Norte-americanos: o tráfico negreiro e colônias escravocratas no Brasil.

Atualizado: Ago 25

A partir das últimas décadas do século XVII, o tráfico de homens escravizados da África para o Brasil somente fez crescer, tornando-se uma atividade altamente lucrativa e de baixos riscos. Por dois séculos, seis nações gerenciavam o negócio: Inglaterra, Portugal, França, Espanha, Países Baixos e Dinamarca.

Entretanto, na década de 30 do século XIX, o tráfico negreiro deixou de interessar aos interesses ingleses e durante vinte anos, entre 1831 e 1850, os navios com a bandeira norte-americana lideraram aquela atividade criminosa. Eles foram responsáveis por aproximadamente 60% de todo o transporte de escravos para o Brasil. Mais de 430 mil africanos foram traficados pelos norte-americanos, ou seja, 10% do total de negros trazidos para o Brasil desde sua colonização!

Já em 1896, o estudioso americano Edward Burghardt chamou a atenção para as relações entre os EUA e o Brasil, no período do tráfico negreiro. "O tráfico americano de escravos finalmente passou a ser conduzido principalmente por capital dos Estados Unidos, em navios dos Estados Unidos, comandados por cidadãos dos Estados Unidos e sob a bandeira dos Estados Unidos", escreveu.

O interesse nos Estados Unidos se dava primeiramente pelo altíssimo lucro obtido no comércio de carne humana. Um segundo lugar, devido à capacidade de construção de embarcações. Desde o período colonial, a Nova Inglaterra implementara a indústria da construção naval, chegando mesmo a competir com os próprios britânicos. Tanto a guerra de Independência Americana (1775 a 1783), quanto o mercado de caça à baleia contribuíram fortemente para o desenvolvimento das embarcações.

Logo, a produção de embarcações ligeiras, além da redução no translado eram consideradas capazes de fugir de perseguidores e piratas, e, por isto, mostravam-se como ideais para o tráfico.

Não à toa, no período havia várias companhias dos EUA que vendiam navios para outros traficantes, normalmente portugueses do Rio de Janeiro. "No Jornal do Comércio, havia anúncios de navios como 'excelentes para transporte de escravatura'", diz o historiador Marques (UFRJ).

A senhora e fiscal dos mares, entretanto, era a Marinha da Inglaterra. Desde o ano de 1807, a Inglaterra começara a fechar o cerco contra o tráfico de escravos. Eram interesses econômicos que a guiavam, dentre eles a criação de um mercado consumidor para seus produtos manufaturados.

Os EUA, entretanto, se recusaram a autorizar vistorias em seus barcos, acusando os britânicos de ferirem a soberania da ex-colônia. Os navios negreiros americanos costumavam navegar em comboios, sob a escolta de um buque de guerra.

Para aqueles traficantes de carne humana, a situação era perfeita: navios rápidos e com uma bandeira imune à fiscalização inglesa! Não à toa, traficantes portugueses acabaram criando suas próprias redes, principalmente em Nova York, adquirindo, inclusive, a cidadania norte-americana. Afinal, um escravo comprado na África por aproximadamente 40 dólares da época, (quando caçado, ainda menos), valia em terras brasileiras entre US$ 400 a US$ 1.200, dependendo “da peça”.

Em virtude dos conflitos que se avolumavam com a Inglaterra, em 1844, Henry Wise foi nomeado ministro no Brasil e, em conjunto com o cônsul George Gordon, buscou frear a participação dos USA no tráfico. Chegaram mesmo a enviar alguns compatriotas para julgamento e tomaram certas ações para o desmantelamento de esquemas norte-americanos, que vendiam ou fretavam embarcações para traficantes brasileiros e portugueses.

Entretanto, tanto Wise quanto Gordon não se mantiveram em suas posições por muito tempo. Caíram quando se defrontaram com os interesses da grande empresa Maxwell Wright & Co, que combinava duas atividades interligadas: por um lado vendiam navios para traficantes de escravos; por outro, exportavam o café produzido por escravos para os Estados Unidos, onde o mercado consumidor crescia. Neste sentido, observa Marques, a participação dos EUA na escravidão brasileira transcende a questão econômica. "A identidade nacional que estava sendo construída no país, do americano tomador de café em vez de chá, está amarrada com a escravidão", diz.

