O grande estelionato do Golpe de 64: “Ouro para o bem do Brasil”.

Já no segundo mês após o Golpe Militar, os militares e seus parceiros civis, prepararam um dos maiores estelionatos de nossa história, sob a inspiração do malandro- magnata Assis Chateaubriand. Talvez por escárnio, escolheram a data de 13 de maio de 1964 para seu início.

“Chatô” era, então, o maior expoente da mídia da época, dono de uma cadeia de canais de televisões capitaneadas pela Tupi, dono de jornais como o Diário da Noite, Correio Braziliense e o Estado de Minas, rádios como a Difusora e Tupi. E comandava a edição diária do programa jornalístico de maior audiência do País, “O Repórter Esso”, sob o patrocínio e orientação da Standart Oil Co..

Contando com a mídia favorável, Chatô em conluio como o governador Ademar de Barros, com o General Comandante do II Exército, Amauri Kruel e com a colaboração de economistas como Delfim Neto, prepararam um dos maiores estelionatos de nossa história! A campanha Ouro para o Bem do Brasil!

Como coordenador da operação publicitária eles elegeram o jornalista Edmundo Mendes, do jornal Estado de S. Paulo.

Essa foi a essência da propaganda adotada, publicitada em todos a mídia, colada e paredes e postes por todo o País:

“A Campanha ‘Ouro para o Bem do Brasil’ será uma contribuição patriótica do povo brasileiro em todos os quadrantes da nossa amada Pátria para o Tesouro Nacional, objetivando o fortalecimento do lastro-ouro e maior valorização da nossa moeda. Com este gesto de amor ao Brasil, estará o povo brasileiro contribuindo, para atenuar o impacto inflacionário alistando-se, igualmente na Legião da Democracia, para fazer com que a revolução atinja os seus altos objetivos.”

E a grande sacada dos estelionatários junto aos paulistanos era elencada a seguir: “Conclamamos a todos os patriotas e democratas a comparecerem a partir dia 13 de maio, as 18 horas, na rua Sete de Abril, 230, ocasião em que começarão a ser recebidas as contribuições dos homens e mulheres democratas de nossa terra, contribuições que serão feitas com a entrega das suas alianças ou quaisquer outros objetos em ouro, recebendo os doadores a aliança ou anel-símbolo”.

Ora, em São Paulo, o endereço de arrecadação era o dos Diários Associados de Assis Chateaubriand!


Seja patriota: “Doe ouro para o bem do Brasil”.

Em cada local de arrecadação, havia três cofres para recebê-las. Um destinado ao dinheiro em espécie, outro para cheques e o terceiro para os objetos de ouro.

Milhões de brasileiros entregaram alianças, correntes, pulseiras, brincos, salários, dólares, não apenas em São Paulo, mas em todo o território brasileiro.

Apenas aqui em São Paulo, os doadores que entregassem suas alianças de casamento, em troca recebiam uma aliança de latão com os dizeres “Dei ouro para o bem do Brasil”, cortesia dos Diários Associados!

O montante que foi dito como arrecadado no Estado de São Paulo alcançou 1200 quilos de ouro e um pouco mais de dois bilhões de cruzeiros. Entretanto, o valor somado em todo o país jamais foi nem ao menos divulgado!

Sem nenhum tipo de auditoria ou controle independente, cálculos da época assinalavam uma arrecadação de U$ 30 milhões em valores e 4 mil quilos de ouro! Isto, tendo como fonte os próprios arrecadadores!

Qual teria sido o valor real arrecadado? Mesmo considerando-se apenas os 30 milhões e os 4 mil quilos de ouro, a maior parte do dito SIMPLESMENTE DESAPARECEU! E a novela do desaparecimento, entretanto, teve múltiplos capítulos, muitos dos quais ainda desconhecidos.

O Ministro da Economia à época do “Milagre Econômico” na década seguinte, Delfim Netto, teve a coragem de dizer que o governo federal “ficara com uma bomba nas mãos”. Uma bela bomba, bomba de cruzeiros e de ouro!

Uma enxada de ouro foi parar na casa da filha do ditador- presidente, marechal Humberto Castello Branco, o qual veio a morrer em 1967, num acidente aéreo para lá de suspeito (seu avião foi derrubado por um intrépido urubu nos céus do Ceará, conforme a versão oficial).


O mistério persiste, pois jamais uma só grama daquele ouro entrou para o Tesouro Nacional!

Qual terá sido seu destino?

Por que parcela dos objetos de ouro foi leiloada no Estado de São Paulo? Qual o motivo de Assis Chateaubriand, oficialmente, amealhar uma gorda corretagem, algo como seis milhões de dólares em valores de 1966, originários da revenda dos objetos em leilões da Caixa Econômica?

