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Sade, Saló e Pasolini

O Marquês de Sade é aquele que se revolta contra o mundo e ao mesmo tempo contra si mesmo. Num homem condenado a viver mais de vinte e seis anos atrás das grades, estas duas revoltas absolutamente não chegam a ser contraditórias. Negando o homem e sua moral, Sade o fará em nome do mais forte dos instintos: o sexual!

Para Sade, a própria natureza é sexo, que na sua lógica o conduz a um mundo sem lei, onde o único senhor será a energia desmedida do desejo. O sexo, por um lado expressão da natureza, por outro, ímpeto cego que exige a posse total dos seres, mesmo ao preço de sua destruição. A liberdade que Sade reclama não é a dos princípios, mas aquela dos instintos.

Sade, que só conheceu a lógica dos sentimentos, tratou de criar o sonho monstruoso de um perseguido. Uma sede extremada de uma vida proibida, somente aplacada de furor em furor, até transformar-se em um sonho de destruição universal.

Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade, nasceu um aristocrata. Foi perseguido pela monarquia (o Antigo Regime) e mesmo tendo sido um correligionário dos revolucionários vitoriosos de 1789, foi por eles encarcerado. Posteriormente, o Imperador Napoleão repetiu a rotina de enjaulamentos consecutivos.

Sade é um marco que só extrai da revolta o não absoluto. Os vinte e seis anos de prisão não lhe permitem possuir nenhuma atitude conciliadora para com os homens. Toda ética da solidão implica exercício de poder e o Marquês de Sade foi tratado de maneira atroz, tendo reagido de modo igualmente atroz. A liberdade, enquanto sonho de um prisioneiro, não pode suportar limites; a liberdade passa pelo crime ou não é mais liberdade. A liberdade ilimitada do desejo significa a supressão da piedade e do outro.

Apesar de haver sido escritor e dramaturgo e basear-se no materialismo do século das luzes e dos enciclopedistas, de modo algum ele chega a ser um amigo da raça humana. Odeia tudo o que se aproxime da filantropia. Quando nos fala em igualdade é sobre a abjeta igualdade das vítimas, pois a convivência entre os seres humanos não tem o bem-estar como objetivo, mas sim, a libertinagem.

Matar um homem no paroxismo de uma paixão é compreensível. Mandar que outra pessoa o faça, a pretexto de qualquer dever honroso, é incompreensível. Para ele quem mata deve pagar com a vida. O manuscrito “Cento e Vinte dias de Sodoma”, devolve à cela o aristocrata correligionário da revolução francesa, um aliado altamente comprometedor.

“Saint-Fond” é seu personagem mais cruel; a inocente Justine deflorada, mil vezes estuprada, corre em fuga sob a tempestade e é esmagada por um raio. A ideia que Sade possui de Deus é de uma divindade criminosa, que esmaga o homem e o nega. Nesse sentido, por que o homem seria virtuoso? “Virtude e vício, tudo se confunde no caixão”.

A República Universal foi para Sade um sonho, nunca uma tentação. Em política, sua verdadeira posição é cínica. No livro “Sociedade dos Amigos do Crime” ele se declara a favor do governo e de suas leis, enquanto se dispõe a violá-las. A licença para destruir pressupõe que se possa ser destruído.  Logo será preciso lutar e dominar. “A lei deste mundo nada mais é que a lei da força e sua força motriz, a vontade de poder”!

Sade compõe o grupo de seus heróis entre aqueles que o acaso do nascimento nomeou aristocratas, mas neste grupo admite o oprimido quando ele se insurge e coloca-se ao lado dos fidalgos libertinos. Traduz-nos Camus que “Sade produz uma espécie de blanquismo moral, em que uma pequena casta de homens e mulheres coloca-se acima de uma casta de escravos”.

Como a lei da força jamais tem paciência para esperar o império do mundo, ela precisa delimitar sem delongas o seu território, mesmo que seja necessário cercá-lo de arames farpados e torres de observação. No caso de Sade ele cria castelos de onde se é impossível escapar e lá a sociedade do crime e do desejo funcionam de modo implacável.

