“Moby Dick”, a epopeia da autodestruição da humanidade!

Atualizado: Set 21

Há quase dois séculos, a obra magistral de um dos principais clássicos da literatura americana, nos trouxe um sinal de alerta: a destruição da natureza é a própria autodestruição da humanidade!

A pandemia do Covid-19, que nos submerge, é apenas um mensageiro da morte, do desequilíbrio e do aquecimento global, que acolherão os homens que perseguem a destruição do meio ambiente.


Herman Melville, o genial autor de “Moby Dick” é um homem dos mares, um poeta das águas, que retém a estranha e misteriosa magia das criaturas marítimas, aquela das sereias, dos polvos e das baleias e lulas gigantescas. Tal qual Jack London, os poetas das águas costumam perder a capacidade de encontrarem a si mesmos; além disso, poucos possuem da habilidade de se misturarem aos humanos. Será isto o que os leva a dar as costas à vida e a mergulharem no abstrato, exclusivamente nos próprios elementos?

Podemos afirmar que poucos poetas antes e depois de Melville detestaram tão instintivamente a forma como vivemos! Como alternativa, a necessidade de lutar contra o mundo inteiro real criado pelo ser humano e, assim fazendo lutar também contra uma parcela do mais íntimo de nós mesmos. Entender Melville é adentrar nas entranhas dele e de cada um de nós.

“Os selvagens são pobres ovelhas quando comparadas ao homem civilizado, pois o homem branco e civilizado é o animal mais feio e mais perigoso de todo o planeta!”

Mas este é apenas o verso da moeda chamada Melville; seu anverso é que ninguém esteve mais apaixonadamente repleto do sentido de vastidão e do mistério da vida não humana, da natureza que ele próprio!

Então, no mar busca sua fuga! Fugir, deixar a vida para trás, cruzar um horizonte que o levasse ao elementar! Aí encontra sua verdadeira casa. Na bagagem, muitas memórias, recordações daquele que atravessou o “rubicon” da própria vida: Melville não aceita mais a sociedade dos homens e deixa de sentir-se parte dela.

“Moby Dick”, a epopeia da autodestruição da humanidade!

“Moby Dick”, não é um romance para jovens. Trata-se de uma das maiores epopeia jamais escritas, é aquela da Alma Humana e das criaturas da Natureza, obra que rivaliza tanto com uma “Odisseia”, como com uma “Guerra e Paz”.

O romance é magnífico e aterrador, absolutamente atual! Assim como o é o ser humano e o são as forças incontroláveis da natureza.

Quando o homem, em sua insanidade busca dominar as forças naturais, obtêm até mesmo algumas primeiras vitórias; ele busca e consegue destruí-las, mas essas vitórias nada mais serão senão o garrote que, ao final da jornada, irá enforcá-lo.

Se o livro é belo e fantástico, seu significado é terrível. Viajaremos com a alma humana num desbravar de ondas reais, talvez como a nossa própria vida. No cosmos de Melville, os homens são quase sempre ilhas e embarcações que servem a si mesmos e a mais ninguém!

O protótipo desta ilha humana é o comandante da baleeira “Peckod”, o quáquer Acab, símbolo da humanidade insana e canhestramente religiosa, que contém em seu cerne um pouco de todos os fanáticos que abundam em nosso pobre Brasil de hoje em dia: ele não conhece seus limites, caminha na “hybris” para vingar-se de um Leviatã. Para Acab, na baleeira que singra os mares, tão somente conta a vingança cega contra a Baleia Branca. Mas ao final da busca, o que ele na realidade encontrará será um pedaço de corda ao redor do próprio pescoço.

Moby Dick é a baleia branca, a caça. Um enorme e velho cachalote, gasto, muitas vezes arpoado, jamais vencido; ela não vive em bando, nada só, sendo capaz de grande fúria intempestiva e destruidora. Ela é o símbolo da natureza cega quando agredida pelo homem.

