O Modernismo chega ao Brasil: A Semana de 22!

O modernismo europeu antecedeu em mais de uma década o nosso pensar moderno. Na verdade, o princípio do século XX coincide o colapso da cultura europeia tradicional, quando a palavra parecia desraigada, as imagens perdiam sua coerência e os símbolos sua transcendência. Logo, o modernismo europeu criou para si próprio a negação e o questionamento permanente, substituindo-se o que já fora trocado por novo pelo ainda mais novo.

Então, o que se denominou de "o tempo moderno" tinha uma mola mestra central: as formas “tradicionais” das artes, a organização social e a vida cotidiana haviam se tornadas ultrapassadas!

O reexame de cada aspecto da existência humana se tornou um desafio permanente e o encontro das “marcas antigas” para substituí-las por novas formas assinalavam o caminho para o progresso. Por isso que na perspectiva europeia do princípio do século, o modernismo significava desencanto e desestruturação do homem das metrópoles associada à necessidade de sua reestruturação espiritual.

No entanto, quando o moderno chega ao Brasil, ele expressa tanto um projeto estético de renovação e ruptura com a linguagem tradicional, como aporta a visão benigna de uma natureza divinamente revestida e repleta de diversidades regionais, o que redundava numa perspectiva ufanista de um Brasil idealizado pela intelectualidade urbana.

Enquanto a Europa chafurda na Primeira Grande Guerra com milhões de mortos, fome e destruição, o Brasil e, principalmente São Paulo, atravessavam uma enorme transformação socioeconômica resultante da industrialização acelerada. E a chegada massiva de imigrantes aportava vivências e exigências de um mundo diferente do paternalismo, do coronelismo de compadrio e do escravagismo e seus preconceitos, tão entranhados em nossa cultura.

O modernismo aqui, portanto, estará inscrito num longo processo histórico e social, que extravasa largamente os limites do estético.

Mas hoje vamos falar de sua chegada. E ao chegar o movimento modernista não encontrará apoio algum junto aos capitães da indústria. Será uma pequena fração de refinada burguesia de base rural, mais culta e com forte influência francesa, que estimulará tanto política quanto financeiramente os jovens artistas da primeira geração modernista, cujo marco inicial será a Semana de Arte Moderna.


A Semana de Arte Moderna de 1922.

Era uma vez um homem chamado Jacinto Silva que em 1921, tinha uma livraria na Rua 15 de Novembro, em São Paulo, a casa Editora ‘O Livro’. Todas as tardes lá se reuniam um poeta, um romancista e um pintor. Guilherme de Almeida, Oswald de Andrade e Di Cavalcanti”.

Uma tarde o poeta leu na sala aos fundos da livraria, seu livro daquele ano. Depois outros autores leram outros livros e mais e mais gente foi chegando. Pintores e escultores, inclusive Brecheret fizeram exposições. Músicos tocaram. Foi quando nasceu a ideia de se fazer, nesse mesmo lugar, uma grande exposição de arte moderna, ilustrada com concertos de música e recitativos de poesias modernas. Tudo moderno.” (Carminha de Almeida, 1939).

Di Cavalcanti em “Viagens da minha vida” sustentou que ele sugerira a Paulo Prado, o mecenas filho da riquíssima aristocracia cafeeira de São Paulo, “nossa semana, que seria uma semana de escândalos literários e artísticos, de meter os estribos na barriga da burguesiazinha paulistana”.

Paulo Prado e, posteriormente, Garça Aranha não somente apoiaram, mas alargaram a ideia, este último achando preferível realizá-la em São Paulo que no Rio, sobretudo porque “na Paulicéia tem um grupo forte de modernistas, não só escritores, mas poetas e artistas plásticos.” Referindo-se à Academia Brasileira de Letras e aos acadêmicos, disse Graça Aranha: “É preciso reformar tudo aquilo, dar vida àquele cemitério. Vocês são moços, são estudantes, agitem a escola. Façam alguma coisa de novo, façam loucuras. Mas procurem espanar os reacionários com aquelas teias de aranha.”

A sala de leituras da pequena editora foi, surpreendentemente, substituída pelo Teatro Municipal. René Thiollier, um dos modernistas foi ao Palácio dos Campos Elíseos para falar diretamente com Washington Luís, que imediatamente cedeu o Teatro Municipal.

Formou-se também um comitê com o apoio do escol financeiro e mundano de São Paulo, formado por Alfredo Pujol, Armando Penteado, René Thiollier e Antônio Prado Junior; outros ainda começaram a coleta de dinheiro para a realização do evento, principiando pelos sócios do seleto Automóvel Club.

