O Imperador do Brasil, Wagner e as barricadas

O Imperador Dom Pedro II era um intelectual. A erudição do mesmo surpreendeu até mesmo Nietzsche quando ambos se conheceram. Victor Hugo disse-lhe a esse respeito: “Senhor, sois um grande cidadão, sois o neto de Marco Aurélio” (o filósofo estoico, imperador romano). Alexandre Herculano considerou Dom Pedro um “príncipe, o primeiro de sua era”, “graças à sua constante aplicação nas ciências e na cultura”. Pedro II manteve intensa correspondência com cientistas, filósofos, músicos e intelectuais. Era um homem de seu tempo. Muitos de seus correspondentes se tornaram amigos incluindo Richard Wagner, Pasteur, Louis Agassiz, Chevreul, Graham Bell, Longfellow, Arthur de Gobineau, Frédéric Mistral, Manzoni, Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco.

O Imperador considerava a educação como de importância capital, era ele mesmo um exemplo do valor do aprendizado. Comentou: “Se eu não fosse Imperador, gostaria de ser um professor. Eu não conheço tarefa mais nobre do que direcionar as jovens mentes e preparar os homens de amanhã.” Não era apenas um discurso, pois em seu reinado criou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Imperial de Música e Ópera Nacional e o Colégio Pedro II, que serviu como modelo para escolas em todo Brasil. A Escola Imperial de Belas Artes, estabelecida por seu pai, recebeu seu maior apoio e teve enorme expansão. Financiou a criação do Instituto Pasteur voltado ao desenvolvimento das ciências. Foi quando Charles Darwin comentou a respeito: “O Imperador faz tanto pela ciência, que todo sábio é obrigado a demonstrar a ele o mais completo respeito.”

Do outro lado do Atlântico, vivia seu contemporâneo,Richard Wagner. Desde cedo o jovem Wagner revelou também uma variedade de talentos artísticos: a literatura e a música. Após estudar esta última, descobriu ainda uma nova vocação: o teatro. E todos os seus dotes artísticos seriam combinados para a revolução que ele faria na ópera e na própria música. No entanto, ao contrário do brasileiro, o alemão não possuia fortuna alguma e gostava de esbanjar todo o dinheiro que lhe caísse às mãos.

Após seus estudos, serviu como regente de orquestra em teatros de províncias sem grande sucesso. Vivendo em dívidas e apuros, sua primeira fuga da Alemanha, em 1836, foi motivada por seus credores, que o ameaçavam levá-lo à prisão. 

Mudou-se para a Letônia, onde se casou com a cantora Mina Planer. Mas foi breve sua estada em Riga, poi o compositor meteu-se outra vez em dívidas; o casal empreendeu nova fuga.

Paris, a capital do mundo artístico, foi a próxima parada, em 1838. Wagner contava com a ajuda prometida por um judeu alemão, Meyer, um amigo músico a quem auxiliara no passado e que fizera fortuna no teatro parisiense. Este adotara o nome artístico de Meyerbeer, para distanciar-se de sua origem judaica. Wagner decepcionou-se com a ingratidão de quem até mesmo fingiu não reconhecê-lo em público e muitos encontram aí a origem do antissemitismo, que o acompanharia por toda a vida.

O tempo que viveu com Mina na França foi o da mais extrema pobreza. Afinal, ao contrário do que se passara em outros países, não teve como escapar da prisão por dívidas em 1840, quando ficou trancafiado por seis meses.

Em 1842 consegue voltar à Alemanha graças à estreia, com grande sucesso, de sua ópera “Rienzi”. Parecia que a sorte iria finalmente lhe sorrir; as apresentações de “Rienzi” garantiram-lhe fama e prestígio; ele foi nomeado Diretor da Ópera de Dresden. Segue-se uma fase de grande produtividade e inventividade artística: “O Navio Fantasma” e “Tannhaeuser” constituem seus novos sucessos nessa etapa luminosa.

Mas a promissora vida burguesa seria novamente interrompida. Todo o mundo europeu se agita ao final dos anos quarenta. Em 1848, surge com a força de um vendaval a varrer a velha ordem, “O Manifesto Comunista”, escrito por Marx e Engels. O povo parisiense ergue barricadas e sua luta leva à deposição de Luís Felipe, o último dos Bourbons, restaurador do monarquismo pós-bonapartista. Quase todas as monarquias absolutistas enfrentam a revolta popular na Europa, inclusive a arquirreacionária Alemanha.

Richard Wagner, imbuído de ideias libertárias, socialistas e anarquistas, une-se ao grupo que possuia Bakunin como líder e pega em armas, participando da Revolução de Dresden, em 1848 e 1849. Dirige sua orquestra com a destra enquanto com a esquerda “empunha um trabuco”. No dia primeiro de abril de 1849 rege, no Teatro de Dresden, a Nona Sinfonia de Beethoven e, no dia três junta-se à Guarda Comunal Revolucionária, e publica o manifesto “A Revolução”.

Resiste às tropas monarquistas nas barricadas nas ruas e, depois, participa da luta que se extende casa a casa. A balança pende para o lado dos reacionários, mas Wagner não se entrega. Desejava partir em busca de reforços para a revolução, quando seu líder, Bakunin, abandona a luta. Finalmente, quando toda Dresden cai nas mãos dos monarquistas, o compositor é dos últimos a empreender a fuga em companhia de Mina, que também combatera ao seu lado.

