O imperialismo ou Conrad, qual o verdadeiro criador de “O Coração das Trevas”?

O horror do imperialismo destrói o mundo exclusivamente pela ganância imediata, sem nada construir. Os agentes coloniais são pessoas transformadas em robôs que destroem a Natureza, suas florestas, seus animais e que escravizam povoações nativas pelo medo, pelo terrorismo e pela fome.

Importa que estes agentes sejam pessoas ocas, tão banais, tão “ninguéns” que um dedo possa penetrar? As verdadeiras trevas são as daqueles que perderam o coração, os imperialistas, seus traficantes e seus agentes. No peito de cada um deles, se encontram apenas interesses ignóbeis, do lucro a qualquer custo.

O “Estado Livre do Congo” foi um reino privado, propriedade pessoal de Leopoldo II da Bélgica. Apenas trinta anos dessa exploração (1870 a 1900), fez de Leopoldo II uma das maiores fortunas da Europa. Ao mesmo tempo, a população do Congo que em 1850 era estimada em vinte milhões de seres humanos, reduzira-se a oito milhões, mortos pela fome, doenças trazidas pelos brancos, exaustão no trabalho e massacres. O rebanho de elefantes caçados pelo seu marfim foi, nesse período, reduzido a um terço.

Joseph Conrad (1857- 1924) foi um escritor britânico de origem polaca. Viveu no mar a juventude e parte da maturidade e, por isso, muitas de suas obras são centradas em marinheiros e aclimatadas no mar ou nos grandes rios. Em 1890, no comando do navio “SS Roi de Belges”, participou da exploração colonial da bacia do Rio Congo.

Dez anos depois, a experiência pessoal de Conrad serviu de base para “O Coração das Trevas”, um berro contra a exploração colonial, o escravagismo, o racismo e o genocídio. E todo o empenho literário de um dos maiores romancistas ingleses, teve este direcionamento.

André Gide escreveu sobre “O Coração das Trevas”: “É um livro magistral! Nele não sabemos o que admirar mais: o tema horroroso, a construção, a audácia de realizar uma empresa tão árdua ou o sábio argumento.”

A arte é a verdade que emociona, comentou nosso poeta Ferreira Gullar. Pois “O Coração das Trevas” emociona todo espírito que se revolta contra a submissão da humanidade a interesses mercantis e financeiros.

O filósofo Sir Bertrand Russell, que conheceu Conrad depois de sua chegada à Inglaterra, tinha verdadeiro fascínio pelo livro e por seu autor (o grau de amizade e admiração foi tal que Russell batizou um de seus filhos com o nome "Conrad").

“O Coração das Trevas”, publicado em 1902, instiga pela temática, pelas circunstâncias históricas e sociais que ilumina e, sobretudo, pela denúncia do nível de barbárie que pode ser cometida pelas nações e por pessoas ditas “civilizadas”, quando guiadas pelas ambições políticas e comerciais.

O cenário é o estuário do rio Congo, (atual Zaire). Conrad rompe com o naturalismo e o realismo para atingir o modernismo em sua narrativa que busca envolver o “ouvinte” leitor, diluindo e universalizando a perplexidade e o horror, buscando construir a solidariedade que “entrelaça a solidão de incontáveis corações, solidariedade nos sonhos, na utopia, na alegoria, no sofrimento”.

O roteiro do livro é a longa viagem realizada pelo narrador-personagem, o atormentado Marlow, contratado pelo agente colonial, pois “se você mostra aos chefes que tem em si alguma coisa que seja realmente lucrativa, não haverá limites para o reconhecimento de sua habilidade.” Viagem que visava à substituição do desconhecido Kurtz, viagem a bordo de um barco que navega rio acima, numa complexa teia geográfica, simbólica e psicológica.

O rio Congo com suas curvas misteriosas e imprevisíveis, que enfeitiçaria Marlow na aventura, também é a satisfação do conhecer, o desafio do autoconhecimento. Percorrido na contracorrente, as águas simbolizam um caminhar memória adentro, em busca do inconsciente. “Eu odeio, detesto e não posso suportar uma mentira, não porque seja mais decente que os demais, mas simplesmente porque isso me assusta. Tem um laivo de morte em mentir- que é o que acontece nesse mundo- e é o que eu quero esquecer. Mentir me deixa aflito e enojado, como se mordesse algo podre”.

“Nenhum relato de sonho pode produzir a sensação de um sonho, a mistura de absurdo, surpresa e espanto numa excitação de revolta... a noção de ser tomado pelo incompreensível que é da própria essência dos sonhos. Vivemos como sonhamos, sozinhos.”

A Europa branca penetra no coração do continente negro, sob a bandeira “da modernidade e o Verbo Divino”, a serem levados a um povo num estágio primordial de civilização. Na verdade, “os europeus inventaram uma Sociedade Internacional para a Eliminação dos Costumes Selvagens”, simplesmente para explora-los e destruí-los.

“Eles não eram colonizadores coisa nenhuma; a expansão de suas propriedades era pura extorsão, nada mais. Eram conquistadores e para isso basta a força bruta- bandos armados- nada de que se gabar quando se tem, já que a força é um mero acidente que resulta da fraqueza de outros... Eles agarravam o que podiam. Era apenas um assalto com violência, assassinato em larga escala e homens entrando naquilo às cegas- como convém a quem lida com as trevas”. “A conquista de terras significa em grande medida tirá-la de quem tem a cor da pele diferente.” É quando “a dança festiva da morte e do comércio prosseguem numa atmosfera serena e natural, como a de uma catacumba superaquecida.”

