“O Fascismo Cotidiano”, de Nélson Werneck Sodré.

Uma pequena resenha


Dentro da imensa obra do historiador, crítico literário, intelectual e marxista Werneck Sodré, encontamos um conjunto de crônicas forjadas a partir de “pequenas impressões da vida cotidiana”. Trata-se de “O Fascismo Cotidiano”, escrito no princípio da decadência da Ditadura, em 1976. Reportar-nos-emos a uma única dentre o conjunto das crônicas, dada a sua extrema atualidade, na medida em que “o fascismo cotidiano” viceja, de forma e intensidade distintas que no passado, ainda hoje, em nossa sociedade.Werneck Sodré principia com anotações por ele realizadas entre janeiro e abril de 1935, em Moscou. Palmiro Togliatti dava, naquele então, uma série de cursos sobre o fascismo para operários italianos, nascidos para a vida política sob o regime estabelecido em 1922. Inicialmente ele nos introduz à definição de fascismo estabelecida pelo Plenário da XII Internacional Comunista: “O fascismo é uma ditadura terrorista declarada conduzida pelos elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro”. Lembra também que Zetkin preocupara-se em demonstrar o espírito pequeno-burguês do fascismo, sobre o qual Togliatti avança: “que é peculiar ao imperialismo uma tendência para uma transformação reacionária de todas as instituições políticas pela burguesia.” E isso porque a “burguesia tem de encontrar formas para exercer forte controle sobre os trabalhadores; as antigas formas de governo (formalmente democráticas) tornam-se obstáculos para o desenvolvimento”. Daí a burguesia assumir sua faceta reacionária e recorrer ao fascismo seria um passo. Essa transformação reacionária das instituições e o combate ao proletariado- quando organizado em classe social- abriria o caminho à “ditadura fascista elaborada”.Togliatti mostra que tanto a instalação do fascismo quanto a sua derrocada estaria sempre ligada à capacidade de defesa das instituições democráticas pela classe operária e à sua capacidade de “travar a conquista das grandes massas pequeno-burguesas descontentes.”Posteriormente, Werneck Sodré apresenta-nos uma resenha do livro editado por Togliatti, todo ele baseado em Gramsci, de quem este fora o continuador no Partido Comunista Italiano. Começa por traçar a personalidade de Gramsci: “exigência de seriedade, o repúdio das formas superficiais e falsamente populares, a impossibilidade de se adaptar ao regime de leviandade, irresponsabilidade, falta de sinceridade e vileza política”. “Como homem era pagão, inimigo de qualquer hipocrisia, acusador impiedoso de toda impostura, de todos falsos sentimentalismos, de todas as fraquezas. Quando utilisava as armas do riso e da troça, fazia-o para evidenciar a vaidade e a duplicidade dos que pregam ao povo a moral no interesse das classes dominantes.”Seus estudos, realizados antes do cárcere, levaram Gramsci a uma conclusão surpreendente: “Até mesmo os delitos (crimes comuns), que a opinião pública considerava como manifestações de um fatal atraso de costumes (na Sardenha), tinham aumentado assombrosamente com o desenvolvimento da exploração capitalista na região. A forma é como ele (o desenvolvimento capitalista) estava organizado, não em proveito do povo” mas das grandes corporações. E capta o sentimento ideológico da coisa: “O que se pretende expulsar, fechando a porta, torna a entrar pela janela, porque mesmo na análise dos fatos políticos concretos…, ninguém poderá prescindir das considerações de ordem geral, deixar de ver que as posições e juízos históricos e de valor, cujo todo forma o que se chama ideologia, são as colunas sobre as quais a política, quando séria, se apoia”.