leito nupcial não há alma mais cruel que a sua”.

Entra em cena Creonte, o rei de Corinto e comunica a Medeia sua decisão de expulsá-la da cidade junto com os filhos. Por quê? O príncipe é sincero e direto: “Eu a temo, és astuta e hábil, ameaças por desgraçar a minha filha e o seu noivo”. Mas a astúcia de Medeia é superior à de Creonte e afrouxa-lhe a vontade, quando por suas súplicas consegue ainda um dia de prazo.

O que Medeia quer é a vingança: “Pensam que eu teria palavras submissas se não tivesse em vista uma emboscada?… Insensato, poderia ter-me expulsado e todos os meus planos naufragariam, mas permitiu-me um dia, durante o qual farei morrer três dos meus inimigos: o pai, a jovem e o marido. Qual será minha arma?… O veneno, e, depois, precisarei de algum refúgio seguro. Que lugar me abrigará?”

Uma vez urdido um plano de destruição dos inimigos, Medeia já não mais fala em se matar, preocupa-se com a fuga e novo abrigo.

Chega Jasão, e se dirige à mulher rejeitada: “É graças às tuas palavras insensatas que te expulsam deste país e não me importo, pois não paras de dizer que Jasão é o pior dos homens.” Medeia: “Salvei-te e a todos os Helenos que na nau Argos estavam… Livrei-te de todo o temor, covarde que eras. Vou falar-te como a um inimigo… para onde irei agora? Para a morada de meus pais que traí ao vir contigo? Já vês que destino é o meu; sou odiosa para os meus familiares, pois por ti deles fiz meus inimigos”.

Jasão debita aos deuses e a Eros seus êxitos na Cóquita mais que à devoção de Medeia. A ingratidão, imoralidade dos ingratos, faz de Jasão um hipócrita: “Mas tivestes muitos benefícios, para começar habitas a Hélade e não terras bárbaras… E que necessidade tens tu de filhos? Deixai-os que os integrarei em uma família com irmãos filhos da realeza… Aliás, é por isso que contraio novas núpcias, engendrando irmãos de origem nobre para os meus filhos”.

Mente, casa-se pelo poder e para não sofrer agruras na velhice. Desmente-o Medeia e Jasão parte para o Palácio de seu futuro sogro.

Entra em cena Egeu, rei de Atenas, tal qual um deus “ex-machine”. Ouve de Medeia todas as suas desditas com Jasão, assim como a sua expulsão de Corinto. Ela implora-lhe que se apiede e lhe dê abrigo. Promete-lhe filtros poderosos para curar-lhe a impotência, feiticeira famosa que é. Egeu sem conhecer seus planos de vingança, jura pelos deuses dar-lhe hospitalidade e segue seu caminho.

Medeia estabelece, então, um plano de ação, tendo a fuga assegurada. Com astúcia atrairá Jasão para sua arapuca. Pedirá que os filhos permaneçam no país com o pai e por eles enviará um presente à noiva como forma de ser grata: um lindo véu com coroa, impregnado com venenos que a matarão e a todos que a tocarem. Finalmente, aos filhos assassinará para que nenhuma família reste a Jasão.

O Coro implora para que ela respeite a lei dos mortais e que, pelo menos, não toque nos próprios filhos. Medeia: “Assim se destroçará mais cruelmente o coração de meu marido”. Coro: “Serás a mais desgraçada dentre as mulheres”.

Retorna Jasão, a quem Medeia agora pede perdão pelas palavras que pronunciara. “Aplacou-se a minha cólera. Filhos saiam e venham reconciliar-se com seu pai, a paz entre nós reina e aplacou-se minha ira”. Seu rosto se desfaz em prantos e Jasão é por ela enredado: “Ages como uma mulher prudente… olharei por nossos filhos, falarei com Creonte para que não os expulse da cidade.” E Medeia pede aos filhos que levem à noiva de Jasão os presentes de núpcias.

Pobre Creusa, filha de Creonte, ainda demasiadamente jovem para entender até que ponto pode chegar o ódio de uma mulher ultrajada. Ela vestir-se-á de noiva, porém irá oferecer sua virgindade não ao noivo, mas ao deus Hades.

