O Rio da decadência imperial: uma cidade maldita!

As mortes causadas por doenças infectocontagiosas, em 1890, alcançaram um total de 7.123 casos, mais que 1% da população!

A cidade cheirava à ranço colonial, com infinidade de sujeiras, e era varrida por epidemias de doenças infectocontagiosas.

A tônica era dada pela miséria e pela sujeira. As ruas estreitas, de repente transformavam-se em becos onde se amontoam toneladas de lixo. O odor trazido pela brisa do mar que varria as praias infectas era insuportável. Nas praças mais amplas inexistiam árvores, pois elas haviam sido devastadas.

No conceito internacional, o Rio de fim do século XIX era, sem dúvida, uma cidade da maior beleza natural, mas maldita.

Luís Edmundo da Costa crava em suas “Memórias”: “Os poucos e corajosos viajantes que ousavam desembarcar no cais, ao atravessavam a Praça 15 de Novembro, caminhavam por um tapete formado por restos de frutas e detritos. Deparavam-se com barqueiros, marujos, carregadores, soldados, todos ávidos por gorjetas ou subornos. Mendigos e vagabundos com eles ombreavam em busca de carteiras ou equipagens desguarnecidas”.

As ruas fervilhavam de vendedores em carroças e no lombo dos animais; os menos afortunados carregavam bugigangas nas costas e nos braços. Eram homens, mulheres e crianças, antigos escravos, imigrantes, trazendo suas mercadorias sedentas de compradores. O leiteiro conduzindo uma vaca, o vendedor de galinhas, o cesteiro, o ceboleiro, o paneleiro, o verdureiro. Um oferece mocotó, outro, doces, outro, miudezas. A cidade do Rio era uma imensa feira a céu aberto.

Para matar a sede e a fome das pessoas surgem os quiosques montados em plenas calçadas, cachaça mais barata para se tomar um trago. Não pagam impostos e subornam os fiscais. “Cada quiosque mostra, em torno, um tapete de terra úmida, um círculo de lama. Tudo aquilo é saliva. Antes do trago, o pé-rapado cospe. Depois, vira nas goelas o copázio e suspira. Nova cusparada, e da boa!” (Luiz Edmundo)

“O povo está sem instrução, a indústria desprotegida e os serviços públicos são feito de molas emperradas. Só o comércio progride, onde o ‘honrado comendador’ vende seu quilo de 800 gramas e o metro de 85 centímetros.”

Enquanto isso, a nata da sociedade carioca, os ricos fazendeiros e aristocratas, que na virada do século, não seriam mais de cinco mil pessoas, viviam em luxuosas mansões nas Laranjeiras e em São Clemente.

É bem verdade que a cidade foi a rainha da noite brasileira, boêmia e a farrista, onde o pseudomoralismo católico convivia com uma enorme expansão da prostituição. Os ricos, mais discretos, frequentam as “pensions des artistes”, prostíbulos de luxo pelos lados do Botafogo, Jardim Botânico e Catete; já os pobres, marujos e meganhas se divertiam pelos botequins e pelas ruas infectas da Alfândega e do Arsenal, onde meninas e moças enfileiradas esperam por um cliente, muitas vezes em troca de um retalho de pano ou de um copo de cachaça.

A sífilis e outras doenças infectocontagiosas.

Rio de Janeiro foi, desde princípios do século XVIII, considerada a cidade da sífilis por excelência. Uma voz que viria do nordeste nos primeiros anos do modernismo, Gylberto Freire, destruiria o mito de que o alto nível de erotismo de nosso povo seria devido aos negros. Ele diz: “Passa por um defeito da raça africana, comunicado ao brasileiro, o erotismo e a luxúria exacerbada... Mas o que se tem apurado dentre os povos africanos, é, sim, uma maior moderação do apetite sexual que entre os europeus. Os africanos são mais sofisticados dado que para excitarem-se necessitam de certas circunstâncias especiais, como danças, afrodisíacos, cultos fálicos e orgias. Já os europeus excitam-se por qualquer motivo”.

Joaquim Nabuco, o abolicionista diz: “Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime, pois em primeiro lugar, a própria ganância favorece a depravação, criando nos proprietários de escravos o desejo de produzir o maior número possível de crias”.

E prossegue: “O negro se sifilizou no Brasil”. A “raça considerada inferior” adquiriu da “superior”, dos brancos senhores de escravos, as doenças venéreas. “Negras virgens, ainda molecas de doze a treze anos, eram entregues a rapazes brancos já podres da sífilis contraída nas cidades”. Nem mesmo as amas de leite negras estavam livres do contágio sifilítico proporcionado por crianças brancas contaminadas. “De tal forma que a sífilis fez sempre o que quis no Brasil”, graças ao escravagismo. “O sangue envenenado arrebentava em feridas; coçavam-se então as “perebas ou cabidelas”, tomavam-se garrafadas, chupava-se caju. Nem mesmo mosteiros estavam a salvo das devastações provocadas pelo mal gálico.”

Pois além de doenças sexualmente transmissíveis, o Rio de Janeiro era uma cidade também tremendamente insalubre, fétida e perigosa.

Tudo indica que a febre amarela chegou ao Rio a bordo de um cargueiro americano e aqui se estabeleceu. O porto, repleto de vigamentos podres prolongava-se sobre terrenos alagadiços, o que aliado às péssimas condições de higiene, permitia que o mosquito transmissor da doença se multiplicasse à vontade.

Tanto a febre amarela quanto o cólera, que matava por diarreia, eram muito mais intensos no verão; com a chegada do inverno, agora era chegada a vez dos surtos de varíola. De permeio, a multiplicação dos ratos em toda aquela imundície era assustadora e surtos de peste bubônica tornavam-se rotineiros.

Já a tuberculose, esta era endêmica, acometendo ricos e pobres, apenas que a estes últimos matava mais rapidamente.

Por isso, desde o Império, as pessoas de posse e de poder político abandonavam a cidade quando o verão se fazia sentir. Famílias inteiras tomavam as barcas no cais Pharoux e atravessavam a baía até Niterói. Os mais ricos e a aristocracia optavam pela balsa de Mauá até a estação que os levariam de trem para Petrópolis, onde D. Pedro transferia o Governo para o Palácio Imperial.

E o Rio Imperial ficava entregue aos pobres, aos “meganhas”, aos ratos, às pulgas e aos mosquitos.

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