O protótipo de um canalha: advogado, conselheiro e modelo de Donald Trump.

Atualizado: Out 30

O presidente Donald Trump, assim como figuras máximas da máfia, tais quais Tony Salerno, Carmine Galante, e John Gotti , sonegadores do fisco americano, acusados por corrupção foram, por décadas, clientes de Roy Cohn, um canalha prototípico.

Nascido em uma família judaica do Bronx, em 1927, Roy Cohn era o único filho do Juiz Albert Cohn, influente membro do Partido Democrata Americano, convertido à Igreja Batista. Em 1946, Roy formou-se em Direito na “Columbia Law School”, com a idade de 20 anos. Tentou, então, subornar o professor Lionel Trilling tentando fugir à obrigação de esperar até a maioridade para poder ser admitido como profissional.

Roy Cohn já usara suas conexões familiares tanto para fugir do serviço militar e da guerra na Europa, assim como para, aos 21 anos de idade, obter uma posição no escritório do “United States Attorney”, em Manhattan.

Seguindo indicações e graças às ligações do pai Juiz, registrou-se no Partido Democrata, o que jamais constituiu qualquer empecilho para que Cohn fosse apoiado pela maioria dos republicanos influentes de sua época, incluindo dois Presidentes dos Estados Unidos.

Uma vez no “U.S. Attorney”, rapidamente tornou-se assistente do Procurador dos U.S.A. em Nova York, Irving Saypol. E foi como seu assistente que Cohn contribuiu para que um grande número de cidadãos americanos fossem acusados de cooperar com a União Soviética.

Um dos primeiros perseguidos foi William Remington, funcionário do Departamento de Comércio, acusado de espionagem por Elizabeth Bentley, formalmente uma desertora da KGB (o que no futuro se demonstrou ser uma mentira), que realizou um tipo estranho de "delação premiada". Pese a absoluta ausência de provas, Remington foi condenado à prisão por duplo perjúrio, ao não assumir sua ligação com o Partido Comunista Americano, que, aliás, ele não tinha! Passou oito anos preso.

Cohn encabeçou a perseguição feroz aos onze membros da direção do Partido Comunista Americano, o qual atuava na legalidade, acusando-os de pregarem a derrubada violenta do governo americano, o que permitiu a aprovação do “Smith Act” pelo Congresso, com enorme prejuízo às liberdades individuais.

Julius e Ethel Rosemberg, vítimas inocentes da guerra-fria, executados graças a ação de Cohn.

Roy Cohn, aos 24 anos de idade, teve um papel proeminente no julgamento, em 1951, do casal de cientistas Julius e Ethel Rosenberg, que foram presos e acusados de espionagem.

Cohn foi o responsável direto pelo testemunho prestado pelo irmão de Ethel, David Greenglass, que cumpriu um papel central na condenação à morte do casal e a subsequente execução. Greenglass testemunhou que havia recebido dos Rosenbergs, e mantido sob sua guarda, documentos secretos, que haviam sido roubados do “Manhattan Project”, o projeto nuclear.

Décadas após, Greenglass admitiu haver mentido em todo o seu depoimento para a proteção da própria vida e de sua esposa, sob a pressão de Cohn.

Por seu lado, Roy Cohn sempre teve grande orgulho do veredito que levou à morte os Rosenberg e, em sua autobiografia, relata que o Promotor Saypol fora por ele influenciado a pedir a pena de morte e que, pessoalmente, manobrara para que o juiz Irving Kaufman fosse nomeado para o caso, dado que ele já se dissera favorável à condenação à morte, ainda antes da nomeação.

O Macarthismo.

O modo como o julgamento dos Rosenberg levou-os, sem provas, à condenação capital, chamou a atenção de outro canalha, o diretor do F.B.I., J. Edgar Hoover e este recomendou Roy Cohn ao senador Joseph McCarthy. McCarthy contratou-o como seu conselheiro-chefe, evitando com isso acusações de possíveis motivações antissemitas nas suas investigações.

Roy Cohn, como assistente do Subcomitê Permanente do Senado, tornou-se o mais agressivo interrogador das pessoas investigadas por suspeita de comunismo. Cohn preferia não realizar sessões abertas ao público e tal qual seu chefe, McCarthy, utilizava largamente interrogatórios “off-the-record”, de forma a agir sempre com relativa impunidade contra suspeitos e forçar delações, inclusive, as falsas.

Em 1953, Cohen convidou seu amigo íntimo, David Schine, um propagandista anticomunista, para juntar-se ao staff de MacCarthy no Senado Americano, e ambos viajaram à Europa para avaliarem para o senador os rumos da “conspiração comunista mundial”. Mas na mira da dupla estava a BBC de Londres, considerada “pouco anticomunista” e os livros do norte-americano Dashiell Hammett, que eles desejavam ver varridos das bibliotecas europeias, como já havia sido feito nos U.S.A..

Acontece que a Europa não vivia a histeria americana e os dois, desmoralizados em sua cruzada, logo tomaram o rumo de casa.

E aí teve início a primeira derrota do jovem canalha Cohen.