Marlow conta a história de um sujeito chamado Freslen que se considerou prejudicado por alguma troca, e tendo deixado o rio, desceu em terra e começou a açoitar o chefe da aldeia com uma vara... “mas Freslen já fora uma criatura afável, a mais pacífica que havia sobre duas pernas”. O colonialismo, entretanto, após um par de anos, engajando-o na “nobre causa”, permitiu-lhe que sentisse a necessidade de afirmar sua autoestima de alguma maneira. “Vergastou o velho negro sem piedade, até que um homem- disseram que era filho do chefe- desesperado de ouvir o velho gritar espetou-o com a lança e ela penetrou com facilidade em suas costelas.”

Quando, tempos depois, Marlow chegou para assumir seu lugar no posto, encontra o “povoado deserto, as choupanas apodrecendo... tudo em ruínas. Uma calamidade se abatera sobre a povoação. As pessoas haviam sumido. Um terror louco espalhou-as pela mata e elas jamais voltaram”.

Na construção de uma ferrovia, os belgas utilizavam negros considerados criminosos. “Eram seis negros que avançavam em fila galgando penosamente a trilha. Equilibravam cestos de terra nas cabeças e eram interligados por correntes que ligavam os colares de ferro nos pescoços. Um “renegado negro” conduzia-os segurando um fuzil. Era um demônio forte, vigoroso, de olhos injetados que conduzia homens.”

“Outros estavam morrendo aos poucos; não eram inimigos, criminosos, nada além de sombras negras de doença e inanição, jazendo em confusão na penumbra esverdeada, trazidos de todos os recessos da costa, com toda a legalidade de contratos temporários e largados em ambientes insalubres, mal alimentados. Quando ficavam imprestáveis obtinham autorização para se arrastar para longe e morrer”.

Conrad coloca a necessidade de buscarmos entender o próximo, e na aurora do século XX a diversidade do modo de expressão humana dos sentimentos, num leque de culturas diferentes. “Eles uivavam, pulavam e rodopiavam e faziam caretas medonhas; mas o que apavorava era exatamente a consciência da humanidade deles, a ideia de seu parentesco remoto com essa gritaria selvagem e impetuosa. Sim, para nosso padrão estético era feio, mas se você fosse homem o bastante admitiria que existiriam em si mesmo traços tênues de repercussão à terrível franqueza daquele barulho. E por que não? A mente humana é capaz de tudo, porque tudo está nela, todo o passado e todo o futuro. E o que havia em toda a gritaria? Alegria, medo, pena, devoção, coragem, ira? A verdade, quando despida de seu manto de tempo. Para isso o homem “civilizado” precisa ser tão humano quanto o da margem do rio.”

A fome acomete os povos escravizados pelo colonialismo:

“Nenhum medo pode se sobrepor à fome, nenhuma paciência pode saciá-la... Conhecem a perversidade da fome persistente, seu tormento exasperante, seus pensamentos soturnos, sua ferocidade sombria à espreita? Um homem necessita de toda a sua força inata para combater a fome”.

“Das profundezas da selva emergiu um gemido de pavor lamurioso e de desespero absoluto como o que acompanharia a perda da derradeira esperança sobre a terra.”

Mas a capacidade do ser humano revoltar-se quando submetido “a uma tristeza extrema pode se desafogar em violência, mas, infelizmente, com frequência, ela toma a forma de apatia”.

Mas vamos ao misterioso agente colonial, pois nas profundezas daquele mundo primitivo estava Kurtz, a “voz”, a esfinge que precisava ser decifrada. “Toda Europa contribuiu para a constituição de Kurtz”, diz Marlow.

“Tudo pertencia a Kurtz, mas isso era um engano. A questão era saber a que ele pertencia, quantos poderes das trevas o reclamavam para si, ele que havia ocupado enquanto vivo, um alto posto dentre os demônios da terra”. Ele pregava que os brancos deveriam parecer para os selvagens com a natureza de seres sobrenaturais, donos de um poder como o de uma divindade. “Afinal, que todos os brutos sejam exterminados, o que importa é o marfim.”

Devastava a região e o devastava com a ajuda de tribos: ele explodira sobre eles com raios e trovões e eles o seguiam por pavor, por medo, dedicação ao ser superior, ódio aos vizinhos.

Quando Marlow avista o posto interior de Kurtz, ele também divisa os postes que o rodeavam, e em cada um deles uma cabeça de rebelde espetada, “pois não havia nada na terra que impedisse Kurtz, o agente colonial, de matar quem quisesse”.

“Nenhuma eloquência poderia ser tão destruidora da fé na humanidade. Eu vi o mistério de uma alma que não conhecia limites, fé, medo, mas que lutava cegamente contra ela mesma.” “Ele tinha o olhar agudo para penetrar em todos os corações que pulsassem nas trevas.”

“Vi naquele rosto de marfim a expressão do orgulho sombrio, do poder implacável, do terror covarde- de um intenso e inelutável desespero. “O horror foi o seu grito final”, pois no íntimo Kurtz era oco”.

Francis F. Coppola encontrou em “O Coração das Trevas” a possibilidade ímpar de adequação para as telas dos cinemas. Seu genial filme “Apocalypse Now” é uma aclimatação em tempos de Guerra do Vietnã, com Marlon Brando na inigualável interpretação do “gerente belgo-colonial” Kurtz, agora transformado em agente americano que se oculta na selva asiática.


Se fosse possível expressar todo “O Coração das Trevas” em um único parágrafo, poderíamos dizer que:

“Destino, coisa engraçada é a vida. Esse misterioso arranjo de lógica para um objetivo fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento para si próprio e que chega sempre tarde demais, numa cadeia interminável de arrependimentos.”

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