“Primeiro de Maio": quando “o espectro do comunismo voltou a rondar a Europa”.

Atualizado: 2 de mai.

O que diferencia o dia “Primeiro de Maio” de todas as demais datas comemorativas é o fato de ela não haver sido instituída por religião alguma, tão pouco por poderes governamentais, mas sim, por um movimento absolutamente não oficial de homens e mulheres pobres.

Nos dias de hoje, o Primeiro de Maio é oficialmente celebrado em mais cento e vinte países.

O dia, como um evento internacional da classe operária e dos trabalhadores foi instituído em 1890, através de uma convocação da Segunda Internacional Socialdemocrata, a bem da verdade, de sua ala marxista.

Foi ela parcela de uma resolução aprovada em Paris, em junho de 1889, em comemoração ao centenário da Grande Revolução Francesa, e sua principal bandeira de lutas era pelo limite do dia de trabalho em oito horas.

Um importante detalhe. A convocação foi feita para uma única manifestação internacional, “que deveria realizar-se de acordo com as condições de cada país”. Como, posteriormente, escreveu Edouard Vailland, um dos mais importantes delegados da Internacional Socialdemocrata: “Quem poderia ter previsto o rápido e impressionante crescimento do Primeiro de Maio? ”.

Naquele momento histórico, uma questão importante dividia os seguidores de Marx, os socialdemocratas e os anarquistas. Como o primeiro dia de maio de 1890 coincidia com uma quinta feira, necessariamente haveria de ser declarada uma greve e as atividades laborais parariam única forma de viabilizar as atividades previstas. De todo modo, parar as máquinas e manifestar-se consistia numa atitude aberta de desafio político, num gesto de afirmação de classe social em si e para si.

Uma correspondência entre F. Engels e Bebel enfatiza a necessidade de se evitarem conflitos; de que houvesse por parte da liderança “certo controle das manifestações programadas, evitando-se provocações desnecessárias”.

Para enorme surpresa dos organizadores, a convocatória do Primeiro de Maio de 1890 teve uma resposta de massas impressionante, consequência do avanço da força e da confiança que a classe operária experimentava naquele momento histórico.

Na Grã-Bretanha, em decorrência da greve vitoriosa das Docas de 1889 e na Alemanha, onde a vitória dos marxistas e dos socialdemocratas derrotara uma lei antissocial de Bismarck, um sentimento de poder transformador dos proletários, desde que se unissem como classe social, fazia-se sentir.


E novamente, “o espectro do comunismo” voltava a rondar a Europa.

Como resultado, mais de trezentas mil pessoas tomaram o Hyde Park em Londres. Em Berlim, o centro mais reacionário da Europa Central, cinquenta mil operários compareceram à convocatória e em Hamburgo, a “cidade vermelha”, mais de cem mil saíram às ruas. O movimento em Copenhagen teve ao redor de 40% de adesão proletária. Em Viena, nos dizeres de Engels e de Adler ocorrera “a mais impressionante das manifestações”, uma massa superior a duzentas mil pessoas realizou sua caminhada, de forma “organizada e consciente”.

Tendo em vista o sucesso alcançado em 1890, o próximo encontro da Internacional Socialdemocrata, com os votos contrários dos delegados alemães e dos ingleses, endossou a posição política de Engels, de Adler, assim como a dos delegados espanhóis e dos franceses, a favor da repetição da manifestação do dia Primeiro de Maio, em 1891, “especialmente se combinada com a interrupção do trabalho, e não apenas como expressão de opinião”. Disse Adler, em 1893, “Esse é o sentido do feriado de maio, do descanso do trabalho, que nossos inimigos de classe temem. E temem por saberem que isso é revolucionário”.

Foi em fins de 1891, que o Congresso Internacional de Bruxelas instituiu, agora em forma permanente, que todo o dia “Primeiro de Maio deveria ser um dia de reivindicações econômicas e de afirmação da luta de classes”. Acrescentou também uma nova bandeira às econômicas: a luta pela paz, o que fortaleceu sobremaneira o caráter internacionalista do evento!

É importante destacar outra inovação: falava claramente em “comemorar o Primeiro de Maio”, incorporando à data dos proletários, a realização de festividades.

Essa orientação chegou a provocar um início de ruptura política por parte dos anarco-sindicalistas. Para eles, a data deveria ser exclusivamente de lutas, pois encaravam o “Primeiro de Maio” como uma celebração devida aos mártires operários massacrados pela polícia de Chicago, em 1886.

Foi no dia 3 de maio de 1886, que a polícia norte-americana disparou contra um grupo de operários da fábrica McCormick Harvester, que estava em greve há dois dias, matando seis e ferindo mais de cinquenta pessoas. Dezenas de operários foram presos. Dia 4, ao final de uma manifestação de protesto, a polícia novamente atacou: centenas de operários morreram ou baleados, ou pisoteados por animais ou pessoas em fuga.

Não bastasse tão selvagem repressão, os líderes do movimento foram levados a julgamento por conspiração. A sentença condenou à morte na forca os operários Engel, Fischer, Lingg e Spies; outros dois, Fieldem e Schwab, à prisão perpétua; e Neeb, foi condenado a cumprir quinze anos de prisão.

Logo, o “luto” e não a “comemoração” deveria dar o tom.


