O DNA de um canalha americano:Roy Cohn não tem o direito ao esquecimento que a morte trás

Nascido em uma família judaica do Bronx, em 1927, Roy Cohn era o único filho do Juiz Albert Cohn, um influente membro do Partido Democrata Americano. Em 1946, Roy formou-se em Direito na “Columbia Law School”, com a idade de 20 anos. Teve que esperar até a maioridade para poder ser admitido como profissional, não sem antes haver tentado subornar o Professor Lionel Trilling.

Usou suas conexões familiares para fugir do serviço militar e da guerra na Europa, assim como para obter uma posição no escritório do “United States Attorney”, em Manhattan, aos 21 anos de idade. Seguindo indicações e graças às ligações de seu pai Juiz, registrou-se no Partido Democrata, o que jamais constituiu qualquer empecilho para que Cohn fosse apoiado pela maioria dos republicanos influentes de sua época, incluindo dois Presidentes dos Estados Unidos.

Uma vez no “U.S. Attorney”, rapidamente tornou-se assistente do Procurador dos U.S.A. em Nova, Irving Saypol. E foi como seu assistente que Cohn contribuiu para que um grande número de cidadãos americanos fosse acusado de cooperar com a União Soviética. Um dos primeiros envolvidos na perseguição foi William Remington, um funcionário do Departamento de Comércio, acusado de espionagem por Elizabeth Bentley, formalmente uma desertora da KGB. Pese a ausência de provas, Remington foi condenado por duplo perjúrio ao não assumir sua ligação com o Partido Comunista Americano. Cohn também perseguiu ferozmente os onze membros da direção do Partido Comunista Americano, que estava na legalidade, acusando-os de pregarem a derrubada violenta do governo americano, o que permitiu a aprovação do “Smith Act” pelo Congresso, com enorme prejuízo às liberdades individuais.

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Julius e Ethel Rosemberg

O Julgamento Rosenberg– Cohn, aos 24 anos de idade, teve um papel proeminente, quando, em 1951, o casal Julius e Ethel Rosenberg foi acusado de espionagem. Cohn foi o responsável direto pelo testemunho prestado pelo irmão de Ethel, David Greenglass, que cumpriu um papel central na condenação à morte do casal e a subsequente execução. Greenglass testemunhou que havia recebido dos Rosenbergs e mantido sob sua guarda documentos secretos, que haviam sido roubados do “Manhattan Project”. Décadas após, Greenglass admitiu haver mentido em todo o seu depoimento para a proteção da própria vida e de sua esposa, sob a pressão de Cohn. Cohn sempre teve grande orgulho do veredicto que levou à morte os Rosenberg e, em sua autobiografia, relata que o Promotor Saypol fora por ele influenciado a pedir a pena de morte e que manobrara para que o juiz Irving Kaufman fosse nomeado para o caso, dado que ele já se dissera favorável à condenação ainda antes de sua nomeação.

O Macarthismo– O julgamento de Rosenberg chamou a atenção do diretor do F.B.I., J. Edgar Hoover e este recomendou Roy Cohn ao senador Joseph McCarthy. McCarthy contratou-o como seu conselheiro-chefe, evitando com isso acusações de possíveis motivações antissemitas nas investigações. Cohn, como assistente do Subcomitê Permanente do Senado, tornou-se o mais agressivo interrogador das pessoas investigadas por suspeita de comunismo. Cohn preferia não realizar sessões abertas ao público e tal qual seu chefe, McCarthy, utilizava largamente interrogatórios “off-the-record”, de forma a agir sempre com relativa impunidade contra suspeitos e forçar as delações. Em 1953, Cohen convidou seu amigo íntimo, David Schine, um propagandista anticomunista, para juntar-se ao staff de MacCarthy no Senado Americano e ambos viajaram à Europa para avaliarem para o senador os rumos da “conspiração comunista mundial”. Na mira da dupla estava a BBC de Londres, considerada “pouco anticomunista” e os livros de Dashiell Hammett, que eles desejavam ver varridos das bibliotecas europeias.