Medeia recebe os filhos quando retornam. “Ó, que infeliz sou por culpa de meu orgulho! Ó filhos que criei em vão! É verdade que, pobre de mim, alimentei grandes esperanças de que me ampararíeis em minha velhice e que me enterrariam com vossas próprias mãos… Ai, por que olham para mim, filhos? Por que me sorriem com esse sorriso supremo? Que farei? Não posso… Levarei desta terra meus filhos. Que necessidade tenho de castigar neles a infidelidade do pai, e de fazer-me a mim mesma tanto mal?” “Mas é absolutamente necessário que morram… não poderei deixá-los aos escárnios de meus inimigos, eu que os pari, matá-los-ei”. Debate-se entre a própria dor e a culpa pelos crimes que praticará.

Medeia é uma criatura trágica, que provoca sentimentos de compaixão na plateia. Responde-lhe o Coro das amigas coríntias: “Afirmo que aqueles dentre os homens que não conheceram o casamento e não engendraram filhos são os mais felizes. Com efeito, os que vivem sem filhos, em sua ignorância da dor e da amargura que os filhos trazem, estão livres de muitas angústias. Quanto aos que têm muitos filhos em suas casas vejo-os consumidos por preocupações: primeiro a missão de educá-los honestamente; depois a obrigação de assegurar-lhes a existência, e, para cúmulo, por fim, a dúvida se tais trabalhos se fazem por indivíduos bons ou maus, o que é problemático”.

Chega à cena um mensageiro e traz a novidade de que Creonte e Creusa, sua filha, morreram abraçados, vítimas do veneno contido no véu e na coroa. Medeia se delicia ao escutar como, após enfeitar-se com os presentes, a pobre noiva retorceu-se em dores e teve a pele corroída pelos venenos que a sufocaram. O infeliz pai abraçou-a e ambos encontraram, unidos, a pior das mortes.

Ela dirige-se ao coro em paranoia: “Matarei imediatamente meus filhos para que outro não o faça, com mão mais cruel. Matá-los-ei e verdadeiramente eu os amo, sou uma filha da desdita!” Entra em sua casa e ouvem-se os gritos das crianças que, pelos deuses imploram pela vida, quando o punhal cruel já se abate sobre os mesmos.

O Coro ouve e se indigna: “Miserável! Acaso és de rocha ou de ferro para ceifares a colheita que paristes? Poderá haver algo mais horroroso?”

Chega Jasão preocupado em salvar os filhos da fúria dos parentes de Creonte. Sai Medeia enfeitada e a ele se dirige: “Por que bates e forças estas portas, procurando a mim e aos cadáveres em que tornei teus filhos? Se precisas de mim, digas o que queres, pois Apolo, pai de meu pai, deu-me este carro (um dragão surge em cena) que me protegerá de mãos inimigas… Parto para as terras de Egeu e levo comigo os cadáveres de nossos filhos para que tenham um sepultamento digno”.

Segue-se um diálogo desesperado e final entre um Jasão abatido em sua empáfia, vendo destruído seus sonhos de poder e Medeia, enlouquecida, tomada pela deusa Lissa (a loucura, detestada pelos homens e pelos deuses).

A vingança perpetrada em momento algum conduz a uma nova ordem, mas sim, estabelece o caos, representado pelo próprio escárnio de quem, num dragão, força obscura aparentada com o monstro Tifão, partirá para um exílio seguro, obtido à custa de um juramento ingênuo feito por um Egeu.

A tragédia Medeia foi apresentada no Teatro Odeon de Atenas no auge da carreira de Eurípedes, tendo sido assistida pelo próprio Sócrates, num momento político delicado de decadência, de corrupção e de questionamento dos valores cívicos da democracia ateniense.

Eurípedes não trabalha com ideais, heróis, boas atitudes, reverência aos deuses e aos costumes. Apenas apresenta o homem como ele é, com suas desmedidas, loucuras e falta de caráter, dentro de um destino trágico.

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