Quer no boca a boca, nos murais, nos panfletos ou na imprensa, a propaganda da Semana de Arte Moderna foi feita com um enorme estardalhaço.

O “Correio Paulistano”, sob o comando de Menotti del Picchia, acolhe os “avanguardistas” e foi o jornal que melhor cobertura deu ao evento. Já o “O Estado de S. Paulo” publicou a seguinte nota em janeiro: “As colunas da secção livre estão à disposição de todos aqueles que, atacando a Semana de Arte Moderna, defendam o nosso patrimônio artístico”. Entretanto, dobrando-se à enorme tempestade desencadeada, no dia 3 de fevereiro publicou a programação dedicada aos dias 13, 15 e 17: No primeiro dia, “Pintura e Escultura”; no segundo, “Literatura e Poesia” e no terceiro, “Festival da Música”.

E ela aconteceu durante aqueles dias de fevereiro de 1922, tempo de tormentas tropicais em São Paulo, o que não impediu que multidões disputassem cada canto do Teatro Municipal na “Semana de Arte Moderna”.

Quadros, esculturas, desenhos pelos saguões e corredores; conferências, declamações, concertos, danças no palco. Ivone Daumier realizando dança moderna vestida de borboleta; Guiomar Novaes esquecendo em casa Chopin e tocando magistralmente Villa Lobos, Blanchet e Debussy…

Para uma assistência animada, que tanto aplaudia quanto vaiava sem parar. Mário de Andrade, Graça Aranha, Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Afonso Schmidt, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Villa Lobos, Sérgio Millier, John Grass, Zina Aita, Brecheret, todos agradeciam as palmas e as vaias com sorrisos de prazer. Ronald de Carvalho e Renato de Almeida protestavam quando ninguém os vaiava. O “Homem Amarelo” de Anita Malfatti atraía o olhar enviesado de muitas senhoras e contam que um senhor mais exaltado, usando a bengala, não se conteve: furou o olho do retrato de Lazar Segall. Tudo isso e muito mais nos reporta a jornalista e “socialite” Carminha de Almeida.

Graça Aranha abriu a Semana com a conferência “Emoção estética na arte moderna”. “Da libertação de nosso espírito sairá a alma vitoriosa... São essas pinturas extravagantes, essas esculturas absurdas, essa música alucinada, essa poesia aérea e desarticulada. Maravilhosa aurora”!

Na Música tivemos performances de Guiomar Novaes, Villa-Lobos, Lucília Villa Lobos, Ernani Braga e Alfredo Gomes. Guiomar Novaes executou ao piano “O ginete do Pierrozinho” e Mário de Andrade comentará: “Villa-Lobos abandona consciente e de forma sistemática seu internacionalismo afrancesado para se tornar a figura máxima da fase nacionalista”.

Se a “Semana de Arte Moderna” teve claras influências francesas e italianas, como o Futurismo de Marinetti, ela igualmente concentrou os esforços do pensamento nacional e regionalista que tivera como precursores principais Lima Barreto, Euclides da Cunha e Monteiro Lobato.

Presentes estiveram esculturas de Brecheret, Leão Veloso e Haarberg. Dentre os pintores modernos destacavam-se Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Ferrignac, Zina Aita, Martins Ribeiro, Goeldi, Graz, Castello. A grande ausente era Tarsila do Amaral. Em 1920, ela embarcara para a Europa e somente regressaria após a Semana.

Mas a Semana foi realmente um escândalo! Declamavam-se poesias sem rima e nem métrica, falando de coisas não poéticas. Mário de Andrade confessa que não sabe como teve coragem de dizer versos sob uma vaia tão barulhenta. Mas foi com Oswald de Andrade com quem a plateia quase veio abaixo com vaias, insultos, impropérios: “Carlos Gomes é horrível”, ele disse na sua costumeira empolgação.

No dia 18 de fevereiro, o conservador “O Estado de S. Paulo” estampava: “Na última pagodeira da Semana Futurista foi preciso fechar as galerias para evitar que o palco se enchesse de batatas”. Respondeu-lhe Menotti del Picchia através do “Correio Paulistano”: “Nossa estética é de reação, como tal, guerreira... Queremos ar, luz, ventiladores, aeroplanos, reivindicações operárias, idealismos, motores, chaminés de fábricas, sangue, velocidade na nossa arte”.


Somente no ano seguinte, 1923, aquilo que havia sido tomado pela sociedade e pela Academia como uma “estudantada” ou uma “manifestação exibicionista de jovens artistas”, tornou praticamente impossível o silêncio imposto pelos conservadores.

Por volta de 1924 uma “estética modernista”já fora alcançada e foi quando os anti-modernistas perceberam que o moderno chegara para ficar.

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