No alvorecer do evangelismo, a ditadura teocrática.

A Reforma Protestante teve início como um movimento liberal psíquico religioso, uma proposta de colocar livremente nas mãos dos homens o Evangelho. A convicção individual deveria formar para si o seu próprio cristianismo, em vez de o fazerem em Roma o Papa e os Concílios.

O movimento reformista cristão foi liderado por Martinho Lutero com a publicação de suas teses em 1517. Lutero, por sua vez, foi apoiado por vários religiosos e governantes europeus provocando uma revolução político-religiosa que, iniciada na Alemanha estendeu-se pela Suíça, França, Países Baixos, Inglaterra, Escandinávia e, mesmo, partes do Leste europeu.

João Calvino, inicialmente um dos seguidores de Lutero, dele se distancia ao estabelecer o Estado Evangélico. Ao contrário de Lutero ele retirará dos homens aquela liberdade espiritual de cristãos libertados da Igreja Católica, bem como as demais liberdades cívicas. Ao criar as bases do “puritanismo evangelista”, Calvino estabeleceu uma ditadura teocrática.

E durante um quarto de século, Calvino, em termos de assassinatos, perseguições e torturas, conseguiu, na pequena cidade que dominava ir além da própria Inquisição Católica!


Maio de 1536, os cidadãos de Genebra reunidos em praça pública referendam democraticamente, e por imensa maioria que, a partir de então, viveriam exclusivamente guiados pelos Evangelhos e pela palavra de Deus.

O êxito radical da Reforma, iniciada poucos anos antes, foi possível graças a um homem fanaticamente radical, terrorista, mentiroso como todo grande manipulador, de nome Farel. O humanista Erasmo de Roterdã a ele se refere como “a criatura mais arrogante e desavergonhada que encontrara na vida”.

Mas o Presbítero Farel exerce um enorme poder de sugestão e manipulação de massas. De voz tonitruante e com o furor descomedido de uma natureza violenta, lança do púlpito o povo num fervilhar de sentimentos. Arrebanha dentre os amargurados e desagregados da vida um bando que toma de assalto às Igrejas Católicas, impede a fala dos padres aos quais denomina de auxiliares do Anticristo.

E o bando de Farel cresce com o roubo das caixas de misericórdia, passa a invadir os mosteiros, espancar os padres, destruir conventos e a promoverem em praça públicas a queima de imagens e de centenas de livros que não fossem a Bíblia!

Poucos anos haviam bastado não só para reprimir como para exterminar em Genebra a velha crença católica. Os católicos atacados, por medo, se recolhem a suas casas sem oferecer resistência. O Conselho Municipal se acovarda perante as turbas ensandecidas. Quando o bispo foge da cidade, o Conselho, que era civil, convoca o Referendo Público. E Farel vê suas teses, de que o Estado deva ser dirigido pelos Evangelhos e que estará “Deus acima de todos”, aprovadas, naquele mês de maio de 1536.

Mas Farel não possui espírito criativo, era apenas um fanático líder de massas, conhece de cor capítulos inteiros a Bíblia, mas mal sabe escrever e fica perplexo ante a própria vitória. E ele busca ajuda desesperadamente.

Coincidentemente, está de passagem pela Basileia o jovem de vinte e seis anos, Jehan Chovin, fugido da França católica. Calvino como foi rebatizado, fora primeiro sacerdote e depois jurista, envolvido com os questionamentos Reformadores que tinham Lutero como principal inspirador. Um ano antes, percebendo que a Reforma se fragmentava em diversas seitas, escrevera seu “Institutio Religionis Christianae”, um primeiro plano da doutrina Evangélica e que se tornaria a obra canônica do Protestantismo. Por sua lógica inflexível e firmeza construtiva, a “Bíblia” de Calvino será base de todo o dogma evangélico.

Farel o procura e já nas primeiras conversas submete-se totalmente à sua autoridade. Será seu servo espiritual. Nos trinta anos que se seguirão, jamais Farel questionará qualquer ordem de Calvino.

A partir deste momento, Calvino, o homem espiritual, adentrará na política e desde logo declara que está pronto a criar a nova organização social de Genebra. E em 5 de setembro de 1536, o Conselho de Genebra, por proposta de Farel, fará de Calvino o “Leitor da Santa Escritura”. Claro está que nenhum dos membros do Conselho havia parado para ler o “Institutio Religionis Christianae”. Eles acreditavam estar nomeando “o gaulês” para um mero cargo de assessor religioso. Se qualquer deles houvesse lido o “Institutio” veria que o poder do Conselho em breve estaria acabado.

“Os Predicadores da Igreja, visto que são incumbidos de ministrar e anunciar a palavra divina, têm de empreender tudo e obrigar todos os grandes e poderosos deste mundo a se curvarem diante da majestade de Deus e de servi-lo. Os Predicadores têm de governar a todos, desde o maior ao menor, organizar a lei de Deus, destruir o reino de Satanás, proteger as ovelhas, exterminar os lobos, acusar e aniquilar os recalcitrantes. Podem unir e desunir, arremessar o raio e o trovão, de acordo com a palavra de Deus.”

E Calvino, com sua energia inflexível e inesgotável, estava desde já decidido a dominar a Cidade e o Estado. Com isto, uma República Democrática seria transformada em uma Ditadura Teocrática!

Três meses após sua contratação, Calvino submete ao Conselho um catecismo contendo vinte e um artigos, uma maneira simplificada da nova doutrina evangélica. Despreocupado, o Conselho o aprova. Mas Calvino não se contenta com simples aprovação: exige a mais absoluta obediência, ele que jamais e a respeito de coisa alguma tolera qualquer liberdade em termos de doutrina e de vida. Jamais esteve disposto a deixar espaço para a liberdade de qualquer convicção individual.

E mais, Calvino obriga o Conselho a concordar que todos os cidadãos devam vir em grupos de dez, como escolares guiados por um ancião e, na Catedral, com a mão erguida jurarem pelo cumprimento do catecismo. Aqueles que se negassem deveriam abandonar a cidade. Acabara a liberdade de pensar e agir!

Acontece que toda ditadura é inconcebível sem violência. Calvino foi o primeiro dentre os Reformadores Protestantes a impor a vontade sua e de sua concepção religiosa ao poder civil. E cria a excomunhão para todo aquele que transgrida qualquer de seus vinte e um artigos. Logo, todo aquele a quem o Predicante (ele, Calvino) recusar a Eucaristia, nada mais valerá como cidadão. Ninguém poderá com ele conversar ou negociar. E quem não se penitenciar em público, será banido da cidade.

Geralmente decorre um tempo até que um povo chegue a perceber que quaisquer que sejam as vantagens temporais de uma ditadura como uma possível sensação de maior segurança, estas são pagas com o sacrifício dos direitos individuais. Nos primeiros tempos, enquanto as almas livres ainda não se acham amordaçadas e os independentes não foram excluídos, a oposição mantem certa força.

Ruas inteiras da cidade se recusam a prestar o juramento exigido e gritam alto que não deixarão a cidade por ordem do aventureiro francês faminto, ao qual tinham dado abrigo.

Na eleição do novo Conselho Municipal, em 1538, os seguidores de Calvino ficam em minoria. Calvino avançara impetuosamente demais. Acontece também que os ideólogos do autoritarismo sempre menosprezam a oposição contando com a inércia humana. O novo Conselho propõe um acordo a Calvino, pois afinal, ainda acreditam em sua vontade fanática de moralização. Mesmo mantendo Farel e seus pelotões de assalto pelas ruas, Calvino deveria moderar-se.

Mas Calvino não conhece a moderação; já o simples fato de alguém pensar de forma diferente à sua (que julga inspirada por Deus), isto já o transforma num inimigo mortal, por pressuposto inimigo de Deus e aliado de Satanás. “Serpentes que silvam, cães que ladram, infames feras de Satanás” assim são os vitupérios que Calvino faz do púlpito aos humanistas e teólogos de sua época.

João Calvino é um perigoso monomaníaco. Dele é o privilégio exclusivo de interpretar a palavra de Deus e de transformar a sua vontade na forma básica da lei universal. O Conselho Municipal reage e estipula que do púlpito da Igreja não se fale de política. A reação de Calvino é chamar o povo à revolta. Finalmente o Conselho decide destituir os clérigos de seus postos e estipula que Calvino, Farel e seus predicantes sejam exilados da cidade.

O primeiro assalto de Calvino ao poder fracassou. Parece que na vida dos déspotas, é normal que eles sofram algumas derrotas antes de sua ascensão, afinal isto aconteceu com Napoleão, com Hitler e tantos mais.

Com a queda de Calvino, a Igreja Católica Romana julga poder voltar a comandar o coração e as mentes dos genebrinos. Mas a situação torna-se cada vez mais crítica, as turbas atacam os comerciantes, a insegurança reina e um número cada vez maior de cidadãos, até mesmo antigos adversários de Calvino, passa a propor a volta do exilado. Até que o Conselho Municipal formalmente convida Calvino a retornar. E este impõe que, dali para frente, apenas haveria uma vontade: a sua!

O Predicador regressa a Genebra com plenos poderes outorgados pelos que antes amavam a liberdade. Imediatamente Calvino, com gravidade demoníaca, começa a por em prática seu plano ousado de fazer de Genebra o primeiro Estado de Deus na Terra. Uma comunidade despojada de vulgaridades mundanas, de corrupção, desordens, vícios e pecados da carne e do espírito, enfim, uma Nova Jerusalém!

E durante um quarto de século durará sua ditadura teocrática!


Para Calvino a Bíblia é o alfa e o ômega de tudo e a decisão em todas as coisas mundanas depende da palavra divina, somente por ele a ser interpretada. E nesse sentido, Calvino se afasta totalmente dos fundamentos da Reforma Protestante.

Ele de fato estabeleceu uma ortodoxia nova em lugar da antiga ortodoxia papal. Um só livro, a Bíblia, é agora o senhor e juiz de Genebra. Deus é o legislador e o Predicante Apóstolo o intérprete da Lei. Como Juiz, seu poder acha-se acima dos reis e do povo. E em breve, o sangue escreverá comentários na Sagrada Escritura.

Não contente com a Nova Jerusalém, Calvino organiza a atividade de seus Predicantes no estrangeiro, principalmente na Escócia com o fanático Knoxs, os huguenotes na França, na Inglaterra e na Holanda, onde supervisiona a impressão de cada livro e estabelece um serviço secreto por todas as partes. Para Calvino seu poder não conhece limites, como teocrata quer ver tudo o que seja terrestre subordinado ao que acredita ser divino e espiritual.

Logo, a disciplina e o rigor impiedoso serão os verdadeiros alicerces do puritanismo calvinista. A moral puritana identifica a ideia do gozo alegre e natural com o pecado e tudo o que estiver ligado à sensualidade esta moral proíbe como atitude vã e escandalosa.

Deus não precisa de imagens, tabernáculos, esculturas, pinturas, órgãos, qualquer tipo de música. Tudo é excluído dos cultos. As festas são abolidas, até mesmo as da Páscoa e do Natal. Os teatros são banidos. Afinal, o Deus de Calvino não quer ser amado, apenas temido!

E resta ao homem exclusivamente servir e temer a Deus.

Calvino via a humanidade como uma corja ímpia e indisciplinada de pecadores. “Deixando-se o homem entregue a si próprio, sua alma só é capaz de praticar o mal.” Por isso não se deve conceder liberdade ao homem, ele não saberá como usá-la.

“É preferível ver um inocente sofre punição a um só culpado subtrair-se à justiça divina.”

Com violência deve-se fazer o homem se apequenar diante da grandeza de Deus. Para tal Calvino institui “a disciplina da Igreja”. Para zelar pelas ovelhas cria o Consistório, e os funcionários do Estado serão encarregados de vigiar a vida particular de cada indivíduo: palavras, atos e o próprio pensar.

Institui-se a espionagem até mesmo ao nível da família, considerando que todo homem é de per si conspurcado pelo pecado. As portas internas das casas não podem se fechar e a qualquer momento, do dia e da noite, as pessoas poderiam receber “a visita” da polícia religiosa.