Em Weimar é socorrido por Liszt, que o abriga. Em casa do grande húngaro conhece ainda menina, Cósima, sua filha e seu futuro amor. Mas ele não pode permanecer em território prussiano. Foge para Paris e, finalmente, chega a Zurique, onde se exila. Na sua ausência, Liszt fará representar “Lohengrin”, novo sucesso de crítica, que lhe proporciona ganhos financeiros, imediatamente gastos para pagar dívidas vencidas.

Na Suíça, iniciará a composição de “O Anel dos Nibelungos”, produção que somente concluirá vinte e seis anos após. Neste período ele começa a abandonar as ideias anarquistas e socialistas e afeiçoar-se ao budismo e à filosofia de Shoppenhauer. Torna-se vegetariano e escreve e edita o livro “Arte e Revolução”.

Quem o socorrerá nesta fase de exílio será Otto Wesendonck, um rico industrial e mecenas das artes. Ora, Wagner irá se apaixonar pela esposa do anfitrião, Matilde, tornando-se amantes. Ela será a inspiração de sua próxima ópera, baseada na lenda de “Tristão e Isolda”.

Mina, a esposa enganada, promoverá um enorme escândalo e o casal terá que abandonar o luxo em que vivia na residência do marido traído. Em seguida, Wagner se divorcia da esposa e se junta aos velhos e conhecidos companheiros de jornada: a miséria e as dívidas. E aí entra, em sua história, Dom Pedro II, o Imperador do Brasil.

Dom Pedro é um amante das artes progressitas, e, mesmo Wagner tendo por fama ser um revolucionário feroz, isto não o incomoda e em absoluto o impede de sonhar com a encenação e regência de uma ópera wagneriana no Brasil, que para ele significava a “música total”. Em 1857, envia o embaixador brasileiro de Leipzig até Zurique para que contate o músico e lhe faça uma oferta. Wagner envia partituras autografadas de diversas óperas suas como reconhecimento seu a Dom Pedro.

As cartas entre Pedro de Alcântara e Richard Wagner tornam-se uma constante. Ciente das dificuldades do grande gênio, o Imperador oferece-lhe suporte financeiro para a montagem da nova ópera “que seria diferente”, revolucionária até mesmo para os padrões wagnerianos, aquela que constituiria um prenúncio do atonalismo da moderna música do século XX: “Tristão e Isolda”.

Wagner chega a aceitar que a encenação primeira desta ópera ocorresse no Brasil, mas o Imperador nada lhe exige por escrito. Tão pouco Dom Pedro contava com a nova e rápida reviravolta que ocorreria na vida do músico. Com a ascensão ao poder de Napoleão III, na França, a sorte começaria a mudar. Em 1859 realiza, a convite do mesmo, a montagem de “Tannhaeuser”. Talvez por não incluir os “bailados” tão em voga, a peça não cai muito ao gosto dos parisienses, “viciados nas obras medíocres de Meyerbeer” e de Halévy.

Menos de um ano após, entretanto, ele é anistiado e retorna à Alemanha. No trono da Baviera está Ludwig II, sujeito meio louco e conforme alguns, homossexual, que se apaixona pelo compositor. O certo é que por toda a sua vida essa paixão somente crescerá e o rei jamais negará algo que Wagner lhe pedir.

Em 1861 estreia a ópera “Tristão e Isolda” com grande pompa e circunstância na cidade de Munique. Dom Pedro II, que lhe fornecera dinheiro nos piores momentos, quando a montagem da ópera era apenas o projeto de um pobre exilado, não teve a devida retribuição, pois Wagner jamais montaria qualquer uma de suas peças em nosso país.

Entretanto, no dia da estreia, lá estava o Imperador do Brasil para aplaudi-lo. No registro do hotel em que se hospedou, quase anonimamente, Pedro de Alcântara escreveu no quesito profissão: “Imperador do Brasil”. Ao final da apresentação, o consagrado Wagner recebeu um bilhete em seu camarim: “Parabéns por Tristão e Isolda! Insuperável!”, Pedro de Alcântara, Imperador do Brasil. Retirou-se da mesma maneira discreta com que, no futuro, em Bayreuth, assistiria a todas as “vernissages” wagnerianas, a “ O Anel dos Nibelungos”, tendo contribuÍdo financeiramente para a edificação do fabuloso “teatro de Wagner”.

Três anos após, em 1964, Wagner conhece o conde Bollow, milionário, amante da música e compositor, casado com a filha de Liszt. Wagner hospeda-os em sua casa e apaixona-se por Cósima. Não lhe importa que ela seja vinte anos mais jovem e esposa recém casada de um amigo. Eles se tornarão amantes e, quando ela engravida, o filho não será do marido, mas de Wagner. O casal Bollow se divorcia e a filha de Liszt torna-se protestante para contrair um novo casamento, com o amante. Liszt rompe com o Wagner, devido a sua permanente ingratidão.

De todo modo, o casal terá três filhos, a primeira dos quais se chamará Isolda, quem sabe por lembranças das noites passadas nos braços de Matilde, a esposa do industrial suíço.

Muito mais eventos ocorreriam na controvertida e agitada vida do grande autor neo-romântico alemão. Ele até mesmo será novamente banido da Baviera, em 1865, por imposição da Corte Imperial. O que, entretanto, jamais Wagner provará novamente, será a pobreza, pois, mesmo exilado, o rei Ludwig II manterá em dia sua polpuda pensão mensal. Mas isto é uma nova história, que, quem sabe, um dia ainda contarei.

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