Nietzsche: Lawrence Sterne, o Mestre de Machado de Assis: “O mais livre dos escritores”!

Atualizado: 1 de dez. de 2021


“Como poderia em um livro escrito a respeito dos Espíritos Livres deixar de citar o nome de Lawrence Sterne, que Goethe honrou como o mais livre de seu século? ”

Para Nietzsche o Mestre, que inspirou nosso Machado de Assis nas suas obras de maturidade, foi o escritor de espírito mais livre de todos os tempos!


“Sterne foi o grande mestre da dubiedade”, um estilo de arte em que a forma determinada é constantemente quebrada, deslocada, revertida ao indeterminado, “de tal forma que significa uma coisa e ao mesmo tempo outra”.

O leitor deve dar-se por perdido se toda vez quiser saber com precisão o que Sterne pensa propriamente sobre uma coisa, se diante dela faz um rosto sério ou risonho, quiçá uma piscadela! “Sabe e igualmente quer a um só tempo ter razão e não ter, enovelar a profundidade e a farsa. ”

“A Vida" e “Opiniões de Tristram Shandy” (1767), do pastor e escritor irlandês Laurence Sterne, tiveram nas Américas um leitor mais que atento, um verdadeiro e leal discípulo: Machado de Assis, cem anos após a morte do Mestre!

Machado de Assis, ultrapassada a fase romântica quando ainda acreditava que a sociedade paternalista e escravocrata poderia tornar-se mais humana, envereda pelo caminho do sarcasmo e do cinismo da escrita com duplo, triplo sentidos, em que um narrador, nunca o autor, sempre se colocará no papel das elites dominantes.

Sem jamais colocar em questão a originalidade ou a energia criativa do maior escritor brasileiro, é de suma importância registrar que o espírito de Sterne libertou, desde os anos 1870, Machado de quaisquer exigências meramente estruturais que o Brasil Imperial e escravocrata, após a República corrompida gerada por um Golpe Militar lhe pretendessem impor, enquadrar.

Mas voltemos a Nietzsche e a Sterne: “Suas digressões são ao mesmo tempo continuações da narrativa e desenvolvimento da História. ”

Machado escreve: “Eu gosto de ver a política entrar pela literatura; anima a literatura a entrar pela política, e dessa troca de visitas nasce a amizade”.


O estilo da narrativa de “Tristam Shandy” é original: enlouquecidamente divagador e também infinitamente criativo. Yorick, alter ego de Sterne, morre mas retorna algumas vezes depois de morto, ressurreições que inspiraram Machado de Assis a escrever Brás Cubas em suas memórias póstumas.

Em bem verdade que Machado de Assis, verdadeiro “Mestre na Periferia do Capitalismo” (Schwarz), surge em nosso universo como uma espécie de milagre, uma demonstração da autonomia do génio literário, em relação tanto a fatores como tempo e lugar, política e religião; a todo o tipo de contextualização que supostamente produz a determinação dos talentos humanos. Talvez, tomando emprestado a Próspero (Shakespeare), o espírito de Ariel lhe traga sempre a presença de seu verdadeiro e por ele assumido Mestre, Sterne.

“Sterne troca desapercebidamente os papéis e é logo tão leitor quanto escritor, seu livro é como um espetáculo dentro do espetáculo, um público de teatro diante de outro público de teatro ”, reforça Nietzsche.

Se hoje o mundo se esqueceu do nobre pastor protestante Sterne, ele colocou seu discípulo fiel, Machado de Assis, dentre os primeiros romancistas de toda a história da humanidade, reconhecendo que ele possuía o poder de construir através da linguagem realidades sensíveis, concretas, e, no entanto, impregnadas pela vida, pelos costumes e sociedades, e pelos mistérios do espírito.

Nietzsche ressalta que a alma de Sterne também saltava com irrefreável intranquilidade de galho em galho, por tudo o que havia entre o sublime e o ignóbil, e o bem e o mal eram por ele fartamente conhecidos. "A felicidade é uma aquiescência tranquila e uma doce ilusão" (Sterne).

Para o leitor atento, sua obra da maturidade machadiana estará sempre repleta de enigmas, com a expressão de sua amargura e decepção para com os homens; suas associações serão revestidas pela sátira e pela metáfora.

"A censura é o imposto da inveja sobre o mérito." (Sterne).

Aliás, Machado somente por um breve período se permitiu uma linguagem crítica direta, abandonando as máscaras e disfarces sternianos em contos de “Relíquias da Casa Velha”, escritos logo após a morte de Dona Carolina. O primeiro conto, “Pai contra mãe”, um grito de escárnio contra a hipocrisia social. “Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e alguma vez o cruel”.

“A arte, dizia Machado, não deve desvairar-se no doido infinito das concepções ideais, mas identificar-se com o fundo das massas, copiar, acompanhar o povo em seus diversos movimentos, nos vários modos de sua atividade. ”

Em “Esaú e Jacó”, uma obra repleta de enigmas, segundos sentidos e injunções históricas, o autor logo avisa: “O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava ou parecia estar escondida. ”


O discípulo jamais se desviou dos ensinamentos do Mestre. “Sterne compraz-se de produzir no bom leitor um sentimento de insegurança, um sentimento quanto a estar parado ou deitado, um sentimento que é extremamente aparentado com o do flutuar”. (Nietzsche).

Tal e qual o poeta Tito, no conto “No País das Quimeras” machadiano.


Ref.: “Humano, demasiado humano, um livro para espíritos livres”. Nietzsche.

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