Numa fantástica cidadezinha portuária na Nova Inglaterra, tão fluida quanto o próprio mar, encontraremos o único ser realmente com senso de humanidade em toda a narrativa: Ishamael, o americano narrador da aventura. Em seguida nos é apresentada sua alma-irmã, Queequeg, um poderoso canibal com o corpo todo tatuado, arpoador das ilhas do sul. Os dois homens dormirão juntos, na mesma cama da pobre pousada que está repleta; suas almas se casam no estrito sentido dos selvagens, selando uma amizade autêntica entre seres de culturas muito diferentes, um cristão e outro, pagão.

Se para Queequeg, o selvagem canibal, toda relação de amizade é uma união duradoura, para Ishamael, o branco civilizado, a amizade é sempre uma questão de oportunidade; e quando os dois embarcam no baleeiro Pequod, o americano irá se esquecer totalmente do selvagem: a amizade já será página virada.

O Pequod é um veleiro estranho, fantástico, dirigido por um espírito atormentado e fanatizado, ao modo do “Navio Fantasma” de Wagner. Após dias no mar, apresenta-se Acab, o comandante temente a Deus, caçador implacável da inofensiva e velha baleia que um dia, defendendo-se de seu arpão, arrancara-lhe uma perna.

Acab é tão velho quanto sua caça, um ser monomaníaco disposto a sacrificar o barco e toda a tripulação, em holocausto a Moby Dick. A baleia precisa morrer para que ele possa continuar a viver, se assim pudermos denominar seu modo de ser. E quantas analogias poderão ser realizadas nos tempos tenebrosos de um presidente de país chamado Bolsonaro!

Acab tem três Imediatos na tripulação:

Starbuck, o Primeiro, também crente, mas homem bom e responsável, sensato e ousado, calado e confiável, o lado luminoso, apolíneo, justo, ponderado, conduzido pelo vínculo afetivo que o liga tanto aos companheiros de viagem quanto àqueles a quem ama e que deixara em terra. Starbuck jamais abre mão do respeito pelas forças naturais!

O Segundo Imediato, Stubb, é o inverso de Starbuck: mau e obscuro, imprudente e divertido, para ele a caça à baleia é um esporte, tal qual a caça a um homem! Stubb é aquele que, ao barra-vento, escancara o escárnio por si e por todos.

Já o terceiro é Flas, tipo teimoso e obstinado, aliás, como todo homem idiotizado e sem imaginação. Para ele a baleia é “como um rato a ser caçado”!

O grande herói do romance é um velho cachalote, Moby Dick. A ele caberá detonar como força da Natureza indômita seus perseguidores. É a Natureza dizendo um basta à ousadia do homem que perdeu o limite de sua humanidade e se crê um deus.

É ela a mais forte, por isso, zera todo o jogo e basta! Chegará um dia em que nossos cachalotes e baleias estarão extintos, mas as forças naturais seguirão indômitas! Invencíveis!

Existe uma cena insólita que Melville nos descreve quando o barco, de repente, se vê num espaço do oceano, brando como uma lagoa, repleto de baleias, onde uma calma pura resplandece. As fêmeas nadam em paz, as baleias jovens aproximam-se dos botes da morte como cães curiosos, os mamíferos no cio fazem amor. Então os monstros humanos exterminam quantas conseguem.

A esse capítulo segue o momento em que o barco se transforma em uma refinaria para o óleo extraído das caças. Para isso elas foram sacrificadas. Toda a carne servirá aos tubarões e à fome do mar.

Acab e sua tripulação, afinal, encontrar-se-ão com própria Moby Dick. A luta será esplêndida, de tal dramaticidade que não se conseguiria reproduzi-la fora das linhas do próprio Melville!

O combate durou três dias. No terceiro, a baleia torna-se terrível, de caça à caçadora, enfurecida volta-se contra o Pequod, símbolo do homem, de nossa civilização predadora e o destrói, colocando-o a pique. Da extraordinária viagem, do navio de caça restará apenas um sarcófago em busca de socorro!