A emancipação do homem para Sade se realiza na incorporação a uma burocracia do vício, que regulamenta a vida e a morte dos homens e mulheres que entraram para o reino da necessidade: “Vocês já estão mortos para o mundo”. Na República de Sade tudo são máquinas e mecânicos, sua dinâmica ele as copia dos conventos, mas no seu contrário: “tudo o que representar uma conduta pura será culpado.”

O gozo transforma-se em desespero, uma corrida da servidão para a servidão, da prisão para a prisão. De destruição em destruição, só resta o aniquilamento universal. Mas quando os outros são aniquilados, os carrascos se veem um diante do outro no castelo solitário. “O assassinato só tira dos que matamos a primeira vida”… “eu abomino a natureza, gostaria de parar os astros, destruir o que lhes serve, salvar o que é nocivo, mas não consigo”. Os senhores irão se destruir; ele mesmo, Sade, aceitará sua aniquilação pessoal. “Dos senhores só restará um, o Único, em meio à total destruição”.

Mas Sade não matou ninguém, isto só se passou na imaginação e ele morreu atado numa camisa de força, pesando mais que cento e vinte quilos,  em meio aos excrementos de um hospício. Acompanharam-no na última senda sua segunda mulher e uma amante de quatorze anos.

Por isso mesmo Sade foi o homem de letras perfeito, aquele que construiu uma ficção para dar a si mesmo a ilusão de existir. Colocou acima de tudo “o crime moral que se comete por escrito”. E evidenciou as consequências extremas de uma lógica revoltada, pelo menos quando ela se esquece de suas verdadeiras origens. E estas são as totalidades fechadas, o crime universal, a aristocracia do cinismo e a vontade do apocalipse.

O sucesso de Sade se explica em nosso tempo: a reivindicação da liberdade total e a desumanização friamente executada pela inteligência. A redução do homem a um objeto de experimento, os regulamentos que determinam as relações entre a vontade de poder e o homem objeto, o campo fechado que os teóricos do poder se lembrarão na hora de organizar a era dos escravos.

Sade exaltou, com dois séculos de antecedência, as sociedades totalitárias em nome da liberdade frenética que a revolta, na verdade, não exige.

“120 dias de Sodoma” foi escrita por Sade no espaço de trinta e sete dias em 1785, preso na Bastilha. Tendo pouco material e temendo que o livro fosse confiscado, ele o escreveu numa letra minúscula e um rolo contínuo de papel com doze metros de comprimento. Quando a Bastilha foi atacada e saqueada em 14 de Julho de 1789, durante o início da Revolução Francesa, Sade pensou que o trabalho estaria perdido para sempre e chegou a escrever que “chorou lágrimas de sangue” por sua perda.

Porém, o longo rolo de papel onde o texto estava foi posteriormente encontrado escondido em sua cela, tendo escapado da atenção dos saqueadores e do fogo. Depois foi vendido ao marquês de Villeneuve-Trans, cuja família o conservou durante três gerações.

No final do século XIX foi vendido a um psiquiatra de Berlim, Iwan Bloch, que publicou em 1904 uma versão própria. Em 1929, Charles e Marie-Laure de Noailles, ela descendente do Marquês de Sade pelo lado materno, adquirem o manuscrito e publicam-no numa edição limitada aos “bibliófilos subscritores” para evitar a censura.

Somente na segunda metade do século XX é que o texto se tornou disponível em edições em inglês e francês.

O livro de Sade inspirou “Saló” ou “Os 120 dias de Sodoma”na fantástica versão cinematográfica de 1975, dirigida por Pasolini, adaptada para o outono europeu de 1944, na Itália fascista de Mussolini. A obra, tida como uma das mais perturbadoras da história do cinema, é dividida em três fases chamadas ‘círculos’, que são o das Manias, em que os fascistas satisfazem seus desejos sexuais; o das Fezes, repleto de escatologia, em que os jovens são obrigados a ingerir fezes; e do Sangue, em que os prisioneiros desobedientes são punidos através de mutilações, torturas e assassinatos.

Nós, homens dos séculos XX e XXI, ainda temos o direito de nos surpreender com o cinismo e a maldade metafísica de Sade?

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