Na destruição do Exército, o nascer do nazismo alemão.

Atualizado: Mai 27

Os primeiros dias de agosto de 1914 foram o momento de germinação do nazismo! Existe uma declaração de Hitler que não deixa nenhuma dúvida: quando a Alemanha declarou guerra à França e à Inglaterra ele se ajoelhou e agradeceu a Deus. Este foi o único momento que ele próprio foi sinceramente parte de seu povo!


Após a invasão da França, derrotada na guerra franco-prussiana em 1871, no Palácio de Versalhes, Guilherme, da realeza prussiana, foi proclamado Imperador Alemão. Nascia em solo francês o Segundo Reich, pelas mãos do chanceler e homem forte dos invasores, Otto Bismarck. A Confederação da Alemanha do Norte fora transformada em Império Alemão, justamente na casa do inimigo vencido!

A Europa viveu, então, quase meio século de relativa paz. Entretanto, o frágil equilíbrio dentre as potências imperialistas desmoronou quando o Império Austro-Húngaro, aliado da Alemanha desde 1879, declarou guerra à Sérvia em julho de 1914, após o assassinato em Sarajevo do herdeiro do trono austríaco. O Império Alemão, então, apoiou a aliada, enquanto a Rússia, aliada à França, manifestou seu apoio à Sérvia. Em seguida, a Alemanha declarou guerra à Rússia e à França.

Assim começou a Primeira Guerra Mundial, que terminou envolvendo também Inglaterra, Itália e USA, ao lado dos franceses e russos.

Nesse grande conflito de longos quatro anos de duração, morreram mais de vinte milhões de pessoas e as nações que formavam as Potências Centrais esfacelaram-se, o que levou primeiro à paz em separado com a União Soviética e, posteriormente, à rendição às forças da denominada Entente, capitaneadas por França, Inglaterra e USA.

Internamente, esgotada pelo esforço de guerra e pelas derrotas, a situação tonara-se caótica na Alemanha e, em decorrência, um movimento revolucionário derrubou a monarquia no país e, no lugar do II Reich, estabelece-se uma República, denominada de Weimar. Os novos governantes da Alemanha, então, decidiram colocar fim à guerra e os termos da rendição foram estabelecidos também em Versalhes, no Tratado de Versalhes.

Os alemães, ao contrário dos franceses que possuíam como símbolo pátrio a revolta popular encarnada na Revolução Francesa, tinham como seu símbolo de massa o Exército. Em nenhum país moderno este símbolo fora tão forte quanto na Alemanha.

O povo alemão, ao contrário que o russo, por exemplo, não sentia medo de seu exército, mas sim sentia-se protegido por ele e, desde a unificação alemã após a guerra de 1870/1871, todo povo se orgulhava do mesmo. O serviço militar era geral e obrigatório e interessava tanto a católicos quanto a protestantes. Aquele que se excluía, ou era excluído do serviço, deixava de ser considerado “alemão”. Para a casta fechada dos oficiais, entretanto, o exército era uma profissão. O elemento de comando e de aglutinação que o comandava esse eram junkers prussianos, aristocratas rurais, com uma ordem rígida, com características de hereditariedade nas posições mais importantes da hierarquia militar.

Quando iniciou a Guerra de 1914, todo o povo se entusiasmou e se transformou em massa aberta, massa vibrante, que somente fazia crescer! Os socialdemocratas de fora do país se surpreenderam com a explosão de entusiasmo do povo alemão pela guerra. Mesmo os socialdemocratas alemães, sob o impulso e influência da indústria de base, toda ela vinculada ao belicismo, e, sem dúvida dos junkers e dos aristocratas, também aderiram ao esforço de guerra.

E os primeiros dias de agosto de 1914 foram também o momento de germinação do nazismo!

Existe uma declaração de Hitler que não deixa nenhuma dúvida: ele se ajoelhou e agradeceu a Deus pela declaração de guerra. Este foi o único momento que ele próprio foi sinceramente parte de seu povo! E não se esqueceu deste momento; toda sua trajetória posterior foi dedicada à reconstrução do mesmo: a Alemanha tinha que voltar a ser consciente de sua força militar de choque.

Mas Hitler jamais teria alcançado seu objetivo se o Tratado de Versalhes não tivesse dissolvido os exércitos alemães.