É fácil para ele, assim, sentir a ameaça fascista que cresce: “Qual a primeira liberdade a ser aniquilada e aniquilada da forma mais brutal, não com a adoção ou a promulgação de leis ou decretos, mas com o exercício da violência pura e simples e com o aumento da criminologia? A liberdade de organização e do movimento econômico dos operários, dos camponeses, dos pobres; a liberdade de opinião e de expressão, não de todos os cidadãos em geral, mas das referidas categorias… nesse barbarismo já está contido- como germe- todo o fascismo”.Gramsci logo verifica no avanço do fascismo duas consequências: “A primeira é que, quando o fascismo organizou o seu poder, primeiramente substituiu ou expulsou o velho pessoal dirigente político (Mussolini fora líder trabalhista e membro destacado da socialdemocracia italiana). A segunda é que o governo fascista arrasta atrás de si, até o fim, um bando de ineptos, inconscientes, aventureiros e delinquentes”. No entanto, “os postos dirigentes, consolidado o regime, pertencem a representantes e mandatários diretos do setor dirigente econômico, tanto industrial como agrário, submetendo-se-lhe de maneira absoluta”.Os grupos que se reuniram em torno do fascismo, como agora nos recorda Tagliatti na expressão de Werneck Sodré, “mostram uma mentalidade de capitalismo nascente (agressivo) que se define no absoluto desprezo pelas leis escritas, pelas leis morais, pela pessoa humana e pelas conquistas da civilização e de cultura realizada pelos trabalhadores”.Gramsci na prisão não perdeu a perspectiva histórica e nisso, nos ensina Werneck Sodré, estaria parte de sua grandeza. Gramsci superou “o tosco naturalismo metafísico dos positivistas” e a “superstição fatalista do banal determinismo econômico”… “só o proletariado garantiria a liberdade para uma evolução para o socialismo”. Um processo revolucionário não merece esse nome – dizia o dirigente- “se não ataca e transforma as bases da organização produtiva”. Uma classe- acrescentava- torna-se classe nacional “só quando resolve os problemas de toda a sociedade”, isto é, tornando-os seus. Fazer política, em última análise, “significa agir para transformar o mundo”.Togliatti, à luz de Gramsci, desenvolve também o tema do papel da disciplina partidária e da democracia: “A disciplina, portanto, não anula a personalidade e a liberdade; a questão da “personalidade e da liberdade” põe-se, não pela disciplina, mas pela origem do poder que ordena a disciplina. Se esta origem é democrática, se a autoridade é uma função técnica especializada e não um arbítrio ou uma imposição extrínseca e exterior, a disciplina é um elemento necessário de ordem democrática, de liberdade.” Surge daí a questão da democracia: “A transformação da classe dirigente, obtida com o destronamento das classes exploradoras, garante, por outro lado, que, em todas as situações, a essência do novo regime é a mais democrática que a de todos os precedentes”.Togliatti diz ainda que “na vida de um partido existe sempre um momento de inércia; quando uma concepção sectária o domina, esse momento de inércia tem um valor máximo e o seu peso é tanto maior quanto menos o partido for habituado ao debate interno, à elaboração coletiva de suas políticas e de suas iniciativas, à participação do maior número possível dos seus militantes nessa elaboração.Conclui Werneck Sodré com Togliatti afirmando sobre Gramsci que: “a sua grandeza não reside numa pretença infalibilidade do pensamento e da ação; reside, sim, em ter instaurado em todos os campos o método da reflexão e do juízo crítico.”De tal forma que a grandeza do pensador marxista italiano insere-se na própria contramão do “pensamento único”, tão ao gosto da direita quanto de determinados setores da esquerda. Prima pela negativa clara à retórica que prega o fim das ideologias, cujo alvo dissimulado é enfraquecer a política como esfera de representação de anseios e visões éticas. Ao mesmo tempo, a dialética gramsciana antecipa a “era do fim das certezas”, nosso presente, onde o determinismo e as evoluções lineares se desintegraram. Ele já considerava a realidade como um universo cheio de incertezas e, portanto, de imensas possibilidades de criatividade, do conhecimento como caminho para a liberdade.

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