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O Grande Inquisidor ou “podem os revoltados serem felizes?”

Do ponto de vista do existencialismo, as obras de Dostoievski constituem como que uma profecia com meio século de anterioridade. Disse, ademais, Bernianiev, que o autor de “Os Irmãos Karamazov”, não poderia  ser entendido a não ser que o leitor estivesse preparado para imergir num vasto e estranho universo de conceitos, conceitos de um visionário, grande pensador e artista, um criador e intérprete de mitos.

Em carta dirigida a um amigo, Dostoievski segredou:” A ideia fundamental que tem me atormentado consciente ou inconscientemente por toda a minha vida é a existência ou a inexistência de Deus”. No entanto, ele afirmou continuamente que Cristo lhe era infinitamente mais importante que a razão ou a própria verdade, leia-se “Deus”. O Cristo dostoievskiano não é um santo, mas  humano, profundamente humano ! Dentre os inúmeros estudos e esboços que ele realizou, o único retrato completo do seu Cristo é  aquele que revive na Lenda do Grande Inquisidor, que também poderia possuir como sub-título: “os homens preferem a calma bruta da servidão. Aos revoltados restam as fogueiras.”

Logo após Ivan revelar a Aliocha os porquês de sua rebelião contra Deus, ele passa a relatar-lhe um conto do século XVI, ocorrido no auge da Inquisição Espanhola. A ação ocorre em Sevilha onde, sob o comando do Grande Inquisidor, acendiam-se fogueiras em glória a Deus e os hereges ardiam em “atos de fé”.

Cristo teria surgido dentre a multidão, reunida na praça frente à Catedral, docemente, quase sem se fazer notar. No entanto, todos O reconheceram de imediato. Ele caminha com um sorriso de compaixão infinita. Sobe os degraus da igreja no momento em que trazem o caixão de uma menina de sete anos. A mãe lança-se a seus pés e diz:”Se és Tu, ressuscita-a”. Ele a contempla e apenas diz “talita kumi”; incontinente, a morta levanta-se e sorri. No meio da turba há agitação e choro.

Naquele instante passa ao largo um ancião quase nonagenário, de elevada estatura, rosto ressecado, olhos cavados, o Grande Inquisidor. Ao entender a atitude de Cristo, um brilho sinistro clareia seu olhar; ele aponta-O à guarda e ordena que O prendam. Tão grande é seu poder, tal o medo de uma multidão acostumada à submissão, que os esbirros prendem-nO sem nenhum trabalho. Como um só ser, toda a multidão, esquecendo a quem louvava, inclina-se agora para o Cardeal que a abençoa.

O Prisioneiro é levado para a masmorra do Santo Ofício. À noite, o Inquisidor vem só e com um facho de luz ilumina a Santa Face. “És tu, não és? Cala-te, aliás, o que poderias dizer? Não tens o direito a acrescentar uma palavra ao que disseste outrora. Por que nos vieste estorvar? Amanhã Te condenarei e serás queimado como o pior dos hereges e esse mesmo povo que hoje te beijava os pés, trará a lenha em que ardirás. Tens por acaso o direito de revelar um só dos segredos do mundo de onde vens? Todas as revelações novas feririam a liberdade da fé, pois pareceriam miraculosas; ora, tu punhas há quinze séculos essa liberdade acima de tudo! Pois bem, viste os “homens livres”, diz com sarcasmo.

“Isso nos custou muito caro, mas levamos a cabo aquela obra em Teu nome; foram séculos de grande trabalho para instaurar a liberdade, mas está feito. Tu me olhas com doçura, sem mesmo fazer-me a honra de Te indignares! Mas saiba que jamais os homens se sentiram tão livres como agora, pois sua liberdade eles a depositaram humildemente a nossos pés. Só agora (com a Inquisição) que se pode pensar na felicidade dos homens. Eles são naturalmente revoltados e, revoltados podem ser felizes?”

“Tu estavas advertido, conselhos não Te faltavam, mas não os levaste em conta, rejeitaste o único meio de proporcionar felicidade aos homens. Felizmente, ao partires, nos transmitiste Tua obra, concedendo-nos o direito de ligar e desligar e, decerto, não podes imaginar em retirá-lo agora. Por que vieste estouvar-nos?”