Assim termina um livro de profundo simbolismo, da primeira a última página, que nos enche a alma de espanto e termina com um grito de alerta para a nossa civilização, um berro de condenação ao homem predador!

Ao final, a Natureza recobrará sempre o seu protagonismo.

Herman Melville nasceu em 1819. Após a morte do pai, foi até os últimos dias da vida, pobre. Se empregou como bancário, professor, agricultor. Em 1839, embarcou como ajudante no navio mercante St. Lawrence e, em 1841, num baleeiro a bordo do qual percorreu quase todo o Pacífico. Na Polinésia francesa, Melville decidiu viver junto aos nativos canibais por algumas semanas.

Ainda em 1841, Melville embarcou no baleeiro australiano Lucy Ann e acabou por se unir a um motim por falta de pagamento. Melville foi preso e fugiu pouco depois. E no final de 1841, embarcou como arpoador no Charles & Henry, sua última viagem em baleeiros, e retornou a Boston como marinheiro, em 1844.

Desde que Herman entra no mar a bordo de um barco, ele encontra seu ambiente natural, sua verdadeira casa. Basta de terra! Os elementos nada têm a ver com as complicações criadas pela humanidade. Na verdade Melville, ao nascer odiando o mundo, navega agora em busca de um Paraíso. Mas é um sonho paradisíaco que jamais alcançaria; as ondas sempre o conduziriam na melhor das hipóteses a um tremendo Purgatório.

Na vida real, Herman Melville sempre buscou algum tipo de união perfeita, sem jamais admitir que qualquer relacionamento perfeito fosse possível entre humanos. Eis o motivo de sua absoluta solidão, pois “cada alma é só. E a solidão de cada qual põe uma barreira para o relacionamento pessoal”.

Não importa, Herman pertence ao conjunto das criaturas que nasceram para viver no Purgatório, aquelas almas que precisam encontrar algo ou alguém para triturar. Almas de profundo olfato, que cheiram a injustiça e a insensatez tanto nos “bons homens dos cultos religiosos”, quanto nos brutais capitães dos navios, nos almirantes dos países, ou nos condutores de homens e de arpões. E uma vez seu nariz tendo apurado o tom de enxofre da desmedida, aí o poeta das águas se sente à vontade.

Em Melville, encontramos a vida de pessoas para as quais o ideal que as guiara apodrece, transforma-se em algo impuro, em perversão. Até mesmo a caridade que delas emane é perniciosa, enrustida de segundas e terceiras intenções. Logo, tornam-se maus tanto os violentos quanto os mansos; até mesmo um “homem santo”. Melville odeia principalmente aqueles que se creem portadores de “missões”!

Em seus melhores momentos, Melville escrevia em uma espécie de transe; sem que ele mesmo se dê conta, seu inconsciente é místico e simbólico. E será esse misticismo inconsciente que o impedirá de se abandonar ao desespero ou à indiferença. De tal modo que Herman veste a roupa de um Rousseau: considera a nobreza dos selvagens em primeiro lugar.

E com tudo isto, Melville é absolutamente moderno, surreal e simbolista. “Ele pressente os meros deslizamento dos elementos. E a alma humana experimentando isso tudo, às vezes chega aos limites do delírio; quase espúrio, mas sempre extraordinário”, no dizer de D.H. Lawrence.

Em 1847, Melville casou com Elizabeth Shaw. Em 1850, Melville e Elizabeth se mudaram para uma quinta em Massachusetts, onde ele conheceu Nathaniel Hawthorne, a quem dedicou “Moby Dick”, publicado em Londres, em 1851.

O livro foi um fracasso de vendas retumbante, tendo sido redescoberto como obra fundadora do modernismo somente no século XX.

Sua versão cinematográfica hollywoodiana faria Melville, se vivo fosse, esconjurar e tentar sufocar todos os seus organizadores.

Herman Melville morreu em 28 de setembro de 1891, aos 72 anos, em Nova York, em total obscuridade. O obituário do jornal The New York Times registrava o nome de "Henry” Melville.

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