Quando seu amigo e amante Schine foi convocado para servir o Exército americano, Cohen envidou todos os esforços para que ele tivesse um tratamento “muito especial”. Chegou a contatar até mesmo o Secretário de Estado das Forças Armadas. Ao não obter seus intentos de bônus, promoções e isenções de missões no exterior para o amigo, Cohen passou às ameaças como “a destruição do Exército”.

A partir desse conflito, acumularam-se as acusações sobre a presença de comunistas no Departamento de Defesa, e o Comitê de McCarthy levou altos oficiais do Exército às suas audiências públicas, em 1954.

Somente então, o Comando do Exército Americano acusa Cohn e McCarthy pelo uso de pressão indevida em nome da Schine, enquanto McCarthy e Cohn contra-atacam dizendo que o Exército mantinha Schine como seu “refém”, em uma tentativa de silenciar as investigações sobre os comunistas nas Forças Armadas americanas.

Os resultados das audiências terminaram por evidenciar as articulações, mentiras e má fé de Cohn, e estes foram fatores determinantes na desgraça em que McCarthy cairá logo após.


Cohn é demitido do Senado e tornar-se-á advogado privado pelos próximos 30 anos. Um advogado de criminosos e de trapaceiros, bem como conselheiro de dois Presidentes Norte-americanos.

“Nos dizeres de seu biógrafo, Cohen sempre advogou dentro de uma matriz de crimes e de conduta antiética”.

Entre seus clientes principais clientes estiveram o atual presidente norte-americano Donald Trump, acompanhado de figuras da máfia como Tony Salerno, Carmine Galante, e John Gotti .

Quando aceitava um caso, Cohen dizia claramente: “Pouco me importa qual é a lei, diga-me quem é o juiz”. Sua preferência era claramente por clientes de reputação duvidosa e bandidos e, por isso, não somente achava conveniente como tinha prazer em dar a entender que poderia fazer “desaparecer” pessoas. Assim mesmo, são diversos os exemplos de que ele traía, sem o mínimo escrúpulo, seus próprios clientes. Era escroque pelo prazer de sê-lo.


Seu modus operandi nos parece bastante familiar em vésperas das eleições norte-americanas: clamar vitória, nunca admitir a derrota. Gabava-se de que seus clientes o contratavam por sua capacidade para assustar os inimigos. Orgulhava-se de seus truques para sonegar impostos: não tinha propriedades nem contas bancárias, passava todos seus gastos ao escritório que operava à sombra com o nome de outros como titular. Sem dúvida, um dos mestres de Trump!

Na década de 1970, tornou-se importante personalidade nova-iorquina, mantendo laços estreitos em círculos políticos conservadores; afiliado ao Partido Democrata vangloriava-se de haver prejudicado a campanha de seu próprio partido em 1972, quando ajudou a eleger Nixon. Como conselheiro informal de Richard Nixon, influenciou sobre a política americana de promover golpes militares na América Latina.

Foi um dos articuladores do Golpe Militar de Pinochet, no Chile.

No dizer de Hobsbawm, até mesmo antigos liberais reconciliaram-se com o homem que poderia introduzi-los no paraíso da cocaína da “Boite Studio 54”, da qual era sócio. “Foi famoso como um influente e, sobretudo, como um perigoso intermediário entre a polícia e o crime, um aplicador de golpes e extorsões”, o perfil de certo Miliciano “a la” brasileira.

Sendo judeu, juntou-se aos antissemitas; homossexual notório, levava seus namorados a reuniões onde se pregava contra o direito ao homossexualismo.

Nos anos 1980, tornou-se amigo de Ronald e Nancy Reagan, frequentando-os na Casa Branca.

Em 1984, Cohn foi diagnosticado com AIDS e tentou manter sua condição em segredo durante o tratamento experimental com drogas. Participou dos primeiros ensaios clínicos com AZT, furando, como sempre, uma longa fila de pessoas que ansiavam por seus efeitos medicinais. Entretanto, Cohen insistiria até mesmo no dia de sua morte, que sua doença era “câncer de fígado”.

No hospital de Besteda, onde esteve internado, recebeu do Presidente dos USA o seguinte bilhete: “Nancy e eu temos você em nossos pensamentos e orações”.

“Pouco antes de agosto de 1986, quando veio a falecer de complicações da AIDS, foi, finalmente, expulso da classe dos advogados de Nova York, cujos princípios éticos, ainda que muito flexíveis, conseguira forçar em demasia” (Hobsbaum).

Quando Roy Cohn morreu, em 2 de agosto, até mesmo a Casa Branca de Reagan manteve-se em silêncio. De mais a mais, deixara uma dívida de mais de um milhão de dólares somente para com a Receita Federal Americana!

As dívidas de um de seus clientes, Trump, ultrapassam hoje um bilhão de dólares!

Um dos canalhas-símbolo do século XX, Cohen não poderia esperar encontrar na morte, o esquecimento por seus inúmeros crimes.

Foi objeto de diversas representações artísticas, dentre elas as mais importantes: “Angels in America” e “Cidadão Cohen”, interpretadas no cinema por Al Pacino e James Woods, respectivamente.

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