“O Espírito terrível e profundo da destruição e do nada falou-Te no deserto e as Escrituras relatam que Te “tentou”. É verdade? E nada se podia dizer de mais penetrante do que Te foi dito nas três perguntas… Decide pois Tu mesmo quem tinha razão: Tu ou aquele que Te interrogava? Lembra-Te do sentido da primeira pergunta? Queres ir para o mundo de mãos vazias, pregando aos homens uma liberdade que lhes causa medo. Jamais houve nada de mais intolerável para o homem e para a sociedade! Vês as pedras do deserto árido? Muda-as em pães e atrás de Ti, correrá a humanidade como um rebanho dócil e reconhecido. Mas tu não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, estimando que ela era incompatível com a obediência cobrada com pães. Replicaste que nem só de pão vive o homem, mas sabes que em nome desse pão terrestre o Espírito da terra se insurgirá contra Ti, lutará e Te vencerá. Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crime e, por conseguinte, não há pecados, só famintos.”

“Nutre-os e, então, exija que sejam virtuosos. Eles nos procurarão e dirão: “dai-nos de comer, pois aqueles que nos prometeram o fogo dos céus, não o fizeram”. E nós os faremos crescer, utilizando falsamente o Teu nome. Depositarão sua liberdade a nossos pés dizendo: “reduzi-nos à escravidão mas alimentai-nos”. Compreenderão que a liberdade e o pão da terra à vontade para cada um são irreconciliáveis, pois jamais saberão reparti-lo entre si. A sua impotência para a liberdade ocorre por serem fracos, depravados, nulos e revoltados. Milhares te seguirão pelo pão sagrado, mas e os milhões e bilhões que preferirão o pão da terra? As multidões sendo fracas e, embora depravadas e revoltosas, tornar-se-ão dóceis.”

“Acreditarão que somos deuses pondo-se sob nosso comando e reinaremos sobre eles, os quais terão medo de serem livres. Mas lhes diremos que somos Teus discípulos e reinamos em teu nome. E esta, a mentira, será a origem de nosso sofrimento.”

“Não há para o homem que fica livre,  preocupação mais constante e mais ardente que procurar um ser diante do qual se inclinar. Mas somente querem se inclinar perante uma força incontestável, que todos respeitem por consenso. Porque essa necessidade de procura de um culto no qual todos comunguem unidos pela mesma fé é o principal tormento da humanidade e para realizar esse sonho exterminar-se-iam em guerras.”

“Para dispor da liberdade dos homens é preciso dar-lhes paz de consciência. O pão Te garantiria o êxito; o homem se inclina perante quem lhe dá, mas se um outro se torna dono de sua consciência, largará ali mesmo o Teu Pai para segui-lo. Nisto Tu tinhas razão porque o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo pelo qual viver. Sem uma ideia nítida de sua finalidade, prefere o homem a ela renunciar e se destruirá embora cercado por montes de pão. Esqueceste-Te de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem do mal? Não há nada de mais sedutor para o homem que o livre-arbítrio, mas também, nada de mais doloroso.

“Há três forças que podem subjulgar para sempre a consciência desse fraco revoltado: o milagre, o mistério e a autoridade. Tu rejeitaste os três…Mas o homem rejeita Deus, pois é sobretudo o milagre que ele procura e como não saberia passar sem ele, forja novos, os seus próprios milagres, inclinando-se perante o prodígio dos magos, dos sortilégios de uma feiticeira, ainda que sejam revoltados, hereges, ímpios confessos. É próprio da natureza humana repelir o milagre e, nos momentos graves da vida, diante de questões cruciais e dolorosas, agarrar-se à livre decisão dos corações?”

“Tu não deceste da cruz… novamente rejeitaste o milagre, pois querias uma fé livre e não inspirada no maravilhoso. Tinhas necessidade de um amor livre e não de um escravo atemorizado. Fazias demasiada ideia dos homens, mas eles são escravos, se bem que rebeldes. O homem é mais fraco, covarde e vil do que pensavas. A grande estima que tinhas por ele fez mal à tua compaixão. Que importa que no presente se insurja por toda parte contra nossa autoridade e se mostre orgulhoso de sua revolta? É a alegria infantil que lhes custará caro. Derrubarão templos e incendiarão a terra. Mas perceberão, por fim, que são crianças estúpidas, fracas, incapazes de se revoltarem por muito tempo”.