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McCarthy e Roy Cohn

Mas a Europa não vivia o macarthismo americano e os dois, desmoralizados em sua cruzada, logo tomaram o rumo de casa. E aí teve início a primeira derrota do jovem canalha Cohen. Quando seu amigo Schine foi convocado para servir o Exército americano, Cohen envidou todos os esforços para que ele tivesse um tratamento “muito especial”. Chegou a contatar até mesmo o Secretário de Estado das Forças Armadas. Ao não obter seus intentos de bônus, promoções e isenções de missões no exterior para o amigo, ele passou às ameaças como “a destruição do Exército”.

A partir desse conflito, acumulam-se as acusações de presença de comunistas no Departamento de Defesa, e o Comitê de McCarthy leva oficiais do Exército às suas audiências públicas, em 1954. O Exército Americano acusa Cohn e McCarthy pelo uso de pressão indevida em nome da Schine, enquanto McCarthy e Cohn contra-atacam, dizendo que o Exército mantinha Schine como seu “refém”, em uma tentativa de silenciar as investigações sobre os  comunistas no Exército . Os resultados das audiências terminaram por evidenciar as articulações, mentiras e má fé de Cohn, e eles foram fatores determinantes na desgraça em que McCarthy cai logo após. Cohn é demitido e tornar-se-á advogado privado pelos próximos 30 anos.

Um advogado de criminosos e de trapaceiros, bem como um conselheiro de dois Presidentes Norte-americanos-.

“Nos dizeres de seu biógrafo, Cohen sempre advogou dentro de uma matriz de crimes e de conduta antiética”. Entre seus clientes, estiveram Donald Trump, figuras da máfia como Tony Salerno , Carmine Galante , e John Gotti . Quando aceitava um caso, dizia claramente: “Pouco me importa qual é a lei, diga-me quem é o juiz”. Sua preferência era claramente por clientes de reputação duvidosa e bandidos e, por isso, não somente achava conveniente como tinha prazer em dar a entender que poderia fazer “desaparecer” pessoas. Assim mesmo, são diversos os exemplos de que ele traía, sem o mínimo escrúpulo, seus próprios clientes. Era escroque pelo prazer de sê-lo.

Na década de 1970, tornou-se importante personalidade nova-iorquina, mantendo laços estreitos em círculos políticos conservadores; democrata toda a vida, vangloriava-se de haver prejudicado a campanha de seu próprio partido em 1972, quando ajudou a eleger Nixon.  Como conselheiro informal de Richard Nixon, influenciou sobre a política americana de promover golpes militares na América Latina.

No dizer de Hobsbawm, até mesmo antigos liberais reconciliaram-se com o homem que poderia introduzi-los no paraíso da cocaína da “Boite Studio 54”, da qual era sócio. “Foi famoso como um influente e, sobretudo, como um perigoso intermediário entre a polícia e o crime, um aplicador de golpes e extorsões”. Sendo judeu, juntou-se aos antissemitas; homossexual notório levava seus namorados a reuniões onde se pregava contra o direito ao homossexualismo.

Nos anos 1980, tornou-se amigo de Ronald e Nancy Reagan, frequentando-os na Casa Branca.

Em 1984, Cohn foi diagnosticado com AIDS e tentou manter sua condição em segredo durante o tratamento experimental com drogas. Participou dos primeiros ensaios clínicos com AZT, furando, como sempre, uma longa fila de pessoas que ansiavam por seus efeitos medicinais. Entretanto, Cohen insistiria, até mesmo no dia de sua morte, que sua doença era “câncer de fígado”. No hospital de Besteda, onde esteve internado, recebeu do Presidente dos USA o seguinte bilhete: “Nancy e eu temos você em nossos pensamentos e orações”.

“Pouco antes de agosto de 1986, quando veio a falecer de complicações da AIDS, foi, finalmente, expulso da classe dos advogados de Nova York, cujos princípios éticos, ainda que muito flexíveis, conseguira forçar em demasia”. Quando morreu, em 2 de agosto, até mesmo a Casa Branca de Reagan manteve-se em silêncio.

De mais a mais, deixou uma dívida de mais de um milhão de dólares para com a Receita Federal Americana.

Um dos canalhas-símbolo do século XX, Cohen não poderia esperar encontrar na morte, o esquecimento por seus inúmeros crimes. Foi objeto de diversas representações artísticas, dentre elas as mais importantes foram “Angels in America” e “Cidadão Cohen”, interpretadas no cinema por Al Pacino e James Woods, respectivamente.

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