De qualquer modo, quer assumindo o caráter de luta por objetivos econômicos e sociais, com um aspecto festivo, que foi o predominante na Europa Central; quer tipificando-se como uma manifestação ao estilo “martirológico”, no dizer de Hobsbawm, o que veio a ocorrer em países da América Latina, na Espanha e na Itália, em um dia de todos os anos, homens, mulheres e crianças permaneceram ausentes do trabalho, assumindo-se como classe social.

Normalmente os encontros políticos e as passeatas desenvolviam-se na parte da manhã e a tarde era dedicada à sociabilidade e à diversão entre os iguais. Dessa forma, os “invisíveis” expunham-se publicamente e, por um dia, tomavam para si o espaço oficial dos governantes e da “sociedade”.

Em breve, a luta pela democracia viria a ser incorporada às bandeiras de luta já tradicionais, compondo uma espécie de trio de ferro que permaneceu por decênios: o direito ao sufrágio direto e universal, a jornada de oito horas de trabalho e direitos de proteção ao trabalho.


As iconografias dos primeiros dias do proletariado fortaleceram sobremodo a influência de Marx e do marxismo sobre os movimentos operários. Os cartazes alemães de 1890 traziam a imagem de Karl Marx, falecido há já sete anos, de um lado e a da “Estátua da Liberdade” do outro. Nos cartazes austríacos, que convocaram o segundo Primeiro de Maio, o de 1891, Marx aparece segurando o “Das Kapital”, tendo ao fundo um horizonte em que refulgiam bandeirolas com os ideais de 1789: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

A permanência dessa data Internacional foi um dos motivos pelo qual o marxismo exerceria, sobre os movimentos de homens e mulheres, uma enorme influência. A maioria deles jamais haviam ouvido falar de Marx, de suas teorias, mas reconheceram que sua convocação à luta os tornava conscientes deles próprios, tanto como seres humanos, quanto como classe social.

Na maioria dos países onde os movimentos de massa da classe operária já estavam presentes, o “Primeiro de Maio” tornou-se uma rotina antes mesmo do ano de 1914, ou seja, da Primeira Guerra Mundial.

Outro aspecto a se analisar são os diferentes momentos em que a data ganhou a categoria de ato oficial. A oficialização do Primeiro de Maio como dia e feriado nacional ocorreu em primeiro lugar na União Soviética, logo após a Revolução de Outubro e durante os primeiros anos da Revolução eles foram magníficos, futuristas, empolgando toda uma nação e todos os delegados de muitos países que lá compareciam representando a sua classe social.

Por outro lado, as forças antissocialistas, reconhecendo as profundas raízes que alicerçavam o movimento, tentaram cooptar a festa dos proletários e acanalhá-la, transformando-a em novo instrumento da política de alienação e dominação social.

Não por acaso, Hitler foi o primeiro líder ocidental a oficializá-la na Alemanha. Logo após, o governo fascista de Vichy, sob a liderança de Petain, igualmente tornou oficial o Primeiro de Maio, intitulando-o de “Dia da Concórdia e do Trabalho”. O governo fascista de Franco já havia feito o mesmo na Espanha, logo após sufocar em sangue a República.

Quanto ao Brasil, a chegada dos imigrantes europeus trouxe novas ideias, princípios organizacionais e a perspectiva de direitos trabalhistas já conquistados na Europa. Os operários brasileiros começaram a se organizar, inicialmente, sob a influência dos anarquistas e, posteriormente, dos comunistas. Em 1917 aconteceu a primeira Greve Geral brasileira, que parou boa parte da indústria e do comércio.

A classe operária se fortalecia e, em 1924, o dia Primeiro de Maio foi decretado feriado nacional pelo governo reacionário de Artur Bernardes. Mesmo tendo sido declarado feriado, até o início da Era Vargas, o Primeiro de Maio era considerado um dia de protesto, sempre marcado por greves e manifestações. A propaganda trabalhista de Getúlio Vargas, conjugada à repressão feroz ao sindicalismo independente, não pelego, habilmente passou a escolher a data para anunciar benefícios aos trabalhadores, transformando-a em “Dia do Trabalhador”. Desta forma, o dia não mais era caracterizado por protestos, e sim, comemorado exclusivamente com desfiles e festas populares, comandado pelas autoridades instaladas em seus palanques.


Foi a partir de 1945, com a derrota do nazi-fascismo e, posteriormente, com o advento da Guerra Fria, que em países onde os proletários possuíam organizações mais combativas e identificadas com o socialismo, que o Primeiro de Maio, apesar de mantido oficialmente como feriado nacional, teve as suas manifestações proibidas, com a repressão abatendo-se sobre os trabalhadores que não se submetiam. Já em outros países, onde a consciência de classe era menos desenvolvida, os Primeiros de Maio mantiveram exclusivamente o seu aspecto de festa, de show, ao estilo dos sindicatos americanos agrupados na AFL-CIO, mas essa já é outra história.


Observação – Uma grande exceção constituiu os Estados Unidos da América, onde a Federação Norte-Americana do Trabalho, já envolvida com os interesses empresariais, decidiu não se arriscar convocando uma greve que coincidiria com os massacres de Chicago. Optaram por um domingo, inicialmente o dia quatro de maio de 1890, e posteriormente, pelo segundo domingo de setembro, como o seu Dia do Trabalho, dele retirando o caráter de interrupção do trabalho, assegurando-lhe, exclusivamente, aspectos festivos e de repouso no lar.

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