Rio de Janeiro: A construção da “Cidade Maravilhosa”. Parte I

1889 a 1906. Rio, bela cidade, mas muito perigosa.

O Rio de Janeiro possuía a beleza natural que todo o mundo admirava, mas de longe, dos conveses dos navios onde se comprimiam os europeus que a admiravam de passagem para uma terra segura como Buenos Aires ou Montevidéu. No conceito internacional, o Rio era uma cidade bela, mas maldita. “Só mesmo uma cidade assim, bonita e envolvente como uma mulher apaixonada, é que tem o direito de nos fazer sofrer como estamos sofrendo… Sem isso, já teríamos desertado.” (B. Costallat- 1903).

Os corajosos viajantes que ousavam desembarcar no cais, ao atravessarem a Praça 15 de Novembro, caminhavam por um tapete formado por restos de frutas e detritos. Deparavam-se com catraieiros, marujos, carregadores, soldados, todos ávidos por gorjetas ou subornos. Mendigos e vagabundos com eles sombreiam em busca de carteiras ou equipagens desguarnecidas. A tônica era a miséria e a sujeira.

Corpo e alma da jovem República brasileira, a beleza natural do Rio de Janeiro convivia com ruas estreitas, sujas, becos onde se amontoam toneladas de lixo. Em suas praças mais amplas inexistiam árvores. O sol abrasador refletia-se nos pavimentos de suas ruas e calçadas irregulares, esburacadas.

Ruas repletas de vendedores nas carroças, no lombo dos animais, nas costas, nos braços; homens, mulheres e crianças, antigos escravos, imigrantes, trazendo suas mercadorias. O leiteiro conduzindo uma vaca e atrás da mesma o bezerro faminto, o vendedor de galinhas, o cesteiro, o ceboleiro, o paneleiro, o verdureiro. Um oferece mocotó, outro, doces, outro, miudezas. A cidade do Rio era uma imensa feira.

Para matar a sede e a fome das pessoas surgem os quiosques em plenas calçadas, mais baratos de se tomar um trago que os bares e botequins. Não pagam impostos e subornam os fiscais. “Cada quiosque mostra, em torno, um tapete de terra úmida, um círculo de lama. Tudo aquilo é saliva. Antes do trago, o pé-rapado cospe. Depois, vira nas goelas o copázio e suspira. Nova cusparada, e da boa!” (Luiz Edmundo)

“A cidade é um monstro onde as epidemias se albergam dançando ‘sabats’ magníficos, uma aldeia melancólica de prédios velhos e acaçapados, a descascar pelos rebocos, vielas sórdidas cheirando mal, exceção feita à Rua do Ouvidor, onde o “burro sem rabo” ( o carregador), cruza com o elegante que veste sobrecasaca preta de lã e se diluiu em cachoeiras de suor… O povo está sem instrução, a indústria é desprotegida e os serviços públicos são feito de molas emperradas. Só o comércio progride, onde o “honrado comendador” vende seu quilo de 800 gramas e o metro de 85 centímetros.”

As casas de tijolo e alvenaria são escassas e caras, o que obriga boa parte da população a viver nos cortiços ou em favelas. Dos dois, o pior lugar são as favelas, carentes de água e esgoto, barracos toscos construídos nos morros ou em terrenos íngremes. Nelas predominam os negros, muitos deles mutilados da Guerra do Paraguai.

Os cortiços possuem condições um pouco melhores que as favelas. São galpões ou casarões antigos e decadentes subdivididos por tabiques de madeira e alugados por estreitos e úmidos cômodos. Seus donos, muitas vezes, são até mesmo aristocratas. Por exemplo, o maior cortiço do Rio antes de 1889 era o “Cabeça de Porco” de propriedade do Conde D’Eu, marido da Princesa Isabel, e nele residiam mais de quatro mil pessoas pagadores de alugueres.

“Ao cair da noite, o hábito de tatuar o corpo faz com que soldados, policiais, marinheiros, malandros e prostitutas subam a ladeira do Castelo e incrustem em si imagens de mulheres, o nome de amados ou símbolos de valentia. No beco dos Ferreiros, o chinês Afonso, mantinha à margem da lei e mediante suborno, sua casa de ópio para os que desejassem sonhar”.

A rainha da noite é a boemia, a farra e a prostituição. Enquanto os ricos frequentam as “pensions d’artistes”, prostíbulos de luxo pelos lados do Botafogo, Jardim Botânico e Catete,  os pobres se divertem pelos botequins e pelas ruas da Alfândega e do Arsenal, onde moças enfileiradas esperam um cliente.

Ja a nata da sociedade carioca, ricos fazendeiros e aristocratas, vivia em luxuosas mansões pelos lados das Laranjeiras e de São Clemente; mais ou menos próximo ao centro e nos subúrbios, uma classe média nascente, composta por funcionários públicos, médicos, tenentes, pequenos negociantes, começa a construir casas simples em novos bairros que se  formam, tal qual o Estácio.

O Rio de Janeiro, a Capital do Brasil, era, nos primeiros anos do século XX, uma cidade tremendamente insalubre, fétida e perigosa para quem ousasse desfrutar de suas belezas naturais.

Tudo indica que a febre amarela chegou ao Rio a bordo de um cargueiro americano e aqui se estabeleceu. O porto, repleto de vigamentos podres prolongava-se sobre terrenos alagadiços, o que aliado às péssimas condições de higiene, permitia que o mosquito transmissor da doença se multiplicasse à vontade. A febre era endêmica na população.

Enquanto a febre amarela e o cólera eram muito mais intensos no verão, com a chegada do inverno os surtos de varíola se sucediam. De permeio, a multiplicação dos ratos em toda a imundície era assustadora e os surtos de peste bubônica tornavam-se rotineiros.

A sífilis e a tuberculose eram endêmicas, acometendo ricos e pobres, apenas que a estes últimos matava mais rapidamente.

Em 1901, o Rio de Janeiro contava com uma população de 700.000 habitantes. As mortes causadas por doenças infectocontagiosas neste ano alcançaram um total de 7.123 casos, mais que 1% da população.

As pessoas de posse abandonavam a cidade quando o verão se fazia sentir. Famílias inteiras tomavam as barcas no cais de Pharoux e atravessavam a baía até Niterói. Os mais ricos, entretanto, optavam pela balsa de Mauá e pegavam o trem para Petrópolis. Tanto no Império quanto na República, os mandatários subiam a Serra da Estrela e deixavam o Rio entregue aos ratos, pulgas e mosquitos.

Para atrair imigrantes, turistas, interesse estrangeiro era necessário que a Capital Federal fosse repaginada, modernizada e sanitizada.

Rodrigues Alves elegeu-se Presidente da República exclusivamente com esta plataforma de governo. Eleito, buscou duas pessoas com absoluta capacidade técnica e de trabalho, determinação de Fausto e espírito de Mefistófeles, ditadores à sua maneira: o prefeito nomeado Pereira Passos e o pesquisador do Instituto Pasteur na França, o brasileiro Oswaldo Cruz, filho de São Luís do Paraitinga.

Em não mais que cinco anos de muita luta, resistência e pertinácia, toda a História do Rio de Janeiro seria reescrita e ela se tornaria, a partir da Exposição Nacional de 1908, a “Cidade Maravilhosa”, celebrada em todo mundo!

Mas essa é outra história para daqui a pouco.

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