O Tratado de Versalhes proibiu o serviço militar geral e obrigatório, privando os alemães de sua identidade nacional mais essencial. Ordenou a destruição de mais de 80% de seu armamento. E foi a proibição do ato de dar e receber ordens, a extinção do serviço militar profissional, por um lado e do obrigatório por outro, que propiciou o nascimento do nacional-socialismo.

O Partido Nazista, com o apoio de fragmentos de corpos de exército desmobilizados e de milícias, inclusive da sua própria, as S.A., ocupou o lugar do extinto Exército e para o Partido, dentro de sua nação, não existiam os limites impostos pelos vencedores da Primeira Guerra.

Hitler com uma insistência sem paralelo e infatigável, usou o slogan do Tratado de Versalhes com suas imposições. E a eficiência de suas prédicas foi aumentando com os anos.

Mas o que Hitler transmitia? Para os alemães a palavra Versalhes não significava tanto a derrota, que, aliás, nunca aceitaram, mas a proibição do Exército!

A proibição do Exército era mais forte que a proibição de uma fé, de qualquer religião. E a fé no país estando impedida, restabelecê-la era o dever sagrado de todo cidadão.

A palavra Versalhes servia para tocar numa ferida aberta, mantendo-a sangrando. E enquanto Hitler vociferava, ele impedia que ela cicatrizasse.

E Hitler sabia que Versalhes tinha também outro sentido especial para os alemães: o Segundo Reich, fora lá fundado por Bismarck. A unidade alemã e a vitória sobre Napoleão III tinha sido proclamada num instante de euforia e de força irresistível. E mais, Versalhes havia sido residência de Luís XIV, que de todos os reis franceses fora o que mais humilhara os alemães. Por causa dele, Estrasburgo havia sido anexada à França.

Cada vez que Hitler vociferava sobre o Tratado de Versalhes com um Diktat , uma ordem dos aliados da Entente, e não um Tratado, ele fazia um chamamento à guerra!


Assim que o Partido Nazista conquista a maioria dos votos para o Parlamento, em 1933, Hitler prepara a imposição da ditadura, abolindo a constituição da República de Weimar (1919-33) e proibindo todos os partidos políticos com exceção do seu; passa igualmente a controlar os tribunais, os jornais, a polícia e a escola. Abandona a Sociedade das Nações e as conferências de desarmamento, reativando o serviço militar obrigatório.

Com a morte do Presidente Hindenburg em 1934, Hitler autodeclara-se “der Führer” (o líder), unindo a presidência e a chancelaria na sua pessoa.

E o novo Exército Alemão, filho do recém-fundado III Reich, embora incorpore a maior parte da aristocracia guerreira dos junkers, tem o espírito e o controle dos Nazistas.

E tudo em Hitler sempre teve um efeito duplo, tanto os atos, quanto os sinais e a palavra.

A bandeira da Alemanha nazista é composta por um fundo vermelho e nele inserida uma suástica negra em um alvo circular. A suástica é uma cruz gamada e tem um movimento rotatório, cuja ameaça se cumpriria: os membros dos demais partidos seriam amarrados à roda da tortura.

A palavra de Hitler buscou na cruz cristã as características cruéis e sanguinárias, como se fosse bom crucificar os inimigos! As gamas da cruz pervertida, os ganchos, anunciam como os adversários serão caçados, derrubados. Além de simbolizarem as batidas militares dos calcanhares na ordem unida. De todo modo, a cruz gamada reúne uma ameaça de castigos cruéis com uma capciosa malícia e uma advertência de disciplina militar.


De todo modo, os slogans importantes, excetuando-se apenas os dirigidos contra os judeus, podem ser derivados do “Diktat” de Versalhes:

Fundar o Terceiro Reich, Sieg-Heil (salve a vitória), e assim por diante.

“A derrota vai se transformar em vitória.” “O exército proibido vai ser formado”.

E a vitória do nazismo levaria a uma nova conflagração mundial, que deixaria para trás todas as bestialidades jamais praticadas pelo gênero humano, cuja expressão de síntese é um amontoado de oitenta milhões de mortos.


Quando, nos dias de hoje, Bolsonaro diz “querer armar a população”, ele deseja reproduzir a mesma estratégia que o nazi-fascismo desenvolveu nos anos 1920/ 1930, tanto na Alemanha quanto na Itália, no pós Primeira Guerra Mundial.

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