No Inferno de James Joyce, a tortura física e a psicológica (parte II).

Em “Um retrato do artista quando jovem”, uma obra semiautobiográfica, o autor escolheu fixar as impressões da infância, da adolescência e da juventude.

Quando jovem, o pai católico de James Joyce havia conseguido uma bolsa de estudos para o filho num seminário jesuíta, única forma de um pobre seguir seus estudos.

Stephen Dedalus, o narrador, é o alter ego de Joyce.

Stephan Dedalus, antigo seminarista, dedica um imenso ódio à hipocrisia do clero católico, e o denuncia pelo medo e pela culpa que impinge às pessoas, buscando enredá-las num cipoal de dominação psicológica.


Na primeira parte de nosso ensaio apresentamos o terror da Primeira e da Segunda Morte, no Apocalipse. Agora enfocaremos os tormentos infindáveis das almas imersas num inferno jesuítico.

“O pecado mortal é punido no inferno com duas diferentes formas de castigo, o físico e o espiritual”.


I- O Inferno: a tortura física!


Tentemos compreender a natureza da morada dos danados, que a justiça do Deus ofendido criou para a eterna punição dos pecadores, dizia o Pregador!


“O inferno é uma estreita, negra, sórdida prisão fétida, cheia de fogo e fumaça. É uma prisão feita por Deus para aqueles que se recusaram a seguir as suas Leis”.

Nas prisões terrenas os cativos têm, no mínimo, alguma liberdade de movimento entre as quatro paredes de sua cela e no tenebroso pátio da prisão.

Mas no inferno não é assim! Lá, devido à superpopulação, os prisioneiros estão atirados uns aos outros, extremamente apertados e desamparados, incapacitados até de retirar um verme de seu próprio olho.


Um fogo que não emite luz, somente queima sem se extinguir!

As almas jazem nas trevas exteriores, dado que o fogo do inferno é de um tipo especial, que não emite luz, pois arde eternamente em trevas, em meio a uma tempestade!

Tempestade que nunca termina, feita de negras chamas e de fumaça do enxofre a arder!

O tormento pelo fogo é o maior suplício ao qual os tiranos têm sujeitado suas criaturas. “Colocai o dedo sobre o fogo e sentireis a dor; mas, não se esqueçam de que esta é a dor de um fogo benéfico, criado por Deus para o bem do homem”.

O fogo do inferno, aquele que arde nas trevas é de outra qualidade, pois Deus o fez para torturar e punir o pecador sem arrependimento. Ele não se extingue como o fogo benéfico. O fogo do inferno nunca se extingue, arde sempre e ininterruptamente com indizível fúria. Ele preserva aquilo que ele queima para que a tortura seja eternal.

E mais. O fogo terrível não aflige os danados apenas por fora, pois cada alma perdida se transforma em um inferno dentro si mesma, um fogo que se insufla em sua própria essência. Enfim, o fogo que procede da ira divina tortura tanto o corpo quanto a alma, soprado numa perene e crescente fúria pela Divindade.


O fedor e a putrefação!

Logo, todo horror dessa estreita e negra prisão é aumentado por seu tremendo cheiro ativo. O enxofre enche o inferno com seu intolerável fedor!

E os corpos aos milhões e milhões, na putrefação dos danados, a arder e emitir densos e horrendos fumos de nauseante decomposição, criam uma tão grande pestilência que, um só desses corpos seria capaz de infectar todo o mundo!

Mas tal horrível fedentina, ainda não é o maior tormento físico aos quais os danados estão sujeitos!


No inferno não há lugar para vínculos fraternos!

No inferno, todos os sentimentos têm sinal trocado. Assim, não há pensamentos de família, amizade, pátria, relações. O danado se esgoela e gritam uns com os outros, sua tortura e ódio se intensificam pela própria presença de outros torturados. As bocas dos condenados estão cheias de blasfêmias contra Deus e ódio contra os seus companheiros no pecado.


Já não há tempo para redenção, para o arrependimento!

Por último considerai o tormento das almas torturadas na companhia dos demônios. Não podemos ter ideia de quão terríveis eles possam ser. Tais demônios, que já foram anjos virtuosos, tornaram-se repelentes, asquerosos. Aqueles quando pecaram, fizeram-no por meios que eram compatíveis com sua natureza angelical: foi uma rebelião do intelecto. Eles mesmos, anjos decaídos enojam-se das almas dos danados que cometeram pecados que indizíveis por ultrajarem o Espírito Santo.


O padre concluiu o sermão do dia: “Meus irmãos, queira Deus que nenhum de nós ouça jamais soar em seus ouvidos a divina sentença de repulsa: Afastai-vos de mim, vós, oh amaldiçoados, ide para o fogo eterno que foi preparado pelo demônio e seus anjos!”


Stephen, após a preleção, desamparado, desceu a nave da capela com as pernas tremendo e o couro cabeludo arrepiado em sua cabeça, como se mãos de fantasmas estivessem tocando-a. E a cada passo tinha medo de já haver morrido, de que sua alma já tivesse sido arrancada do estojo do corpo, que estivesse mergulhando de cabeça no espaço.

