O caso do genocida Gustav Wagner e a fatídica cidade de Atibaia!

Atualizado: Jul 7

Quando os nazistas foram derrotados e a Alemanha tomada pelos exércitos aliados, Gustav Wagner fugiu, evitando ser capturado e julgado como criminoso de guerra, responsável por mais de 260 mil mortes, no campo de extermínio de Sobibor, na Polônia.

E optou por acoitar-se no Brasil. Chegou pelo porto do Rio e admitido em “caráter permanente”, foi fichado pela Secretaria de Segurança de S.P. e declarou endereço na Vila Buarque, São Paulo. Passaram-se mais de trinta anos sem que ele fosse incomodado.

Porém, graças às pesquisas incansáveis Simon Wiesenthal, o mais famoso caçador de nazistas e contando com a ajuda do jornalista-repórter Mário Chimanovitch, ele foi finalmente descoberto.***

Os fascistas brasileiros e bandidos internacionais de extrema direita, em vinte de abril de 1978, decidiram comemorar o aniversário de Hitler no Hotel Tyll, em Itatiaia, no Rio de Janeiro. O jornalista farejara a festa e lá estava. E Em parceria com Wiesenthal, o Chimanovitch publicou no Jornal do Brasil uma reportagem afirmando que o caçador de nazistas havia reconhecido Wagner em uma das fotografias da comemoração. Tratava-se, na verdade, de uma cilada para que o nazista fosse capturado, porque ele não aparecia diretamente na foto, mas o repórter o havia reconhecido dentre os participantes da festa.

No dia 27 de maio de 1978, o Consulado de Israel em São Paulo pede a imediata prisão de Wagner. O DOPS, polícia política brasileira, expede ordem de captura.

O Brasil vivia, então, sob as botas de uma ditadura militar de direita e Wagner preferiu se apresentar ao DOPS que correr o risco de ser capturado pelo Mossad, serviço secreto israelita, como já havia acontecido com outro criminoso de guerra fugitivo, Adolf Eichmann, na Argentina.

Instalado no conforto do quinto andar do DOPS, por insistência do governo de Israel, o governo permite a acareação do criminoso nazista por três sobreviventes de Sobibor, dentre eles Stanislaw Szmajzner.

A Folha de S. Paulo, de 1º de junho de 1978, estampou a fotografia do momento na primeira página, acompanhada da reprodução do diálogo ocorrido. Szmajzner perguntou se Wagner se lembrava dele, o que foi confirmado. “Eu salvei sua vida. Separei você para trabalhar na oficina de joias. Você era ourives, apesar da pouca idade”, disse o nazista.

“Você não salvou a minha vida coisa nenhuma. Você me separou porque estava faltando ourives na oficina. Meus pais não eram ourives, e você os mandou para a câmara de gás”, respondeu o sobrevivente. Wagner, impenitente, ainda teve a ousadia de ameaçar Szmajzner: “Você ainda vai me pagar por tudo isso. Eu mandei em Sobibor, sim, você sabe disso, e mandei muito. Mas o que é que você está pensando? Que tudo acabou, que eu estou acabado?”

Três países solicitaram a extradição para julgamento de Wagner: Israel, Alemanha e Polônia. A eles viria a juntar-se a Áustria, onde ele nascera.

Wagner é transferido para a Polícia Federal em Brasília. Temendo a extradição, Gustav Wagner tenta o suicídio, mas foi socorrido a tempo e internado no Hospital do Exército.

Era, então, Procurador-Geral da República Henrique Araújo, pai do atual chanceler Ernesto Araújo. Escolhido para o cargo pelo presidente Ernesto Geisel, ele deu diferentes pareceres negativos à extradição de Gustav Franz Wagner.

Wagner era o subcomandante do campo de concentração e extermínio de Sobibor, na Polônia ocupada. O cheiro nauseante dos corpos de judeus incinerados era a primeira impressão dos prisioneiros que chegavam ao lugar.

A prática de canibalismo no campo havia se tornado mais ou menos comum, pois os soldados somente ofertavam restos de mortos aos presos que morriam de fome e sede antes de eles mesmo serem incinerados.

Prisioneiros sobreviventes relataram que chegaram a presenciar cenas de crueldade inaudita, como a de um bebê metralhado no colo da mãe, segundo testemunho da sobrevivente Esther Raab, que compõe o Memorial do Holocausto, nos EUA. Esther identificou o homem que atirou na criança: Wagner, conhecido como “a besta humana”.

“Ele era um dos nazistas mais temidos de Sobibor”, disse Chris Webb, autor de “O Campo da Morte de Sobibor” (Columbia University Press, 2017, sem tradução para o português).“Os prisioneiros tentavam sempre ficar fora de seu caminho, temendo a crueldade”.

O caso Wagner no Brasil ganhou as páginas dos jornais internacionais e virou assunto nas embaixadas. Diversos países pediram ao Brasil a extradição do nazista. Por outro lado, Wagner dispensara a contratação de advogados e chegou a dizer que “no Brasil ele não precisava de advogados”. E ele tinha razão!!!

O pai de Ernesto Araújo analisou quatro pedidos: da Polônia, onde estava o campo de Sobibor; da Áustria, país natal de Wagner; da Alemanha, berço do nazismo; e de Israel, Estado do povo judeu, as principais vítimas do Holocausto.

