Papa João, precursor de Francisco, um cristão no Trono de São Pedro.

“Esse Papa era um verdadeiro cristão! Como podia ser isso? ” Exclamou um funcionário do Vaticano, logo após a morte de João XXIII, em 1963. “E como aconteceu que um verdadeiro cristão se sentasse no trono de São Pedro? Ninguém tinha consciência de quem ele era? ”


Em 1958, após a morte de Pio XII, um Papa que se alinhara aos acobertadores das barbáries do nazi fascismo em seu pontificado, Giuseppe Roncali foi eleito Sumo Pontífice.

Bom, a resposta à última pergunta do funcionário, aparentemente, parece ser “Não”! Quando entrou no conclave, Roncali não fazia parte dos papabile. Foi eleito porque os Cardeais não conseguiam chegar a um acordo e estavam convencidos, como ele próprio escreveu, que “seria um papa provisório e transitório”, “sem maiores consequências. ”

Como veríamos, nada disto aconteceu!


Muito de seu pensar e agir chegou até nós através do diário íntimo de Roncali.

“Eis então meu modelo: Jesus Cristo”, mesmo sabendo aos dezoito anos, que ser “semelhante ao bom Jesus” significava ser “tratado como louco”.

“Eles dizem e creem que sou um tolo. Talvez eu seja, mas meu orgulho não me permite pensar assim. Este é o lado engraçado em tudo isso”.

Não é difícil entender a relutância da Igreja, no século passado, em indicar para altos cargos aqueles poucos cuja única ambição era imitar Jesus de Nazaré, tal qual nosso atual Papa Francisco!

No caso de Roncali, esqueceram-se que “ser manso e humilde [...] não é a mesma coisa que ser fraco e complacente”, conforme escreveu já então o Papa João XIII.

Desde o início de seu pontificado no outono de 1958, todo o mundo, e não apenas os católicos, passou a observá-lo pelas razões que ele mesmo enumerou: em primeiro lugar, por ter “aceitado com simplicidade a honra e o encargo”, depois de ter sempre tido “o máximo cuidado [...] em evitar qualquer coisa que pudesse atrair a atenção sobre mim”.

Em segundo, por ter “sido capaz de [...] efetivar imediatamente certas ideias que eram [...] perfeitamente simples, mas com efeitos de longo alcance e plenas de responsabilidade para o futuro”.

Com 21 anos de idade, decidira: “Mesmo que eu fosse papa [...] ainda teria de me apresentar ao juiz divino, e então o que eu valeria? Não muito”.

E no final de sua vida, no Testemunho Espiritual à sua família, podia escrever com confiança que “o Anjo da Morte [...] me levará, como creio, ao paraíso”.


A enorme força dessa fé declarada no diário íntimo, nunca se tornou mais evidente do que nos “escândalos” que inocentemente provocou, e foram muitos!

Por exemplo, ao encarar o serviço militar. Achou-o “vil, imundo e repugnante” ao extremo: “Serei enviado ao inferno com os demônios? Sei o que é a vida num quartel — tremo só de pensar nela”.

Já Papa, a história conta que haviam chegado encanadores para realizarem alguns consertos no Vaticano. O papa ouviu um deles começando a praguejar em nome de toda a Sagrada Família. Ele saiu e perguntou educadamente:

“Você tem de fazer isso? Não pode dizer merda, como nós? ”.


A carreira eclesiástica do futuro Papa principiou em 1925, quando foi indicado como visitador apostólico na Bulgária. Na época, teve conhecimento quase imediato de “muitas provações [...] [que] não são causadas pelos búlgaros, mas pelos órgãos centrais da administração eclesiástica. É uma forma de mortificação e humilhação que não esperava e que me fere profundamente”.

Em 1935, foi transferido para a Delegação Apostólica em Istambul, onde permaneceria por mais dez anos, até receber, em 1944, sua primeira indicação importante como Núncio Apostólico em Paris.

Na Turquia, durante a guerra, entrou em contato com organizações judaicas e, num caso, impediu que o governo turco embarcasse para a Alemanha algumas centenas de crianças judias que haviam escapado à Europa ocupada pelos nazistas.

“Eu não poderia”, escreveu, “eu não deveria ter feito mais, ter feito um esforço mais decidido e ido contra as inclinações da minha natureza? A busca de calma e paz, que considerei estar em maior harmonia com o espírito de Deus, não terá talvez mascarado uma certa falta de vontade em tomar a espada? ”

Em 1941 foi abordado pelo embaixador alemão, Franz von Papen, que lhe pediu que usasse sua influência em Roma para obter um franco apoio do papa à Alemanha. “E o que vou dizer sobre os milhões de judeus que seus conterrâneos estão assassinando na Polônia e na Alemanha? ” Isso foi quando o grande massacre mal começara!