E a polícia religiosa tinha por obrigação interrogar e examinar os pertences das pessoas. Até mesmo as roupas femininas, incluindo as íntimas. Os penteados, os anéis e os sapatos. Mesmo a cozinha é vasculhada à procura de guloseimas. Todos os livros são examinados para ver se contêm o carimbo do Consistório. Os servos são interrogados sobre seus patrões, as crianças sobre os pais e seus amiguinhos.

Não existe carta que chegue ou saia de Genebra sem ser censurada. Aos censores se juntam os espiões do Estado e a eles os voluntários vigilantes da moral e dos costumes, que se disseminam com moscas.

É proibido, é proibido, é proibido tudo aquilo que da cor e sentido à vida. O terrorismo que se implanta só permite que se viva e se morra, trabalhe, obedeça e contribua com a Igreja. O dístico de Calvino é: “A semana é para o trabalho, o domingo, para Deus”!

E o segredo da longevidade da ditadura de Calvino não constitui novidade na história da humanidade: é o terrorismo, encarnado na violência do Estado que nada teme, que considera o sentimento de humanidade e solidariedade como fraquezas a serem destruídas. E Calvino torna-se mestre ao exercer um terrorismo sistemático que, despoticamente, paralisa a vontade dos indivíduos e dissolve a vida comunitária.

Um cidadão sorriu durante o culto: três dias de prisão; adormeceu durante a prédica, prisão a pão e água; cidadão pegos jogando dados, prisão por uma semana; um cidadão disse senhor Calvino ao invés de mestre, prisão e açoites; um homem foi pego jogando catas, pendurado no pelourinho com cartas no pescoço; três adolescentes pegos em atos “indecentes”, condenados à morte na fogueira (esta pena foi comutada depois do fogo aceso); um homem falou contra a predestinação sustentada por Calvino, condenado ao flagelamento em todas as esquinas da cidade e banimento; um impressor de livros que insulta a censura, tem a língua perfurada a fogo e é exilado; Jacques Gruet, apenas porque qualificou Calvino de hipócrita foi torturado e executado.

“Exercito-me em meu rigor para combater os vícios universais”.

Calvino e sua polícia de costumes não conhecem nem o esquecimento nem o perdão. Em carta a Farel, Calvino diz: “Certamente o fato dos condenados terem sofrido tal prolongamento das torturas, não se deu sem a vontade de Deus.”

Logo nos primeiros cinco anos de dominação de Calvino na pequena Genebra, de pouco mais de vinte mil habitantes, foram enforcados treze pessoas, decapitadas dez, queimadas trinta e cinco, setenta e seis exiladas. As torturas infringidas a suspeitos ou a condenados eram tão atrozes que a ordem era manter os presos algemados de pés e mãos para evitar o suicídio.

O terrorismo religioso de Calvino foi muito, mas muito mais horrendo que todas as orgias de sangue da Revolução Francesa. “A furiosa intolerância religiosa de Calvino quanto à moral foi mais intransigente e impiedosa que a intolerância política de Robespierre”, afirmou Balzac.

Em 1542 a peste negra devasta Genebra, a “Cidade de Deus”. Como seria possível? Por ordem do Consistório alguns pobretões são detidos e torturados da maneira mais horrenda possível até confessarem, antes da fogueira, que haviam lambuzado as aldravas das portas da cidade com um unguento preparado com as fezes de Satanás e introduzido a peste na cidade.

Os espíritos acovardaram-se perante tamanha prepotência que possuía espiões e assassinos por todas as partes.

E dentre todos os humanistas europeus, a voz do reitor universitário João Casttellio foi a única com coragem de se opor à tirania do ditador Calvino. “A posteridade não poderá compreender que, depois de já haver reinado a luz, tivéssemos de viver outra vez em trevas tão espessas.” (Casttellio, 1562). Somente a morte prematura impediu que ele fosse levado à tortura e à fogueira.


Mas Calvino, como todo ditador, também passaria. No século seguinte, a entristecida Genebra voltaria a ser um dos esteios para a luz: nascia Jean Jacques Rousseau.


Bibliografia.

1. Zweig, S. Uma consciência contra a violência. Ed. Delta, 1956.

2. Cairns, E. O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. Vida Nova, 2008

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