De todo modo, na data formal de encerramento da campanha, uma grande celebração foi programada em São Paulo. Carretas transportando os cofres saíram da sede dos Diários Associados e, em comitiva, se dirigiram ao porto de Santos, eram cofres e mais cofres, cheios ou esvaziados; lá, com pompa e circunstância, corpos especiais do Exército as embarcaram no Cruzador Tamandaré, com escolta de quatro buques de guerra, tendo por destino a Casa da Moeda no Rio de Janeiro. Um verdadeiro Carnaval extemporâneo!

O dinheiro então, foi lentamente sumindo, tramitando na Casa da Moeda, no Banco do Brasil, na CEF, até o Banco Central. Quando começaram a surgir dúvidas sobre o destino dos recursos, a ditadura divulgou, em fins de 1964, que parte da fortuna arrecadada seria destinada à compra de equipamentos para a Santa Casa de Misericórdia no Rio de Janeiro, o que jamais ocorreu.

No ano seguinte, o Ministro da Saúde, Raimundo de Brito, afirmou que 5 bilhões dos arrecadados seriam destinados para pesquisas de cura do câncer e da lepra, sem especificar nenhum programa específico ou instituição científica responsável.

Em 1966, o Ministro da Fazenda, Gouveia Bulhões, afirmou que 2 bilhões dos recursos haviam sido destacados para a aquisição de obrigações da Estrada de Ferro S. Paulo-Rio Grande e E.P. Vitória-Minas. Estas, algum tempo após, foram privatizadas.

Em 1967, o então presidente Costa e Silva afirmou ser “uma questão de honra” investigar o emprego do “Ouro para o Bem do Brasil”, que tinha se “dissolvido”. Isto jamais ocorreu.

Já na década de 1980, Ruy Gouveia (PB) foi denunciado com base na Lei de Segurança Nacional por afirmar, entre outras coisas, que o então Ministro Delfim Neto havia usurpado parte do ouro doado em 1964.


Mas, afinal, uma pequena parcela do mistério foi desvendada: o cofre do misterioso “Dr. Rui” continha parte do estelionato!

No dia 18 de julho de 1969, cinco anos após a campanha, ocorreu um dos mais ousados e inesperados roubos da história do Brasil!

Um cofre contendo US$ 2,5 milhões (dinheiro em valor da época, hoje, aproximadamente US$ 15 milhões) foi roubado na casa do irmão da amante do então recém-falecido governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Aquela profusão incrível de dólares era tanto fruto de inúmeras negociatas realizadas pelo governador, um dos cabecilhas do Golpe de 1964, quanto de desvios diretos do “Ouro para o Bem do Brasil”.

A ex-secretária do governador, Anna Gimel Benchimol Capriglione, a amante de longa data do político golpista Ademar de Barros, era por ele intitulada como “Doutor Rui”, um disfarce canhestro. Ana, o Dr. Rui, por sua vez, para não chamar atenção, pedira a um seu irmão que abrigasse um cofre “contendo documentos” em sua residência, no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro.

Um sobrinho de Anna, que simpatizava com a esquerda, sabedor como todos da fama de corrupto de Ademar de Barros, desconfiou do conteúdo do cofre do “Dr. Rui” e contou a amigos que no cofre deveria ter dinheiro roubado.

Os autores do roubo eram jovens idealistas de 16 a 20 anos, integrantes de uma organização armada que lutava contra a ditadura militar, a Var Palmares. Quando arrombaram o cofre, os jovens tomaram um susto enorme! Era uma fortuna incalculável para qualquer padrão! Eles mal puderam carregar uma parte!

Um dinheiro que, em parte, esclarecia o mistério do “caminho do ouro”!

A Ana e a família chamaram a polícia pelo roubo, mas negaram até onde puderam que dentro do cofre havia dinheiro e, muito menos, uma verdadeira fortuna!

Bom, o destino teve esta pequena parcela do “Ouro para o Bem do Brasil”, já é outra história, ainda a ser contada.


Em tempo.

Nem toda contribuição do “Ouro para o Bem do Brasil” era absolutamente voluntária. Meu pai, pequeno funcionário público no interior de São Paulo, sofreu pressão para entregar sua contribuição em ouro. Esperto, guardou as alianças dele e de minha mãe, arrumou duas alianças fajutas douradas e foi todo orgulhoso prestar sua contribuição no cofre da Prefeitura. Voltou de excelente humor, com um certificado e dois anéis de lata: “eu dar ouro para estes ladrões? E concluiu em seu italiano, ‘a fan culo!’”

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