Na Democracia, entre a coragem e a covardia.

No tempo que a Grécia era regida pela aristocracia feudal, não havia distinção entre virtude política e individual. A “arete”, como virtude, era transmitida de geração em geração pelo ambiente em que vivia o aristocrata, por meio de exemplos pessoais e dos poetas como Homero.

Quando se estabeleceu a tirania e, posteriormente a democracia, essa forma de transmissão de virtudes desapareceu, surgindo, então, a necessidade de se criar uma nova forma que a substituísse não mais para uma elite, mas para todos os homens livres da “polis”.

Surgiram primeiramente os Sofistas com a proposta de que a virtude poderia ser ensinada. Mas qual virtude? Com a entrada em cena do cidadão, a antiga virtude já havia se fragmentado, apresentando-se tanto como política, quanto individual.

Os Sofistas pensavam a educação não como um esforço a realizar-se para a sociedade como um todo, mas como uma ação a exercer-se unicamente sobre seus líderes, encarando-os não como cidadãos comuns, mas como sujeitos que desejavam os meios mais eficazes para chegarem ao poder. A educação para eles não visava desenvolver virtudes individuais, mas aquelas capazes de dotar um homem com poder sobre as massas.

Se no passado, a “arete” fora símbolo de excelência, na democracia o princípio que regulava a virtude deixa de lado a excelência e transforma-se em símbolo de prazer. Logo, o líder a ser formado pela nova educação deve aprender, sobretudo, os métodos de proporcionar prazer às massas. A sua sabedoria e eloqüência devem lisonjeá-las, acenando para aquilo que mais as agrada. A virtude individual, tanto quanto a política, igualmente são regidas pelo princípio do prazer.

Em contraponto aos Sofistas, Sócrates pensava que somente após o ensino da virtude ao nível individual se poderia pensar no ensino da mesma ao nível político. Na base do confronto que trava com Protágoras encontramos as duas concepções diferentes de virtudes na democracia.

Sócrates aceita o fato de que tanto as virtudes individuais quanto as políticas podem ser ensinadas na democracia, desde que se abandone o princípio do prazer, recuperando-se a antiga “arete”, ou seja, a excelência como norma reguladora da educação, tendo por objeto o ensino da virtude integral. Diferentemente do passado feudal e aristocrático, o ponto de partida para se atingir a excelência estava ao nível do indivíduo, e necessariamente passava pela coragem. E foi a partir da coragem, como fator regulador das relações humanas, que Sócrates refutou a perspectiva do prazer.

Mas a coragem não é mera qualidade física ou disposição moral para enfrentar os perigos que decorrem da fidelidade a princípios. A coragem é também qualidade espiritual que contribui para estabelecer a “arete”como fonte dos impulsos que deságuam na formação da personalidade ética dos cidadãos numa democracia.

Sem a “arete”, na democracia, qualquer processo educacional torna-se vago, vazio.

Spinoza, o autor da “Ética”, vinte séculos após Sócrates, pauta o caminho a ser percorrido pelo “vulgo” : para torna-se cidadão: o ensino. Afirmava que indivíduos amedrontados podem ser transformados em cidadãos livres exclusivamente através do processo educativo e participativo. “Uma cidade onde a paz é o efeito da inércia dos sujeitos conduzidos como rebanho, e, formados apenas para a servidão, merece o nome de isolamento, nunca o de Cidade”. “O ideal democrático deve sempre estar unido ao ideal educacional”.

O problema da coragem coloca-nos diante de uma opção fundamental: não se trata de escolher entre um prazer maior ou um menor, mas enfrentar um perigo que o homem comum teme. Trata-se na realidade de enfrentar esse mal, pois o homem corajoso deseja voluntariamente confrontá-lo. Chegando-se a esse ponto, assistimos ao colapso do prazer e a diferença entre o “vulgo” e o cidadão livre é que, enquanto aquele é covarde e regulado pelo princípio do prazer, este, o corajoso, é regido pela “arete”, o princípio da excelência.

E o homem regido pela “arete” teme antes de tudo a desonra, o aviltamento, a perda da excelência. Já o “vulgo” teme a morte, pois lhe limita o princípio do prazer.

Hoje, num mundo que vive paralisado pelo medo, parece uma ironia cruel falar numa filosofia da coragem; num mundo apavorado pelos fantasmas e monstros que ele mesmo cria, que armazena um poder de destruição indescritível na História da humanidade, onde populações imensas são condenadas à morte por fome, num mundo em que o terrorismo, doença das sociedades falidas, alastra-se assustadoramente, onde a violência se institucionaliza, perguntamo-nos: que sentido possui uma virtude como a coragem?

Não seria muito mais pragmático pregar, aconselhar, ensinar o oposto, o cultivo do medo? Cultuar o medo porque ele pode significar a prudência sem a qual não se consegue caminhar muito longe.

Por exemplo, se tivermos algum poder político, realizaremos todas as concessões possíveis já que não possuímos meios de impor nossa vontade cívica. Permitiremos que criminosos, corruptos e corruptores permaneçam em liberdade mesmo sabendo que com isso estaremos objetivamente incentivando o crime.

Se formos simples cidadãos buscaremos sobreviver com cuidados extremos; até mesmo evitaremos atritos com vizinhos. Não sairemos de casa sem precauções, carros blindados (para os que podem), vidros fechados; trancas, alarmes, cães ferozes, e por que não uma arma automática?

Essa, resumidamente, é a lógica da decadência de uma sociedade. É a lógica que faz objeções a uma filosofia da coragem. Sem a virtude da coragem a inteligência não é mais que um equívoco, a lucidez nada mais que ilusão, o realismo apenas um mal entendido.

Tentativas de mostrar que com a presente lucidez, com a atual prudência, com nossa covardia, conseguiríamos obter talvez resultados concretos, paz social real, integração e educação como  base de uma edificação social futura é, sem dúvida, a melhor maneira de demonstrar como essa prudência é leviana, como a presente covardia é um sentimento desprezível.

Com a covardia caminharemos, irresistivelmente, para a Apoteose do Ridículo!

Retornando a Sócrates, sem a verdade a coragem não pode se manifestar. Coragem e verdade, coragem e sabedoria, virtude e sabedoria, são equações que justificam a concepção socrática de que a virtude pode ser ensinada. Ela tornaria os homens melhores, melhores não no sentido de serem mais capazes ou mais bondosos, mas no sentido de serem maiores, dotados de estruturas interiores sólidas.

Sócrates tinha razão em se considerar um estadista embora jamais tenha exercido sua vocação, pois nas circunstâncias históricas em que se encontrava, a única maneira de exercer a sua vocação era não a exercendo. Paradoxal? Talvez. Sócrates considerava decadente o Estado em que vivia porque ele não preenchia as funções que lhe cabiam. Considerava-se incapaz de regenerar o Estado pelos métodos habituais de participação na vida política.

A democracia grega decompôs-se por preferir o prazer à excelência, a covardia à coragem, a decadência à construção de um homem novo! Mas Sócrates, ao submeter-se à morte pela cicuta, criou os alicerces da renovação espiritual.

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