Corrigimos Tua obra baseados no milagre, no mistério e na autoridade. E os homens se regozijaram por serem de novo levados como um rebanho e serem libertados do dom funesto que lhes causava tormentos. Não tínhamos razão? Não era amar a humanidade compreender sua fraqueza, aliviar seu fardo, tolerar mesmo o pecado de sua fraca natureza, mas com a nossa permissão?”

Por que vir agora entravar a nossa obra? Por que guardar silêncio com Teu terno olhar? Eu não Te amo. Cada um de nós sabe com quem fala. Não estamos Contigo, mas com Ele há muito tempo. Aceitamos Roma e o gláudio de César e declaramo-nos os únicos reis da Terra. Ainda não terminamos a nossa obra, pois estamos apenas começando e a Terra ainda terá que sofrer muito, mas atingiremos o nosso fim, seremos cézares e, então, pensaremos na felicidade universal.”

“Os homens, mesmo os revoltados, virão a nós e dirão: salvai-nos de nós mesmos. Recebendo de nós o pão, verão que os tomamos de seu próprio trabalho para distribuí-los, sem nenhum milagre.Compreenderão o valor da submissão definitiva e, enquanto não o compreenderem, serão infelizes. Nós os persuadiremos a não se orgulharem porque elevando-os, foste Tu que os tornaste orgulhosos. Serão tímidos e não nos perderão de vista; nossa cólera os fará tremer, mas ao nosso sinal passarão ao riso e à alegria das crianças. Seremos os seus benfeitores, que tomam a si a carga de seus pecados perante Deus. Submeter-nos-ão os segredos mais penosos de suas consciências. E todos serão felizes exceto uns cem mil, que somos nós, os depositários do segredo. Os felizes serão bilhões e haverá cem mil mártires encarregados do conhecimento maldido do bem e do mal. Felizes morrerão tranquilamente, mansamente em Teu nome e no outro mundo não encontrarão senão a Morte. Mas nós os ninaremos para a felicidade, com uma recompensa eterna no céu”.

“Amanhã, queimar-te-ei, pois ninguém mais que Tu mereceste a fogueira. Dixi”. O Inquisidor se cala, espera a resposta do Prisioneiro. Ele aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios. É toda a sua resposta. O velho estremece, seus lábios tremem, caminha até a porta e abre:  “Vai-Te e não voltes nunca mais!” O Prisioneiro sai.

Ao finalizar o conto, os irmãos iniciam uma breve discussão. Ivan pergunta a Aliocha se não seria crível que dentre tantos jesuítas e inquisidores poderia existir um único mártir, presa de um nobre sentimento e amante da humanidade. Aliocha contrapõe: “Mas teu Inquisidor não crê em Deus”. Ivan: “Advinhaste. Talvez aquele velho maldito, que ama tão obstinadamente a humanidade à sua maneira, exista ainda agora em vários exemplares e isso não por efeito do acaso, mas sob a forma de uma aliança, de uma liga secreta, organizada desde muito tempo para manter o mistério e roubá-lo aos desgraçados e fracos, para torná-los felizes.” Aliocha ainda insiste: “Quer dizer que tudo é permitido?” e Ivan retruca: “ Há em mim uma força que resiste a tudo isso! A força dos Karamazovi.” Aliocha levanta-se e beija o irmão nos lábios. Esse sorri: “é plágio!”

É inegável a precisão com que os regimes despóticos são descritos por Dostoievski, com quase meio século de antecipação- o controle do pensamento, o aniquilamento e os poderes das elites, o instrumento da tortura e da confissão, a total subordinação da liberdade privada ao interesse dos que manipulam o Estado! A visão do Grande Inquisidor aponta também para as recusas de liberdade, invasão das privacidades, as parvoíces hipócritas das democracias formais. Sinaliza a vulgaridade espantosa da cultura de massas, do consumismo desmedido, assim como para a fome e para as doenças que graçam entre os homens que buscam líderes e mágicos, que retirem de suas mentes as reações selvagens de busca por liberdade.

Pois, tal qual na essência da profecia dostoievskiana, os homens inclinam-se voluntariamente aos seus guardiões, exceto um pequeno número de rebeldes. “Mas podem os revoltados serem felizes?”

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