E há, por fim, o relato de que, meses antes de sua morte, ele recebeu para ler a peça “O vigário”, de autoria de Hochhut, que fortemente critica a hipocrisia revestida de religiosidade, assim como a omissão do Vaticano perante a barbárie nazista. Então lhe perguntaram o que se poderia fazer contra ela. Ao que respondeu:

“Fazer contra? O que você pode fazer contra a verdade? ”

Assim, quando protestou contra o fechamento dos jardins do Vaticano durante seus passeios diários e lhe disseram que não era adequado à sua posição expor-se à vista dos mortais comuns, ele perguntou:

“Por que as pessoas não deveriam me ver? Eu não me comporto mal, me comporto? ”

Dirigia-se aos ladrões e assassinos na cadeia como “Filhos e Irmãos”. E quando o conduziram “ao bloco de celas onde estavam confinados os incorrigíveis”, ele ordenou em sua voz mais imperiosa:

“Abram os portões! Não os afastem de mim. São todos filhos de Nosso Senhor”.

O desconcertante hábito do Papa de falar com todas as pessoas lhe trouxe a seu conhecimento como viviam mal os trabalhadores braçais do Vaticano.

“Como vão as coisas? ”, perguntou ele, segundo Alden Hatch, a um dos trabalhadores. “Mal, mal, Vossa Eminência”, disse o homem, e contou quanto ganhava e quantas bocas tinha para alimentar.

“Temos que fazer algo a respeito. Pois, cá entre nós, eu não sou Vossa Eminência, sou o Papa”, com o que queria dizer: esqueça os títulos, aqui o chefe sou eu, posso mudar as coisas.

Quando foi informado de que o aumento dos assalariados só poderiam ser enfrentadas cortando as doações de caridade, manteve-se imperturbável:

“Então teremos de cortá-las. Pois [...] a justiça vem antes da caridade”.


O Papa João sempre demostrou total independência, um verdadeiro desapego às coisas deste mundo, assim como uma magnífica liberdade em relação a preconceitos e convenções.

O editor do Diário de Rocali, o ex-secretário do Papa João, monsenhor Loris Capovilla, menciona em sua “Introdução” o que tanto devia irritar muitos e confundir a maioria: “Sua habitual humildade perante Deus e sua clara consciência de seu próprio valor perante os homens — tão clara a ponto de ser desconcertante”.

Essa completa liberdade em relação a preocupações e aborrecimentos era sua forma de humildade; o que o tornava livre era o poder dizer sem nenhuma reserva mental ou emocional: “Seja feita a vossa vontade”, pois, “O Vigário, de Cristo sabe o que Cristo quer dele”.

Disse a seus amigos que as terríveis novas responsabilidades do pontificado inicialmente o preocuparam imensamente e até lhe provocaram noites de insônia — até que, numa manhã, disse a si mesmo:

“Giovanni, não se leve tão a sério! ”, e desde então sempre dormiu bem.

A sinceridade dessa fé, nunca perturbada pela dúvida, nunca abalada pela experiência, nunca distorcida pelo fanatismo — “o qual, mesmo inocente, é sempre prejudicial” —, é magnífica nos gestos e na palavra viva.

O “Testamento Espiritual para a família Roncalli”, explica aos familiares por que se recusara a lhes outorgar títulos, porque se recusara a elevá-los “de sua pobreza respeitada e satisfeita”: Porque nunca pedira “nada — posição, dinheiro ou favores —, nunca, seja para mim ou para meus parentes e amigos”.

Pois, “nascido pobre, [...] sinto-me particularmente feliz por morrer pobre, tendo distribuído [...] tudo que chegou a minhas mãos — e foi muito pouco — durante os anos de sacerdócio e episcopado”.

Pode-se imaginar o imenso orgulho do menino pobre que, durante toda sua vida, enfatizara que nunca pedira um favor a ninguém e que encontrara consolo no pensamento de que tudo o que recebera fora providenciado por Deus, de forma que sua pobreza para ele se converteu em sinal evidente de sua vocação:

“Sou da mesma família de Cristo — o que mais posso querer? ”


Nunca deixou de ver nos protestantes os “pobres infelizes fora da Igreja” e chegou à convicção de que “todos, batizados ou não, pertencem de direito a Jesus”.

Quando idealizou, um ano antes de sua morte, o Concílio Vaticano II, João XXIII o fez "como um «novo Pentecostes» […]; uma grande experiência espiritual que reconstituiria a Igreja Católica" não apenas como instituição, mas sim "como um movimento evangélico dinâmico […]; e uma conversa aberta entre os bispos de todo o mundo sobre como renovar o Catolicismo como estilo de vida inevitável e vital".

Fruto do Concílio Vaticano II, surgiu “A Teologia da Libertação”, uma corrente teológica cristã nascida na América Latina, que parte da premissa de que o Evangelho exige a opção preferencial pelos pobres e especifica que a teologia, para concretizar essa opção, deve usar também as ciências humanas e sociais.

Sem dúvida, foi a “força da simplicidade audaciosa” que permitiu a João XXIII sua fé de “remover montanhas”.

Foi a mesma fé que inspirou suas palavras grandiosas no leito de morte:

“Todo dia é um bom dia para nascer, todo dia é um bom dia para morrer”.


Referências:

1. Jean Chelini, Jean XXIII, pasteur des hommes de bonne volonté. Paris, 1963; Augustin Pradel, Le “bon pape” Jean.

2. XXIII, Paris, 1963; Leone Algisi, John the twenty-third, trad. do italiano por P. Ryde, Londres, 1963;

3. Loris Capovilla, The heart and kind of John XXIII, his secretary’s intimate recollection, trad. do italiano, Nova York, 1964;

4. Alden Hatch, A man named John, Image Books, 1965.

245 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo