Os franceses sob o domínio nazista (parte 2)

Em 1939, quando a URSS invadiu a Finlândia, anexando dez por cento do território que lhe era fronteiriço, a apenas dezessete quilômetros de distância de Leningrado, os deputados burgueses da França sentiram-se autorizados a cassarem seus colegas comunistas legitimamente eleitos, o que para muitos desses significou o encarceramento.

Em março de 1940, tropas alemãs atravessaram a Dinamarca e derrotaram as unidades anglo-franco-norueguesas que defendiam a Noruega. Maio de 1940, as divisões Panzers alemãs invadiram a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo. No dia 4 de junho, foi a vez do drama de Dunquerque. Em seis de julho, as tropas francesas evaporaram. Em 14 de julho, como prometera um ano antes Hitler, as tropas alemãs entraram em Paris sem encontrar qualquer resistência.

O velho Marechal Pétain, investido no posto de Comandante Supremo da França derrotada e desmoralizada, negociou um armistício com os nazistas. Um governo francês estabeleceu-se em Vichy, e uma fronteira foi erguida entre a parcela da França ocupada militarmente, que, logicamente, incluía Paris e um “novo Estado provisório”. No dia 9 de julho, a Assembleia Nacional Francesa, transportada para Vichy, decidiu por 468 votos contra 80, dar poderes a Pétain para promulgar uma nova constituição. Entre aqueles que optaram por um Estado Fascista havia nada menos que 88 deputados do Partido Socialista Francês (somente 29 tiveram a hombridade de se oporem). Edouard Herriot, que seria saudado como um dos grandes patriotas franceses depois da libertação, condecorado pessoalmente pelo General de Gaulle, e eleito Presidente da Assembleia Nacional, sequer teve a coragem de votar “não”. Absteve-se!

A palavra colaboracionismo deriva do francês “collaborationniste”; foi introduzida pelo próprio Marechal Pétain no linguajar político. Em discurso radiofônico pronunciado em outubro de 1940, exortou os franceses a colaborarem com o invasor nazista. Desde então, a palavra significou uma forma de traição dos cidadãos de um país ocupado por inimigos. A atitude oposta ao colaboracionismo — a luta contra o opressor — passou a ser representada historicamente pelos movimentos de resistência.

“A colaboração com o nazismo foi um fator de desagregação, e é sempre uma decisão individual e, nunca, uma posição de classe social… Seria uma injustiça dizer que “a burguesia é uma classe de colaboracionistas”, mas é possível e necessário julgar essa classe pelo fato de praticamente todos os colaboracionistas terem vindo de suas fileiras.” (Sartre). O escritor católico François Mauriac, Nobel de Literatura de 1952, escreveu em 1943 que “apenas a classe operária ficara fiel à pátria”.

As delações aconteciam todo o tempo na França ocupada. Simone de Beauvoir conta alguns casos por ela vivenciados pessoalmente, como, por exemplo, o de Bella, “a tcheca que vivia com o pintor Jausion, que foi presa pela Gestapo, denunciada pelo futuro sogro” e jogada para morrer num campo de concentração. Fernando Gerassi, que lutara na Espanha Republicana e residia na França, foi denunciado pelo famoso pintor russo, Nicolas de Stael ( hoje seus quadros alcançam somas superiores a um milhão de dólares); Stael vivia em Montparnasse e agia como provocador à soldo da polícia. Em depressão, suicidou-se em 1955.

André Gide, o Editor da Gallimard, escreveu em seu diário, desiludido: “A colaboração com a Alemanha me pareceria aceitável, até mesmo desejável, se eu tivesse a certeza de que seria honesta. Chego a imaginar que estaríamos melhor como súditos da Alemanha, com todas as suas dolorosas humilhações, que a disciplina de Vichy nos quer impor.”

Estando Blum, prisioneiro dos nazistas, o Partido Socialista tinha um líder na pessoa Daniel Mayer. Em sua bela residência de Marselha, assim como na da escritora Colette Audry, em Grenoble, o nome “resistence” era proibido de ser pronunciado.

A polícia francesa, a Milícia de Vichy, como era chamada, comandada pelo francês Joseph Darnand, ao qual foi dada a insígnia de SS, fez muito mais pela Gestapo do que a Gestapo esperava dela e com muito mais zelo que qualquer alemão.

Em 1952, Sartre reconheceria que “os comunistas estavam travando a luta justa e os anticomunistas eram a mesma canalha que traíra a França em 1938 e em 1940”. Foi quando ele escreveu “somos meio abortos, meias-porções, meio animais. Só o que podemos fazer é trabalhar para que os que vierem depois de nós não se pareçam conosco”.

Antes mesmo que determinados fatos fossem conhecidos, já era aparente, sem dúvida, que a maioria dos policiais, dos funcionários públicos franceses, havia zelosa e alegremente perseguido judeus, promovido infiltrações nos grupos de resistência, feito fortunas graças a subornos e gratificações oferecidas por agentes de Hitler.

Em 1974, Louis Malle provocou escândalo na França com o filme Lacombe Lucien, ou “como alguém se transforma num colaborador”.

Como conta Gilles Perrault em Lire, n. 141, publicada em 1987: “No final de 1943, para cada agente da Abwehr ou da Gestapo estacionado em Paris havia entre quarenta e cincoenta agentes franceses. Foram eles que assestaram os golpes mais duros na Resistência… Nenhuma profissão, nenhum corpo do Estado foi poupado”.