O próprio Reino Unido, que a partir de 1830 atuava para inibir o negócio milionário da escravidão, continuou consumindo produtos brasileiros produzidos com mão de obra escrava e fornecendo itens industrializados para o comércio de carne humana na África.

Sob pressão e ameaça da esquadra da Inglaterra, a Lei Eusébio de Queiroz foi aprovada pelo Imperador Pedro II em 1850, proibindo o “tráfico negreiro”. Ora, os mercadores de Norte-América trataram a lei como sendo outra lei “para inglês ver” e seguiram no negócio até 1952.

Tinha por nome Camargo, o brigue norte- americano que, em 1852, desembarcou os últimos negros escravos no nosso país. Os cerca de 500 negros foram aportados na região de Angra dos Reis. Devido à carência de navios negreiros, os escravos já estavam previamente “encomendados” por proprietários de terras próximos à Serra do Bananal e os mesmos rapidamente os esconderam em suas senzalas.

As autoridades locais chegaram a tentar inutilmente “reaver” os escravizados, mas a tentativa foi malograda: somente cerca de 70 pessoas, quase mortas, foram encontradas. Todas elas faleceram no decorrer de uma semana.

O comandante do brigue, Nathaniel Gordon, logicamente, também conseguiu escapar. Após atear fogo no Camargo, fugiu para os EUA. Entretanto, uma década após, foi enforcado em Nova York por participação no tráfico de carne negra, aliás, ele foi o único norte-americano a sofrer pena capital pelo crime!

Após o brigue Camargo, outro navio negreiro americano, de nome Mary E Smith, foi aprisionado pelas autoridades do Império, o que sinalizou que o tráfico para Brasil não era mais um negócio um negócio rentável.

Os traficantes americanos voltaram, então, suas atenções para Cuba, e lá permaneceram com o tráfico de carne humana por mais uma década.

O fim do tráfico nas Américas, na realidade somente aconteceria, de fato, com a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, último país do Ocidente a libertar formalmente o negro escravo!

O historiador Gerald Horne, autor de “O Sul mais distante: os Estados Unidos, o Brasil e o Tráfico de Escravos Africanos” (Companhia das Letras, 2010), enfatiza: "O governo brasileiro deveria buscar reparação, porque esses traficantes de escravos estavam violando as leis do Brasil e praticando uma atividade ilegal. Se o fato aconteceu 170 anos atrás, isto não diminui a queixa, dado que não existe um estatuto de limitação na legislação internacional por crimes contra a humanidade, e o contrabando era um crime contra a humanidade". Disse ainda Horne: "Mas há relutância em trazer justiça para, pelo menos, os brasileiros que são descendentes dos escravos trazidos por navios norte-americanos."

Logo após o fim a Guerra Civil Norte-Americana, em 1865, surge, nos antigos “Estados Confederados”, o primeiro Klan (da Ku Klux Klan), grupo clandestino e terrorista, que tinha por principal objetivo a derrubada dos governos estaduais durante a assim chamada “Era da Reconstrução. Após inúmeros atos de violência contra a população e líderes afro-americanos, o Klan foi suprimido em 1871, por lei federal.

Mais de 20 mil antigos combatentes do extinto “Exército Confederado”, dentre eles diversos líderes da Klan, imigraram do sul dos Estados Unidos para o Brasil, principalmente para o interior de São Paulo e norte do Paraná. Cidades como Americana e Santa Bárbara D'Oeste se tornaram praticamente colônias de imigrantes americanos naquele período.

Eles vinham para o Brasil atraídos por subsídios e incentivos fiscais oferecidos por Dom Pedro II, que via com bons olhos a vinda de tais proprietários, “uma possibilidade de que auxiliassem a ocupar áreas devolutas” e desenvolver a economia, além de lhes oferecer "uma saída para a perseguição movida pelas tropas vitoriosas”.

Na realidade, ao invés de aceitarem a derrota da Guerra Civil, eles se mudaram para o Império do Brasil, para aqui estabelecer colônias escravocratas!

E seus descendentes ainda hoje lhes prestam homenagens.

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