II. O Inferno: a tortura psicológica.

No dia seguinte, o jesuíta ainda prosseguia a sua fala sobre o que aguarda as almas condenadas:

“A maior dentre todas as penas espirituais é a perdição; de fato, é um tormento tão grande que chega a ser maior que todos os outros. Lembrai-vos que Deus é um ser infinitamente bom e, por conseguinte, a perda dum tal ser é para ele infinitamente dolorosa”.

Nós nessa vida não temos consciência muito clara do que tal perda possa ser, mas os danados no inferno, para seu maior tormento, têm uma compreensão total daquilo que perderam e compreendem que o se foi para sempre.


A segunda pena que afligirá as almas danadas é o castigo da consciência.

Nas almas dos perdidos se ergue um remorso perpétuo provindo da putrefação do pecado, que age como um aguilhão que aferroa a consciência.

A primeira ferroada descarregada por esse verme cruel é a lembrança dos prazeres passados. E que terrível recordação será essa!

Lá no lago das chamas que o devora, o rei se recordará das pompas da corte; o sábio pecador dos maus livros que leu; o amante dos prazeres artísticos de seus quadros, dos mármores; o glutão dos prazeres da mesa e do vinho especial; o impuro e adúltero os prazeres imundos e inenarráveis com que se comprazia.

“Ah, eles se arrependerão dos pecados cometidos, terão nojo de si mesmos e este é a segunda ferroada do verme da consciência: uma tardia e infrutífera angústia pelos pecados cometidos!”

Finalmente ainda irão deplorar as boas ocasiões que haviam tido para o arrependimento, e esta será a terceira ferroada do verme.

A consciência dirá: tivestes tempo e oportunidade para o arrependimento, não quisestes.


O papel dos Ministros do Deus da Vingança e da Punição!

“Tivestes o Ministro de Deus para a santa confissão, desprezastes. Deus apelava que voltasses para ele, para Sua Lei. Mas não. Não quisestes. Imploras agora um momento de vida terrena para o arrependimento? É vão, pois esse tempo já se foi”.


A pena seguinte é a da extensão.

O homem na vida terrestre embora seja capaz de muitos malefícios, não o é capaz deles todos e ao mesmo tempo.

No inferno, entretanto, um tormento ao invés de substituir outro, cede-lhe ainda uma força que o amplifica, enquanto as faculdades internas são mais perfeitas que os sentidos exteriores, sendo mais aptas ao sofrer.

Assim, cada sentido é atingido por um tormento que lhe é peculiar: a imaginação com as mais horríveis imagens, o espírito e a compreensão com uma treva mais terrível que as trevas da prisão.


Coexistindo com a pena da extensão temos a da intensidade.

Na nossa vida, as aflições jamais são grandes ou longas demais, porque a natureza ou as ultrapassa pelo hábito ou lhes põe certo fim.

No inferno, os tormentos não podem ser vencidos pelo hábito, pois sendo de terrível intensidade também o são de inimaginável variedade. E nem pode a natureza escapar dessas torturas sucumbindo mercê delas, pois a alma é sustentada no mal de modo a que seu sofrimento pode ser sempre maior.

Ilimitada extensão de tormento, incrível intensidade de sofrimento, incessante variedade de tortura- eis o que a Divindade tão ultrajada pelos pecadores pede; eis o que a Santidade dos céus, menosprezada e posta à margem pelos prazeres baixos e luxuriosos da carne corrupta, requer; eis o que o sangue inocente do Cordeiro de Deus derramado pela redenção dos pecadores e pisado pelo mais vil dos vis, exige!


A última tortura, a Eternidade!

Oh terrível e medonha palavra, Eternidade!

Prestem bem atenção para a eternidade das penas. O que não será suportar as mil formas de tortura infernal para todo o sempre? Que horroroso castigo! Uma eternidade de agonia sem fim, de tormento corporal e espiritual sem fim, sem um raio de esperança, sem um segundo de trégua!

“Tal é o terrível castigo para os que morrem em pecado mortal e decretado por um Deus todo poderoso e justo!”

“Deus, em sua suprema bondade, não poderia permitir que um pecado qualquer permanecesse sem o castigo, pois seria uma transgressão à Sua Lei e Deus não seria Deus se não punisse”.


E assim encerrou sua prédica sobre a morte, o julgamento e o inferno, dado que sobre o Paraíso pouco explanou: “Ele vos chama a Si. Sois Dele. Ele vos fez do nada. Ele vos ama como só um Deus pode amar. Os Seus braços estão abertos para receber-vos, mesmo que tenhais pecado contra Ele.

Vinde a Ele, pobres pecadores. Agora é o Tempo aceitável! Esta é a hora”.

Como são precisas, eloquentes e atuais as ponderações, os gritos de alerta, as denúncias de James Joyce, sobre as crenças e religiões apocalípticas de ontem e de hoje!

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