“Depois da Libertação, a Comissão encarregada de investigar a Colaboração ao Invasor Nazista descobriu que a podridão chegava tão alto e estava tão disseminada que recebeu ordens para fechar todos os casos, com base no argumento, no mínimo discutível, de que o moral da nação, já bastante abalado, não resistiria ao choque de revelações tão abrangentes…” O digno Comissário Clos, o chefe das investigações, exclamou: “Mas trata-se de um câncer generalizado!”. O governo era exercido pelo General de Gaule, o Primeiro Ministro. De quem partira a ordem para o sumiço dos arquivos que jamais foram revelados?

Somente para contradizer parcialmente Jules Romains, para quem “os homens são como as abelhas, pois seu produto vale mais do que eles”, muitos intelectuais foram mortos, por se negarem a colaborar e a participar na resistência armada ou política contra o inimigo invasor e o nazifascismo . Do grupo mais próximo da “Academia”, podemos citar o filósofo Georges Politzer, que foi preso e torturado até a morte pela Gestapo; o também filósofo Jean Cavaillés, líder dos maquis, preso, torturado e carregado para o fuzilamento; Yvone Picard e Antoine Bourla ambos alunos do Lycée Pasteur, mortos num campo de concentração; Alfredo Peron, preso pela polícia francesa, morreu sob tortura nas mãos da Gestapo.

O célebre comboio de 24 de janeiro de 1943 levou para Auschwitz resistentes franceses (judeus, não-judeus e comunistas na sua maioria) entre os quais viúvas de fuzilados como Maï Politzer, esposa de Georges Politzer, Hélène Solomon, filha do grande sábio Paul Langevin e mulher do escritor Jacques Solomon.

Para heróis como eles, como Jean Moullin, assim como milhares de outros, talvez possamos parafrasear o filósofo que disse que “o segredo de cada ser humano não é o Complexo de Édipo ou de Electra, ou, mesmo, de inferioridade, mas o limite de sua liberdade, sua capacidade de resistir à dor e à morte”.

Para cada alemão morto pela resistência, o Exército invasor executava cincoenta civis. Ao final da guerra calculou-se que sessenta mil franceses foram deportados para campos de concentração dos quais jamais retornaram. Além desses, mais de trinta mil homens, mulheres e até mesmo crianças foram fuzilados, ou morreram na forca, ou sob tortura.

Sartre, que havia sido mobilizado em 1940, ficou detido em um campo de prisioneiros até 1941. Quando saiu, conseguiu retornar às atividades no Liceu e, com Merleau- Ponty, Simone e alguns outros amigos e alunos, formou um pequeno grupo de “resistência intelectual” e o batizaram de “Socialismo e Liberdade”, com o objetivo de lutarem pela liberdade e prepararem a sociedade do futuro, necessariamente livre e socialista. O grupo escreveu e distribuiu dezenas de panfletos e até mesmo elaborou uma “constituição” para quando os nazistas fossem derrotados. Seu local de encontros e trabalho predileto era o Café de Flore. O grupo esvaziou-se em fins de 1942 por não conseguir agrupar outros intelectuais a suas ideias e pelo medo disseminado.

Lettres Françaises, revista fundada em 1942/ 1943 pelo comunista Claude ( Morgan) Lecomte, foi o órgão de imprensa dos escritores resistentes ao nazismo. A revista literária obteve enorme repercussão e foi aberta a todos, com edição de vinte mil exemplares mensais antes da Libertação e duzentos mil seis meses após, enquanto Lecomte esteve à sua testa. Ele convidou Sartre a contribuir em 1943. Em um de seus artigos para a Revista, escreveu Sartre: “Para aqueles que transportaram mensagens, cujos conteúdos ignoravam, bem como todos os que partiram para o combate, o mesmo destino: prisão, deportação, morte. Em nenhum Exército nunca existiu tamanha igualdade de riscos tanto para o soldado quanto para o generalíssimo”.

O “Comitê Nacional dos Escritores”, associado à Lettres Françaises, também patrocinado pelos comunistas, transformou-se num instrumento importante de resistência da França ocupada, cumprindo com o que fora predito pelo filósofo Georges Politzer, antes de sua morte: “Hoje, na França, literatura legal significa literatura de traição.”

A revista Combat, porta-voz da Resistência, foi fundada em 1942 e dirigida por Camus. Nela, Sartre, Beauvoir e Camus atuaram em conjunto. A gráfica da revista somente caiu quando um membro do grupo, sob tortura, a abriu antes de ser assassinado, menos de um mês antes da libertação de Paris, em 1944. Mas o “Maquis” foi informado e Camus conseguiu com que todos fossem evacuados.

Em agosto de 1944 a França estava livre dos invasores nazistas. Depois de algum tempo, a maioria dos franceses começou a esquecer aqueles tempos malditos. Os “salauds” (bastardos) se apressaram em ocupar de volta os seus lugares, seus assentos na burocracia e a emitir as mesmas ordens que davam cinco anos antes. Vieram, então, as guerras coloniais da Indochina (1945) e da Argélia (1954), em que o Exército Francês tornou-se ele o invasor, seus corpos de elite disseminaram o terror e a tortura.

Novas traições aos ideais de humanidade que as mentes lúcidas jamais perdoariam. Sartre foi uma dessas consciências. Importante nos dias de hoje é revisitarmos a sua definição de fascismo: “os fascistas modernos são todos aqueles que usam o seu poder, ou que assim o usariam se o tivessem, para silenciar a dissensão, o contraditório, em favor de seu lucro ou de sua glória pessoal”. Por esse motivo ele, a “consciência odiada de seu século”, enxergava fascistas em todos os Partidos e instituições políticas; em todos os países, como nos EUA, na União Soviética, na China, e, sem dúvida, na França.

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