No parecer de outubro de 1978, Henrique Araújo disse que Israel “não tinha competência” para pedir a extradição de Wagner porque “não era um Estado” na época dos crimes, 1942/1943 - Israel foi criado em 1948. Isto provocou enorme estremecimento nas relações diplomáticas.

O absolutamente inacreditável é que ele também recomendou indeferir a extradição para Áustria e Polônia porque a lei brasileira entendia que os crimes de Wagner estavam prescritos!

Quanto ao pedido da Alemanha, local para onde o nazista havia declarado preferir ser extraditado, Araújo afirmou que, “em tese”, a prescrição dos crimes havia sido interrompida devido a uma condenação de Wagner em 1967, na Alemanha. A Alemanha, portanto, precisava juntar mais provas e documentos.

A Alemanha acrescentou, então, nova documentação ao já extenso dossiê. O processo chegou a ter mais de duas mil páginas!

Com a demora no julgamento, Geisel deixou o poder, sendo substituído por João Figueiredo, que apontou Firmino Ferreira da Paz como Procurador-Geral. O novo procurador, ao contrário do seu antecessor, deferiu o pedido de extradição, com uma ressalva: Wagner “não poderá, na Alemanha, ser condenado à prisão perpétua ou à pena de morte”, podendo ser condenado no máximo a 30 anos, conforme legislação brasileira.

O esforço foi em vão. Em junho de 1979, o STF indeferiu, por maioria simples de votos, todos os pedidos de extradição, entendendo que os crimes de Wagner já tinham prescrito!

O voto decisivo que negou a extradição foi o do ministro Carlos Thompson Flores, pai do ex-presidente do Tribunal Regional da 4ª Região (TRF-4), Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, personagem importante na prisão e condenação em segunda instância de acusados na Lava Jato.

A decisão do STF causou comoção na comunidade internacional e revolta em toda comunidade judaica. No Congresso, o deputado Emanuel Waisman (MDB) chegou a dizer que “se tornava rotina a localização de genocidas nazistas no país, todos vivendo e trabalhando impunemente”.

Relembrou também o caso de Franz Stangl, outro comandante dos campos de extermínio nazista que também se refugiara no Brasil. Franz Paul Stangl chegara ao Brasil em 1951 e nem se preocupou em mudar sua identidade. Trabalhou por oito anos na Volkswagen do Brasil, entre 1959 e 1967. Foi responsável por montar um setor de monitoramento e vigilância na unidade de São Bernardo do Campo, espionando funcionários e servindo de alcaguete da ditadura militar.

Stangl fora o comandante dos campos de extermínio de Treblinka e Sobibór. Seu destino, no entanto, foi diferente. Stangl fora preso extraditado cerca de dez anos antes para a Alemanha, tendo lá sido condenado à prisão perpétua. A ditadura militar recém-instalada não tivera forças para enfrentar a opinião pública mundial!

A embaixada brasileira em Israel foi pichada com suásticas, bandeiras brasileiras receberam o símbolo da suástica e o embaixador, Vasco Mariz recebeu ameaças de morte e passou a somente andar em Tel Aviv com seguranças, durante quase dois anos.

Wiesenthal, o “caçado de nazistas”, disse então que o Brasil “se tornara um santuário de assassinos”.

Antes de ter sua identidade e crimes revelados, Wagner trabalhava como caseiro em um sítio em Atibaia, no interior de São Paulo. Ele tinha esposa brasileira e enteados.

Antes de retornar ao lar, pediu à Justiça para ficar internado em um hospital psiquiátrico no Distrito Federal. “Uma questão de humanidade, já que o paciente não tem condições de saúde para deixar o local”, justificou à imprensa o então presidente do STF, Antônio Neder, sobre a autorização concedida. “E se o homem morrer? Eu não quero ficar com a consciência pesada”, acrescentou. Que humanidade desmedida!

O criminoso deixou o hospital de modo sigiloso, sem acompanhamento da imprensa, pois muitos temiam por sua segurança e voltou para Atibaia.

Simon Wiesenthal disse que a ODESSA (sigla alemã de Organisation der ehemaligen SS-Angehörigen, que significa "Organização de antigos membros da SS"), uma organização que protegia foragidos nazistas, queria matar Wagner por seus desequilíbrios, temendo que ele revelasse segredos do grupo.

Menos de seis meses após, Wagner morreu em Atibaia com uma facada no coração, perto de sua horta de morangos. A mulher e os enteados haviam viajado. O cadáver foi encontrado dias após.

O laudo médico confirmou a causa da morte, sem poder afirmar, entretanto, se fora decorrência de suicídio ou homicídio.

Obs.: a faca fatal penetrou no lado esquerdo do tórax de Wagner. Ele era canhoto.


*** Em tempo: a repórter  que descobriu a reunião de nazistas em Itatiaia, em 1978, foi 

Emilia Silveira. A reportagem sobre o encontro teve como desdobramento a prisão da "besta de Sobibor". A busca ao carrasco,  retomada no país, foi uma  consequência direta da matéria, somada ao esforço de Simon Wisental em descobrir o paradeiro de Wagner, e ao trabalho do correspondente do Jornal do Brasil, em Israel, que fez a ligação entre o caçador de nazistas, na Suíça, e o JB, no Rio.

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